• Nenhum resultado encontrado

Memória(s) e (mais que?!) reconhecimento: mulheres e a

No documento Fernando da Silva Cardoso. É isto uma mulher? (páginas 128-142)

Memória(s) e (mais que?!) reconhecimento: mulheres e a significação filógina da violência política

Como problematizo anteriormente, a rememorialização arquetípica do passado, considerando o encontro sensível com as narrativas das mulheres que

160 Trecho extraído do discurso proferido por Mércia Albuquerque em 08 de março de 2002, em

razão do recebimento da Medalha Nísia Floresta, conferida pela Câmara Municipal do Rio Grande do Norte em reconhecimento de sua luta pelos direitos das mulheres.

161 In: COMISSÃO DE ANISTIA. Requerimento de Anistia nº 2002.01.09122 de autoria de Mércia

de Albuquerque Ferreira, p. 110-111. PUC-Rio - Certificação Digital Nº 1621773/CA

requereram à Comissão de Anistia brasileira o reconhecimento de suas condições como anistiadas políticas, aponta para um território de potências semânticas que vão além do simples ato de narrar os acontecimentos. A consideração minimalista (ou singular) dos fatos históricos apresenta um universo de significados que re- conectam imagens (aquelas apresentadas a nós pelas vítimas) e múltiplos ‘sentimentos imaginados’ que são idealizados a partir da narrativa da(o) Outra(o) (a emoção, a empatia, a esperança, a dor, a tristeza, entre outros).

De tal modo, neste subitem pretendo discutir sobre a importância da localização das violências políticas vivenciadas pelas mulheres requerentes enquanto contestação daquilo que tem sido assimilado genericamente pela memória coletiva como ‘violência política’. Argumento que a reificação dessa noção de violência enquanto categoria universal e homogênea, capaz de descrever o passado de totalitarismo ocorrido durante a ditadura militar no Brasil, invisibiliza e impede o reconhecimento das experiências de injustiça de mulheres. Que, do mesmo modo, as reduz a um prenúncio de memória, ou seja, à desconsideração da potência de reescrever o passado dimensionando a sua importância prospectiva e crítica.

A memória está ligada à produção de afetos e de indignações. Assim, deixar- se afetar e/ou indignar-se frente ao sofrimento da(o) Outra(o) perpassa a trama de aproximação do olhar às lutas políticas e à perspectiva crítica de que a memória coletiva deixa à margem para, assim, inscrever as mulheres assepticamente ao longo de sua construção. Portanto, ensaiar a descrição das experiências de injustiça vividas (KROG’S, 2002) é re-construir a memória enquanto uma conversa imaginada, de coexistência(s) entre aquela que sofre e quem a ouve.

As narrativas que descrevem as lutas idealizadas pelas mulheres para o reconhecimento de suas condições de anistiadas políticas relembram que a explicação do passado varia conforme o quadro de referências disponíveis. Inclusive, que o retorno às descrições dos próprios opressores sobre o quadro de violências reproduzido é, decerto, indispensável.

Quando se trata das experiências de violência vividas por mulheres em períodos de ditadura, aproximar-se do sentido deste fenômeno contribui para a construção de estratégias políticas para a re-contextualização do passado traumático

PUC-Rio - Certificação Digital Nº 1621773/CA

(JELIN, 2002; 2014), quanto ao questionamento do impacto que têm o sofrimento sobre as mulheres e na produção de suas memórias (KROG’S, 2002; SAUNDERS, 2008). Igualmente, e acerca das representações de situações singulares de desumanidade, especialmente aquelas decorrentes dos casos de tortura e de violência sexual (CARDOSO, 2014; CAMPBELL, 2004).

As reflexões traçadas a partir dos eixos mencionados anteriormente podem abrir espaço para um terceiro aspecto: a abertura na qual a compreensão da violência política sofrida por mulheres e a sua posterior significação no contexto das memórias coletivas é resultado de uma contra assimilação162. A luta (ou mobilização) política assume nas narrativas das requerentes a centralidade do argumento contra a captura das violências que foram sendo historicamente eufemizadas e reduzidas à sombra da imagem masculina.

Assim, ao me aproximar do modo pelo qual a ‘linguagem da violência’ que operou durante a ditadura militar brasileira é abordada nas narrativas das mulheres requerentes, almejo, como recomenda Scott (1995, p. 73), “a redefinição e o alargamento das noções tradicionais daquilo que é historicamente importante, para incluir tanto a experiência pessoal e subjetiva quanto as atividades públicas e políticas” das mulheres.

