3.2. As disputas da memória
3.2.2. Memória e acontecimento: uma retomada dos conceitos
Um dos aspectos marcantes da memória para Halbwachs (2009) é o reconhecimento quanto a existência de forças que, em um determinado contexto, possibilitam que uma memória
83
surja ou, de forma oposta, desapareça. Nesse caso, interessa saber em quais ocasiões se dão esses desaparecimentos e reaparecimentos, e como podemos identificá-los. Connerton (1999) acrescenta a essa perspectiva a noção de processos de comunicação dessa memória, tendo em vista os sedimentos de um passado que se quer negar ou perpetuar, o que novamente nos remete à inquietação de saber como identificar esses sedimentos e compreendê-los como parte de um processo comunicativo.
O próprio Connerton explica que a natureza desses sedimentos está nas imagens que as comunidades criam e preservam de si próprias. Então, discutir o papel da memória nessa construção é uma forma de buscar um entendimento sobre essa imagem. Ao transpor essa questão para nossa pesquisa, podemos pensá-la em um contexto de construção da memória nos acontecimentos formulados nos discursos sobre as estatísticas oficiais do Brasil, tendo como referência as imagens historicamente elaboradas para os sujeitos envolvidos nessa construção, como vimos na seção anterior, e os discursos dos quais esses sujeitos derivam os sentidos de seu dizer.
É neste ponto que se torna relevante buscar um entendimento mais detalhado da memória na perspectiva da AD e sua relação com o acontecimento discursivo. Para começar, trouxemos reflexões sobre memória feitas por dois autores do campo que, em seguida, serão articuladas em uma breve revisão do assunto. Em seguida, passaremos ao conceito de acontecimento, sempre o articulando com a noção de memória.
Tratar de memória é pensar nas operações que permitem o passado se marcar no discurso, em um processo de oscilação entre o linguístico e o histórico. Conforme diz Pêcheux (1999), forma-se um jogo de força na memória: de um lado, um esforço que visa manter a regularização preexistente; de outro, disputas que geram uma desregulação. A memória remete a práticas discursivas inseridas em uma determinada luta ideológica, a qual orienta sobre o que e como devemos nos lembrar, o que convém ou não convém dizer.
Segundo Orlandi (2010), a memória é aquilo que fala antes, em outro lugar; o saber discursivo que torna possível todo dizer e sustenta cada tomada de palavra. O que dizemos não tem origem no momento da enunciação, pois não somos os donos das palavras, elas não nos pertencem. Isso ocorre porque somos afetados por dois tipos de esquecimento: o da ordem da enunciação, que nos faz acreditar que aquilo que dizemos só pode ser dito com aquelas palavras e não com outras; e o esquecimento ideológico, no qual temos a ilusão de sermos a origem do que dizemos, quando, na realidade, retomamos sentidos preexistentes. Assim, ao esquecermos o que já foi dito, identificamo-nos com o que dizemos e constituímo-nos em sujeito.
84
Assim, memória é vista como um conjunto de operações que permitem o passado se marcar no discurso, mas dentro de um contexto de luta ideológica que forma um jogo de força.
Tudo isso que foi dito em outro tempo, mas ainda perdura, é que torna possível o dizer do sujeito.
Trata-se de um saber que, apesar de parecer nosso, é preexistente.
Segundo Indursky (2011), a reflexão sobre memória sempre esteve presente no quadro da teoria da Análise do Discurso, apesar de nos textos fundadores esta nomeação não aparecer.
Sua revisão do conceito, primeiramente trata da noção de repetibilidade, a qual mostra que o sujeito ao tomar a palavra apenas repete saberes anteriores. Ressalta, assim, que esta é a característica essencial da noção de memória na AD: o fato de o sujeito produzir seu discurso, sob o regime da repetibilidade, mas por ser afetado pelo esquecimento acreditar que é a origem daquele saber.
Essa concepção mostra, de acordo com a autora, que a memória neste domínio de conhecimento é social, e não de natureza cognitiva, pois se ela não tem o sujeito como fonte, só pode ser construída fora dele, na sociedade. Nesse sentido, afirma que é a noção de regularização que dá conta dessa memória, pois “se há repetição é porque há retomada/regularização de sentidos que vão constituir uma memória que é social” (INDURSKY, 2011, p. 71). Mas o que é retomado/regularizado? Nessa mesma passagem, a autora mostra que são os discursos em circulação, materializados na língua e estruturados no tecido sociohistórico, cabendo ainda o questionamento quanto à natureza dessa repetição que ocorrem dentro de certas práticas discursivas.
Repetir não necessariamente quer dizer sempre igual, o mesmo. Há espaço para a diferença, que ocorre por meio de deslizamentos que levam a uma ressignificação, a uma quebra no regime de regularização dos sentidos. Segundo Indursky (2011), um deslizamento ocorre quando o sujeito do discurso se contra-identifica com um sentido regularizado, podendo, até mesmo, dele se desidentificar. Ela se baseia em Pêcheux para pensar essa movimentação dos sentidos: “um enunciado é intrinsecamente suscetível de tornar-se outro, diferente de si mesmo, deslocar-se discursivamente de seu sentido para derivar para um outro (PÊCHEUX, 2008, p.
53).
