3.1.A LITERACIA NO CENTRO DO MOVIMENTO REFORMADOR
A historiografia sobre a Idade Média, influenciada pela Antropologia e pela Crítica Literária, tem procurado desde os anos 1970 compreender os distintos modos como o Homem medieval se relacionou com a leitura, a escrita e os artefactos que as suportam, assim como as implicações que estas técnicas tiveram nos processos sociais e mentais. Os medievalistas pretenderam completar um inquérito focado quase exclusivamente nos mundos Antigo e Moderno, que ignorava frequentemente os contextos medievais. As suas aportações historiográficas mostraram que o estudo da literacia não pode apenas focar-se na dimensão escrita, mas também no modo como a comunicação oral complementa, substitui e compete com a comunicação escrita1. A extensa bibliografia produzida nas últimas décadas revelou um significativo aprofundamento da literacia nos séculos finais da Idade Média. O incrível aumento da produção escrita causou transformações profundas nos hábitos de pensamento daqueles que se relacionaram com os textos. Do século XIII ao XV verifica-se uma progressiva transferência da memória oral para o suporte escrito, consolidam-se modos de relação com a matéria escrita que permitem uma maior compreensão da mesma, assim como emerge a noção reificada do texto, com existência autónoma, separada da sua configuração física no livro. Charles F. Briggs sustenta que a centúria de Trezentos conheceu avanços muito expressivos no que diz respeito aos usos académicos e administrativos da literacia, efectivando-a definitivamente como instrumento de poder por parte das instituições eclesiásticas e governamentais. O autor sublinha ainda como os séculos XV e XVI viram afirmar a literacia leiga e vernacular, bem como a procura generalizada da matéria escrita, que culminaria na invenção e disseminação da imprensa2.
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Cf. Charles F. Briggs, “Literacy, reading, and writing in the medieval West”, Journal of Medieval History, vol. 26, n.º 4, 2000, pp. 397-420.
2
No seu ensaio historiográfico, Charles F. Briggs, “Literacy, reading and writing…”, pp. 418-419, alerta, no entanto, para a importância que a oralidade continuaria a conhecer na sociedade europeia, nomeadamente em contexto universitário, ao nível das práticas litúrgicas e homiléticas e na sustentação oral das mentalidades religiosas e políticas. Sobre a procura social de literatura devocional e moral impressa e o papel das imagens na relação que mantêm com os textos, veja-se Martha W. Driver, “Pictures in Print: Late Fifteenth- and Early
145 O inusitado lugar ocupado pelas mulheres constitui um dos fenómenos mais marcantes no processo de laicização da cultura verificado em finais da Idade Média. Tanto em contexto doméstico como monástico, a participação cada vez mais expressiva do género feminino em actividades literárias reservadas tradicionalmente aos homens levou Josephine A. Koster a reavaliar o próprio conceito medieval de letrado, identificado com o domínio da língua latina3. Para a autora, a evidência empírica dos séculos que se seguiram ao período escolástico mostra que o conceito de literacia se alarga também àqueles que usam o vernáculo enquanto modo mecânico de comunicação. Na linha dos trabalhos de Susan Groag Bell4 e de David N. Bell5, a autora sustenta que a literacia feminina reside já não apenas no domínio do Latim, mas nos variados modos de relação estabelecidos com os textos, latinos e vernaculares, por meio de cópia, da composição escrita e da leitura. Para Susan Groag Bell, a influência das mulheres na transformação cultural verificada nos finais da Idade Média pode ser avaliada através das relações que mantiveram com a matéria escrita. Segundo a autora, a posse feminina de livros influenciou substancialmente o desenvolvimento da piedade leiga e da literatura em língua vulgar6. A empiria mostra que a aquisição de obras literárias – entendidas aqui em sentido muito amplo, enquanto livros,
Sixteenth-Century English Religious Books for Lay Readers”, in De Cella in Seculum. Religious and Secular Life and Devotion in Late Medieval England, ed. Michael G. Sargent, Brewer, Cambridge, 1989, pp. 229-244. Para uma visão global dos impactos da literacia leiga nos seus processos de participação e integração religiosa, Eamon Duffy, The Stripping of the Altars. Traditional Religion in England, 1400-1580, 2.ª ed., Yale University Press, New Haven e Londres, 2005, pp. 68-87.
3 Josephine A. Koster, “’I have traveled a good deal in Norfolk’: Reconsidering Women’s Literacy in Late
Medieval England”, Postscript, vol. 24, 2006, pp. 24-39.
