CAPITULO II. Análise de políticas públicas e política de assistência
1. Mendigo, migrante, desempregado e excluído
O tema população em situação de rua será abordado a partir do enfoque de autores estudiosos do assunto tendo como intenção a exposição da história da produção analítica sobre o fenômeno social da população em situação de rua. Em complementação à revisão do pensamento teórico sobre o tema, a pesquisa também contempla, em capítulo específico, uma linha histórica de políticas públicas e ações desenvolvidas em território nacional, evidenciando a lógica evolutiva em termos de complexidade, na abordagem do fenômeno, no que se refere ao desenvolvimento de ações e à oferta de serviços públicos.
O crescimento econômico dos anos 60 contrastou com os problemas sociais que gerou. O desenvolvimentismo era falho, atingindo apenas algumas parcelas da população, desenhando uma concentração de riquezas. É sobre este cenário que estudiosos da questão urbana brasileira como Pereira (1978) passam a refletir, ancorados em conceitos marxistas, promovendo o entendimento das questões decorrentes de populações marginalizadas e impossibilitadas de acesso ao consumo. A noção de "lupemproletariado16” coloca como fenômenos comuns a mendicância, a indigência e a prostituição, estando também classificados nesta categoria os moradores de rua. A exclusão do mercado de trabalho se configura, nesse período, como consequência dos fenômenos relacionados à industrialização e à migração populacional, para os grandes centros urbanos.
Analisar a trajetória do entendimento teórico sobre o fenômeno
população de rua, no Brasil, implica em aprofundar o estudo das relações
migratórias, em especial, sobre o estado de São Paulo. Na década de 70 os fenômenos decorrentes da modernização e da industrialização traziam
16 Quando os moradores de rua são vistos como lumpemproletariado (Marx) significa que
compõem um resto da sociedade que não tem nenhuma função no sistema. De modo que representam a exclusão absoluta, pois para Marx não é possível contar com o lumpemproletariado para fazer a revolução, portanto, não são sujeitos da história. Quando são conceituados como “mendigos” há uma visão na mesma linha, só que os estudos – como o de Neves -começam a distinguir variedades e especificidades dentro do mesmo grupo e, mais importante ainda, começam a perceber que são parte da classe social mais oprimida e até mesmo parte da classe trabalhadora (só que na forma de desempregados).
anualmente à cidade de São Paulo em média 350 mil pessoas por ano (CUNHA, 1997). É sobre este período, que autores como Neves (1983), se referem à existência de características que concediam maior particularidade à categoria dos "mendigos". Nesse momento, as pesquisas realizadas pela autora se encaminharam na direção da percepção de diferenças sutis, que implicavam em contornos específicos no subgrupo. A vida nas ruas passou a ser entendida de forma particularizada, atentando para as suas variações. A homogeneidade de entendimento dessa categoria deixa de ser o foco, concentrando a atenção sobre o particular. É em meados da década de 70 que emerge uma visão mais complexa do fenômeno, constituído, segundo a autora, por ex-trabalhadores, seus filhos e migrantes.
Neves (1983) entendia os "mendigos" como uma variação da classe de trabalhadores. Dessa forma, não fazer parte de um sistema de produção e consumo, trazia sobre esses indivíduos um lugar dentro do processo produtivo. O não pertencer, também, podia ser analisado como uma maneira de fazer parte. Como ex-trabalhadores, esses indivíduos eram tidos como inaptos, no cumprimento de suas funções no processo produtivo, trazendo consequente incapacidade de prover o sustento familiar e de serem amparados por ele. A matriz sócio familiar, base de reflexão para a constituição das abordagens da política de Assistência Social, está, em parte, ancorada na função de apoio estabelecida pela família, frente aos elementos causais do fenômeno do viver nas ruas.
Os filhos de mendigos, ao crescerem na mendicância como forma de sustento, estabeleciam uma relação precoce com a rua, incorporando o pedido como meio de subsistência. A ruptura com o ciclo de miséria e pobreza não ocorria, pois não haviam ações estruturadas, para lidar com o fenômeno e com a perpetuação entre as gerações no sentido de buscar o sustento, nas ruas, reeditando o ciclo de mendicância. No caso dos indivíduos que haviam migrado de outras regiões do país, a distância da família transformava a mendicância em uma alternativa acessível àqueles que não possuíam mais o núcleo familiar como referência, nem podiam contar com uma estrutura de políticas públicas de suporte vigentes. A vivência de rua trazia não só a possibilidade de obtenção de sustento, mas, também, um conjunto de relações interpessoais de seus membros que
reproduzia algumas seguranças inerentes às relações de suporte familiar. Esta é uma característica que pode ser observada nos grupos de pessoas em condição de rua até os tempos atuais.
