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A definição de meme pode não ser muito conhecida, mas dificilmente conversaremos com qualquer pessoa que tenha acesso às redes sociais que nunca os tenha visto. As imagens são os mais típicos, porém meme pode ser uma frase, um link, um vídeo, até mesmo um site, algo que viraliza, que é distribuído rapidamente e que se multiplica.

Na internet eles causam risos, podem ser sérios, sarcásticos e podem também aumentar um problema que enfrentamos diariamente, que é o preconceito com as pessoas que estão acima do peso. Precisamos dar atenção a esse tema, pois estão presentes em praticamente todas as páginas relacionadas à saúde nas redes sociais, de sujeitos nas posições de leigos e profissionais de saúde, sendo que, muitas vezes, os próprios autores dessas páginas os divulgam e até fazem memes de si próprios.

Os memes, dentro dos discursos que circulam nas redes sociais, afetam milhões de sujeitos todos os dias e podem contribuir para o seu adoecimento. Doenças que surgem por causa da força dos discursos sobre emagrecimento e novas dietas, que prometem um corpo irreal, que os sujeitos buscam incessantemente e necessitam alcançar o mais rapidamente. Assim, a internet possibilita a ilusão de imediatismo, sendo um suporte midiático que contribui para que discursos sobre corpos perfeitos e facilidade para alcançá-los ocorram por efeito da ideologia.

Sendo os sujeitos imersos nessa ideologia, reforçando os discursos dominantes sobre o corpo, dentro de formações discursivas com as quais se identificam, tratar o corpo gordo e os comportamentos daqueles que não conseguem emagrecer de forma sádica, com um humor ácido, parece-lhes natural. Os discursos da magreza e dos corpos perfeitos são mais fortes e capturam os sujeitos com muita facilidade, já que oferecem soluções rápidas para se livrarem de um corpo com excesso de peso e gordura que muitos rejeitam e ao qual até sentem aversão, daí os termos lipofobia e gordofobia.

Quem desenvolveu a teoria sobre os memes foi o biólogo Richard Dawkins. Em seu livro “O gene egoísta”, mostra que, da mesma maneira que os genes se multiplicam por meio da imitação, os memes, que seriam replicadores culturais, também o fazem. Chegou a essa nomenclatura porque:

Precisamos de um nome para o novo replicador, um substantivo que transmita a ideia de uma unidade de transmissão cultural, ou uma unidade de imitação. "Mimeme" provém de uma raiz grega adequada, mas quero um monossílabo que soe um pouco como "gene". Espero que meus amigos helenistas me perdoem se eu abreviar mimeme para meme. Se servir como consolo, pode- se, alternativamente, pensar que a palavra está relacionada a "memória", ou à palavra francesa même. [...] Da mesma forma como os genes se propagam no "fundo" pulando de corpo para corpo através dos espermatozoides ou dos óvulos, da mesma maneira os memes propagam-se no "fundo" de memes pulando de cérebro para cérebro por meio de um processo que pode ser chamado, no sentido amplo, de imitação (DAWKINS, 2007, p. 148).

O autor faz questão de enfatizar, no início do livro, que sua obra é uma pesquisa científica e não ficção, como alguns biólogos a classificariam. No momento histórico em que o pesquisador se situava, outros pesquisadores relutavam em aceitar que as pesquisas do campo da biologia pudessem abarcar aspectos sociais e culturais, e, mesmo assim, essa nova ciência, seria mais tarde denominada memética.

A repetição marcada não é, para o autor, garantia de fidelidade na reprodução dos memes:

À primeira vista parece que os memes não são, de forma alguma, replicadores de alta fidelidade. Cada vez que um cientista ouve uma ideia e transmite-a a outra pessoa ele provavelmente muda-a bastante. [...] Os memes estão sendo transmitidos a você sob forma alterada. Isto é bastante diferente da qualidade particulada, do tipo tudo-ou-nada, da transmissão dos genes. Parece que a transmissão dos memes está sujeita à mutação contínua e também à mistura (DAWKINS, 2007, p. 150).

Quando Dawkins fala sobre a qualidade dos replicadores, cita a “fidelidade da cópia”. O que ele descreve como falta de fidelidade é o que para a AD chamamos de efeito metafórico. Ao transmitir um meme, o sujeito, imerso em suas formações discursivas, deixa alguns rastros de sua escolha, pois não compartilha simplesmente uma imagem ou frase, compartilha o que lhe afetou, o que lhe despertou diversos sentidos. Os sentidos originários são mesclados com outros e transmitidos a outros leitores. Esse efeito pode ser observado quando um jornalista científico relata uma pesquisa em uma linguagem diferente da do cientista e a traz para um contexto jornalístico.