4
Susan Groag Bell, “Medieval Women Book Owners: Arbiters of Lay Piety and Ambassadors of Culture”, in Sisters and Workers in the Middle Ages, ed. Judith M. Bennett et al., University of Chicago Press, Chicago e Londres, 1989, pp. 135-161.
5
David N. Bell, What Nuns Read: Books and Libraries in Medieval English Nunneries, Cistercian Publications, Kalamazoo, 1995.
6 Abundante bibliografia tem sido produzida acerca do processo de vulgarização da literatura medieval em
finais da Idade Média, associada não apenas à laicização da literacia, mas também ao concomitante processo de feminização. Refira-se, a título de exemplo, o trabalho de Carol M. Meale, “’…alle the bokes that I haue of latyn, englisch, and frensch’: laywomen and their books in late medieval England”, in Women and Literature in Britain, c. 1150-1500, ed. Carol M. Meale, Cambridge University Press, Cambridge, 1993, pp. 128-158; um conjunto de estudos reunidos em The Vernacular Spirit: Essays on Medieval Religious Literature, ed. Renate Blumenfeld-Kosinski, Ducan Robertson e Nancy Bradley Warren, Palgrave, Nova Iorque, 2002, nomeadamente, pela sua proximidade espacial e cronológica à realidade que aqui me ocupa, o trabalho de Ronald E. Surtz, “Female Patronage of Vernacular Religious Works in the Fifteenth-Century Castile: Aristicratic Women and their Confessors”, ibidem, pp. 263-282, assim como o de Elizabeth Teresa Howe, “Cisneros and the Translation of Women’s Spirituality”, ibidem, pp. 283-295. Refira-se também a colectânea de estudos publicados em Saints, Scholars, and Politicians. Gender as a Tool in Medieval Studies. Festschrift in Honour of Anneke Mulder- Bakker on the Occasion of her Sixty-fifth Birthday, ed. Mathilde van Dijk e René Nip, Brepols, Turnhout, 2005, onde alguns dos autores se detêm sobre a questão da literatura vernacular destinada a comunidades femininas, nomeadamente no contexto dos movimentos reformadores e devocionais tardo-medievais.
146 independentemente do seu conteúdo – por mulheres leigas da realeza, da nobreza e de elevados estratos da burguesia se verificou através de compra7, de oferta e herança8, de encomenda e patrocínio9 – a que acrescentaria a sua própria composição10 – fenómeno cujo incremento se verifica a partir do século XIV, aumentando exponencialmente no século seguinte. Susan Bell defende ainda que a especial relação que estas mulheres mantiveram com os livros se explica pelo seu afastamento das instituições de ensino e da vida clerical, avivando ainda mais a necessidade de alimento espiritual oferecido pelos livros; envolvendo-se de perto com a literatura devocional, cuja fruição na privacidade se mostrava inofensiva aos olhos de sectores mais ortodoxos. Enquanto educadoras dos seus
7
Veja-se a título de exemplo, o trabalho de Joan A. Holladay, “Fourteenth-century French queens as collectors and readers of books: Jeanne d’Evreux and her contemporaries”, Journal of Medieval History, vol. 32, 2006, pp. 69-100, paradigmático tanto do ponto de vista do caso estudado como em termos metodológicos.
8
Cf. o estudo de Anne M. Dutton, “Passing the Book: Testamentary Transmission of Religious Literature to and by Women in England, 1350-1500”, in Women, the Book and the Godly. Selected Proceedings of the St. Hilda’s Conference, 1993, ed. Lesley Smith e Jane H. M. Taylor, Boydell and Brewer, Cambridge, 1995, pp. 41-54, no qual a autora procede a uma análise estatística das referências a livros colhidas num enorme conjunto de testamentos, complementada com o estudo de alguns inventários. O volume de dados reunidos permite-lhe avançar com algumas conclusões em torno de categorias como o estatuto social das protagonistas envolvidas nas transmissões de livros, predominantemente de origem nobiliárquica e religiosa; a predominância da literatura vernacular e a proximidade das referidas mulheres a movimentos devocionais, de natureza herética ou ortodoxa.
