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Mel de Abelhas Nativas e Legislação Brasileira

5. RESULTADOS E DISCUSSÃO

5.4 Potencial da meliponicultura no contexto de desenvolvimento sustentável

5.4.4 Mel de Abelhas Nativas e Legislação Brasileira

Entende-se por mel o produto alimentício produzido pelas abelhas melíferas, a partir do néctar das flores ou das secreções procedentes de partes vivas das plantas ou ainda de excreções de insetos sugadores de plantas que ficam sobre partes vivas de plantas, que as abelhas recolhem, transformam, combinam com substâncias específicas próprias, armazenam e deixam maturar nos favos da colmeia. O mel é uma solução concentrada de açúcares com predominância de glicose e frutose. Contém ainda uma mistura complexa de outros carboidratos,

enzimas, aminoácidos, ácidos orgânicos, minerais, substâncias aromáticas, pigmentos e grãos de pólen podendo conter cera de abelhas procedente do processo de extração (IN Nº11, 2000; PAULINO, 2009).

De acordo com Lengler (2008) citado por Paulino (2009), para a formação do mel ocorrem duas modificações principais no néctar. A primeira é a modificação física pela desidratação, onde a água do néctar evapora na colmeia e na absorção no papo da abelha. E a segunda modificação é uma reação química que atua sobre o néctar, transformando a sacarose, através da enzima invertase, em glicose e frutose. Em menor escala ocorrem mais duas reações, que consistem em transformar o amido do néctar, através da enzima amilase em maltose e a enzima glicose-oxidase transforma a glicose em ácido glicônico e peróxido de hidrogênio.

No Brasil, até 1838 as abelhas nativas eram as únicas produtoras de mel, no entanto, após este período, o Padre Manoel Severiano introduziu no Rio de Janeiro as abelhas da espécie Apis mellifera com o objetivo de obtenção de cera branca para a fabricação de velas utilizadas nas missas da Corte (KERR et al., 2005 apud

PINTO et al., 2006). A partir daí, as abelhas desta espécie começaram a se reproduzir de maneira significativa e, devido a sua alta produtividade de mel, acabaram assumindo a preferência dos agricultores pela atividade da apicultura (PINTO et al., 2006).

Nos últimos anos o consumo do mel aumentou significativamente, visto que a população em geral vem procurando produtos naturais, visando uma alimentação mais saudável. Este mesmo consumidor passou a ser mais exigente com a qualidade dos produtos que consome o que imprime, no setor produtivo, uma maior preocupação com a qualidade dos alimentos, inclusive do mel (TESSMANN, 2007

apud ALVES, 2011). Nesse contexto, o mel também deve satisfazer às exigências do consumidor, possuindo adequado valor nutricional, sabor e aparência característicos, além da garantia de boas condições de higiene e sanidade na colheita, extração e beneficiamento (CAMARGO, 2003 apud PAULINO, 2009).

Como após sua colheita, o mel continua sofrendo modificações físicas, químicas e organolépticas, gera a necessidade de produzi-lo dentro de níveis elevados de qualidade e controlando todas as etapas do seu processamento. Além disso, por ser um produto bastante apreciado e de fácil adulteração, torna-se alvo de ações inadequadas que depreciam a sua qualidade, sendo necessária a realização

de algumas análises que determinem a sua qualidade e condições higiênico-sanitárias (CAMPOS, 2010).

Há no Brasil uma legislação específica para mel de Apis, a qual estabelece parâmetros de controle de qualidade para o produto, com indicação das análises e métodos a serem empregados (BRASIL, 2000; PINTO, 2010), que são: análises organolépticas, determinação de cor, umidade, cinzas, sólidos insolúveis em água, reação de Fiehe – hidroximetilfurfural qualitativo, pH, acidez, glicídios redutores em glicose e glicídios não redutores em sacarose. Cabe lembrar que a composição físico-química do mel é variável, dependendo das condições climáticas, estádio de maturação, espécie de abelha, processamento, armazenamento e tipo de florada (SILVA et al., 2004).

Além disso, o mel é um produto que apresenta atividade antimicrobiana atribuída a fatores físicos e químicos. Mesmo assim, ainda é possível encontrar uma série de microrganismos presentes neste produto e que servem como indicadores de qualidade (SOUZA et al, 2009 apud ALVES, 2011). No entanto, a legislação brasileira e internacional vigente não exige realização de análises microbiológicas em mel, estabelecendo apenas que sejam seguidas práticas de higiene adequadas na manipulação do produto (SILVA et al, 2008 apud ALVES, 2011).

