• Nenhum resultado encontrado

151 5.1.2 Memórias e experiências: Mestre Calunga

Se não tiver o reconhecimento, a valorização, a hierarquia, a experiência e memória passada através da prática e do convívio com todos os níveis sociais e culturais,

perde-se o sentido da arte. A arte se transforma num momento isolado. Numa pessoa dando ponta pé no ar...

MESTRE CALUNGA

A segunda pessoa a ser entrevistada foi Wilson Roberto Alonso Colunga, conhecido na capoeira como Mestre Calunga. Descendente de espanhóis e italianos, Mestre Calunga nasceu em 1956, no bairro Portão, na cidade de Curitiba, Paraná. Hoje, aos 52 anos de idade, ele organiza a Associação Cultural Ilha de Palmares, a qual fundou em 1988. Wilson cresceu dentro de um ambiente bastante familiar, com seus tios e avós morando próximos a ele. A casa de seus pais e também de outros irmãos de seu pai eram de propriedade de seu avô, que possuía uma fábrica de doces e um supermercado na época. O bairro, segundo conta, ainda era considerado um zona rural, com espaços para brincar. Primeiro neto de uma grande família e com seus familiares reunidos trabalhando nos negócios de seu avô, Wilson lembra que esta situação afetivo- econômico-ambiental favoreceu sua infância:

O bairro tinha bastante campo, bom de brincar e jogar bola. Sempre fui chegado numa atividade física, andar de bicicleta, correr, pular, subir em árvore... Fui criado num ambiente em que fui o primeiro neto. Tinha sete tios. Meu avô era bem de vida, tinha casa na praia... Todo verão a gente ia pra praia ficava dois meses de férias na beira do mar... Foi uma infância maravilhosa. Em frente de casa tinha campo de bola, um monte de fruta. Hoje o Portão tem de tudo, tem comércio, tem shopping. Naquela época não. O supermercado do meu avô era o único da região. Se bobear era um dos pioneiros de Curitiba, foi lá pelos anos 60 (MESTRE CALUNGA).

Mestre Calunga, relembrando seus tempos de infância diz que era um admirador das artes marciais, que gostava de assistir programas de

152

luta - livre na televisão e brigar, aquela briguinha de criança, soquinho e derrubar (MESTRE CALUNGA). Um pouco mais velho, com aproximadamente quinze anos, andando pelo centro de Curitiba, presenciou a primeira roda de capoeira. Naquela época, interessado em iniciar alguma luta marcial, encontrou Mestre Sergipe e alguns alunos fazendo uma demonstração na Praça Zacarias. Ele conta que era apenas Mestre Sergipe e mais quatro alunos seus, tocando berimbau e pandeiro. A destreza corporal do Mestre lhe chamou a atenção para aquela luta, até então desconhecida para ele:

Ele plantou uma bananeira, desceu numa queda de rim, trocou de braço e botou a cabeça no chão. Eu vi uma cobra, uma serpente se enrolando para dar o bote. Imaginei aquilo na hora que vi fazendo o movimento. - Esse cara tem um domínio. Isso

deve ser bom. E tem música... Eu era ruim de

música, sempre tive dificuldade. Pensei: - Vou

juntar aprender a lutar com a música que vai me ajudar bastante (MESTRE CALUNGA).

Do encontro com estes capoeiras, Mestre Calunga obteve o endereço onde praticavam a arte. Segundo informou, procurou o local na semana seguinte. Chegando lá, encontrou um grupo pequeno de praticantes, num espaço amplo e bem localizado:

Lembro que um deles estava treinando meia lua, meia lua solta e rabo de arraia por cima de um cavalete com bastante velocidade. Pensei - Isso se

pegar, derruba qualquer um. Aquilo chamou

minha atenção. Fui para olhar mais outra vez, e logo depois fiz o vestibular pra Educação Física vindo para Florianópolis em 76 (MESTRE CALUNGA).