9
Destaco aqui dois exemplos portugueses, o de uma senhora leiga, a rainha D. Leonor, protectora e mecenas de movimentos observantes, que ficou associada à posse de uma livraria expressiva e à encomenda de diversas obras impressas, como O Livro de Vita Christi, de Ludolfo Cartusiano, impresso na oficina de Valentim Fernandes e Nicolau de Saxónia, em Lisboa, 1495, que tratarei mais adiante a propósito da oferta de um exemplar que a rainha fez ao Mosteiro de Jesus de Aveiro; Os Autos dos Apostolos, de Bernardo de Brihuega, impresso por Valentim Fernandes, em Lisboa, 1505; o Boosco Deleytoso, impresso por Hermão de Campos, em Lisboa, 1515 e o Espelho de Cristina, de Cristina de Pisano, impresso na mesma oficina, em 1518. Cf. Ivo Carneiro de Sousa, A Rainha D. Leonor (1458-1525). Poder, Misericórdia, Religiosidade e Espiritualidade no Portugal do Renascimento, Fundação Calouste Gulbenkian e Fundação para a Ciência e a Tecnologia, Lisboa, 2002, especialmente as pp. 641 e ss., assim como as pp. 889-922. Mas também o exemplo de D. Isabel (1397- 1471), filha de D. João I, Duquesa de Borgonha pelo seu casamento com Filipe, o Bom, estudada neste âmbito por Charity Cannon Willard, “The Patronage of Isabel of Portugal”, in The Cultural Patronage of Medieval Women, ed. June Hall McCash, University of Georgia Press, Athens, 1996, pp. 306-320. Isabel ficou associada não apenas ao patrocínio de obras de arte como à tradução de prosa didáctica tanto para língua portuguesa, como O Livro das Três Virtudes, de Cristina de Pisano; a Imitação de Cristo, de Tomás de Kempis; como para francês, como o Triunfo de las Doñas, de Juan Rodríguez de la Cámera; para além da cópia de outros títulos indicados pela autora.
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Cf. Peter Dronke, Women Writers of the Middle Ages. A Critical Study of Texts from Perpetua († 203) to Marguerite Porete († 1310), Cambridge University Press, Cambridge, 1984; Katharina M. Wilson (ed.), Medieval Women Writers, The University of Georgia Press, Athens, 1984; Elizabeth Alvilda Petroff (ed.), Medieval Women’s Visionary Literature, Oxford University Press, Oxford e Nova Iorque, 1986; Julia Boffey, “Women authors and women’s literacy in fourteenth- and fifteenth-century England”, in Women and Literature in Britain, 1150-1500, ed. Carol M. Meale, Cambridge University Press, Cambridge, 1993, pp. 159- 182.
147 filhos, exigiam instrumentos pedagógicos11. Afastadas do conhecimento da língua latina, desempenharam um importante papel na tradução de textos para as suas línguas maternas. Mais ainda, a audiência feminina inspirou frequentemente os próprios temas dos livros – via texto e iconografia – e no âmbito dos seus movimentos ditados por razões matrimoniais, as mulheres jogaram um significativo papel na difusão de ideias e conteúdos estéticos12.
O contexto feminino que mais cedo esteve associado ao desenvolvimento de competências literárias foi, sem dúvida, o ambiente monástico13. Os documentos normativos, a maioria deles decalcados dos textos dirigidos aos ramos masculinos das ordens, foram os primeiros a estimular a literacia das religiosas. A razão fundamental da formação intelectual das monjas e freiras medievais decorre, desde logo, das suas obrigações litúrgicas, devocionais e, em termos mais latos, espirituais, meditativas e contemplativas. É por isso frequente encontrar não apenas referências a irmãs instruídas, que lêem, transcrevem e redigem com proficiência, mas também a centros de estudos destinados à formação das próprias habitantes das casas monásticas que chegam inclusivamente a receber crianças de famílias abastadas. Michel Parisse14 sustenta que até ao ano mil as grandes abadias beneditinas dos territórios franceses, alemães e italianos mantinham os seus centros de produção escrita, que registaram um significativo
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Para uma visão geral da participação das mulheres dos mais elevados estratos da sociedade medieval nos centros educativos, monásticos ou domésticos, assim como sobre os conteúdos das suas aprendizagens, nomeadamente do Latim, veja-se Joan M. Ferrante, “The Education of Women in the Middle Ages in Theory, Fact, and Fantasy”, in Beyond Their Sex: Learned Women of the European Past, ed. Patricia H. Labalme, New York University Press, Nova Iorque e Londres, 1980, pp. 9-42. A autora foca principalmente o período que vai até aos séculos XII-XIII, sublinhando a progressiva exclusão feminina do ensino que acompanhou a emergência e consolidação dos sistemas universitários e a consequente “profissionalização” dos estudos. Joan Ferrante destaca, no entanto, um conjunto de mulheres medievais que se singularizaram pelos seus elevados níveis de literacia e pelo papel de relevo que desempenharam nos campos da medicina e da literatura.
