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FUNÇÕES CONATIVAS, COGNITIVAS E EXECUTIVAS

2.4 MEMÓRIA

Segundo Luria (1981) o desenvolvimento da memória é apresentado em três estágios: da memória natural, mediada e internalizada. A memória natural é inata e concreta, própria de crianças que não possuem linguagem. A memoriza-ção mediada se refere a memória que organizada pela linguagem e com predomi-nância do uso de signos externos. Já a memória internalizada é quando a lingua-gem e os signos externos passam a ser internos.

A memória natural está ligada a experiência imediata com um objeto.

Esse tipo de memória não é unicamente humana. Segundo Luria (1979), acon-tece um registro de experiências não voluntárias, acumulam-se informações, que serão utilizadas em outros momentos. A memória natural não é consciente. Quan-do lembramos de uma música involuntariamente e fi camos cantarolanQuan-do, não conseguindo esquecer estamos falando da memória natural. Ou quando entramos em um ambiente e sentimos um cheiro que nos lembra uma pessoa, automatica-mente nossa memória natural está sendo ativada. A memória natural é formada pelas experiências perceptivas que o sujeito vivencia. A memorização não é regu-lada conscientemente, voluntariamente.

A linguagem está estritamente ligada a memória consciente e voluntaria. A memória mediada está relacionada com as experiências vivenciadas pela crian-ça, e é relatada por intermédio de mediação simbólica. Por exemplo, quando a criança olha a rotina da escola, ela se recorda sobre as coisas que terá que fazer durante o dia. O mesmo acontece quando o aluno anota os tópicos essenciais do conteúdo no caderno e depois refaz a leitura do que escreveu para lembrar do conteúdo abordado. Um outro exemplo de memória mediada, é quando utilizamos agendas, listas de afazeres para nos organizarmos e lembrarmos do que necessi-tamos. (LURIA, 1979)

A memória mediada é consciente e depende de uma organização social ex-terna para ajudar na recordação da informação que queremos. Nesse momento, quando indagado sobre algum conteúdo, enunciará as experiências perceptivas que já teve em relação a ele. Assim, o colo da mãe poderá ser defi nido como algo acolhedor e macio (LURIA, 1981).

Segundo Vigotski (2009) quando são utilizados signos externos para se lem-brar de algo, delineia-se a memória mediada. Nos homens primitivos este nível foi atingido quando marcas nas paredes eram utilizadas para fi gurar uma ampla situação vivida. Nessas situações a memória é socialmente elaborada. Assim, o segundo estágio é atingido quando o sujeito consegue utilizar um auxiliar externo para executar um raciocínio. Se aprendo a me organizar com recursos sociais para recordar uma informação, estou desenvolvendo a memória mediada.

Segundo Mukhina (2005) o comportamento das crianças da fase pré-escolar é direto e natural enquanto na fase adulta, os signos externos modifi cam-se em signos internos. Signos externos e internos têm funções diferentes. Os externos servem para o controle do comportamento, levando a transformação nos objetos e são utilizados no contexto social. Já no caso dos signos internalizados, a ati-vidade interpessoal passa a ser intrapessoal. Eles servem para comunicação e autorregulação.

Quando o sujeito é organizado internamente por um signo para lembrar de uma situação ela encontra-se no último e mais avançado estágio de memoriza-ção, que a memória internalizada, ou seja, quando o mesmo é capaz de recordar uma informação mentalmente. Esta capacidade está estritamente ligada com a associação de ideias e conservação de informações. Exercícios que trabalham as habilidades de linguagem são fundamentais para o desenvolvimento da memória internalizada. Atividades de mapas mentais e auxiliam no desenvolvimento dessa capacidade (VIGOTSKI, 2009).

FIGURA 11 - MAPA MENTAL CONCEITUAL

FONTE: Manual Papaterra, 2014

Os mapas mentais formam criados pelo psicólogo Tony Buzan, sendo, basicamente, cadeias de associações de ideias que nos levam a perceber os de-talhes e as diversas possibilidades de uma informação. Atividades assim podem iniciar em um aspecto mais simples e se desenvolvem em uma cadeia organizacio-nal mais complexa, promovendo o desenvolvimento da linguagem e da memória (LIMONGI, 2008).

Tais atividades trabalham a capacidade de recuperação da informação, sendo excelentes para o desenvolvimento da habilidade de memória internalizada.

Não quer dizer que os signos externos deixam de ser utilizados. O sujeito continua controlando seu próprio pensamento através de signos que auxiliam a memória:

como por exemplo, a utilização de calendário, agenda e listas (LURIA, 1979).

