A adaptação através da seleção natural é a resposta das populações de A. mellifera às mudanças ambientais e o desafio de pragas e doenças. A riqueza em biodiversidade das subespécies e ecótipos da A. mellifera reflete um processo duradouro e contínuo de adaptação. Essa diversidade representa um capital biológico valioso que deve ser preservado como base para seleção e desenvolvimento futuro, em resposta aos novos desafios ecológicos e de produção (BÜCHLER et al., 2013). A biologia reprodutiva da A. mellifera é de alta complexidade, incluindo múltiplos acasalamentos das rainhas, voos nupciais de longa distância, machos diplóides e áreas de congregação. Isso é como uma caixa de ferramentas eficazes para a seleção de diversidade genética das populações de abelhas. No entanto, modernas técnicas de apicultura e criação podem limitar ou extinguir esses efeitos de seleção natural (BOUGA et al.; 2011), correndo o risco de diminuição da vitalidade das populações de abelhas.
Atividades de criação precisam considerar a biologia reprodutiva natural A.
mellifera. As técnicas modernas de criação de rainhas, seleção e controle de acasalamento
oferecem ferramentas poderosas para melhorar as características econômicas,
comportamentais e adaptativas de A. mellifera (BÜCHLER et al. 2013).
Segundo Kerr e Bueno (1970) a colônia de A. mellifera normalmente possui uma única rainha. Nas áreas de congregação de zangões (ACZ), o número de zangões varia de zero a centenas, reunidos para acasalarem-se com as princesas (rainhas virgens); os zangões variam, principalmente, em função da sazonalidade de oferta de alimento (néctar e pólen). A rainha armazena esperma para toda a vida útil, que, normalmente, pode variar de 1 a 2 anos. A
diversidade genética em A. mellifera é assegurada por meio da poliandria da rainha, com fecundações realizadas nas áreas de congregação de zangões, em distâncias entre 12 a 17 km do apiário de origem das rainhas virgens (princesas), na época de voos nupciais, cada rainha acasala-se com 10 a 17 zangões (KERR; BUENO, 1970) e as mesmas formam o mesmo número de subfamílias de operárias meias-irmãs e irmãs (WOYKE, 1967 citado por CAMARGO, 1972).
As operárias são fêmeas estéreis e variam em número de 10.000 a 40.000 por colônia. Elas realizam todas as tarefas necessárias para o desenvolvimento, manutenção, defesa da colônia e executam o comportarmento higiênico. Quando jovens, elas executam tarefas tais como: limpeza, alimentação das larvas, construção de favos, processamento de alimentos entre outras atividades no ninho. Em seguida tornam-se operárias forrageiras, essa transição ocorre geralmente na segunda ou terceira semana de vida. Quando a colônia está órfã ou sem rainha, as operárias ovipositam óvulos não fecundados. Em função disso a colônia torna-se zanganeira e desaparece (WINSTON, 2003).
A primeira criação de rainhas foi realizada na Grécia antiga, onde os apicultores colocavam favos com larvas jovens em colônias órfãs, a fim de aumentar o número de realeiras (BÜCHLER et al., 2013). No entanto, naquela época pouco se sabia sobre a biologia
da A. mellifera. Jacob Nickel (1565 citado por BÜCHLER et al., 2013) foi o primeiro na
Europa a descrever como operárias podem criar rainhas de ovos ou larvas muito jovens.
Alley, Carey e Pratt (1861 citados por BÜCHLER et al.; 2013) em Massachusetts, EUA, produziram rainhas para comércio. Esses produtores usaram tiras estreitas de favos que continham ovos e larvas para criar rainhas; colocaram em colônias órfãs e as operárias construiram realeiras. Estas realeiras novas, por sua vez, poderiam ser distribuídas individualmente para colônias órfãs para serem fecundadas também.
O desenvolvimento de técnicas modernas de criação de rainhas teve início no século XIX. Doolittle (1889 citado por BÜCHLER et al.; 2013) nos EUA, desenvolveu uma técnica para criar rainhas, que serve como base de produção atualmente. Essencialmente, ele usou cúpulas de cera para as quais transferiu larvas de operárias para iniciar a produção de realeiras. O método de criação de rainhas em colônias órfãs, preconizado por Doolittle ainda é aplicado hoje em dia ( KURLETTO, 1982, informação verbal).
Em colônias, se a rainha for isolada, presa, dentro de uma gaiolinha no interior da colônia, no barrote (parte debaixo) do terceiro quadro do ninho, ela fica impedida de realizar postura, mas a circulação parcial de feromônios continua e como a rainha não está ovipositando as operárias tomam a iniciativa de renovarem a rainha (PEGORARO, 1997).
Doolittle (citado por BÜCHLER et al., 2013) destacou a importância de simular uma situação de enxameação ou substituição de rainhas, para isso além de disponibilizar uma fonte abundante de alimento para produzir rainhas de alta qualidade, é necessário manter uma restrição de espaço dentro da colônia. A renovação de rainhas pode ocorrer na presença da rainha, em condições naturais, diante das seguintes situações: presença de rainha velha (redução da produção de feromônios), congestionamento da colônia com cria, alimento e abelhas em plena florada quando ocorre a enxameagem com substituição natural da rainha (BUTLER, 1957). Com as condições acima descritas e a rainha isolada em gaiolinha sem realizar postura, mas com circulação parcial de feromônios, também ocorre à renovação das mesmas, (PEGORARO, 1997), porém com menor número de realeiras e obtenção de rainha de maior qualidade (peso).