O referido debate parte da crítica ao poder163. A memória coletiva é um disparador que, comumente, reduz as questões de gênero ao binômio feminino/masculino (COLLING, 1994). Logo, considerando que a significação da violência política é, no fundo, aquela oriunda da narrativa dos vencedores, homens, a referida linguagem torna-se reedificadora das relações de dominação que, historicamente, acredita-se piamente questionar com base na simples volta ao passado. Afinal, o significado da violência é precedido pela razão, que exerce “de

162 Localizar o significado da ‘violência política’ a partir da narrativa de mulheres não quer dizer

articular a produção de memórias femininas com base em uma ‘natureza biológica’ do ser mulher. Diferentemente, considero a potência questionadora que reside no lançar de luzes sobre a memória coletiva masculinizada. O encontro com a Outra é, ao mesmo tempo, releitura e contestação.

163 A crítica ao poder, segundo Benjamin, perpassa a reflexão sobre a violência enquanto algo que

“interfere com as relações de ordem ética” (2017d, p. 49). Por isso, cita o autor, na ordem jurídica das coisas, a violência “só pode ser procurada no universo dos meios e não dos fins”. Para além de pensar sobre os fins justos e injustos da violência, essência do ensaio, há algo citado que, para a presente pesquisa, é de grande relevância, a ideia de que “o que um tal sistema incluiria não seria um critério da própria violência enquanto princípio, mas um critério ajustado aos casos em que ela se aplicasse”. PUC-Rio - Certificação Digital Nº 1621773/CA

jure todo e qualquer poder que de facto possua.” (BENJAMIN, 2017d, p. 50).

Benjamin pretende lançar mão da crítica à violência produzida em função do seu valor. Ou, como cita: “Toda forma de poder exige uma explicação [...], ação que depende do re-conhecimento da i-legitimidade de quem o professa”. (2017b, p. 51).

A compreensão do valor que Benjamin se refere é desvelado nas narrativas das mulheres requerentes a partir das questões de gênero. Essa noção orienta o olhar de quem se aproxima das experiências de injustiça, de forma a, por um lado, situar a categoria gênero como uma lente que alude à permanente reflexão (SCOTT, 1995) sobre a(s) memória(s) produzida(s), e, por outro, que distingue a necessidade de des-montar e criticar estereótipos universais, e de ultrapassar definições e valores associados ao lugar atribuído à mulher ao longo da história (COLLING, 1994;).

“Senhoras da Comissão, creio que são as mais aptas para entender o que ocorre com uma mulher quando absolutamente impotente, sofre a violência da nudez forçada, você só,

absolutamente só, no meio daqueles homens violentos, arrogantes e sádicos que se apossam de nosso corpo, te deixam nua, e no teu corpo te introduzem, violentamente, dedos imundos, dedos ensanguentados pelo nosso próprio sangue, pela nossa urina, pelas nossas próprias fezes e te enfiam os fios elétricos e depois te violam com aquelas insuportáveis descargas elétricas”164. (grifos nossos).

A narrativa de Darcy Toshiko Miyaki é desconcertante. Em um primeiro plano, anseia evidenciar que o gênero amplia o modo de pensar a relação entre poder e memória (as lembranças que expressa a partir de sua narrativa), e não ao contrário. Assim como, muitas das figuras de linguagem as quais a requerente remete-se dão conta de que a rememorialização feminina toma as relações de poder baseadas no gênero e que cercam as experiências de injustiça como objeto de destaque.

Em “Senhoras da Comissão, creio que são as mais aptas para entender o

que ocorre com uma mulher quando absolutamente impotente...”, Darcy Toshiko

Miyaki não deseja apenas que o seu requerimento seja lido e analisado a partir dos marcadores de gênero que fundam a violência a que esteve submetida. Provoca naqueles(as) que leem o imperativo de também se rebelar contra a sofisticada e sutil invisibilidade que continua sendo operada, no presente, para sustentar a desconsideração da presença de marcadores de poder e de gênero no contexto das

164 In: COMISSÃO DE ANISTIA. Requerimento de Anistia nº 2010.01.66457 de autoria de Darcy

Toshiko Miyaki, p. 764. PUC-Rio - Certificação Digital Nº 1621773/CA

referidas violências políticas. A construção lexical da narrativa ambiciona desvelar relações de poder e conferir um outro (ou novo) sentido à noção de violência política.

