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Para compreender a história de vida de imigrantes okinawanos no processo imigratório para a colônia CAPEM, a concepção de memória como construção social se apresenta como um constructo teórico importante. O processo de partida, de chegada e estabelecimento no novo espaço foi nesta pesquisa objetos de reflexão, com o intuito de elucidar os elementos articuladores das identificações acionados pelos sujeitos sociais. Se aqui depreende que nesse processo imigratório a memória é elaborada na interligação e articulação de vários referenciais que são acionados pelos sujeitos sociais como fonte da ligação social com a construção da identidade, pode-se afirmar que é na negociação dos elementos identitários que os imigrantes reelaboram a memória.

Nesse sentido, a concepção sociológica da memória do francês Halbwachs contribui para pensar a articulação da memória coletiva com a pessoal e a construção da identidade. Para este autor, a memória individual não se fecha em si mesma, mas recorre às lembranças dos outros para acessar as suas próprias que fazem parte do tempo social do grupo. A memória individual vai se completar, se apoiar e se entrelaçar à memória social, de forma que “toda história de nossa vida _______________

18 RÜSEN, op. cit., 2014, p.76.

19 FERREIRA, Marieta de Moraes; AMADO, Janaína (Coord.). Usos & abusos da história oral. 8.

ed. Rio de Janeiro: Ed. FGV, 2006, p.xi.

faz parte da história geral”. Nessa perspectiva, as lembranças são coletivas, pois

“elas nos são lembradas pelos outros, mesmo que se trate de acontecimentos nos quais só nós estivemos envolvidos, e com objetos que só nós vimos” 20.

Halbwachs ainda observa que, mesmo sozinhos, os sujeitos sociais acionam

“quadros sociais da memória” que dependem de experiências vivenciadas em vários grupos sociais e, portanto, lembrar é uma ação social realizada coletivamente, mesmo que as pessoas não estejam fisicamente presentes. A memória do sujeito está interligada ao seu relacionamento com vários grupos em que participa: familiar, de amigos, profissional, religioso - em resumo, com os grupos de convívio e de referências para a pessoa.

Por essa concepção, Halbwachs considera que a memória da pessoa está interligada à memória do grupo; e esta última está amarrada à memória coletiva de cada sociedade. Tal reflexão do autor está publicada em sua obra póstuma, A Memória coletiva, em 1950. São estudos realizados a partir da década de 20 e abordam a memória na sua dimensão individual enquanto memória coletiva de um grupo21. Esse estudo trouxe elementos relevantes para as subsequentes tendências interpretativas sobre a dinâmica estabelecida entre memória individual e coletiva22. Para o acima referido autor, existe uma relação dialética entre a memória coletiva e a memória individual, mas estas não se confundem, devido, os indivíduos necessitarem das lembranças dos outros para evocar o passado.

Nessa perspectiva, considera-se que há dois tipos de memória: a pessoal e a social ou memória autobiográfica e memória histórica. Na dialética entre essas formas de memória, a primeira se apoia na segunda, considerando que toda história de vida está interligada a uma história em geral. No entanto, é na “história vivida que se apoia a memória como as imagens que estão nas consciências individuais: de guerras, motins, cerimônias nacionais, festas, de meios de locomoção, os trabalhos que transformam as ruas de uma cidade [...]” 23. Esse constructo teórico ainda permite a reflexão de que os grupos sociais, aqui analisados, elaboraram uma memória do seu próprio passado coletivo que articulou o sentimento de identidade ao grupo distinguindo-os dos outros. Mas atualmente considera-se que o sentimento _______________

20 HALBWACHS, Maurice. A memória coletiva. São Paulo: Vértice, 1990, p. 26.

21 Ibid., p.54.

22 Ibid., p.80-81.

23 Ibid., p 55- 61.

de pertença a um grupo social depende muito do contexto e de sua múltipla disposição e vivência dos atores sociais.

Ricoeur mostra que, na concepção sobre a memória coletiva de Halbwachs, há relação do exterior na ação de lembrar como uma consequência externa, de forma que o indivíduo só consegue lembrar a partir da memória do grupo social.

Para Ricoeur, “É no ato pessoal da recordação que foi, inicialmente, procurada e encontrada a marca do social” 24.