12 Susan Groag Bell, “Medieval Women Book Owners…”, pp. 135-161. Para o caso português, ainda que, como
reconhece Maria de Lurdes Rosa, os estudos sobre literacia religiosa escasseiem entre nós, vejam-se as palavras que a autora dedica ao problema da participação dos leigos na produção, consumo e circulação de prosa ou poesia religiosa e moralística, com indicação de extensa bibliografia, no seu ensaio “Sociabilidades e espiritualidades na Idade Média: A historiografia portuguesa sobre os comportamentos religiosos dos leigos medievais”, Lusitania Sacra, 2.ª Série, tomo XXI, Da História Eclesiástica à História Religiosa, 2009, pp. 95-100.
13 Vejam-se os numerosos exemplos evocados por Suzanne Fonay Wemple, “As mulheres do século V ao
século X”, in História das Mulheres no Ocidente, dir. Georges Duby e Michelle Perrot, vol. 2, A Idade Média, dir. Christiane Klapisch-Zuber, Afrontamento, Porto, 1993, pp. 261-265, por Chiara Frugoni, “A mulher nas imagens, a mulher imaginada”, ibidem, pp. 493-509 e ainda por Danielle Régnier-Bohler, “Vozes literárias, vozes místicas”, ibidem, pp. 517-591. Vejam-se igualmente as palavras que Penelope D. Johnson dedica ao problema da literacia feminina em ambiente monástico nos séculos centrais da Idade Média, em Equal in Monastic Profession. Religious Women in Medieval France, The University of Chicago Press, Chicago e Londres, 1991, pp. 144-147.
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148 crescimento a partir do século XIII, nomeadamente entre os mosteiros cistercienses, os conventos mendicantes e as beguinarias. Ainda que os catálogos das suas bibliotecas não sejam muito frequentes, o conjunto dos testemunhos sobreviventes e as menções indirectas permitem valorizar as casas das religiosas como repositórios de uma variedade de livros que serviam a liturgia, a devoção, a meditação e a lição da mesa. O autor assinala, no entanto, que para uma boa parte das actividades quotidianas não havia necessidade de muitos exemplares, uma vez que a repetição à saciedade dos conteúdos das horas canónicas facilitava a sua memorização; embora sejam estes que, muito provavelmente pelo seu uso persistente, chegaram em maior número até nós. As leituras pessoais e comunitárias, nomeadamente às refeições, exigiam uma maior variedade temática e competências necessárias à sua leitura, compreensão, interpretação e discussão ou comentário.
A significativa expressão da literacia feminina em contexto monástico foi magistralmente estudada por David N. Bell que, em What Nuns Read, para além de apresentar, em extenso apêndice15, a lista dos livros conservados, outrora pertencentes a sessenta e cinco casas religiosas inglesas até à sua dissolução em 1540, o autor estrutura o seu estudo de acordo com um conjunto de categorias que convém aqui resumir. David Bell começa por rever as condições do crescimento da produção e circulação de livros manuscritos a partir do século XIV e o impulso que a imprensa haveria de incutir nesse processo a partir de meados do século seguinte16. No que se refere em particular aos seus modos de aquisição pelos mosteiros, o autor destaca a compra, a doação e a cópia como os meios mais comuns, dando particular relevo às doações que os familiares das freiras frequentemente lhes faziam. Do conjunto dos livros que pôde contabilizar, a sua esmagadora maioria data dos séculos XV-XVI, assim como um pouco mais de metade deles
15 David N. Bell, What Nuns Read…, pp. 103-217. O autor reavaliou recentemente as conclusões deste estudo à
luz da extensa bibliografia que, de então para cá, foi produzida em torno do assunto (“What Nuns Read: The State of the Question”, in The Culture of Medieval English Monasticism, ed. James G. Clark, Boydell, Woodbridge, 2007, pp. 113-133).