Os trabalhos de análises físico-químicas de méis são realizados com o objetivo de comparar os resultados obtidos com padrões ditados por órgãos oficiais internacionais ou com os estabelecidos pelo próprio país, deixando clara não só uma preocupação com a qualidade do mel produzido internamente, como também, tornando possível a fiscalização de méis importados com relação às suas alterações (CARVALHO et al., 2005 apud ANACLETO, 2009). No Brasil, a Instrução Normativa 11, de 20 de outubro/2000 que regulamenta a padronização do mel para fins de comercialização é baseada em legislações europeias. Esta legislação, baseada em padrões internacionais, dificulta em muitos casos, a inserção do mel de espécies nativas.

Segundo Pinto et al. (2009), comercializar os produtos das abelhas nativas ainda representa um grande desafio àqueles que se dedicam a esta atividade. Pois, como para qualquer produto de origem animal, os de abelhas nativas necessitam também de um registro junto aos órgãos de inspeção sanitária2 para serem

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comercializados no mercado. O grande entrave é a quase inexistência de normas e/ou legislação específica que oriente a manipulação do mel de abelhas nativas bem como a sua comercialização. Além disso, o hábito de consumir mel é restrito no Brasil, o uso medicinal só é lembrado quando há alguém doente na família. Essa falta de hábito alimentar explica o baixo consumo per capita, que não ultrapassa os 60 gramas por ano, enquanto em alguns países europeus chega a ser consumidos até 1 Kg por ano. A preferência do brasileiro é claramente o açúcar, que chega a ter um consumo de 25 kg per capita e ano (SEBRAE, 2006).

Ainda de acordo com Pinto et al. (2009), a meliponicultura necessita de um local exclusivo e aprovado pelo Sistema de Inspeção de Produtos de Origem Animal para o armazenamento e o beneficiamento de seus produtos, a UBM, popularmente conhecida como Casa do Mel. Para realizar esta construção é necessário que o projeto arquitetônico da unidade, bem como seu fluxograma de funcionamento estabelecido, esteja em conformidade com a legislação vigente.

O registro dos órgãos de inspeção sanitária regulamenta a forma como ocorre todo o processo produtivo até chegar ao produto final. Para o caso das abelhas, o que existe até hoje são diretrizes que orientam a produção de mel e outros produtos (cera, própolis, pólen, etc.) das abelhas exóticas do gênero Apis. Estas diretrizes se referem a estrutura que a UBM deva ter para que os produtos sejam beneficiados com total controle de higiene e aspectos sanitários. Porém, para o beneficiamento dos produtos oriundos das abelhas nativas o processo se diferencia principalmente nas etapas de colheita e pasteurização do mel (PINTO et al., 2009).

Para Drummond (2010), um dos maiores problemas que dificulta a expansão da meliponicultura está na cadeia de mercado do mel dessas abelhas. O produto, devido o seu maior teor de água, de 25 a 30%, tem pouca durabilidade em prateleira, fermentando-se com facilidade. Este problema acaba por forçar o produtor a manter o produto em geladeira, ou a submetê-lo a um dos dois tipos de tratamento normalmente utilizados para aumentar a sua durabilidade: a pasteurização ou a desidratação (ou desumidificação). No entanto, ainda segundo o autor, ambas as técnicas possuem inconvenientes, o principal deles se refere à alteração das características do produto, comprometendo muito de suas propriedades, dentre as quais o paladar, muito valorizado pelos gourmets; outro inconveniente é o custo bastante elevado desses tratamentos, quando se fala em produção acima de 100 quilos.

Diante de tantas questões, percebe-se a necessidade de políticas públicas que apoiem esta atividade, como ocorre com a apicultura. Como exemplo, pode-se citar a necessidade de uma certificação especifica para este mel, de linhas de financiamento, bem como da regulamentação de seu desenvolvimento, pois, ao longo dos últimos anos, a criação de abelhas silvestres nativas vem se caracterizando como um importante sistema de produção baseado na diversificação e no uso sustentado dos recursos naturais (PINTO et al., 2006). Ainda segundo Magalhães (2010), como alternativa, em nível municipal e estadual, poderia ser criada uma legislação mais simples como alternativa imediata para a comercialização direta pelas associações.