A rainha realiza postura e agregação da colônia, o que ocorre por meio de feromônios. As glândulas mandibulares da rainha produzem feromônios: ácido 9-oxodecenóico (9-ODA) e o ácido 9-hidróxi 2-decenóico (9-HDA) que inibem o desenvolvimento ovariano das operárias e promove a atração dos zangões para o acasalamento (BUTLER; CALLOW; JOHNSTON, 1961).
Caso esse equilíbrio seja modificado pelo apicultor, com a remoção parcial ou total da rainha da colônia, quando existir zangões e alimento na natureza, as operárias procuram restabelecer as condições, criando novas princesas para que uma delas se estabeleça na colônia (BUTLER, 1957). Pegoraro (1997) observou que quando a rainha estiver aprisionada em gaiolinha e com fluxo de alimento, na natureza, em torno de 90% das colônias renovaram sua rainha. Em desenvolvimento natural de realeiras, as operárias iniciam a criação de nova(s) princesa(s) reformando e alargando os alvéolos das operárias que contêm ovos e larvas jovens (WINSTON, 2003). As operárias iniciam a criação de rainhas no período de cinco a seis horas após as colônias tornarem-se órfãs. Por isso, o apicultor necessita introduzir a nova princesa ou rainha antes desse tempo. Pois, caso as operárias iniciem a criação de outra rainha, entra em jogo o “nepotismo”, e as abelhas dificultam a aceitação da rainha nova que o apicultor pretende estabelecer na colônia.
No experimento a seguir, menos tempo foi despendido em relação aos dados obtidos por Pegoraro (1997) e com maior probabilidade de encontrar as rainhas (TABELA 1). Estes resultados foram creditados, principalmente, ao treinamento da equipe e provavelmente às condições climáticas mais favoráveis.
TABELA 1 - TEMPO, EM SEGUNDOS, UTILIZADO PARA CAPTURAR RAINHAS EM COLÔNIAS DE ABELHAS AFRICANIZADAS
FONTE: PEGORARO (1997).
A maioria dos métodos de criação de rainhas e produção de geleia real se baseia no conceito que uma colônia de A. mellifera só aceita cuidar de cúpulas artificiais com larvas jovens transferidas para ela, quando a colônia estiver órfã (WINSTON, 2003). No entanto, podemos induzir as operárias a criarem novas rainhas por meio de duas técnicas: orfandade (Büchler et al., 2013) ou redução da circulação de feromônios por meios de isolamento parcial de rainha na colônia (KURLETTO, 1976; PEGORARO 1997). Sendo que as técnicas de orfandade pouco variam do método clássico para criar rainhas (BÜCHLER et al., 2013). Exceto a nucleação ver no item 8.5 deste mesmo capítulo.
Para recuperar as perdas de colônias no inverno, os apicultores brasileiros, de um modo geral, adotaram o método de captura de enxames que, além de econômico, aumenta a diversidade genética das colônias de abelhas nos apiários e permite a construção de favos novos. Porém, as colônias obtidas por esse método devem ser avaliadas quanto à aptidão para armazenar mel e quanto à sanidade, através de sinais clínicos de doenças e percentagem de infestação por V. destructor. As rainhas das colônias inferiores devem ser substituídas por meio de união de duas ou mais colônias para formar uma colônia nova apta a iniciar a produção de mel, de preferência na primavera. Essa técnica é considerada o modelo mais simples e eficiente de seleção e repovoamento de apiário devido às perdas do outono e inverno. Outra técnica que poucos apicultores empregam em suas colônias superiores é a nucleação no final de julho a início de agosto. Também devemos difundir a técnica de nucleação.
Sempre necessitamos introduzir rainhas novas para revigorar as colônias, porque as rainhas velhas reduzem a produção de cria e dessa forma reduzem também a produção de mel. Os apicultores experientes quando renovam a rainha da colônia, pois desejam substituir a rainha esgotada, ao introduzir a nova rainha ‘lambuzam-a’ com mel e cuidado, reaplicam fumaça levemente e deixam que a rainha saia livremente da gaiolinha e seja lambida pelas operárias e assim aceita pelas mesmas.
No início da africanização em Araucária, cidade da Região Metropolitana de Curitiba (RMC), realizou-se um experimento de seleção com abelha africanizada que considerou as seguintes condições: criação de rainhas de A. m. carnica em colmeia, recriadas por meio de
Tempo 60 120 180 210 240 245
cúpulas e com transferência de larvas. Estas rainhas, por sua vez, foram acasaladas ao ar livre com zangões de abelha africanizada. As rainhas descendentes do cruzamento entre a abelha africanizada (zangões) x A. m. carnica (rainhas) foram observadas quanto à defensividade, produção de mel, equilíbrio na proporção cria/alimento e operárias adultas (KURLETTO, 1976). Esse método obteve linhagens produtivas de abelhas africanizadas com baixo grau de defensividade. A taxa de fertilização das rainhas é determinada por presença de zangões férteis na natureza. Bar-Cohen, Alperng e Bar-Anan (1978) após 13 anos de seleção em A. m.
lingustica, constataram que a produtividade de mel aumentou em média 17 kg por colônia e o
coeficiente de herdabilidade foi h2 = 0,54. Pedro e Duay (1994) obtiveram produções com colônias selecionadas e enxames capturados de 45,3 e 37,7 kg de mel por colônia ano.