Nesse sentido, chega-se à compreensão de que o indivíduo é capaz de lembrar sozinho, apesar da memória individual fazer parte da memória coletiva, mas a memória se modifica conforme o lugar social que a pessoa ocupa. Este lugar também se altera, conforme a interação das pessoas com vários grupos sociais25. É nessa perspectiva que as histórias de vida dos imigrantes japoneses serão analisadas. Na articulação da memória e da identidade, Pollak aponta que

[...] a memória é um elemento constituinte da identidade, tanto individual como coletiva, na medida em que ela é, também, um fator extremamente importante de sentimento de continuidade e de coerência de uma pessoa ou de um grupo em sua reconstrução de si 26.

Nesse sentido, a memória é um elemento que articula a coesão social e entrelaça a identidade a uma memória cultivada nas experiências vivenciadas. De acordo com o mesmo autor, pode-se afirmar que os imigrantes e seus descendentes, ao narrarem suas reminiscências, reconstroem as formas de identificação do grupo. Assim, a memória individual de cada ator social deste estudo faz parte de uma multiplicidade de experiências que possibilitam o acesso à memória coletiva.

Pollak ao considerar que existe ligação estreita entre memória e o sentimento de identidade, afirma que o conceito de identidade se relaciona com a imagem de si, para si, e para os outros. E que no decorrer da vida, a pessoa adquire a imagem referente a ela própria, construída por ela e apresentada aos outros e a si mesma, _______________

24RICOEUR, Paul. A memória, a história, o esquecimento. Tradução de: Alain François [et al.].

Campinas, SP: Editora Unicamp, 2007, p. 133-134.

25 Ibid., p 133-134.

26 POLLAK, Michael. Memória e Identidade social. Estudos Históricos. Rio de Janeiro: v. 5, n. 10, p.

200-215, jul. 1992. Disponível em:

<http://bibliotecadigital.fgv.br/ojs/index.php/reh/article/view/1941/1080>. Acesso em: 17 Jul. 2016, p.

204.

p. 204.

para fortalecer a representação de si mesma, para si e para os outros. No entanto, essa imagem não fica isenta de negociações, mudanças e transformações. Pollak, na mesma obra, ainda afirma que a construção da identidade consiste num fenômeno que ocorre tendo como referência os outros, os critérios de aceitabilidade, de admissibilidade, de credibilidade, “e que se faz por meio da negociação direta com outros. Vale dizer que memória e identidade podem perfeitamente ser negociadas, e não são fenômenos que devam ser compreendidos como essência de uma pessoa ou de um grupo” 27.

Já o antropólogo Candau - que analisou como passamos das formas individuais para as formas coletivas da memória e identidade -,28 observa que a memória e a identidade estão indissoluvelmente entrelaçadas. Na dialética entre memória e identidade, ambas se nutrem e se apoiam mutuamente na elaboração de uma trajetória de vida, um mito, uma narrativa. De acordo com o mesmo autor, a memória fortalece a identidade, tanto no âmbito individual quanto no coletivo;

portanto, restabelecer as memórias é como restaurar a identidade. Esta concepção é importante para que esta tese possa refletir sobre como os relatos de memórias individuais estão interligados à memória coletiva. Candau constata que nas estratégias identitárias, cada indivíduo realiza suas escolhas no interior de um repertório flexível e aberto a diferentes meios: representações, “mito-histórias”, crenças, ritos, saberes, heranças etc29.

Com relação aos elementos constitutivos da memória individual e coletiva, Pollak considera que em primeiro lugar estão os acontecimentos vividos pessoalmente e, em segundo, os que são vivenciados por tabela. E que muitas vezes uma pessoa que não tenha participado de um acontecimento, mas que este tornou-lhe importante, a mesma não consegue distinguir se participou ou não daquele acontecimento. A esses acontecimentos também se pode juntar eventos que estão fora do espaço-tempo da pessoa ou grupo, como a identificação com um determinado passado. Esta situação pode ocorrer por meio da socialização política

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27Ibid., p. 204.

28CANDAU, Jöel. Memória e identidade. Tradução de Maria Leticia Ferreira. São Paulo: Contexto, 2016, p.11-19

29Ibid.

ou histórica e se constitui em uma projeção tão forte, que o autor considera que este fato se refere a memória herdada30.