O que está implícito e emerge da narrativa é a contestação semântica feita por Darcy Toshiko Miyaki ao Estado brasileiro. Nomeadamente, acerca de outras bases e parâmetros conceituais que permitam entender o real quadro de violência a que esteve submetida. Conjecturo, então, uma noção de memória e de violência política simplista e preocupada em maior magnitude com a essência e com o ser mulher? Certamente não. Incorporo ao debate teórico construído até aqui sobre memória e violência política contra as mulheres a reflexão de que as formas de sujeição infligidas pelo olhar masculino (RAGO, 2001) tem sido determinantes para a produção de memória(s) pouco preocupadas com as questões de gênero e fortemente direcionadas à reificar a díade biológica do tempo, homem e mulher, nesta ordem.

Nesse universo, a crítica à violência segundo o seu valor, como aduz Benjamin (2017d), sugere a compreensão de que as experiências de injustiça vivenciadas por mulheres são, a priori, relações sociais legitimadas e construídas com base no gênero (COLLING, 1994). Trata-se de uma dupla constatação: da violência política contra as mulheres como um fenômeno-conceitualmente- gendrificado, em uma perspectiva, e, por outra, que a memória constrói o gênero, e o gênero, a memória. A produção de memória(s) é, antes, uma dimensão na qual as diferenças de gênero, construídas social e culturalmente, seguem marcando intensamente a formação do imaginário coletivo e individual (RAGO, 2001).

A narrativa citada é fortemente marcada pelo vir-a-ser da categoria gênero na re-memorialização do passado. As ressonâncias observadas no trecho aduzem que onde não se vê a diferença (como, por exemplo, nas passagens “a violência da

nudez forçada”, “no meio daqueles homens violentos, arrogantes e sádicos que se apossam de nosso corpo” e “depois te violam”) não se vê o gênero (“o que ocorre com uma mulher”; “se apossam de nosso corpo, te deixam nua, e no teu corpo te introduzem, violentamente, dedos imundos, dedos ensanguentados pelo nosso próprio sangue, pela nossa urina”; “te enfiam os fios elétricos e depois te violam

PUC-Rio - Certificação Digital Nº 1621773/CA

com aquelas insuportáveis descargas elétricas”), como sugerem Connell e Pearse

(2015).

Com Darcy Toshiko Miyaki apreendo, primeiramente, que o núcleo semântico que confere significado à violência política contra as mulheres deriva de uma ‘simultaneidade multiforme’. Trata-se de uma narrativa desconstrutivista- denunciadora, em um enfoque, e traumático-rememorativa, em outro. São dimensões que, mesmo em perspectivas distintas para aquela que narra, caminham juntas (na dor e na denúncia) na produção da(s) memória(s) comprometida(s) com as mulheres. Entendo que esta não é uma dimensão comum na retomada universalista e asséptica das violências históricas, pois, na contramão da linearidade dos acontecimentos, aproxima aquele(a) que as conhece das especificidades das questões de gênero presentes neste universo.

O que conecta, então, as narrativas das mulheres no processo de significação da violência política? A meu ver, o compartilhamento filógino da(s) memória(s).

Filoginia, do grego philos, amigo + gyne, mulher – amor às mulheres – antônimo Misoginia, aversão às mulheres (FILOGINIA, 1999). Tomo como referência a

reflexão apresentada por Margareth Rago (2001)165 sobre a potencialidade do termo filoginia166 para a problematização e contestação dos discursos históricos, culturais, científicos e políticos sobre as mulheres e suas experiências. Para a autora, a lente filógina contribui para a “problematização das relações entre os gêneros”. E, ainda, que a “acentuação dos discursos misóginos, produzidos e reproduzidos no contexto das discussões sobre os rumos de construção da nação e a formação do povo” podem ser deslocadas do ‘lugar comum’ da(s) memória(s) a partir do feminino (RAGO, 2001, p. 63).

165 Para melhor compreender ver “Feminizar é preciso: por uma cultura filógina”, de autoria de

Margareth Rago (2001).

166 O contexto do Século XII inscreve a ideia de ‘amor cortês’. A partir dessa dimensão, a perspectiva

masculina do mundo é assumida como objeto de apreciação por diversos movimentos, seja em sua dimensão erótica ou religiosa. A noção de que a mulher é o motor do movimento secularizador atravessa o tempo e alcança o Renascimento. Por outro lado, a contestação desse olhar foi inicialmente feita a partir da literatura feminina, resultante de reflexões estéticas e poéticas sobre a mulher, originais e contestadoras da misoginia. Por fim, é o romanticismo que projeta sobre a figura da mulher e em suas vivências a reflexão trágica sobre sua busca identitária e acerca dos conflitos do novo e dominante paradigma capitalista.

