Steele e Aronson (1995) mostraram que abalar a autoconfiança não piora por si só o desempenho de seus participantes (negros). O problema pode ser melhorado sem ferir nem se referir a aspectos pessoais do desempenho.
O mero preenchimento de dados demográficos antes da aplicação de testes, por exemplo, mostrou-se suficiente para piorar o desempenho de sujeitos que afirmaram pertencer a grupos cujo estigma é considerado incompatível com o bom desempenho na atividade avaliada (DANAHER, CRANDALL, 2008).
Experimentos mostram que tomar algumas medidas para fazer os estereótipos não-salientes no contexto de avaliação já é de grande utilidade. Para Davies, Spencer, Quinn e Gehardstein (2002) “A eliminação dos estereótipos negativos de nossa sociedade pode ser uma meta inatingível, mas nossa pesquisa mostrou que é possível eliminar as pistas situacionais que dão origem à ameaça do estereótipo” (p.1627).
Claro, mudança contextual alguma fará um estudante mal preparado sair- se bem em uma avaliação padronizada. O objetivo deste trabalho é identificar a existência de medidas simples capazes de anular influências contextuais que minam o desempenho de indivíduos capazes. As diferenças de capacidade, acesso a treinamento etc., só podem ser solucionadas em um plano macrossocial, com medidas de longo alcance como melhoria do ensino, as cotas, distribuição de renda, políticas de desenvolvimento regional. Mas enquanto medidas semelhantes não são implantadas (ou o são gradualmente), melhoras substanciais podem ser obtidas, uma vez que mudanças contextuais podem afetar drasticamente o desempenho. Em uma seção seguinte veremos uma lista detalhada de várias intervenções que podem modular o efeito da ameaça do estereótipo. Apresentamos, primeiramente, o exemplo de intervenções que se valem da escrita expressiva apenas com o intuito de ilustrar a possibilidade de estratégias pontuais, experimentalmente fundamentadas e contextualmente orientadas, que demonstram um grande impacto apesar do baixo custo e alta simplicidade de implementação.
Beilock e Ramirez (2011) mostraram que 10 minutos de escrita expressiva, acerca das preocupações relativas ao teste que estão prestes a fazer, melhora consideravelmente o desempenho dos estudantes. A escrita expressiva
consiste em escrever livremente sobre as preocupações pessoais acerca de determinado problema que aflige o sujeito (PENNEBAKER, BEALL, 1986).
A escrita expressiva provoca melhoras significativas em medidas relacionadas à saúde, tais como: visitas ao médico (PENNEBAKER, BEALL, 1986), pressão sanguínea (DAVIDSON et al., 2002) e número de dias de internações hospitalares (NORMAN et al., 2004). Além disso, também mostrou benefícios como a diminuição do absenteísmo no trabalho (FRANCIS; PENNEBAKER, 1992), melhora em medidas de comportamento social e linguístico (PENNEBAKER; GRAYBEAL, 2001), na memória de trabalho (KLEIN; BOALS, 2001) e, melhora de médias em notas escolares (PENNEBAKER; FRANCIS, 1996; CAMERON; NICHOLLS, 1998).
No estudo de Beilock e Ramirez (2011), os sujeitos foram solicitados a fazer dois testes de matemática. No primeiro teste foram instruídos simplesmente a fazer o melhor que pudessem. No segundo, a pressão foi aumentada oferecendo recompensa financeira e associando o benefício dos outros no grupo ao desempenho individual de cada participante. Antes da realização do segundo teste, um grupo foi solicitado a fazer um exercício de escrita expressiva sobre suas preocupações relativas ao teste, enquanto o grupo controle apenas aguardou o início do exame. Os resultados foram claros, o grupo controle apresentou um decréscimo de 12% no desempenho, ao passo que o grupo experimental melhorou seu desempenho em 5%. Generalizando este resultado para os demais casos onde incide a ameaça do estereótipo, pode-se razoavelmente esperar que a piora do desempenho dos sujeitos estereotipados em relação aos não-estereotipados diminua com o emprego de medidas simples como esta.
Outra pesquisa, relacionada ao desempenho de mulheres em física, confirmou que pequenas intervenções experimentalmente fundamentadas podem melhorar bastante o desempenho de membros de grupos estigmatizados. Miyake et al. (2010) selecionaram 400 estudantes de Física e solicitaram que, durante as quatro primeiras semanas do semestre, escrevessem sobre os valores que eram importantes para eles (grupo experimental) ou sobre valores que eram importantes para outras pessoas (grupo controle). Na segunda semana, como parte de uma pesquisa online solicitaram que os participantes se posicionassem acerca do estereótipo de que homens são melhores que mulheres em Física. No final do semestre, comparando as
notas dos estudantes em quatro provas, verificou-se que as mulheres do grupo controle tinham resultados 10% piores do que os homens. Entretanto, para as mulheres que escreveram sobre valores que eram importantes para elas mesmas esta diferença entre os gêneros foi irrelevante. Em outras palavras, ao escreverem sobre os valores que eram importantes para elas mesmas, as mulheres anularam os efeitos adversos advindos da ameaça do estereótipo e, assim, mostraram um desempenho mais próximo do seu verdadeiro potencial.
Sendo assim, a diminuição da diferença de desempenho entre indivíduos sob o efeito da ameaça do estereótipo e os que não estão sob esta ameaça pode ser conseguida. Medidas que não prejudicam o desempenho dos não afetados, mas melhoram o desempenho dos que foram afetados são viáveis e conhecidas. Isto significa que, intervenções como estas não prejudicam os grupos que não são estigmatizados, mas reparam uma desvantagem que incide sobre os grupos já estigmatizados. Como políticas públicas, intervenções assim orientadas têm o mérito de serem justas, no sentido equitativo (LIMA et al., 2006) sem gerar ônus para o grupo não beneficiado direta e intencionalmente por elas. Assim sendo, parecem não ferir a representação social hegemônica do mérito, e ao mesmo tempo beneficiar os indivíduos socialmente prejudicados.
Uma segunda implicação importante desta pesquisa é que levar indivíduos capazes de grupos estigmatizados a sobrepujarem a desvantagem extra da ameaça do estereótipo e aproximarem-se de seu máximo desempenho, tendo assim maior chance de acesso aos bens socialmente desejáveis, não requer muito dinheiro, tempo, ou complexas mudanças políticas e institucionais (BEILOCK, 2010).
Parece razoável generalizar, com base nestes achados, que pelo menos uma parcela dos membros capazes dos grupos estigmatizados continua sendo sistematicamente privada de bens socialmente desejados enquanto estratégias comprovadas empiricamente, economicamente baratas e operacionalmente viáveis já estão disponíveis. O dano social e moral de não se implantarem estas medidas parece constituir um clássico exemplo daquilo que os economistas entendem por custo de oportunidade. Ou seja, ao não se adotar estes procedimentos simples, que beneficiam membros de grupos estigmatizados sem prejudicar outros grupos, está-se arcando com o custo de privar estes sujeitos dos bens sociais que eles teriam acesso (não fosse a ameaça do estereótipo) e, enfraquecendo a validade dos escores obtidos nos testes,
que não computam estas variáveis situacionais como deveriam, gerando uma indevida distribuição de bens sociais. Assim, ignorar a influência da ameaça do estereótipo nos escores dos sujeitos destes grupos, e em seguida, abster-se de instituir práticas simples e comprovadas de aplicação dos testes que garantam igualdade dos avaliandos acaba por ferir de maneira muito mais direta a ideia de justiça e equidade do que as políticas de ação afirmativa supostamente o fariam.