Mestre Calunga comenta que aos quinze anos realizou uma viagem com a família para Espanha. Lá teria percebido, a partir de sua identificação como brasileiro pelos espanhóis, da importância de participar mais intimamente de práticas culturais de seu país. Assim, Mestre Calunga apresenta três aspectos que o aproximaram da capoeira. Seu prazer pelas lutas, sua dificuldade com a música e o reconhecimento da capoeira como parte de sua cultura:

Em 74, tivemos na Espanha. Eu tinha quinze anos. Talvez nessa viagem foi que despertei para a cultura brasileira. Gostava de uma briguinha, gostava de futebol. Queria já ensaiar uns toques

153

nos instrumentos. Meus primos tocavam, mas eu era ruim de ritmo. Na Espanha eu jogava bola - sempre gostei de esportes, corria, nadava... Era meio atleta. - e culturalmente, quando se vai para outro país, as pessoas te reconhecem pela cultura -

O Brasil, futebol, o samba... Imagina, isso aflorou

minha vontade. Década de setenta, timão da copa, o Brasil já tava famoso. Falavam em carnaval, samba, Pelé, Garrincha, tinha a história do brasileiro ser um povo alegre, de gostar de música. Então aquilo também me incentivou. Quando eu voltei da Espanha fui pro exército. Logo que saí, vim morar em Florianópolis (MESTRE CALUNGA).

Por ser descendente de espanhóis, Mestre Calunga diz que sentia a necessidade de conhecer melhor a “história” do Brasil, por isso sua aproximação com a capoeira era também favorável neste aspecto:

Comecei a praticar pelo interesse cultural e físico. Queria aprender um pouco do histórico do Brasil e vi que a capoeira era uma maneira boa de aprender sobre a nossa história. Eu, filho de espanhol com italiano, me sentia bastante europeu. Criado no meio da família, meu pai era espanhol brabo. Meu avô era espanhol. Veio pequeninho, pra cá. Meu pai falava com sotaque de espanhol, seus amigos falavam em espanhol (MESTRE CALUNGA).

Diz o Mestre que, tratando-se a capoeira de uma prática em que os elementos musicais e de luta estão reunidos e por ser também integrante da cultura brasileira, ela tornou-se para ele bastante favorável:

O que me motivou a entrar para capoeira foi a música, a luta e a cultura. Adolescente não pensa muito o lado da cultura, de repente foi mais a música e luta do que a cultura. Na verdade é tudo junto. Não só a parte teórica, mas a parte prática também é cultura. Pra mim, caiu como uma luva. Comecei aqui com o Mestre POP. Isso me estimulou. Depois dentro da faculdade, comecei a pesquisar e comecei a querer saber mais da capoeira, a ler sobre música, instrumentos (MESTRE CALUNGA).

154

Em 1976, Mestre Calunga veio morar em Florianópolis para cursar a Faculdade de Educação Física pela Universidade Estadual de Santa Catarina. Foi neste ano que conheceu Mestre POP, que na época trabalhava como artesão e expositor na praça XV de Novembro:

Em 76 vim morar em Florianópolis. Queria vir para beira do mar, então fiz o vestibular e passei. Comecei a estudar educação física na UDESC. Eu morava atrás da escola técnica. No segundo semestre, andando pela Praça XV, vi Mestre POP tocando berimbau. Conheci o POP com 22 anos. Na época eu tinha 19. O POP usava um cabelão Black Power vendendo artesanato no meio da praça. Escutei o berimbau e me chamou a atenção. Lembrei de Curitiba. Era a capoeira! (MESTRE CALUNGA).

A partir do interesse de Mestre Calunga em começar a praticar capoeira, surgiu a possibilidade de Mestre POP iniciar um trabalho. Deste encontro, conta ele, teve início a capoeira em Florianópolis:

Perguntei se ele sabia capoeira. Disse que sim. Perguntei se sabia ensinar – Olha, nunca ensinei,

mas posso tentar. Então, disse a ele - Vou arrumar um espaço pra tu começar a ensinar

(MESTRE CALUNGA).

Mestre Calunga nos conta que passaram a praticar capoeira em uma das salas da então Casa Bahia-Arte, localizada na Rua General Bittencourt. Segundo ele, era um casarão antigo que vendia artesanatos. Esta foi a primeira academia de capoeira da cidade:

Eu tinha um amigo chamado Getúlio. Indo até a casa dele, passei por ali e vi a casa Bahia-Arte e pensei - Legal! Bom lugar pra fazer capoeira. Conversei com a dona. Ela tinha uma sala atrás. Era uma casa antiga. Tinha uma loja na frente que vendia artesanatos. Tinha um corredor do lado que saia lá atrás e uma sala boa. Uma casa bem sugestiva na Rua General Bittencourt, atrás do Clube Doze. Arrumei mais três alunos, um amigo meu que veio de Curitiba, e mais um casal. A gente fez durante um ou dois meses aula com o POP lá. Foi um tempo bem curto, mas foi legal. Então a mulher pediu de novo a sala porque ia fazer outra coisa (MESTRE CALUNGA).

155