Nas articulações de pertencimentos com a memória herdada, a extensão temporal pode abranger largos espaços de tempos. Ela fica disponível e seus estratos de tempo podem ser acionados para compor a identidade de um grupo. E essa escolha pode ser alimentada por lembranças de um passado prestigioso que fundamenta a identidade do grupo. No caso dos okinawanos, o estrato de tempo da memória herdada que articula com a identidade okinawana, é o período dos reinos no arquipélago de Ryûkyû, que se caracteriza por um estrato de tempo de prosperidade no qual os ancestrais dos okinawanos mantinham um comércio intenso com a China, Coréia, Japão e outros países do Sudeste Asiático.

Além dos acontecimentos que podem ser vividos pessoalmente, por tabela ou herdados, a memória é constituída por personagens que podem ter sido conhecidos pessoalmente na trajetória de vida de cada sujeito, ou indiretamente, ou por ter ouvido sobre, ou por ter ouvido de outros indivíduos que fazem parte da memória herdada31. Por exemplo, no caso dos japoneses, não fez-se necessário ter vivido no período dos ancestrais para conseguir representá-los como contemporâneos.

Há também os lugares de memória que estão nas lembranças de cada sujeito e que podem estar apoiados em um espaço/tempo. Esses lugares podem remeter ao tempo da infância, da família, dos antepassados, dos ancestrais, de passeios, da guerra, de viagens, enfim, de vivências que estão na memória. Também podem ser vividos por tabela, ou seja, por envolvimento com o acontecimento sem que esteja no espaço tempo do acontecimento. O caso da Batalha de Okinawa32 é um acontecimento que remete a um lugar de memória vivenciado por muitos imigrantes que se deslocaram para o Brasil após 1945, que marcou fortemente a memória, tanto dos que vivenciaram efetivamente, como a dos imigrantes e descendentes que já estavam no Brasil. Assim, muitos dos que aqui residiam, viveram essa batalha por tabela.

Há várias questões que envolvem o silêncio sobre os acontecimentos traumáticos, como as guerras e as experiências que não obtiveram sucesso e, _______________

30POLLAK, op. cit.,1992, p.202.

31Ibid.

32 A Batalha de Okinawa se refere ao ataque dos Estados Unidos ao Japão na Segunda Guerra Mundial que ocorreu no arquipélago de Ryukyu principalmente na Ilha de Okinawa.

nesses casos, é muito importante o modo como as pessoas lidam com os sentimentos e traumas que advêm desses acontecimentos. O projeto da colônia CAPEM é representado como uma experiência de fracasso, pois não conseguiram realizar o sonho edificado antes da partida do porto de Kobe para o novo espaço e muitos imigrantes preferem não comentá-lo, enquanto outros o registraram por escrito.

No caso da Batalha de Okinawa, a perda das terras, da vida, de familiares e amigos, representa uma dor que acompanha os okinawanos. São feridas que muitas vezes estão abertas e as pessoas não sabem como lidar com elas. Só o tempo para fechá-las, mas ainda ficam as cicatrizes. Dentre as frases pronunciadas pelos entrevistados sobre as experiências vividas naquela Batalha destacam-se as seguintes: “Não vale a pena falar sobre o assunto”, “Não quero falar”, “Não tenho nada para contar”.

Esses fragmentos revelam a complexidade das memórias traumáticas e a dificuldade de rememorar esse passado que os atores sociais não conseguem explicar para si mesmos. O silêncio dessas lembranças são zonas de sombras reprimidas, mas que estão em movimento e as pessoas podem resolver relatá-las a qualquer momento. Pollak destaca que: “Essa tipologia de discursos, de silêncios, e também de alusões e metáforas, é moldada pela angústia de não encontrar uma escuta, de ser punido por aquilo que se diz, ou, ao menos, de se expor a mal-entendidos” 33.