PUC-Rio - Certificação Digital Nº 1621773/CA

Apesar de muitas das mulheres-militantes não assumirem diretamente a perspectiva filógino-feminista com base na qual narram e descrevem a violência política contra elas perpetrada (com base no duplo enfoque desconstrutivista e rememorativo das narrativas), tal dimensão decorre do ato de deixar se afetar a

partir do ou para o feminino. Em suma, trata-se do reconhecimento, mesmo que

implícito, da categoria gênero enquanto componente estruturante da realidade histórica e da(s) memória(s), um elemento basilar da forma de pensar (SCOTT, 1988; 1995; CONNELL; PEARSE, 2015; RAGO, 2001; 2012).

Como referido, em um primeiro plano, o enfoque desconstrutivista- denunciador da violência política mobiliza a singular interpretação do passado sem perder de vista o sofrimento e a injustiça167. Neste primeiro enfoque, as narrativas são orientadas por uma linguagem que perpassa dois aspectos centrais: a desconstrução filógina do vocabulário masculino-higienista da memória – ao empregar termos que aproximam o(a) o observador(a) da violência política vivida –, e quanto à adoção de códigos discursivos que remetem à denúncia das violências como uma estratégia de rediscussão do passado.

As narrativas das requerentes conferem rosto, corpo, dor, pessoalidade e sensibilidade à(s) memória(s). Conjecturam uma epistemologia-do-olhar-filógino- feminista da história que articula eticamente os vazios (RAGO, 2012; PEDRO; WOLFF, 2010; OBERTI, 2010), aquilo que, sob o regime universal-homogêneo dos acontecimentos, não poderia ser visto ou pensado. É um saber que re-posiciona o passado e a violência política com base na afirmação gendrificada, e, por isso, singular, de que as ausências-presentes-narradas pelas mulheres encaminham o desenho destes dois conceitos.

“A dor não é apenas física, na verdade transcende a dor física, aquela dor violenta é quase secundária ante a violência mais repugnante de ter violentada a sua parte mais

íntima”.168 (grifo nosso).

“[...] muito sofreu nesta sua segunda prisão; esse talvez seja o ponto mais difícil de se

relatar no presente requerimento, eis que, por mais que se diga todos os detalhes do terror

sofrido [...], por mais que se fale da crueldade da tortura, jamais se conseguirá

reproduzir com exatidão a dimensão da violência e brutalidade imposta pelo Estado

167 O referido debate é retomado aqui, em certa medida, a partir das reflexões feitas em outro

momento sobre a perspectiva arquetípica da memória.

168 In: COMISSÃO DE ANISTIA. Requerimento de Anistia nº 2010.01.66457 de autoria de Darcy

Toshiko Miyaki, p. 766. PUC-Rio - Certificação Digital Nº 1621773/CA

Brasileiro. Pior é o risco de alguém que não viveu aquele período, ao fazer uma breve

leitura do presente, comente se tratar de um ‘texto chavão para causar piedade’; com

certeza não haveria castigo maior [...]”. [...] “foi levada pelo Exército para São Paulo, lá

foi conduzida para os cárceres da OBAN - Operação Bandeirantes; aí foi interrogada e torturada pelo Capitão Ramiro169, posteriormente ficou presa na solitária; após ficou no

Presídio Tiradentes, junto com presos comuns (homens). Chega a ser difícil imaginar

tanto ódio e violência, resta um questionamento: Como e quando há de recompor-se uma

pessoa assim aviltada?”170 (grifos nossos).

Nas narrativas de Darcy Toshiko Miyaki e Maria Augusta Carneiro Ribeiro o olhar filógino das requerentes mira o vocabulário masculino-higienista que a memória vazia sobre a ditadura militar brasileira ignora e que história dos vencedores segue sustentando. Darcy anseia por expressar a sua subjetividade – “a

violência mais repugnante de ter violentada a sua parte mais íntima” – e que, a

partir dela, seja feita a releitura do passado. A subjetividade, comumente associada à feminilidade, agencia o olhar de quem a ‘escuta’ para ver o invisível, para pensar o que não se pode traduzir. Aquela que narra a violência deseja alertar o(a) receptor(a) de que “em meio ao sentido da vulnerabilidade da linguagem em representar o passado, devemos também nos apegar à ideia de que palavras também podem fazer coisas surpreendentes”171 (VOSLOO, 2012, p. 07).

As requerentes nos ensinam que o significante do passado é marcado pela atitude filosófica172 de buscar os sentidos, as correspondências e os signos ocultos da própria história173 (MAGDA, 1997) e da luta política (JOFFILY, Mariana, 2010;

169 ‘Capitão Ramiro’ era o codinome utilizado pelo investigador Pedro Antônio Mira Grancieri.

