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3.3 IGUAIS, MISCIGENADOS E SEGREDAOS: POSSIBILIDADES DA

3.3.3 Memória e segregação como temas geradores

A proposta de Educação Popular de Paulo Freire (2005) é a de uma pedagogia pautada pela práxis emancipatória, realizada com os sujeitos oprimidos em uma constante reflexão-ação mediada pelo mundo e que visa a superação das relações baseadas na opressão, ou seja, a libertação de oprimidos e opressores. Freire sugere ao educador popular que adote os temas emergentes da própria época dos educandos como propulsores do diálogo educacional. A partir de uma percepção mais aprofundada de sua própria realidade é que o oprimido passa a se perceber como tal. A disjunção entre o senso comum (integração) e a situação real (segregação) de opressão é que permite ao oprimido a auto-percepção. Deslocar-se do pano de fundo da realidade e perceber seu lugar neste cenário, dando luz à consciência crítica constitui o “ato-limite” no qual realiza-se o que diferencia o homem dos demais animais da natureza: a capacidade de perceber a si mesmo.

A situação de convivência entre integração e segregação constitui uma espécie de fetichização da identidade, o que gera antagonismos entre os temas geradores, mitificando a temática, ao mesmo tempo em que faz com que a própria sociedade seja o verdadeiro tema a ser debatido.

Nas palavras de Paulo Freire:

No momento em que uma sociedade vive uma época assim, o próprio irracionalismo mitificador passa a constituir um de seus temas fundamentais, que terá, como seu oposto combatente, a visão crítica e dinâmica da realidade que, empenhando-se em favor do seu desonvolvimento, desmascara sua mitificação e busca a plena realização da tarefa humana: a permanente transformação da realidade para a libertação dos homens. (FREIRE, 2005, p. 108)

Freire e Santos colocam a necessidade da ruptura com a posta fetichização da igualdade (mas não com o senso comum), sendo a educação um dos processos capazes de gerar esta percepção do homem em si no mundo. Santos (2009) introduz pela ideia de Pedagogia do Conflito, a necessidade de a educação criar “imagens desestabilizadoras”, capazes de romper com a trivialização do sofrimento, incluído aí o sofrimento daqueles que tem negado a si o direito de manter e expressar sua própria cultura.

Para Santos (2009, p. 19):

O projeto educativo emancipatório é um projeto de aprendizagem de conhecimentos conflitantes com o objetivo de, através dele, produzir imagens radicais e desestabilizadoras dos conflitos sociais em que se traduziram no passado, imagens capazes de potenciar a indignação e a rebeldia. Educação, pois, para o inconformismo, para um tipo de subjetividade que submete a uma hermenêutica de suspeita a repetição do presente, que recusa a trivialização do sofrimento e da opressão e veja neles o resultado de indesculpáveis opções.

Boaventura de Sousa Santos parte do pressuposto de que há várias formas de conhecimento, portanto os processos educacionais assumem um caráter mais complexo do que a emissão e recepção de conhecimentos42, que implicaria em ir do ponto A (desconhecimento) ao ponto B (conhecimento). Ao contrário disto, assume que inserir-se nos processos educacionais por vezes implica em ir de um tipo de

42

Poderíamos aqui sem prejuízo de entendimento adotar a concepção bancária de educação dada por Paulo Freire na Pedagogia do Conflito.

conhecimento à outro, o que pode implicar em desconhecer tantas outras coisas, inclusive despir-se de seu próprio conhecimento inicial, em uma espécie de aculturamento. Caberia ao pensamento emancipatório proporcionar que o sujeito em emancipação aprenda outros conhecimentos sem desfazer-se de seus próprios saberes. Há aqui uma continuidade, uma relação dialética entre o senso comum e a emancipação, e não uma ruptura epistemológica como aquela que pressupõe o pensamento hegemônico, onde os saberes populares opõem-se aos saberes científicos. Para Santos (2009, p. 19) “o conhecimento só suscita o inconformismo na medida em que se torna senso comum, o saber evidente que não existe separado das práticas que o confirmam”.

