CAPÍTULO II O PENSAMENTO DE LÉONCE DE MANOUVRIER E O ADVENTO
2.5 Memórias de Manouvrier: uma crítica metodológica
Ao final do Congresso de 1889, H. Rollet solicitou a colaboração científica de profissionais para a observação de menores que eram levados em custódia antes da audiência. Foi Manouvrier quem ofereceu sua assistência. Por vários anos, ele fez consultas sobre o lugar de depósito em que ficavam esses adolescentes e, posteriormente, no laboratório de Hautes
Études. Manouvrier refutou a abordagem fisiológica do crime, desqualificando análises
identificadoras de patologias e chamou à atenção para as influências externas que estimulariam condutas honestas ou desonestas, apontando para fatores conformadores como a educação defeituosa e as circunstâncias perniciosas.
A tese que Manouvrier apresentou no Congresso de 1889 procurou demonstrar que Lombroso desenvolveu uma teoria retardatária, não demonstrável cientificamente e que fez confusão especialmente entre três dimensões: (1ª) a criminalidade que se combate (categoria sócio-legal); (2ª) a honestidade (categoria advinda da moral); (3º) e os caracteres antropológicos (categoria anatômica e fisiológica). Manouvrier questionou essa associação leviana feita de
331 ROBERT, Philippe ; LASCOUMES, Pierre ; KALUSZYNSKI, Martine. Une leçon de méthode: le mémoire de Manouvrier de 1892. In: Déviance et société. 1986 - Vol. 10 - N°3. pp. 223-246 .
forma automática entre: (a) criminoso condenado, (b) imoralidade, (c) e características antropológicas específicas. Igualmente, a associação inversa também foi por ele criticada: (a) indivíduo não condenado, (b) moralidade, (c) e ausência de características antropológicas específicas. Seus argumentos se lastreavam em três eixos: (a) definição do seu objeto de estudo; (b) as condições da observação científica; e (c) a relatividade da distinção entre lei e moral332. Para Manouvrier, o crime seria o resultado de uma construção social em dois sentidos: de um lado, uma construção social da incriminação; de outro, as condições de sua aplicação. Além do mais, a relatividade da definição do crime, bem como da aplicação da pena, são obstáculos para a criação de qualquer teorização geral do crime e do criminoso a partir de conceitos antropológicos. A base do seu sistema de análise não se fiou em um código penal que pudesse dispor de classificações dos cidadãos em categorias fisiológicamente definidas, senão em categorias socialmente definidas. Logo, o seu novo objeto de estudo tornou-se inteiramente social, mesmo que Manouvrier ostentasse uma sólida formação em medicina. Além disso, a abordagem anatômico-fisiológica somente seria relevante se houvesse um vínculo mediado com o lado psicológico. A influência das circunstâncias combinadas é que produziriam determinadas ações333. A complexidade do fenômeno do crime fez Manouvrier modificar seus referencias e exigir maiores contributos, isto é, resgatou a contribuição de outros campos para a elucidação dos fatores que levavam à violação da lei.
Essa paralaxe334 realizada por Manouvrier não apenas representou um deslocamento
metodológico. Procedeu-se a uma mudança do objeto de estudo. Segundo seus intérpretes, as memórias de 1892335 são basicamente um artigo sobre método, de modo que o rigor que
Manouvrier imprimiu na definição de sua abordagem merece, hoje em dia, maior atenção. O antropólogo francês lembrou-se dos princípios básicos envolvendo experimentação e observação ao questionar se os métodos científicos seriam os mesmos quando se tratasse de homens e quando se tratasse de animais. Manouvrier criticou o fato de que alguns teóricos produziram conhecimento científico, baseando-se em concepções cujos fundamentos lhes escaparam. Além disso, não se pode deixar de se levar em conta que a polícia do Império acompanhava de perto alguns congressos e reuniões de médicos e antropólogos e que o
332 MANOUVRIER, Léonce.Questions préalables dans l'étude comparative des criminels et des honnêtes gens. Archives Anthropologie Criminelle et des sciences pénales, tome septième. Bruxelas,1892. pp. 557-574.