Pollak também assinala outro fenômeno em relação à memória: o seu aspecto seletivo: “Nem tudo fica gravado. Nem tudo fica registrado”. Ao mesmo tempo em que a memória individual grava e relembra, também exclui. Toda lembrança é um trabalho de organização e seletividade das lembranças. Para Bosi, a memória registra apenas fragmentos dentro da sua capacidade infinita, sendo que as recordações mais vivas ocorrem durante o cafezinho, no jardim, na escada, no portão ou em uma conversa informal entre o pesquisador e o sujeito quase na hora de encerrar a visita. Muitas memórias não são registradas e são contadas na

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33 POLLAK, Michael. Memória, esquecimento, silêncio. Tradução de: Dora Rocha Flaksman. Estudos Históricos, Rio de Janeiro, v. 2, n. 3, p. 3-15,1989, p. 7.

confiança, como confidências. “Lembrança puxa lembrança e seria preciso um escutador infinito” 34.

Outra questão proeminente em relação à memória está na forma como homens e mulheres relembram as experiências vivenciadas. A memória feminina, que está ligada ao privado da família, aos cuidados com a alimentação, roupas e educação dos filhos, em relação às okinawanas, a estas somam-se também as memórias de mulheres ligadas à religiosidade, responsáveis pela continuidade de muitas práticas religiosas em conjunto com a família. Estas vozes femininas prevalecem no campo religioso, por serem mulheres-memória, guardiãs dos ritos, crenças, enfim, da veneração aos antepassados.

Já nas vozes masculinas, a memória é sobre o trabalho, as atividades associativas, as experiências traumáticas como a guerra e a abertura das terras.

Muitas vezes, as memórias feminina e masculina se cruzam em experiências comuns como a falta de alimentos na mesa ou a trajetória do grupo até chegar ao novo espaço. Mas em relação à dimensão do trabalho e nas responsabilidades atribuídas aos homens em um sistema familiar patrilinear, prevalecem a memória dos homens.

Abordagens e campos de observação

Para a constituição de fontes, foi utilizada a metodologia da História Oral, que consiste na realização de entrevistas com os imigrantes e descendentes que se disponibilizaram a participar da pesquisa. Portelli assim expõe os recursos oferecidos por essa metodologia:

[...] a História Oral tende a representar a realidade não tanto como um tabuleiro em que todos os quadrados são iguais, mas como um mosaico ou colcha de retalhos, em que os pedaços são diferentes, porém, formam um todo coerente depois de reunidos - a menos que as diferenças entre elas sejam tão irreconciliáveis que talvez cheguem a rasgar todo o tecido35.

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34 BOSI, Ecléa. Memória e sociedade: lembranças de velhos. São Paulo: Companhia das Letras, 1994, p.39.

35 PORTELLI, Alessandro. Tentando aprender um pouquinho. Algumas reflexões sobre a ética na História Oral. Projeto História, São Paulo, 1997. n. 15, p. 13-49. Disponível em:

<https://revistas.pucsp.br/index.php/revph/article/view/11215/8223>. Acesso em: 18 jul. 2014, p. 16.

Com base no acima exposto, pode-se afirmar que a metodologia da história oral permite mostrar como cada relato de memória dos okinawanos aqui levantado, além de fazerem parte de uma multiplicidade de vivências, constantemente negociadas a partir do presente, compõe a memória coletiva. Esse mosaico é constituído por experiências que estão na memória dos atores sociais que as acionam de diferentes formas, no momento da sua narrativa. Como os relatos de cada sujeito social também se constituem pela formação do sentido cultural que orienta a sua vida, a sua importância para esta pesquisa está em compreender que, nas formas interpretativas pelas quais as pessoas percebem o mundo e interiorizam suas vivências, há elementos culturais que são acionados nessas lembranças.

Nos testemunhos e ações relatadas, existem vários estratos de tempo, como o tempo da Batalha de Okinawa, o de emigrar, o de sonhar com um novo espaço, o do trabalho e o das reuniões familiares. São temporalidades que a memória dos atores sociais aciona ao narrarem suas experiências e expectativas vividas no processo migratório. Muitas vezes esses narradores não seguem uma linha de pensamento linear ao lembrarem alguns acontecimentos que fazem parte da trajetória de suas vidas. O tempo da natureza faz parte do processo cognitivo humano que o utiliza ao narrar sua percepção de mundo, mas nos relatos é significativo perceber os retrocessos no tempo, bem como os avanços e as repetições. O testemunho de cada imigrante possibilita mostrar a complexidade dos estratos de tempos que compõe a memória de cada pessoa e as questões que contribuíram para a imigração. Os relatos também trazem informações das negociações que foram realizadas tanto entre os membros familiares quanto na constituição da rede migratória para que o deslocamento das famílias se efetivasse.