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O autor atribui esse aumento à descida dos preços dos livros, no contexto do crescimento do mundo universitário e ao progressivo processo de secularização do ensino e à procura cada vez maior de literatura vernácula por parte dos leigos. O uso da escrita cursiva, de redacção mais abreviada, a utilização de cadernos na composição dos livros, o aumento do mercado livreiro, nomeadamente em segunda mão, o uso cada vez mais generalizado do papel e a produção de livros de dimensões mais pequenas destinados à leitura pessoal, todos estes factores contribuíram para a generalização, divulgação e acesso à matéria escrita. Ainda que estes objectos continuassem a ser vistos como objectos de luxo, a redução dos seus preços fez com que pudessem ser adquiridos por um número maior de pessoas (Idem, ibidem, pp. 7-32).
149 podem ser incluídos na categoria dos livros litúrgicos. De entre estes, quase metade é representada por saltérios, colecções de salmos rezados ou cantados na Liturgia das Horas. Enquanto estes são escritos em Latim, os livros não litúrgicos são-no maioritariamente em inglês, sejam eles traduções ou originais em vernáculo17.
David Bell chama a atenção para os diferentes níveis de competência literária que as religiosas detinham. Ainda que houvesse uma grande preocupação em relação à destreza com que deviam exercer os seus deveres litúrgicos e devocionais é natural que nem todas fossem niveladas pela mesma medida e é por essa razão que às menos dotadas lhes fossem exigidos desempenhos mínimos, como saber rezar as orações fundamentais, o Pater Noster e a Ave-Maria18. O historiador britânico distingue quatro níveis de literacia: no primeiro inclui aqueles e aquelas que sabem ler, designadamente os textos latinos, sem compreender o seu sentido; no segundo, os que lêem e compreendem um texto litúrgico comum; no terceiro, os que lêem e compreendem textos não litúrgicos e textos litúrgicos menos comuns; no quarto e último nível, os que conseguem redigir um texto próprio19. O autor alerta para o facto de os textos latinos integrantes de colecções monásticas não deverem ser desprezados como irrelevantes. Ainda que nos finais da Idade Média a literacia vernácula recrudesça em face do decréscimo da literacia latina, isso não significa que não continuasse a haver religiosas capazes de ler e compreender textos latinos não litúrgicos. No que diz respeito às competências relacionadas com a escrita, também aqui é possível distinguir níveis de literacia, entre as que conseguiam transcrever, as que redigiam textos originais e as que traduziam. David Bell assinala o facto de dois terços dos livros que inventariou datarem do período pós-1400 e destes últimos, dois terços da literatura não litúrgica usar o vernáculo. Aliás, parte significativa destes livros são mesmo novidades do seu tempo, o que contrasta com os testemunhos encontrados nas bibliotecas masculinas,
17
Idem, ibidem, pp. 33-56.
18
Cf. Constituições, pp. 295 e 301.
19 David N. Bell, What Nuns Read…, pp. 59-60. Também Paul Saenger, “Books of Hours and the reading habits
of the Later Middle Ages”, Scrittura e civilità, vol. 9, 1985, pp. 239-269; Idem, “Silent Reading: Its impact on Late Medieval Script and Society”, Viator, vol. 13, 1982, pp. 367-414, distingue dois tipos de literacia: a literacia fonética (em que o leitor consegue ler, sílaba a sílaba, as palavras, pouco compreendendo acerca do texto) e a literacia compreensiva (segundo a qual o leitor lê e compreende, palavra a palavra, o sentido geral e as ideias particulares). O autor defende que muitas religiosas eram foneticamente letradas em Latim e eram compreensivamente letradas nas línguas vernáculas. Paul Saenger sustenta que o facto de certas freiras usarem nos seus escritos algumas expressões latinas não significa que compreendessem aprofundadamente o Latim.
150 mais conservadoras. É necessário, portanto, reavaliar as assunções tradicionais que associam a iliteracia às religiosas, nomeadamente quanto à sua dimensão latina. Sem se posicionar num revisionismo radical, David Bell prefere reexaminar certas crenças tradicionais, até porque os níveis de literacia a que se refere são aplicáveis tanto às freiras como aos religiosos20.
Katherine Gill, ao analisar a produção de literatura vernácula em finais da Idade Média, defende mesmo o papel exemplar que os mosteiros femininos italianos tiveram na promoção de textos religiosos, à imagem daquilo que se vai documentando um pouco por toda a Europa21. Assumindo um conceito de texto muito amplo, entendido no seu contexto social, tendo em conta tanto o horizonte de expectativa nutrido pelo autor como o entusiasmo demonstrado pelo público a que se dirige, a autora analisa a literatura religiosa em italiano de um ponto de vista estratificado, reconhecível na participação colaborativa de