333 ROBERT, Philippe ; LASCOUMES, Pierre ; KALUSZYNSKI, Martine. Une leçon de méthode: le mémoire de Manouvrier de 1892. In: Déviance et société. 1986 - Vol. 10 - N°3. pp. 223-246.
334 ZIZEK, Slavoj. Visão em Paralaxe. Tradução de Maria Beatriz Medina.São Paulo: Boimtempo, 2008. 335 MANOUVRIER, Léonce.Questions préalables dans l'étude comparative des criminels et des honnêtes gens. Archives Anthropologie Criminelle et des sciences pénales, tome septième. Bruxelas,1892. pp. 557-574.
conhecimento foi produzido sob a coação do olhar do Estado gendarme. A oposição de Manouvrier à visão etiológica lhe fez defender que todos os seres humanos carregam, ao menos em parte, as condições necessárias para se tornarem criminosos. Manouvrier continuou a tarefa de desmantelar os problemas concretos que envolviam a observação e a comparação, apontando uma série de dificuldades para a criação de uma grade de observação e a consequente definição de procedimentos para a coleta de dados. Em seguida, ele entendeu que seria essencial a esse propósito a escolha das populações a serem observadas. A maior dificuldade que Manouvrier encontrou em sua pesquisa, por uma justa observação dos grandes tipos de variação, foram as qualidades fisiológicas e as influências do meio336. Ele sustentava que para estudar a influencia dessas qualidades ou das variedades de conformação correspondentes e as influencias das condições externas seria “(...) necessário estabelecer grupos de indivíduos de acordo com cada um desses dois tipos de influência, sendo todas as coisas iguais em outros lugares”337. Na sua
visão, seria bastante problemático estabelecer a constituição de duas subpopulações, uma criminosa e outra honesta, principalmente por três motivos, e o principal teria a ver com a representatividade das populações. Primeiro, a população carcerária não poderia ser representativa dos delinquentes reais. Segundo, os cidadãos em geral não penalizados não poderiam ser definidos como não tendo realizado nenhum ato criminoso. Terceiro, a prisão demonstrava-se como locus de um refugo, a escória dos criminosos, a parcela mais miserável dessa categoria legal338. Logo, esse antagonismo entre homens criminosos e homens honestos
seria inexistente ou inapreensível para a pesquisa científica rigorosa. O que se extrai disso é que, em síntese, aquilo que foi obra político-ideológica a ciência não conseguiu comprovar sua veracidade.
Não se pode deixar de observar que, nessa época, havia uma união de esforços motivada pela obsessão classificatória, com a finalidade de comparar criminosos e homens honestos. Sem
336 ROBERT, Philippe ; LASCOUMES, Pierre ; KALUSZYNSKI, Martine. Une leçon de méthode: le mémoire de Manouvrier de 1892. In: Déviance et société. 1986 - Vol. 10 - N°3. pp. 223-246.
337“Se quiseremos estudar separadamente a influência apropriada dessas qualidades ou variedades de conformação correspondentes e a influência das condições externas, devemos estabelecer necessariamente grupos de indivíduos de acordo com cada um desses dois tipos de influência, de modo que todas as coisas sejam iguais em outros lugares”. MANOUVRIER, Léonce. Questions préalables dans l'étude comparative des criminels et des honnêtes gens. In : Actes du troisième Congrès Internacional d’Anthropologie Criminelle. Bruxelas, 1892. p. 181. 338 “Não seria rigorosamente necessário, quando se quer estudar o crime com relação à conformação anatômica, perguntar se os criminosos que estamos considerando não constituem uma categoria entre os criminosos, e então se esses criminosos não viveram em meio a condições externas particularmente próprias a lhes fazer adentar na categoria em questão, enfim, se não é provável que esses criminosos teriam sido honestos, pelo menos em termos legais, se tivessem sido sujeitos a condições ambientais razoavelmente favoráveis a conservação do gênero de honestidade?”. MANOUVRIER, Léonce. Questions préalables dans l'étude comparative des criminels et des honnêtes gens. In: Actes du troisième Congrès Internacional d’Anthropologie Criminelle. Bruxelas, 1892. p. 176.