Para obter ideias de atividades que auxiliam na intervenção da aprendizagem cognitiva, sugerimos as leituras da coleção dos Manuais Papaterra (2008) da Fernanda Limongi. Tais materiais possuem fundamentação teórica na neuropsicologia e são excelentes recursos na intervenção cognitiva.

2.5 LINGUAGEM

Quando a criança nasce a primeira linguagem que possui é o choro e seus movimentos. Por volta dois meses iniciam-se os primeiros balbucios, que são ex-pressões vocálicas sem signifi cação verbal. A partir desse momento a criança, em interação com o mundo externo, começa a desenvolver uma linguagem marcada pelas expressões do seu corpo em contato com o meio. Mais tarde a criança co-meça a vocalizar as primeiras palavras, e nesse momento a palavras isoladas são pronunciadas pela criança, por exemplo, a criança fala: “mamãe, papai, dodói, água” etc. A palavra isolada tem o sentido generalista. Ao falar “mamãe” a crian-ça tenta comunicar um contexto, ou seja, se a criancrian-ça esticar os braços e dizer

“mamãe” ela está querendo comunicar: “mamãe quero colo” (VIGOTISKI, 2009;

LURIA, 1979).

Posteriormente, a criança começa a formular frases com duas palavras: “ma-mãe água”, “papai dodói”, também com sentido generalista, mas nesse momento mostra a ampliação do vocabulário. Conforme cresce o repertório de vocabulário

da criança começa a ser estruturando as frases com sequência e coesão (VIGO-TISKI, 2009; LURIA, 1979).

Nesse momento de ampliação de vocabulário a criança imita e repete a fala do adulto, sendo esta fala modelo para organização de suas ideias, ou seja, a fala do adulto é orientadora da futura fala da criança, organizando suas ideias. Nesse mo-mento, é importantíssimo o modelo para o desenvolvimento da fala da criança. Nar-rar situações, explicar com clareza, indagar a criança, cantar músicas com a criança e contar histórias é essencial para seu desenvolvimento linguístico (LURIA, 1979).

A palavra do adulto é mediadora no desenvolvimento da criança. A palavra possui a função de categorizar e conceituar os objetos, o que possibilita um sis-tema de complexos enlaces e relações abstratas, que denominamos de genera-lização. Dessa forma, a palavra tem a função de analisar o mundo e está estrei-tamente ligada ao processo de formação de conceitos. Neste processo, o sujeito interage com os elementos culturais organizados pela sociedade, sendo essa in-teração direcionada pelas palavras que designam categorias culturalmente orga-nizadas (VIGOTISKI, 2009; LURIA, 1979).

Propiciar atividades que ampliam o vocabulário da criança são importantes para esse desenvolvimento. Nomeação de objetos, atividades de músicas, cota-ção de histórias, brincadeiras simbólicas e jogos são excelentes atividades para desenvolver a linguagem (VIGOTSKI, 2007).

É importante que as músicas sejam cantadas por adultos junto com a crian-ça, vídeos com músicas não auxiliam nesse desenvolvimento. A criança necessita do modelo da fala do outro para se organizar. Sentir o tom e timbre de voz e a ex-pressão facial para aprender com a fala do outro. O vídeo não proporciona esses estímulos que só são fi rmados no contato direto com o outro. Estudos referentes a neurociências apontam que a música permite a estimulação de várias áreas do cérebro humano, proporcionando um desenvolvimento linguístico que envolve atenção, memória e percepção (LURIA, 1981).

A brincadeira propicia a ampliação de vocabulário, a organização do pensa-mento e de ideias e o desenvolvipensa-mento da criatividade. Ao brincar de faz de conta ou atribuir signifi cado social a um brinquedo (brincar com carrinho, boneca, fazer comidinha), faz com que a criança amplie seu repertório linguístico. O mesmo se dá ao contar literaturas, conversar com a criança, explicar situações cotidianas e explicar suas funções também são essenciais para o desenvolvimento da lingua-gem (VIGOTISKI, 2009; LURIA, 1979).

Atividades de categorização e associação verbais são essenciais para o de-senvolvimento da linguagem. Nesse contexto, jogos também são excelentes

recur-sos para desenvolver a habilidade linguística de vocabulário, organização de ideias e comunicação. Jogos de adivinhação (cadê, quem sou eu, cara a cara, charadas), sequência de histórias (detetive, pitchureca, conta um conto, continua a história) e categorização de ideias (perfi l e mapas mentais) auxiliam a desenvolver habilida-des linguísticas de ampliação de vocabulário, organização de ideias, associação de ideias, categorização verbal e pensamento generalizante (LURIA, 1981).