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No cultivo intensivo a compreensão dos aspectos biológicos, incluindo a fisiologia é de extrema importância para 

O MELHORAMENTO GENÉTICO DA TILÁPIA DO NILO NO BRASIL 

A  tilápia‐do‐nilo  (O.  niloticus)  é  a  espécie  exótica  mais  cultivada  no  Brasil.  Atualmente,  existem  duas  linhagens de  tilápia‐  do‐nilo  melhoradas  produzidas  em  território  nacional,  a  linhagem  GST (Genomar Supreme Tilapia; importada da Noruega em 2002), e a  linhagem  GIFT  (Genetically  Improved  Farmed  Tilapia;  importada  da  Malásia  em  2005;  para  acessar  a  história  de  formação  da  linhagem,  acesse Eknath & Acosta (1998) e Bentsen et al. (1998). Essa última, no  entanto,  é  a  única  que  continua  sendo  selecionada  a  fim  de  se  desenvolver  uma  variedade  melhorada  adaptada  às  condições  brasileiras  de  cultivo.  É  importante  lembrar  que  os  parâmetros  genéticos  encontrados  até  o  momento  da  importação  da  linhagem  são aplicáveis apenas na população e no ambiente onde eles foram  obtidos.  Assim,  torna‐se  imprescindível  que,  para  o  desenvolvimento  da  linhagem  GIFT  brasileira,  se  estabeleça  um  programa de seleção, que faça estudos prévios das características em  questão,  mesmo  que  estas  tenham  sidos  estudadas  sob  outras  condições (Santos, 2009). 

Estudos  têm  mostrado  que  as  herdabilidades  para  peso  corporal e sobrevivência na linhagem GIFT podem ser consideradas  de baixa a moderada (Ponzoni et al., 2005; Santos et al., 2011, Santos  et al., 2012; Kunita et al., 2013; Yoshida et al., 2013a, Yoshida et al., 

  125  2013b). A baixa herdabilidade para peso corporal à despesca implica  que  este  valor  fenotípico  não  é  um  preditor  sensível  do  potencial  genético da linhagem GIFT (Santos et al., 2011). Assim, no programa  de  seleção  brasileiro  da  tilápia‐GIFT,  cujo  objetivo  de  seleção  é  aumentar  a  taxa  de  crescimento,  passou‐se  a  utilizar  o  ganho  de  peso  médio  diário  (g/dia)  como  critério  de  seleção.  A  seleção  para  ganho  em  peso  diário  conduz  a  ganhos  genéticos  indiretos  para  as  características  peso  final,  altura  e  comprimento  total,  uma  vez  que  há  uma  forte  associação  genética  entre  estas  características  (Kunita  et al., 2013).  

Adicionalmente  ao  ganho  de  peso  médio  diário,  outras  características corporais e a mortalidade na idade comercial têm sido  mensuradas  a  fim  de  se  aumentar  a  quantidade  de  informações  obtidas  por  animal  (Oliveira  et  al.,  2012).  Isto  possibilita  a  seleção  com  informações  combinadas.  A  partir  destes  dados  informações,  um  estudo  pioneiro  realizado  com  a  linhagem  GIFT  submetida  às  condições brasileiras, concluiu que a seleção para peso tem impacto  positivo na sobrevivência, tanto para peixes cultivados em viveiros  escavados  quanto  em  tanques‐rede  (Santos  et  al.,  2011).  Com  este  resultado  promissor,  os  autores  sugeriram  que  a  taxa  de  sobrevivência deve ser incluída no objetivo de criação, uma vez que  determina o número de peixes disponíveis para o mercado e o lucro  da piscicultura. Como a herdabilidade estimada para sobrevivência  é moderada (0,33 a 0,40), foi possível se obter resposta para seleção.  Neste caso, o ganho genético por geração para sobrevivência foi de  2,03%.  Embora  o  peso  à  despesca  não  seja  um  bom  preditor  do  potencial genético da linhagem, o ganho genético estimado para esta  característica  foi  considerado  alto  (5,07%)  para  animais  produzidos  no ano de 2008. 