Assim como a práxis educacional proposta por Paulo Freire pretende transformar educadores e educandos, a Pedagogia do Conflito proposta por Santos pretende transformar as próprias práticas educacionais, o que caracteriza também uma opção política. Ao optar por valorizar definições emergentes e alternativas ao invés das concepções clássicas e hegemônicas, Santos propõe que se equacione o conflito ético da aplicação do conhecimento que criou a separação entre técnica e ética, ou entre ciência-regulação e ciência-emancipação, mas também as dicotomias raciais que impedem o aprendizado e reconhecimento mútuo entre comunidades etnicamente diferenciadas.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A idealização do projeto de pesquisa que transformou-se no presente trabalho, conforme já explicado na introdução, é fruto de inquietações pessoais com a invisibilidade do negro a região das missões. A realização do projeto sofreu algumas dificuldades, a maioria delas relacionada à própria falta de interesse do campo das ciências sociais acerca do assunto, a pequena bibliografia, gerada pelo interesse de alguns historiadores em refutar os argumentos que reforçam a ideologia da integração racial gaúcha, foi grande valia. Porém, o fato de os trabalhos críticos representarem uma pequena parcela da bibliografia encontrada, demonstra que, tratando-se das relações étnicas e identitárias nas missões, a imensa maioria das pesquisas realizadas reforça a identidade missioneira, consequentemente reforça a ideia de que a região teve sua ocupação e formação cultural ligada somente às reduções jesuíticas. Na identidade missioneira, senso comum e ciências sociais (em sua maioria) reforçam-se e legitimam-se mutuamente, ainda que representem diferentes esferas de influência.

No tocante às relações étnico-raciais na região, concluímos que as mesmas não diferem muito da forma de relações desenvolvidas em grande parte do país, indo no sentido da integração geral a uma identidade hegemônica, a missioneira. Esta identidade, considerada capaz de representar a região em termos artísticos, patrimoniais e turísticos, tem suas fronteiras identitárias construídas na relação de diferenciação com a identidade regional predominante, o gauchismo, porém, ao estabelecer-se e ser aceita socialmente, deixando a marginalidade, torna-se também dominante, de modo a estabelecer um campo de poder simbólico ao qual estão sujeitas as demais identidades locais. Estas outras identidades dialogam com o missioneirismo de modo diverso, seja através da hibridização, como no caso dos

descendentes de imigrantes europeus, ou da invisibilidade, como no caso dos negros.

O título inicial da pesquisa foi “Negritude em terra missioneira”, porém a dificuldade em localizar os sujeitos afro-descendentes capazes de através de um posicionamento étnico-racial ativo, que sustentem e ostentem a negritude, fez com que o próprio título fosse modificado. Não há como tratar da negritude quando os próprios sujeitos negros da região identificam-se como “morenos”, criando uma identidade acoplada ao missioneirismo, porém à parte desta, sendo reconhecidos pelos próprios missioneiros como um elemento alheio à sua matriz identitária.

Pesquisar o negro nas missões é um ato inicial de descolonização do pensamento regional missioneiro, de rompimento com a opressão do racismo, mascarado sob as práticas cotidianas, nas expressões, nas piadas, e nas práticas institucionalizadas, como o próprio sistema educacional formal. Porém, conforme nos ensina Paulo Freire, a reflexão e a ação não podem ocorrer desarticuladas, a práxis emancipatória deve ocorrer com os sujeitos da ação. Infelizmente devido aos limites de tempo para execução da presente pesquisa não foi possível executar o momento de reflexão com os sujeitos da ação, os afro-descendentes locais, personificados nos freqüentadores mais antigos do Clube Imperatriz. Ainda assim, acreditamos que é nestes sujeitos que reside o caminho para uma melhor compreensão das relações étnico-raciais locais, bem como a possibilidade de desenvolvimento de práticas de Educação Popular.

Os depoimentos colhidos nos momentos de observação participante, e nas representações artísticas do missioneirismo, revelam a existência de um ideário acerca do negro, formando estereótipos e estigmas que vão no sentido de reforçar e generalizar a ideia que me instigou à pesquisa: a sensação de deslocamento. Constantemente é reproduzida e transmitida aos negros, nos mais diversos locais a mensagem de que este não é seu lugar, seja por não terem participado da história local, seja por lembrarem um passado escravocrata que nos envergonha a todos, seja por serem minoria numérica no estado e na região, um povo “sem origem”. É preciso romper com a reprodução do conteúdo desta mensagem, reconstruir canais de compreensão e cooperação mútua, dando visibilidade ao que se julgava inexistente.

Retornando ao posto na introdução do presente trabalho, é preciso alargar a noção de “quem somos nós”, retomando o papel da contribuição do negro na

construção da sociedade regional, revendo as relações étnico-raciais de modo a livrá-las do racismo opressor, para que possamos responder positivamente à pergunta “(Nós e os outros) Podemos viver juntos?”. A pesquisa e a educação têm papel central neste processo, e para além dos objetivos acadêmicos propostos pelo presente trabalho, acreditamos que se o mesmo puder instigar o surgimento de mais colaborações deste campo de pesquisa, seu objetivo social também terá sido cumprido a contento.

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