Dentre as atividades da escola que se destacaram na memória daqueles que fizeram parte de sua história estão os acampamentos. Em datas específicas eram realizados acampamentos com os alunos, geralmente um por ano, que aguardavam ansiosamente por esse evento.
Os acampamentos ocorriam geralmente na cidade da Lapa, distante 90 quilômetros de Quatro Barras. O local específico para a atividade era chamado Acampamento Palavra da Vida, ou simplesmente PV, como era conhecido. O PV é uma entidade cristã voltada à evangelização de jovens através de acampamentos, música etc. Assim, o local é comumente locado para igrejas e entidades cristãs para realizar esse tipo de evento.
Leandro: Sim, os acampamentos do Graciosa eram muito bons, a gente ia pra Lapa... Isso, são coisas assim que ficam na lembrança até hoje assim...
Eduard: E o que é que tinha nos acampamentos?
Leandro: A gente fazia teatro, jogava, tinha brincadeira, momentos de orações lá dentro do templo, assim né, da Palavra, o teatro tratando sobre isso, né, [...] Ensinamento assim sobre família, essas coisas,
Eduard: Você acha que isso ajudou bastante na sua formação...
Leandro: Nossa, eu tenho muita saudade disso daí assim.144
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Entrevista cedida a Eduard Henry Lui, em 9 de setembro de 2015, por Eliseu Ferreira de Lima.
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A escola tinha sua própria maneira de organizar e desenvolver as
atividades no acampamento145. Comumente havia um tema gerador que
conectava tudo que acontecia naqueles dias. As pregações e estudos bíblicos, as músicas, os jogos e as refeições. Os alunos eram divididos em equipes que disputavam um prêmio simbólico no final da atividade.
A maior parte dos professores envolvia-se com o acampamento, ajudando na organização dos quartos, na elaboração de gincanas, na cozinha e nas escalas para limpeza que eram, muitas vezes, feitas pelos próprios acampantes.
Ao final do acampamento geralmente estavam todos exaustos, mas renovados, pois o ele também tinha certa função catártica, que trazia grande alívio aos participantes, os quais saíam daquela rotina rígida e muitas vezes ali acabavam entendendo o funcionamento da escola, tinham tempo de conversar com os professores e verificar que nem todos eram tão sérios e sisudos como podiam aparentar, até mesmo a relação com outros colegas mudava a partir desses acampamentos.
Eduard: O que chamava atenção nesses acampamentos, o que tinha nesses acampamentos?
Rosimeri: Ah, tudo que sempre tem em acampamento, gincana, dormir tarde, bagunça, os meninos indo cantar para as meninas, serenata, ah, ter que limpar depois a cozinha, que cada dia tinha uma escala, quem não tinha se dado bem durante o dia nas gincanas ficava com a cozinha à noite, essas coisas assim...146
Os acampamentos tinham uma clara função evangelística também. Era nesse momento que alguns professores faziam orações com alunos, saíam para ler a Bíblia e orar em um monte próximo. Criava-se um clima de aproximação que facilitava a pregação religiosa.
Comumente o acampamento era encerrado com o chamado culto da fogueira. Era o momento que alguns alunos tinham para falar do que estavam
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Os acampamentos não eram compulsórios, era uma atividade extracurricular e ocorriam em finais de semana ou feriados. Os custos deste evento eram por conta dos participantes, que procuravam o mais cedo possível garantir presença.
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sentindo, passando, pretendiam fazer dali para a frente e muitas vezes se comprometiam com o evangelho. Alguns eram movidos pela emoção do momento, outros tantos, mantiveram essa convicção e permanecem na fé evangélica, mesmo que em igrejas diferentes da igreja da escola.