Assim sendo, os sentidos podem atravessar as fronteiras de uma FD onde se encontram, e deslizar para outra FD, na qual se inscrevem outros sentidos, determinados por outras relações com a ideologia. Com essa observação, Indursky realça que o fechamento de uma FD não é rígido, que suas fronteiras são porosas, o que possibilita a migração de saberes. Então, uma FD não existe de forma isolada, mas se relaciona com outras FDs.
85
Tudo isso foi a base para reformulação do conceito de memória na década de 1980 que, de acordo com a autora, foi um trabalho realizado por J. J. Courtine, que tomou como referência a reflexão de Foucault sobre os enunciados na Arqueologia do Saber. Trata-se da noção de que nas produções discursivas circulam formulações anteriores, cujo domínio é associado a outras formulações por elas repetidos, refutados transformados, denegados.
É assim que Courtine (2009), ainda segundo a autora, ressalta que o trabalho de uma memória permite, no interior de uma formação discursiva, a lembrança, a repetição, a refutação e também o esquecimento dos enunciados; mas, para se saber sobre qual base material existe uma memória discursiva, é preciso ter como referência que os enunciados existem no tempo longo de uma memória e que as formulações são tomadas no tempo curto da atualidade de uma enunciação. Dessa forma, “como certos sentidos cristalizados podem se transformar e tornarem-se outros”? (INDURSKY, 2011, p. 72).
Para pensar a questão, é preciso considerar que um sentido predominante não apaga os demais e pode ser por eles modificado. Segundo Mariani (1998), muitas vezes os sentidos esquecidos podem funcionar como resíduos dentro do próprio sentido hegemônico. É a memória que garante o efeito imaginário de continuidade entre os sentidos, por isso o papel da memória social é compatível com o da memória oficial, que de acordo com a autora, é marcada por gestos de exclusão de tudo que possa escapar do exercício de poder e controle. Assim, podem ser mantidas as lembranças de um passado longínquo e heroico, ou mesmo de um passado ruim – que pode ser superado pela memória de um outro passado mais recente e melhor.
Para Mariani (1998), tanto o retorno de um sentido silenciado, como a irrupção de um novo sentido, pode representar uma ameaça ao poder dominante, daí o porquê de o trabalho da memória produzir uma certa previsibilidade, dando a ilusão que nada muda. Porém, esse quadro de aparente tranquilidade é constantemente abalado pela irrupção de acontecimentos que deslocam os sentidos já produzidos.
Como explica a autora, por um lado, um acontecimento remete ao que é acidental, singular, descontínuo, não previsível; mas, por outro, ao romper com a imposição imaginária da necessidade de estabilização, é reintegrado, transformando-se, assim, em elemento de memória por meio de sua filiação a alguma rede de sentidos. “Filiar, neste caso, corresponde a busca de implícitos que permitam sua compreensão e integração no momento presente ou futuro (MARIANI, 1998, p. 41). No entanto, a irrupção de um acontecimento também pode ter como resultado um deslocamento na regularização anterior, o que pode provocar a desautorização de
86
um sentido já formulado – considerações que podemos relacionar às discussões sobre a memória discursiva:
“Trabalhar com a memória discursiva é estar observando retomadas e/ou disjunções nada pacíficas, uma vez que se trata de conflitos pela regularização e hegemonia de sentidos. (...) A memória discursiva é, portanto, construída por faltas e lacunas, ela é não-linear. Pêcheux (1983) diz: “a memória é um espaço de desdobramentos, réplicas, polêmicas e contra-discursos” (MARIANI, 1998, p. 41 e 42).
Caracterizada como processo marcado por tensões, em função das retomadas, em uma estrutura não-linear, a memória não é fechada, apesar de muitas vezes assim se mostrar.
Interessa observar suas lacunas e polêmicas, desdobramentos em busca da manutenção de sentidos ou da abertura de novos. Neste contexto, interessa à AD investigar o papel da linguagem nestes processos, o que, de acordo com Mariani (1998), é a busca na materialidade da língua pelo jogo das repetições, diferenças, deslocamentos, transformações por que passam os sentidos.
Como visto, configurar o próprio jornalismo como acontecimento é perceber a estruturação de seus discursos em um fundo de continuidade, no qual um aspecto inicialmente visto como ruptura, em algum momento pode passar a ser tratado como norma quando entra no circuito de notícias. Nesse fundo de continuidade é que se inscrevem os acontecimentos jornalísticos, que também se estruturam a partir de repetições, deslocamentos e transformações de sentido. Compreender o acontecimento jornalístico como uma prática discursiva é analisar seu funcionamento a partir de sua inscrição em uma Formação Discursiva, pois é partir dela que é possível derivar os sentidos.
Nesta pesquisa, esse é o caminho para se localizar os sedimentos de um passado nos processos de comunicação da memória discutidos por Connerton (1999), mas sem perder de vista o encontro da atualidade de um acontecimento com a memória nos discursos em questão (os sobre as estatísticas oficiais do Brasil divulgadas para a imprensa). A proposta da próxima seção é acrescentar à discussão sobre o acontecimento o diálogo com uma perspectiva teórica que possa auxiliar na compreensão das tensões que se estabelecem no abalo nos quadros de sentidos provocado pelo acontecimento.