Parâmetros  genéticos  para  caracteres  de  conformação  corporal  relacionados  ao  rendimento  de  filé  também  estão  sendo  estudados.  O  uso  de  parâmetros  genéticos  de  variáveis  morfométricas  é  mais  vantajoso,  uma  vez  que  estas  possuem  de  moderada a alta herdabilidade, enquanto o rendimento de filé, baixa  herdabilidade  (h2 = 0,12;  Rutten  et  al.,  2005).  Sob  este  aspecto,  Reis 

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Neto  et  al.  (2014)  avaliaram  o  comprimento  padrão,  profundidade,  largura, área e volume corporal, obtendo moderadas estimativas de  herdabilidade  (0,28  a  0,31),  sugerindo  que  estas  características  poderiam ser usadas como critério de seleção indireto para melhorar  as  características  de  carcaça,  podendo  ser  incluídos  em  índices  de  seleção.  Além  disso,  os  resultados  apontam  que  a  seleção  para  ganho  em  peso  diário  tem  afetado  positivamente  características  de  carcaça,  pois,  além  de  impactar  o  peso  adulto  dos  animais,  pode  resultar em incremento da altura do peixe, sem que haja o aumento  no  comprimento  da  cabeça  (Oliveira  et  al.,  2012),  proporcionando  um maior rendimento de filé (relação entre o peso do filé e o peso à  despesca).  Isto  acontece  porque  as  correlações  genéticas  estimadas  entre variáveis morfométricas e de desempenho são altas (Kunita et  al.,  2013;  Reis  Neto  et  al.,  2014).  As  altas  correlações  genéticas  verificadas entre estas variáveis indicam que grande parte dos genes  de  ação  aditiva,  que  influenciam  qualquer  uma  das  características  avaliadas,  também  influenciam  as  demais  (ação  de  genes  pleiotrópicos). Isto implica que a seleção para qualquer uma dessas  características deve resultar em progresso genético nas outras. 

Esforços também têm sido realizados no intuito de selecionar  precocemente os reprodutores que constituirão o plantel da próxima  geração.  Tal  procedimento  normalmente  ocorre  quando  os  animais  estão  com  cinco  meses  de  cultivo.  Porém,  Yoshida  et  al.  (2013a;  2013b)  apontam  que  a  utilização  das  informações  de  peso  vivo  e  ganho  de  peso  diário  total,  medidos  com  um  ou  dois  meses  de  antecedência,  podem  resultar  em  resposta  à  seleção  indireta  para  velocidade  de  crescimento.  A  seleção  precoce  é  vantajosa,  pois  acarreta  a  redução  do  tempo  de  gerações,  aumento  do  ganho  genético anual e, pode diminuir os custos referentes à mão de obra  na realização das biometrias e na produção dos animais (Yoshida et  al., 2013b) 

Interações  entre  genótipos  e  ambiente  também  foram  estimadas  a  fim  de  se  verificar  a  resposta  à  seleção  em  variadas  condições  ambientais.  Um  primeiro  estudo  deste  tipo  foi  realizado  no  sul  do  Brasil  e  avaliou  o  desempenho  da  linhagem  GIFT  e 

  127  correlações  genéticas  da  tilápia‐do‐nilo  durante  três  anos  consecutivos (Santos, 2009). Os peixes foram avaliados em tanques‐ rede,  sob  dietas  de  28%  (A1)  e  32%  (A2)  de  proteína  bruta,  e  em  viveiros  de  terra  com  28%  de  proteína  bruta  (A3).  Neste  estudo,  as  estimativas  de  herdabilidade  para  o  peso  à  despesca  foram  moderadas em todos os ambientes. Como a maior herdabilidade foi  encontrada no ambiente A2, sugere‐se que a expressão do potencial  genético dos animais deve requerer melhor qualidade de água e de  dieta  (em  proteína),  visto  que  no  viveiro  de  terra  não  houve  utilização de aeradores e, como os tanques‐rede foram instalados em  rio  com  água  corrente,  possibilitou  manter  melhor  qualidade  de  água.  Além  disso,  as  correlações  genéticas  para  o  peso  corporal  à  despesca  entre  os  ambientes  avaliados  foram  consideravelmente  altas (0,58 a 0,88) e significantes. Estes resultados indicam diferenças  em sensibilidade da linhagem aos diferentes ambientes e, portanto, a  presença de interação genótipo‐ambiente para peso à despesca entre  os  ambientes  avaliados.  Assim,  programas  de  seleção  separados  devem  ser  considerados  para  melhorar  o  peso  corporal  à  despesca  nos  diferentes  ambientes  estudados,  pois  a  presença  de  interação  genótipo‐ambiente acarreta a perda na eficiência de seleção e menor  progresso  genético  da  população,  o  qual  será  tanto  menor,  quanto  menor  for  a  correlação  genética  entre  o  peso  nos  ambientes  de  seleção e de produção. 

