Capítulo 1 Fundo Monetário Internacional
1.6. A Nova Ordem Económica e Política Mundial
1.6.4. Meios e formas de afirmação do Neoliberalismo
Se os partidos mais conservadores começaram a ser importantes para implementação de políticas neoliberais, antes de tudo teve de haver uma estratégia de propagação ideológica. Como sabemos, inicialmente os neoliberais tiveram muita dificuldade em difundir as suas teorias através dos grandes colóquios. Mas houve um meio mais eficaz na conquista de adeptos do neoliberalismo: a comunicação social. Este meio ao longo da década de 60 foi-se tornando cada vez mais subordinado aos interesses financeiros. Exemplo disso foi o Financial Times, um dos mais acérrimos difusores da teoria neoliberal, defendendo que a liberdade e os direitos estavam cada vez mais asfixiados perante a burocracia estatal.175 Foi com a captura de partidos conservadores e dos meios de comunicação, aliada à conversão de muitos intelectuais que se foi originando um clima bastante favorável à propagação neoliberal e à defesa da liberdade individual.
Assim se consolidou o neoliberalismo na Grã-Bretanha levando Margaret Thatcher à vitória em 1979, com o compromisso de uma verdadeira reforma na
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HARVEY, David – Breve Historia del Neoliberalismo. Madrid: Akal, 2007, 29-34.
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Ibidem, p. 34.
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economia. Ela aceitou de imediato abandonar o keynesianismo implementando medidas que pressupunham uma verdadeira revolução na política fiscal e social. Desta forma, Margaret Thatcher predispôs-se a enfrentar o poder dos sindicatos: desmantelou todos os compromissos protegidos pelo Estado Social, privatizou empresas públicas, reduziu impostos, incentivou a iniciativa empresarial para criar um bom clima para os negócios e induziu o investimento estrangeiro. A Maggie, como também era conhecida, levou a que todas as formas de solidariedade fossem dissolvidas a favor do individualismo e da propriedade privada.
Como verificámos em exemplos anteriores a revolução neoliberal consumou-se através dos meios democráticos (Inglaterra e Estados Unidos) e autoritários (Chile). Primeiramente, para que tal fosse possível, foi necessária uma prévia construção da narrativa política num espectro amplo da população, para ganhar eleições. Autoritariamente a revolução neoliberal foi apoiada por um grupo social economicamente poderoso e tradicional, seguindo-se uma repressão sobre todas as formas de solidariedade instauradas no seio da força de trabalho e nos movimentos sociais.176
Para vencer a crise da década de 70, a austeridade de Hayek sobrepôs-se à expansão de Keynes. Este defendia a fixação das taxas de juro num nível baixo como uma das possíveis medidas para combater a crise. Dessa forma facilitar-se-ia o acesso dos empresários a empréstimos para aumentarem o volume de dinheiro para investimentos. O aumento da despesa do Estado para pagar as dívidas durante um período de recessão seria outra das soluções. Uma das determinantes da crise poderia ser o aumento da poupança por parte das famílias de maiores rendimentos. Por isso, John Keynes defendia uma maior redistribuição desses proveitos pelos mais pobres apesar de acreditar que esta medida nunca ajudaria verdadeiramente este estrato social, porque seria sempre maioritário.177 Por conseguinte, o autor defendia que a poupança podia ser uma das causas da crise, aliás, muitos keynesianos apontaram que o crescente número da poupança ao longo da década de 60 foi uma das causas da crise dos anos 70.
Para Hayek, um modelo de expansão económica e de intervenção do Estado, sob um programa de obras públicas, travaria o investimento privado, distorceria a lógica competitiva do mercado e, sob o ponto de vista neoliberal, seria uma forma de interferir
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HARVEY, David – Breve Historia del Neoliberalismo. Madrid: Akal, 2007, p. 45.
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SCHUI, Florian – Austeridade: Breve História de um Grande Erro. Lisboa: Editorial Presença, 2015, p. 91-95.
e atacar a liberdade individual. O autor deu o exemplo dos anos de Weimar para sustentar a sua opinião. Chegou a pensar que a intervenção do Estado através das obras públicas e do aumento do défice do Estado estimularia o crescimento económico e reduziria o desemprego. Mas, para Hayek estes resultados seriam obtidos numa perspetiva de curto prazo e tornar-se-iam ineficazes a longo prazo. Para este autor austríaco, a crescente liquidez defendida por Keynes, só criaria um efeito de inflação distorcendo os preços e desincentivando a poupança privada. Os objetivos políticos primordiais de Hayek estabeleciam-se em orçamentos equilibrados e numa inflação reduzida. A vantagem de deixar a economia entregue ao mercado livre, para Hayek e os seus descendentes neoliberais, prendia-se com resultados a longo prazo. Segundo estes autores, as crises e os períodos de desequilíbrio adaptam-se melhor numa evolução de longo prazo.178
Outro argumento que os neoliberais usavam contra o crescente poder do Estado seria o constante sentimento de segurança que levava homens e mulheres a deixarem-se atender aos seus próprios recursos e criatividade o que os conduziria a tornarem-se mais fracos e ociosos.179
Hayek demorou a conquistar a opinião pública dominante, as academias e outros círculos da economia internacional. O seu reconhecimento veio com o prémio Nobel de 1974 e após esta distinção as suas teorias ganharam mais credibilidade em diversos países. Os fracos desempenhos económicos das suas medidas não colocaram em causa o neoliberalismo onde o sofrimento era o preço a pagar pela liberdade.180
Depois da metamorfose económica e ideológica do Fundo Monetário Internacional, muitos dos princípios de Hayek passaram a estar estabelecidos nos seus “programas de ajustamento”: política monetária rígida com taxas de juro elevadas, equilíbrio orçamental e diminuição do tamanho do Estado, redução na despesa da segurança social e tentativa de limitar a influência dos sindicatos no mercado de trabalho.181 Toda esta cartilha e teoria neoliberal passaram a ser defendidas como se de uma fé se tratasse. Margaret Thatcher foi a voz bem audível desse sentimento de que a austeridade e o neoliberalismo eram a única saída para uma crise que se tinha instalado
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SCHUI, Florian – Austeridade: Breve História de um Grande Erro. Lisboa: Editorial Presença, 2015, p. 95-117. 179 Ibidem, p. 118. 180 Ibidem, p. 129. 181 Ibidem, p. 120.
durante a década de 70182: Esta é a minha fé. Isto é aquilo em que acredito com paixão.
Se também acreditais, então vinde comigo183.
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SCHUI, Florian – Austeridade: Breve História de um Grande Erro. Lisboa: Editorial Presença, 2015, p.129.
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