Os relatos de memórias também ofereceram a possibilidade de compreender a dinâmica entre os descendentes em relação ao sentido cultural de ser okinawano, ou seja, proporcionaram meios para interpretar como as famílias modelam e alteram os elementos culturais que orientam as formas de identificação na trajetória do grupo.

Assim, a história oral proporciona, por meio das experiências, um campo de possibilidades compartilhadas. Elas podem ser reais ou imaginárias, pois as pessoas percebem as possibilidades de forma singular e, muitas vezes, apresentam os acontecimentos com diferentes destinos. A sociedade passa a ser concebida como uma rede complexa, repleta de meandros e não como algo uniforme.

Retoma-se a metáfora do mosaico de Portelli para, por fim, para pensar que nas emoções, apresentadas entre cada fragmento dos relatos de memória, são percebidas tanto as semelhanças como as diferenças. “É uma representação do real mais difícil de gerir, porém parece-me ainda muito mais coerente não só com o reconhecimento da subjetividade, mas também com a realidade objetiva dos fatos” 36.

Nessa perspectiva, os indivíduos e os grupos são percebidos como parte de uma rede de comunicação social, que, por meio da presentificação do passado, faz emergir diferentes formas de interpretações do mundo e de si mesmos. Os significados, em relação aos acontecimentos multiplicam-se, bem como o capital simbólico. Considerando que estão em constantes modificações, a subjetividade no cotidiano da vida dos atores sociais dialoga com a multiplicidade de práticas culturais existentes na sociedade37.

A elaboração da narrativa sobre a trajetória dos japoneses de Okinawa não tem por objetivo atingir a totalidade, mas o propósito de escrever a trama histórica por meio das escolhas, interpretação das linhas que atravessam as histórias de vida desse grupo. Os elementos culturais de identificação têm conexão com a crença de se ter um passado em comum. Esses elementos são acionados nas lembranças das pessoas e reforçam o sentimento de pertença, observável a partir das ações que daí decorrem. Nas reminiscências de cada pessoa, emergem classificações, lembranças, ações memorativas, interpretações históricas de si mesmo que orientam as ações que as diferenciam de outra pessoa.

Para se estabelecer uma relação entre memória, identidade, as narrativas dos atores sociais mostram que os acontecimentos que marcaram as vidas dos antepassados das famílias de Okinawa são ressignificados na trajetória do grupo como a veneração à memória dos ancestrais. Para os memorialistas do grupo, a ancestralidade que marca a memória coletiva, se fundamenta tanto por um passado prestigioso quanto pelo sofrimento compartilhado em relação ao estabelecimento das bases americanas naquela província. Assim, a memória dos imigrantes é significativa para verificar se a memória histórica que foi emprestada, interiorizada, fortaleceu ou não a identificação dos uchinanchus. Saber como esses eventos _______________

36 PORTELLI, Alessandro. A Filosofia e os Fatos. Narração, interpretação e significado nas memórias e nas fontes orais. Tempo, Rio de Janeiro , vol. 1,

37 RÜSEN, op. cit., 2014, p.93-95.

influenciaram o sentido cultural da construção e reconstrução dos sentimentos de pertença se apresenta como fundamental para a compreensão da fronteira do grupo.

Assim, a tarefa de reconstrução das memórias dos imigrantes japoneses e a dos seus descendentes permitirá visualizar as experiências do grupo que vivenciou, na década de 1950, a saída do navio Argentina Maru, do porto de Naha até a instalação do grupo no norte de Mato Grosso. A memória dos imigrantes não

Assim, a tarefa de reconstrução das memórias dos imigrantes japoneses e a dos seus descendentes permitirá visualizar as experiências do grupo que vivenciou, na década de 1950, a saída do navio Argentina Maru, do porto de Naha até a instalação do grupo no norte de Mato Grosso. A memória dos imigrantes não