Além  de  genética  quantitativa,  ferramentas  da  genética  molecular  podem  ser  aplicadas  a  programas  de  melhoramento  genético para aumentar a eficiência de seleção para características de  baixa  herdabilidade  e  de  difícil  mensuração.  Uma  variedade  de  técnicas  existe  para  incorporar  informações  de  marcadores  em  sistemas de avaliação genética. A inclusão do marcador em valores  genéticos  BLUP  foi  primeiramente  demonstrada  por  Fernando  &  Grossman  (1989)  e  está  previsto  para  originar  8‐38%  de  ganho  genético  adicional  (Meuwissen  &  Goddard,  1996).  Acerca  desta  abordagem  no  programa  genético  da  tilápia‐GIFT  brasileira,  pouco  se  tem  feito  até  o  momento.  A  literatura  consta  de  apenas  um  trabalho que prospectou um polimorfismo no gene do hormônio do 

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crescimento  (GH)  de  tilápias  cultivadas  no  Brasil  (Blanck,  2008).  Neste  estudo,  a  autora  encontrou  que  a  produção  de  tilápias  da  variedade  GIFT  homozigotas  PstI+/+  podem  apresentar  rendimento  de  filé  2,72%  superior  em  relação  ao  genótipo  heterozigoto  PstI+/‐ Uma  vez  que  a  característica  rendimento  de  filé  apresenta  baixa  herdabilidade, a identificação do genótipo PstI+/+ pode ser relevante  nas  avaliações  genéticas,  levando  a  um  importante  aumento  na  resposta à seleção desta característica. 

Essa escassez de trabalhos caracteriza uma grande lacuna do  conhecimento  para  a  genética  da  tilápia  brasileira.  Atualmente  tecnologias modernas de sequenciamento em ultra‐larga escala estão  disponíveis  a  preços  relativamente baixos  e  podem  representar  um  grande  passo  para  o  melhor  entendimento  da  expressão  das  características fenotípicas de interesse para a espécie. Uma busca nos  bancos  de  dados  genômicos  indica  que  a  sequência  completa  do  genoma  da  tilápia‐do‐nilo  já  está  disponível  (número  de  acesso  no 

Bioprojects  do  NCBI:  PRJNA59571),  apresentando  1.576,63  Mb 

(megabases). Este genoma está constituído por 23 grupos de ligação  contendo  30.172  genes.  De  posse  de  informações  sobre  sequências  biológicas  da  espécie,  é  possível  se  definir  uma  série  de  genes  candidatos  que  estejam  envolvidos  com  o  crescimento  muscular  (por  exemplo,  genes  do  hormônio  do  crescimento  (GH),  da  prolactina  (PRL),  da  somatolactina  (SL),  do  fator  de  crescimento  semelhante  à  insulina  (IGF)  e  da  miostatina  (MSTN)).  A  partir  da  existência  de  um  genoma  de  referência  para  a  espécie,  a  identificação  de  genes  e  SNPs  (Polimorfismos  de  Base  Única)  associados  ao  aumento  da  velocidade  de  crescimento  da  variedade  GIFT  se  torna  muito  mais  simplificada.    Para  tanto,  ensaios  de  expressão gênica diferencial poderiam ser conduzidos, comparando  a linhagem GIFT e uma linhagem controle (não selecionada), o que  ajudaria  a  elucidar  os  mecanismos  moleculares  envolvidos  no  seu  maior  crescimento  e,  forneceria  uma  grande  gama  de  marcadores  genéticos  a  serem  incluídos  nos  modelos  matemáticos  de  avaliação  genética.  A  exemplo  desta  possibilidade,  Xia  et  al.  (2014)  prospectaram  23.535  SNPs  funcionais  que  foram  alocados  em  7146 

  129  genes distribuídos ao longo de 22 grupos de ligação da tilápia. Outra  opção  interessante  é  o  estudo  de  marcadores  em  genes  que  codificam microRNAs, uma vez que estes apresentam papel crucial  para  o  desenvolvimento  do  tecido  muscular  e,  possivelmente  estão  envolvidos  na  via  de  sinalização  do  eixo  GH/IGF‐1  (Huang  et  al.,  2012). 

Em  resumo  e  em  termos  práticos,  os  pesquisadores  envolvidos  no  projeto  têm  relatado  ganho  genético  para  a  taxa  de  crescimento  de  4%  a  cada  geração,  totalizando  um  ganho  acumulado de 28% até o ano de 2010. Isso conduziu à redução de 21  dias  no  período  de  cultivo  em  tanques‐rede,  o  que  resultou  que  a  cada  R$1,00  de  investimento  adicional  em  alevinos  melhorados,  o  retorno  está  girando  em  aproximadamente  R$12,00.  Não  obstante,  ainda há potencial para se incrementar este ganho genético a partir  do uso de técnicas moleculares como ferramenta auxiliar na seleção  genética da espécie. 

 

O  MELHORAMENTO  GENÉTICO  DE  ESPÉCIES  NATIVAS