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8 ESTUDO 1 Um estudo social da ruralidade: Conhecendo as vilas rurais de

4.7 Meios usuais de informação e locais de sociabilidade

Nesse tópico, destacaremos os principais espaços de encontro e de divulgação de informações utilizados pelos moradores das vilas rurais em análise. Iniciamos a

discussão com a questão da fofoca, aspecto constantemente relatado pelos moradores como um problema comum em comunidades rurais e também em cidades pequenas. Assim, embora a fofoca seja alvo das reclamações da população por defender um formato rígido e tradicional de comportamentos sociais e também pela sua face preconceituosa e estereotipada, percebemos que é por meio dela que as pessoas se orientam quanto ao que está acontecendo na comunidade, mostrando ser um eficiente mecanismo de comunicação (Fonseca, 2000; Trindade, 2005).

A própria coleta de informações para o censo que integrou uma das etapas da pesquisa, se tornou uma notícia propagada pela fofoca, de forma que após ter iniciado as visitas, as famílias seguintes já sabiam, mais ou menos, do que se tratava, pois já tinham “ouvido falar” (Bonomo & Souza, 2010; Silva, 2000). Entretanto, ainda que exerça essa função comunicativa, a fofoca não deixa de ter um forte caráter regulador. Uma vez que possui a função de reforçar a vigilância para que a norma social construída ao longo dos anos pelos grupos sociais não seja ferida e as pessoas não se desviem do que é considerado certo, ela se tornou também um importante veículo de transmissão de valores de uma geração para outra. Nesse sentido, várias são as formas de manifestação e conteúdos. Uma das observadas e contadas acima foi a ridicularização do desvio que se torna objeto de hilaridade, quando se referiu à ocupação de um dos jovens da Vila Domingos (aquele que não tem emprego é alvo de chacotas por “não fazer nada”). Segundo Fonseca (2000) a ridicularização do desvio “pode contribuir para fortalecer a norma vigente” (p.156). Por outro lado, a autora aponta que dependendo da circunstância e do grupo a análise pode se dar em outra direção “(...) a inversão cômica e festiva, ‘por meio de suas conexões com as circunstâncias da vida cotidiana, fora do tempo do carnaval e do palco’ pode minar tanto quanto reforçar a autoridade convencional” (Fonseca, 2000, op. cit.).

Outras formas tradicionais de comunicação amplamente utilizadas são o recado transmitido verbalmente, os avisos dados na escola da comunidade e nos cultos e missas na Igreja e os cartazes. Esses últimos são normalmente anexados na escola, no centro de saúde, no salão de beleza, nos bares e no mercado (com autorização prévia dos responsáveis de cada local). Embora a população tenha

acesso aos meios e serviços de telecomunicação, o uso do telefone é pouco frequente visto que o funcionamento é precário e não se constitui como um instrumento efetivo. Por outro lado, as notícias das cidades vizinhas e de grandes centros urbanos chegam normalmente pela televisão (TV) ou jornal impresso. A prática de assistir TV faz parte da rotina dos moradores e a preferência é, nesta ordem, por programas religiosos, novelas e noticiários (Brandemburg, 2010; Gonçalves, 2005).

O rádio, outra fonte de informação, muitas vezes serve de companhia para os moradores que vivem ou ficam sozinhos durante o dia. Enquanto cuidam dos serviços domésticos, ouvem músicas, notícias e propagandas. O tipo de música mais ouvido nas três vilas rurais é o sertanejo. No entanto, algumas escolhas musicais aparecem como específicas de cada região, podendo estar associadas ao perfil etário de cada uma delas. No Mato Dentro e Caeté o gosto musical é muito semelhante e, além do sertanejo, eles têm preferência pelas músicas de raiz e o forró. Já na Vila Domingos, comunidade de perfil mais jovem, a escolha é pelo funk, rap e hip hop.

Os espaços de divulgação da informação são também os espaços de socialização dos moradores das vilas. A Igreja católica, e especificamente o lado de fora ou adro20, representa um importante ponto de encontro após os cultos e as missas e é também o local onde são realizadas as festas religiosas e os leilões. A Igreja e o salão anexo a ela funcionam também como espaço de encontro para a realização de reuniões sejam elas de cunho religioso ou não. A escola, a venda, os bares e o salão, também são pontos importantes de encontro. Na escola do Mato Dentro, por exemplo, as mães que levam seus filhos para a aula, muitas vezes por morarem longe, permanecem do lado de fora da escola, esperando os filhos para voltarem para suas casas. Enquanto esperam, conversam e interagem.

O futebol e o truco à noite para os homens e a reza do terço para as mulheres, são outros desses espaços. Além desses, os moradores possuem o hábito de visitar os parentes e amigos, forma importante de manutenção das relações de intimidade entre eles. As festas, onde todos se encontram, também desempenham essa função de socialização. A Vila Domingos, particularmente, tem seu próprio espaço de

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Adro é o nome dado à área externa, coberta ou não, e normalmente cercada no entorno das Igrejas católicas.

sociabilidade que são os banquinhos à beira da estrada e a própria estrada em frente às suas casas. É nesse espaço que os jovens se encontram, paqueram, os meninos jogam bola, as meninas conversam e há interação entre eles.

Através dessas descrições, nota-se a presença de uma forte ligação entre as comunidades, sendo poucos os espaços restritos a uma só vila. Exceto pela estrada, que faz parte especificamente do contexto dos jovens da Vila Domingos, os outros espaços são compartilhados pela população das três vilas. Sendo assim, a divisão que emerge nesses espaços não é mais a territorial, mas de gênero e etária/geracional, uma vez que alguns espaços de sociabilidade se caracterizam como predominantemente masculinos (truco, bares, futebol), outros predominantemente femininos (as faxinas na Igreja católica, a reza do terço, as novenas, as visitas às casas de idosos e doentes para levar a comunhão) e a maioria para ambos (festas no geral, forrós, reuniões da Igreja católica e do coral, cultos, missas, reuniões da associação, dentre outros).

O fato dos bares serem um espaço muito frequentado pelos homens das comunidades não deve ser interpretado como um dado problema em relação ao índice de dependência de álcool nessas regiões rurais. Isso porque o bar assume um papel muito mais significativo enquanto espaço de encontro e socialização do que como indicador de problema de saúde pública. Já em relação às mulheres, destaca-se a questão da religião enquanto importante não só pelo seu valor como crença, mas enquanto lócus ou contexto que gera espaços de encontros para esse grupo. Assim, as atividades que são em sua maioria organizadas em torno de tradições religiosas acabam constituindo-se como motivos para o encontro das mulheres das comunidades, sendo um local autorizado para que se reúnam e falem sobre outros assuntos que não só o tema religioso.