deixar de prestar bastante atenção às ideias de Manouvrier, Garófalo lançou a seguinte proposta de apresentação de trabalhos para os congressos posteriores que os teóricos da antropologia criminal iriam participar:
Uma comissão composta por sete antropologistas será encarregada de fazer uma série de observações comparativas para serem apresentadas no próximo Congresso de uma cifra de cem criminosos vivos, ou pelo menos, dos quais um terço são assassinos, um terço violentos, um terço de ladrões e um número igual de cem pessoas honestas cujas origens e os de suas famílias são bem conhecidos339.
Se compararmos essa passagem à proposta de Manouvrirer, perceberemos que sua crítica partiu de uma serena posição de lucidez, reconhecendo os próprios limites da pesquisa científica. Para que os grupos classificados pudessem ser compreendidos em seu comportamento (honesto ou criminoso) seria necessário levar em conta uma série muito ampla de fatores e influências, e isso tornaria a pesquisa praticamente inviável. A pesquisa rigorosa sobre a conduta humana seria uma tarefa impossível, pois irrealizável empiricamente e as representações populacionais a priori partiriam de construções inconsistentes. Aqui é como se Manouvrier deixasse explícito que a antropologia criminal não tinha condições de ser radical em seus propósitos deterministas. De fato, todo o campo de construção da antropologia criminal que tratasse do crime e do criminoso de acordo com certo determinismo comportamental- naturalista se tornava oconjunto de propostas visivelmente reducionista.
Para reforçar, Manouvrier também se deteve na demonstração de quão relativa poderia ser a noção de honestidade, seus limites e sua maleabilidade temporal. Ele desenvolveu argumentos no mínimo interessantes para a época a respeito da moral das pessoas honestas. A honestidade, segundo sua visão, estaria relacionada ao risco de sancionamento. Nas suas próprias palavras: “o que diferencia os honestos dos criminosos, é simplesmente que estes não recuam diante do medo de policiais [gendarmes], enquanto que aqueles são desonestos se não tiverem riscos a correr”.340 Isso relativiza a ideia de honestidade por esta ser definida não pelo
339 MANOUVRIER, Léonce. Questions préalables dans l'étude comparative des criminels et des honnêtes gens. IN : Actes du troisième Congrès Internacional d’Anthropologie Criminelle. Bruxelas, 1892. p. 171.
340 “O que distingue as pessoas honestas dos criminosos é simplesmente que elas não recuam por medo dos policiais, enquanto que aquelas são desonestas somente se não correrem riscos”. MANOUVRIER, Léonce. Questions préalables dans l'étude comparative des criminels et des honnêtes gens. IN : Actes du troisième Congrès Internacional d’Anthropologie Criminelle. Bruxelas, 1892. p. 178.
individuo em sua essencialidade, mas pelas circunstâncias da vida. Essa noção se estenderia ao crime.
As pessoas honestas seriam aquelas mantidas nessa condição por motivos bastante circunstanciais (morais ou vulgares), enquanto que outros, por razões também circunstanciais, seriam impelidos ao cometimento de crime. No projeto da antropologia criminal de Manouvrier (ou antropologia legal, como preferiu renomear), que acabou se tornando uma criminologia, a questão toda não seria explicar os motivos da ação, mas estudar as condições ambientais em que o indivíduo observado passou sua infância, sua adolescência, além de todas as circunstâncias externas que lhe poderiam preparar e, posteriormente, projetar para o crime, ou, ao contrário, torná-lo um homem honesto (essa orientação, certamente, está muito próxima ao que a pratica processual, atualmente, chama de estudo e parecer social). Como se vê, sua concepção de honestidade era moderada, porque mais social do que psíquica341, e mais dependente de condições externas do que de características ontológicas.
2. 6 A antropotécnica como estratégia biopolítica: a arte de punir e a convergência dos