Exímio e sádico torturador, foi um dos sequestradores e executores do jornalista Vladimir Herzog nas dependências do DOI-CODI, um aparelho de tortura montado pelo II Exército, em São Paulo. Seu nome figura na sentença proferida pela Corte Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) que, em 15 de março de 2018, e posterior publicação da sentença em 04 de julho de 2018, decidiu pela condenação do Brasil no referido caso. Ver: https://piaui.folha.uol.com.br/materia/o- operario/.

170 In: COMISSÃO DE ANISTIA. Requerimento de Anistia nº 2003.02.24067 de autoria de Maria

Augusta Carneiro Ribeiro, p. 05.

171 No original: “that amidst the sense of the vulnerability of language in representing the past we should also hold fast to the idea that words too can do surprising things”.

172 É possível relacionar esta atitude como o ato de pensar que decorre do espanto frente ao objeto,

como tão bem recuperado por Assy das premissas socráticas na obra de Hannah Arendt. Assy reflete essa faculdade enquanto um movimento que “desaloja os sujeitos de seus dogmas e regras”. O pensar (sensível), nesses termos, dispõe cada pessoa “diante de uma tabula rasa, sem bem ou mal, sem certo ou errado”. Pensar com, e não sobre, “na forma de um diálogo consigo mesmo”. (ASSY, 2015, p. 66).

173 O questionamento sobre ‘onde estão’ as mulheres na construção do pensamento histórico pode

ser aprofundado a partir das reflexões propostas por Rosa María Rodríguez Magda em “Mujeres

em la historia del pensamiento”. A autora questiona, entre outras questões, o modo pelo qual são

justificadas a ausência e a inferioridade feminina no campo do saber histórico. Sustenta que este processo de invisibilidade tem sido sistematicamente reproduzido a partir da tese misógina e

PUC-Rio - Certificação Digital Nº 1621773/CA

PEDRO; WOLFF, 2010). Igualmente, as enunciações que são articuladas a partir dos excertos aludem à valorização do ato de lembrar não apenas como uma ação de re-conhecimento do que ocorreu, mas de re-contextualização das violências políticas. Nelas, são reconhecidos os mecanismos de naturalização e de cristalização das práticas sociais que subjugam as mulheres e que implicam, segundo Rago (2001) na deshistoricização da singularidade das narrativas e do passado, fundamentais na manutenção do imaginário misógino da história.

Em contrapartida, a narrativa de Maria Augusta Carneiro Ribeiro cria frestas na percepção e permite alcançar, a nível do pensamento, a imagem de seus agressores. Homens, sádicos... fardados. Problematiza o poder e a dominação masculina sobre as mulheres (“a dimensão da violência e brutalidade imposta pelo

Estado Brasileiro”; “foi interrogada e torturada pelo Capitão Ramiro”; “após ficou no Presídio Tiradentes, junto com presos comuns (homens)), ao tempo que

aduz ao loci gendrificado da reelaboração da história de violência contra as mulheres ao longo da ditadura militar brasileira (“Chega a ser difícil imaginar tanto

ódio e violência, resta um questionamento: Como e quando há de recompor-se uma pessoa assim aviltada?).

Para Rago (1998), através desta abertura semântica da memória é possível perceber as dimensões femininas da vida humana, até então excluídas do discurso histórico e, então, re-articular a inclusão das mulheres nos acontecimentos políticos e sociais. A ‘crítica ao poder’ construída ao longo da narrativa de Maria Augusta Carneiro Ribeiro desestabiliza as perspectivas dicotômicas do que tem sido apresentado pela história acerca do que as mulheres viveram. Assim, gendrificar a leitura do passado e das relações de poder que permearam os espaços de violência política contra as mulheres só se torna possível desde o gênero, pois, nesse sentido: “O feminino é exaltado em resistência aos valores fálicos que se vinculam à dominação masculina”174 (OBERTI, 2010, p. 28).

Ao empregar termos que aproximam o(a) observador(a) da violência política vivida, tal como o faz Clari Izabel Dedavid Favero, (“Fui torturada”;

patriarcal de que as mulheres não têm sido relevantes nem nos ritos nem na produção científica ou teórica

174 No original: “Lo femenino es exaltado en resistencia a los valores fálicos que se vinculan a la dominación masculina”. PUC-Rio - Certificação Digital Nº 1621773/CA

“Parte dessa violência, ocorreu diante de meu marido e dos meus sogros”), é

iniciado um exercício de reflexão que não apenas questiona, como me referi, o

No documento Fernando da Silva Cardoso. É isto uma mulher? (páginas 128-142)