Além dos acampamentos, sempre foi comum a saída com alunos para atividades extraescolares. Frequentemente visitavam parques, exposições, museus, teatro. Houve um período em que o diretor de então, o pastor Roberto, levava os alunos que se destacavam em notas para um lanche no McDonald‘s. Em outras ocasiões, a recompensa por notas boas vinha na forma de passeios, e aqueles que não atingiam o objetivo não eram poupados, ficavam mesmo de fora, como relembra Rosimeri:
[...] eu tava na terceira série, era aluna da Alice, e cada vez por bimestre os alunos com notas azuis tinham passeio; no primeiro bimestre da terceira série eu não fui nesse passeio que era na Coca-Cola e até hoje eu não fui na Coca-Coca-Cola, isso traumatizou. Sou traumatizada por isso, porque eu tinha tirado 6,3 em Matemática, e naquela semana seriam vários passeios fora da escola e eu não fui porque tive de ficar fazendo a revisão na escola.147
Esse depoimento ressalta um momento marcante de decepção e que marcou profundamente a vida de Rosimeri. Mesmo tendo deixado de lado o
ocorrido, em sua fala evidencia um ressentimento velado. Ela afirma que ― ‖
traumatizada por isso e não colocou o sentimento no passado. Em sua fala ela coloca essa decepção no presente, marcante ainda hoje em sua vida.
A proximidade com a Serra do Mar e com a beleza da região fazia com que esporadicamente alguns professores saíssem com alunos para atividades de passeio na Serra. Não eram obrigatórias, tinham mais o sentido de passeio mesmo, no entanto, um triste episódio marcou a história da Escola Graciosa. Em um desses eventos um aluno sofreu um acidente no rio e veio a falecer.
A morte desse aluno foi talvez um dos acontecimentos mais tristes e traumáticos para a Escola Graciosa, como disse o pastor Roberto: ―Como é
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difícil entregar aos pais o seu filho morto nos braços‖. Esse fato, não é facilmente resgatado pelas memórias, é preciso buscá-lo cirurgicamente, com todo cuidado, pois essas lembranças foram compulsoriamente apagadas.
Rosimeri: Eu não lembro como que a gente veio parar aqui de volta, [...] tava todo mundo brincando, acho que devia ser depois do almoço que aconteceu isso dele mergulhar e não voltar e daí deram falta dele, daí todo mundo, que sabia nadar, tentava procurar, não achava, depois de um tempo acharam ele, tava preso, depois veio um laudo que tinha sido um problema cardíaco, por isso que daí ele tinha ficado e ficou preso nessa, com a correnteza que levou pra esse lugar. Eu lembro de nós saindo de lá, mas chegando aqui, porque é longe, em Quatro Barras, ou eu chegando na minha casa, eu não lembro, não lembro como foi, não sei que quem veio me buscar, não lembro Edu. Eduard: Isso apagou da tua memória.
Rosimeri: Apagou. Eu não sei, como é que, eu lembro depois assim que o pessoal falava que foi difícil da gente sair de lá e sair com o corpo ainda né.148
As atividades externas da escola passaram a ser mais restritas, os passeios, menos corriqueiros e mais seletivos em relação ao local e tipo de atividade a ser desenvolvidas.
Dentre os sentimentos, ou ressentimentos, aqui expostos pode-se observar que os entrevistados, em maioria, optaram em enfatizar aspectos positivos. Poucos fatos relatados rememoram tristezas e decepções, à exceção do trauma de Rosimeri com sua ausência ao passeio da Coca-Cola e, aqui, com a morte do aluno Evandro.
Apenas Rosimeri relembra em seu depoimento esse fato. Um evento assim, tão marcante, certamente foi de conhecimento de todos os entrevistados. No entanto, o sentimento foi sufocado e quase não se fala mais sobre o ocorrido.
Rosimeri: Daí nisso já tava o bombeiro esperando pra trazer. Mas eu não lembro assim como que foi, eu sei que a gente ficou um tempão sem vir pra escola, deve ter dado uma semana ou 10 dias.149 148 Id. 149 Id.
Rosimeri, ao ser questionada diretamente sobre o assunto, enfatiza que não lembra mais sobre muitas coisas que ocorreram naquele contexto, tanto no momento da morte quanto nos dias que sucederam e que implicaram em mudanças logísticas na escola, como colocar os alunos que estudavam junto com Evandro em outra sala de aula e suspendendo as aulas por alguns dias.