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Memória coletiva e individual

No documento marinagiovanettilililucena (páginas 70-73)

4.2 A QUESTÃO DA MEMÓRIA

4.2.2 Memória coletiva e individual

No já citado parecer Liberdades comunicativas e "direito ao esquecimento" na ordem constitucional brasileira (2016), Sarmento argumenta que o esquecimento pode ser utilizado como mecanismo de manipulação da memória coletiva. Discute a questão da censura e da problemática em se proibir a veiculação de notícias referentes aos políticos (2016, p. 5). Para isso, argumenta que a democracia pressupõe a divulgação plena de informações (2016, p. 6). Expõe ainda sua preocupação com relação à questão da memória, já que seria necessário rememorar para construir a história (2016, p. 12). Afirma, enfim, que “[...] a universalização do direito ao esquecimento é o potencial aniquilamento da memória coletiva” (2016, p. 15).

Para responder a essas questões, é importante salientar que o direito ao esquecimento não se pretende como forma de alterar, manipular ou excluir a memória coletiva, criada em um Estado, por exemplo. Essa memória pertence ao povo. Consequentemente, os eventos históricos, nacionais ou mundiais, devem ser preservados. A mera pretensão de esquecê-los é, além de violadora de direitos, inviável. Assim é que “[...] tratando-se de fatos de inegável interesse público e importância histórica para o seu povo, o direito ao esquecimento tende a ceder espaço, ressalvando-se os excessos cometidos na difusão de informações históricas” (CORDEIRO, PAULA NETO, 2015, p. 18).

Nesse sentido se desenvolve a questão do direito à verdade, no que diz respeito ao conhecimento da verdade histórica e preservação da memória nacional. Esse é, inclusive, ponto comumente abordado por aqueles que se dizem contrários à aplicação do direito ao esquecimento.

É certo que os casos de graves violações de direitos humanos devem ser discutidos, até mesmo com fins de restituir a dignidade das vítimas e familiares. Tanto é assim que inúmeros países, após passarem por períodos ditatoriais, realizaram investigações através de

Comissões39, para apurar os crimes cometidos. As Comissões da Verdade buscam desvendar

o que realmente ocorreu nos momentos de ditadura, averiguar as vítimas, crimes e responsabilidades. No Brasil não foi diferente. Em 2011, através da L. 12.528, foi criada a Comissão Nacional da Verdade, com o intuito de examinar os crimes cometidos durante a nossa ditadura, de 1946 até 1988.

Ainda assim, o Brasil utilizou-se de mecanismos ora de preservação, ora do esquecimento para atingir o mesmo resultado, qual seja, a reconciliação nacional. Tanto é assim que foi instituída a chamada Lei de Anistia. Essa lei, de nº 6.683/1979, foi instituída no Brasil no final do regime ditatorial, tentando trazer conciliação e pacificação à sociedade brasileira.

A necessidade de apuração desses fatos, no entanto, não pode se confundir com uma obsessão da verdade, que buscaria uma suposta verdade universal em todos os casos. Isso significa que a sociedade hoje, com grande fluxo de informações, é marcada pela multiplicidade de verdades (RODOTÀ, 2012, p. 221). Esse direito à verdade, portanto, não seria absoluto, no sentido de poder apurar todos os indivíduos e todas as informações, mas deve ser ponderado com outros interesses relevantes na sociedade democrática.

Stefano Rodotà argumenta com relação ao direito geral à verdade, do Estado contra os cidadãos40 (RODOTÀ, 2012, p. 223). Para ele, essa cessão total dos direitos do indivíduo em prol dos outros e do Estado seria, essa sim, típica de um estado totalitário. A necessidade de informação, de verdade, não impõe uma necessidade total de verdades, que imporia aos indivíduos a necessidade de se expor total e completamente em púbico.

39 A busca da verdade e apuração de crimes não poderia ser confiada à instituições estatais já existentes, que

poderiam ter sido responsáveis pelo cometimento dos crimes apurados. Por isso foram criadas as Comissões Nacionais da verdade, que buscavam também a reconciliação nacional (RODOTÀ, 2012, p. 218).

40 “In una democrazia non si può costruire un diritto generale alla verità di cui siano totolari le istituzioni

Assim, com relação à memória individual, o indivíduo não pode ser lembrado por “[...] fatos passados que dizem respeito à sua história pessoal e que não devem permanecer acessíveis à coletividade pela eternidade” (CORDEIRO, PAULA NETO, 2015, p. 2).

Ademais, o direito ao esquecimento não se confunde com censura porque não se pretende como mecanismo para coibir a veiculação de toda e qualquer notícia. Ao contrário, pretende englobar somente informações específicas. A proteção à pessoa e aos seus direitos da personalidade, em alguns casos, é justificativa razoável e legal para evitar que determinada notícia seja disseminada.

Tal direito não é defendido como sendo absoluto, ilimitado. Muito ao contrário, sua aplicação é excepcional e deve ocorrer em alguns casos, quando a veiculação da notícia se mostrar desnecessária e/ou extremamente gravosa à privacidade do indivíduo. Como será analisado, há alguns critérios que devem nortear a sua aplicação, para que ocorra da maneira mais compatível com o ordenamento jurídico brasileiro. Nesse sentido, surge situação antagônica:

De um lado, o inequívoco interesse público da memória coletiva, principalmente no que tange ao acesso à informação e à liberdade de expressão. De outro, o preço a se pagar pela ampla possibilidade de obtenção da informação, que é alto e sujeita todos os indivíduos à situação de incerteza, de potencial violação de direitos fundamentais, tais como a proteção do nome, da imagem e da privacidade, em razão do caráter ilimitado de disponibilização temporal da informação, já que fatos passados e indesejáveis podem ser lembrados a todo instante. (MARTINEZ, 2014, p. 59).

Como explicitado ao longo do presente trabalho, o direito ao esquecimento busca proteger principalmente a memória individual. Através desse reconhecimento é possível que se atinjam outros direitos da personalidade (MARTINEZ, 2014, p. 53), como já analisado.

Nesse sentido, a tendência é que quanto mais o tempo passe, mais difícil será que a ponderação tenda ao direito à informação. Em outras palavras: sendo o tempo decorrido entre a ocorrência do fato e sua divulgação muito grande, a tendência maior é que haja preservação do direito individual.

Isso porque, como já discutido anteriormente, a tendência do cérebro humano é de selecionar as informações mais relevantes e esquecer-se das demais. Mesmo quando houver lembranças importantes, mas que não sejam agradáveis ao indivíduo, o esquecimento é desejado como forma de continuidade e prosseguimento da vida.

Logo, o decurso do tempo deve proporcionar esse esquecimento. Ainda que a sociedade atual possa rememorar fatos pretéritos, não significa que deva fazê-lo. O direito existe justamente para coibir ações que objetivem violar direitos individuais, que são de fácil ocorrência com a internet, onde as informações são eternas.

A rede de computadores, portanto, propicia a construção, cada vez com mais dados, da nossa memória individual online. Como se percebe, a mudança tecnológica e a sociedade da informação fazem com que o sujeito perca o controle sobre seus dados, sua autodeterminação informativa e sua memória pessoal. O direito ao esquecimento é uma maneira de permitir que o indivíduo tenha parte desse controle de volta, e que não seja prejudicado por fatos pessoais do seu passado. Diz respeito, como se percebe, somente à questão da memória individual, ou seja, àqueles tópicos que não ensejam interesse efetivo da sociedade despertando, no máximo, curiosidade.

No documento marinagiovanettilililucena (páginas 70-73)