A informática se apropriou do termo e muitos nem sabem dessa origem que vem da biologia. Temos em Dawkins o conceito de memória como uma unidade, que é copiada e se reproduz incessantemente. No entanto, esse movimento de viralização, de se espalhar com imensa rapidez, causa uma marca na memória social, assim como a conceituação de memória discursiva em Michel Pêcheux, já que ela:

[...] não poderia ser concebida como uma esfera plena, cujas bordas seriam transcendentais históricos e cujo conteúdo seria um sentido homogêneo, acumulado ao modo de um reservatório: é necessariamente um espaço móvel de divisões, de disjunções, de deslocamentos e de retomadas, de conflitos de regularização... Um espaço de desdobramentos, réplicas, polêmicas e contra- discursos (PÊCHEUX, 2010, p. 56).

A regularização é o fio do discurso, o efeito da memória diante da repetição, da paráfrase e da naturalização dos sentidos em relação à pessoa gorda, principalmente ao de rejeição de um corpo que está fora dos padrões ditados pelo imaginário social. A memória discursiva ratifica as diferentes vozes, produzidas por discursos heterogêneos, mas que se materializam em um texto que parece ser uníssono.

Os memes não têm uma autoria declarada, como em outros textos que circulam nas redes sociais. No meme existe o apagamento do autor, já que muitos deles carregam críticas severas e a responsabilidade por sua veiculação recai sobre as páginas e os perfis que os compartilham. Seus sentidos não são estabilizados, são produzidos por uma exterioridade constitutiva do discurso.

Os memes abaixo são de uma página chamada “Treino, Dieta e Saúde”14. Suas publicações são frequentes, sendo mais de 2 ou 3 por dia, por isso foram selecionadas algumas postagens dos meses de dezembro de 2018 e janeiro de 2019.

14https://www.facebook.com/treinodietasaude/

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Perfil: @treinodietasaude Data: Dez/18. Jan/19

Como na polêmica apresentada acima com a reação da culinarista Rita Lobo, temos um exemplo de meme que retrata a substituição de alimentos calóricos por outros mais saudáveis. Os panetones recheados de frutas e chocolates, tradicionais na época natalina, já ganharam versões mais lights; ainda assim a montagem mostra a embalagem de uma marca bastante consumida no Brasil, a Bauducco, com chuchus, um legume não muito apreciado por algumas pessoas, mas que, por não ter um gosto marcante, é utilizado em diversas releituras, como a do brigadeiro. O chuchu também possui uma quantidade mínima de calorias, portanto o foco na dieta está garantido com esse alimento.

Os memes também reforçam os sentidos de escolha, colocando a responsabilidade no sujeito que está gordo. Como podemos observar abaixo, existem opções saudáveis, como frutas e legumes ou as famosas junk food (comida lixo). O que dá o tom de humor são as formulações “ser feliz” ou “ser magro”, que nos parecem uma contradição, porque “ser feliz” raramente é associado a ser obeso, e, apesar de ser prazeroso comer algo extremamente calórico, a felicidade e a beleza pertencem àqueles que são magros. O gordo que escolhe a “felicidade”, carrega depois a “culpa”. Culpa é uma palavra também muito recorrente nas postagens.

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Perfil: @treinodietasaude Data: Dez/18. Jan/19

Outro meme que desperta sentidos de escolha, abaixo, mostra que o sujeito busca um corpo ideal, mas que, por causa de suas opções, não consegue alcançá-lo. O mesmo site que publica um meme com imagens de comidas calóricas associadas à felicidade também reforça que, se a escolha de comer esses alimentos for feita, o corpo desejado não será alcançado. Reforça a “cabeça de gordo” porque, se o meu desejo é ter uma barriga sem gordura, “sarada”, não posso comer um bolo de cenoura com cobertura de brigadeiro. Se eu o faço, é porque não consigo me controlar e sou um gordo “sem-vergonha”.

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Perfil: @treinodietasaude Data: Dez/18. Jan/19

Ao discutirmos a beleza, o corpo magro é exaltado e o corpo gordo raramente recebe esse status de ser belo. Os memes também reforçam que, para que o gordo seja belo, ele precisa de outros atributos. A seguir, podemos ver a imagem de uma princesa que, além de não ter uma beleza clássica, é gorda. Temos a formulação “às vezes você nem é feio, só nasceu na época

errada”. Da mesma maneira, podemos associar alguns dizeres consolidados que circulam na sociedade, como dizer que a pessoa é gorda, mas tem um rosto bonito; que é gorda, mas é divertida; que é gordo, mas está sempre bem vestido, e tantas outras formulações adversativas.

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Perfil: @treinodietasaude Data: Dez/18. Jan/19

Em um arsenal de imagens bem montadas, personagens famosos, formulações que parecem inocentes, está o efeito de sentido do preconceito com as pessoas gordas. Ser gordo é motivo de piadas, e tentar emagrecer com dietas milagrosas, fracassar diversas vezes, é colocado nos memes, por meio do humor, como uma incapacidade, como falta de vontade, de desleixo, de pessoas que não se preocupam com o seu próprio corpo, pois, se tomassem os devidos cuidados, fariam as escolhas certas e seriam magros.