CAPÍTULO III – ALIMENTAÇÃO, MEIO AMBIENTE E
3.3. Meio-ambiente e sustentabilidade
Na Conferência das Nações Unidas sobre as mudanças climáticas, realizada em Cope- nhague, Dinamarca, entre os dias 7 e 18 de dezembro de 2009, se ratificou a premonição das academias sobre a validez nenhuma do pós-Quioto e nada se comemorou quanto a novos me- canismos de contenção nas políticas do meio-ambiente, quando muito, os embates foram tra- vados em favor de se apagar o mecanismo de desenvolvimento limpo da realidade internacio- nal, porque as nações enriquecidas demonstraram não desejar abrir mão de suas conquistas desenvolvimentistas seculares. Sobre essa conferência, as palavras de VEIGA93 expressam bem o evento: “nada de rigorosamente sério esteve realmente em jogo nessa malfadada 15ª cúpula.”
De maneira que a bandeira da proteção ambiental e a sustentabilidade pós Rio-92, vi- sando mitigar a produção crescente de gases de efeito poluentes do estilo fordista, o qual em- bora nocauteado a partir das ideias propagadas com a Convenção de Estocolmo, Suécia, reali- zada no ano de 1972, não está varrido por completo do mapa mundial, porquanto ressoa um tanto quanto ilusório crer que o Protocolo de Quioto seja a panaceia salvacionista. Da mesma forma, não parece fácil a crença no consenso, na factibilidade de boa aceitação entre as nações mais ricas, pouco afetas à noção de dividendos de recursos, seja quanto ao aspecto das divisas financeiras, da diminuição de consumo ou do decréscimo da industrialização e de seu aliado
93VEIGA, José Eli da. Pouco importa o fiasco de Copenhague. Matéria disponível no site:
CO². Alguns pesquisadores brasileiros já demonstram esse panorama, como SOARES94, que assim se posicionou:
De tudo que ocorreu até agora nas Conferências das Partes não dá para esperar que os mecanismos do Protocolo de Quioto sejam capazes de resolverem, sozi- nhos, essa questão. Urge que se tomem medidas realmente capazes de estabilizar as concentrações de GEE. Conclui-se que o Brasil precisa por de lado a discussão dos mecanismos criados pelo Protocolo de Quioto e exigir o cumprimento das obrigações instituídas pela Convenção (Art. 4), pois a mudança do clima não es- pera o fim das discussões, nem deixa de acontecer. O negócio do carbono é adicio- nal às obrigações das partes, enquanto a mudança do clima é contínua e a cada dia vem mostrando mais resultados. É inadmissível continuar ignorando as evi- dências do aquecimento global, noticiadas e comprovadas por cientistas e organis- mos no mundo inteiro.
Esse aspecto ambiental é importante, porque deixa entrever a negligência das nações quanto à ausência de ações positivas de justiça, defendidas por RAWLS95, cujo fundamento teórico pode ser aplicado no prisma da segurança alimentar, ao afirmar que “o objeto primá- rio da justiça é a estrutura básica da sociedade, ou mais exatamente, a maneira pela qual as instituições sociais mais importantes distribuem direitos e deveres fundamentais e determi- nam a divisão de vantagens provenientes da cooperação social”.
Assim sendo, pode-se afirmar que de algum modo, uma coisa se entrelaça à outra, pois terra saudável e fértil resulta em boa produção de grãos, em carta de sobrevivência para as ge- rações futuras. Dessa maneira, os embates internacionais estão na berlinda, pois ninguém abre mão do desenvolvimento, e o mundo – incluindo-se o Brasil, firmemente, no campo de suas políticas externas - permanece se inter-relacionando apenas no campo das intenções ou do dis- curso, deixando de adotar políticas e ações práticas correspondentes. Sobre o desenvolvimen- to em apreço, SANTOS FILHO96 nos remete ao seguinte contexto:
94SOARES et al. A convenção do clima e a legislação brasileira pertinente, com ênfase para a legislação
ambiental no Amazonas. Artigo disponível em: <http://acta.inpa.gov.br/fasciculos/36-4/PDF/v36n4a21.pdf>.
Acesso em 10 jun.2010, às 22h30min.
95RAWLS, Jonh. Op. cit., p. 7 e 8.
96SANTOS FILHO, Onofre dos. O fogo de Prometeu nas mãos de Midas: desenvolvimento e mudança social. In
As grandes questões suscitadas por nova maneira de pensar a geração de prospe- ridade em determinada sociedade vão além da simples consideração da falência ou não da ideia de desenvolvimento nos termos propostos após a Segunda Grande Guerra. Elas continuam a dizer respeito à antiga questão na Ciências Sociais de como se é possível pensar a mudança social. Não qualquer tipo de mudança, mas como induzi-la no interior de determinada estrutura social, de forma que o seu re- sultado seja o incremento de um ordenamento pensado nos termos da modernidade ocidental.
Dessa maneira, os embates internacionais e domésticos devem superar a simples ideia de desenvolvimentismo e no campo das intenções ou do discurso, adotar políticas e ações práticas correspondentes rumo à verdadeira mudança social que inclua a cooperação mútua e o respeito às diferenças, pois como ressalvado por RAWLS97, “propor políticas que reduzem os talentos dos outros, não traz vantagens para os menos favorecidos”.
Por outro lado, não é de todo impensável a noção de utopia prevalecente, pois se o pla- neta, por causa antrópica é suscetível à destruição – plausível, academicamente – e se prevale- ce a inércia em relação aos perigos que rondam a própria espécie, então, resta a ilação de que os governos e povos tidos como desenvolvidos e em desenvolvimento, realmente, parecem não nutrir grau de preocupação com a catastrófica crise de fome.
Enquanto isso, o governo acena pelo aumento na produção do chamado biocombustí- vel98, com metas de inserir vinte e cinco por cento de biodiesel em cada litro do diesel consu- mido no país.
Essas ações paradoxais foram examinadas por BARROS-PLATIAU99, no trabalho “A política externa ambiental – do desenvolvimentismo ao desenvolvimento sustentável”, onde afirmou que “Mesmo que o Brasil tenha adotado um discurso internacional e nacional calca- do no desenvolvimento sustentável, as práticas domésticas frequentemente contradizem esse princípio [...] pela falta de uma política nacional clara e coerente.”
97RAWLS, Jonh. Op. cit., p. 103 e 104).
98Matriz energética brasileira vai ficar mais 'verde', disponível em:
<http://www.casacivil.gov.br/casa_civil/noticias/ultimas-noticias/2009/12/matriz-energetica-brasileira-vai-ficar- mais-2018verde2019>. Acesso em 08 jan.2009.
99BARROS-PLATIAU, Ana Flávia. A política externa ambiental: do desenvolvimentismo ao desenvolvimento
Para confirmar tal assertiva, a autora100 lembra que “entre 1990 e 2004, a Política Ex- terna Brasileira teve como um de seus eixos o desenvolvimento sustentável e a defesa de grandes princípios [...] como a soberania e as responsabilidades comuns, porém diferencia- das”. Mais adiante, afirma BARROS-PLATIAU101: “O Brasil […] tem privilegiado a erradi- cação da pobreza, o acesso a mercados internacionais, a responsabilidade histórica dos paí- ses desenvolvidos...”
Desse modo, o Brasil adota um discurso exacerbado nas relações internacionais, po- rém sem coesão com aquelas ações adotadas internamente, situação esta que encena bem a te- atral política doméstica brasileira que possui o hábito de se imergir em promessas dantescas nos períodos pré-eleitorais e decorrendo-se a posse nos cargos de eleição, tem apresentado pouco ou nenhum resultado equivalente que revele um cumprimento de metas.
Mas isto não parece ser uma técnica originariamente brasileira no tabuleiro internacio- nal, pois os EUA, ao tempo da Convenção Quadro - como bem lembrado por LAMBERT102, em tirada acadêmica - “aderiram ao Tratado e bateram palmas para a preocupação mundial, mas internamente era o maior pólo de polução planetária.”
Ainda de acordo com o referido Professor103, “tempos depois, com a Conferência de Quioto, ocasião em que se fixaram metas de redução e o Mecanismo de Desenvolvimento Limpo, o governo norte-americano, visualizando perdas econômicas se atingisse patamares mínimos de redução a se contabilizar entre 2008 e 2012, deixou de assinar o referido Proto- colo de intenções”.
Portanto, pelo que parece, o povo norte-americano está acometido pelo véu da igno- rância e além do mais imersos numa política de negação do direito ambiental. Aliás, quanto ao direito à alimentação, conforme se verá adiante, a violação negativa não se modifica, pois pre- fere aquele povo se alimentar de maneira exagerada, enquanto em outros confins, a morte cei- fa a vida de milhares de pessoas em virtude da fome.
100 BARROS-PLATIAU, Op. cit., p. 253. 101 BARROS-PLATIAU, Op. cit., p. 276.
102LAMBERT, Jean-Marie, professor do curso de Mestrado em Direito, Relações Internacionais e
Desenvolvimento da PUCGOIÁS. A inferência decorre de conclusões expositivas em sala de aula no dia 04/05/2009, às 15h30min.