Embora o Ministério da Previdência e Assistência Social tenha sido criado, na década de 70, as ações ainda estavam distantes do modelo articulado e descentralizado de gestão, o qual viria a ser instituído somente a partir da Constituição de 1988. Nesse período, especialmente nos primeiros anos da década, as ações eram desenvolvidas com foco assistencialista e caritativo, distante, portanto, da concepção de garantia de direitos, a qual teria sua evolução decorrente da Carta Magma de 88.
Neves (1983) aponta que o papel social de homem provedor do sustento familiar se tornou fragilizado e o trabalhador provedor passou a contar, somente, com os recursos oriundos da vida nas ruas. Os papéis até então padronizados nas relações familiares (homem, provedor, esposo e pai) se tornam fragilizados, trazendo decorrente abalo, nas organizações familiares. Este é um elemento que pode servir como explicação para o grande número de homens nas ruas, fato que perdura até os tempos atuais.
Ainda sobre o fenômeno da grande migração à capital paulista, Durham (1985) acrescenta, nas primeiras pesquisas sobre o tema, a concepção da migração não como um fenômeno urbano, mas sim como um processo de integração de uma grande oferta de mão de obra a um sistema capitalista industrializado. Resposta à crise, entende a migração com seus impactos não só sobre a cidade, mas também sobre o campo. A coesão do migrante ao ambiente urbano se deu pelo trabalho e pela família, ponto de apoio para a adaptação (ou não) a um meio urbano desconhecido. Migrar era, antes de tudo, um projeto familiar de mobilidade social
Considerando que a migração consistia em um projeto familiar, aqueles trabalhadores que não conseguiram contar com a proteção de um salário que pudesse manter a subsistência do núcleo, tinham a degradação do papel de provedor como consequência primeira, e decorrente dela, a desagregação do núcleo familiar. Com a falência da relação trabalho e família, a mendicância aparece como alternativa de manutenção da vida (DURHAM, 1985).
Priorizando uma visão sobre a metrópole, os estudos sociológicos da década de 80 estiveram baseados na análise das relações das periferias da cidade. O perfil de seus moradores nesse período era basicamente de migrantes (FELTRAN, 2011). As famílias sustentavam a sua coesão na religiosidade cristã, no projeto de melhoria de condições de vida pela via do trabalho e do vínculo entre os membros. Cada membro tinha suas funções, no núcleo, muito claras, principalmente no tocante às relações de gênero, com papéis bem delimitados pela função de chefe de família provedor. A periferia dava indícios claros da cena política vivida na década.
A contribuição dos autores delimita o surgimento de um campo de estudo, que imprimiu características de compreensão do fenômeno que podem ser observadas até os tempos atuais. Quando a Política de Assistência Social coloca na família uma das bases de trabalho, para lidar com o fenômeno, em muito se deve a pesquisas como as referidas acima. Para tanto, foi necessário atentar para o declínio do projeto de estruturação de vida baseado no emprego e na família. As relações com o mundo do trabalho parecem não fornecer todos os elementos necessários para o bem- estar social. O fenômeno trazia novas questões, mais complexas e multifocais, dando indícios de como seria caracterizado nas décadas futuras.
No início da década de 90, o debate internacional estava voltado para as transformações das funções do Estado. A falência do Estado de Bem-Estar Social e o fenômeno do desemprego estrutural estabeleceram uma relação de dependência dos cidadãos em relação aos serviços da Assistência Social. Somado a esses elementos o aumento das populações nos grandes centros urbanos do país, surge pela primeira vez, no território nacional, a temática dos então chamados "homens de rua" (BARROS, 2004; VIEIRA, 1997).
Os estudos de Neves (1983) se referem a um cenário nacional em que a diminuição na oferta de trabalho, aliada à baixa qualificação da mão de obra, gerou um quadro propício, para a busca de subsistência nas ruas. A permanência desses indivíduos na situação de desemprego reserva a eles um papel social desqualificado, bastante distante dos padrões da década de 70, como provedores da família.
Tomando como exemplo a cidade de São Paulo no período de (1989- 1992), o que se percebia era a criação de diversos projetos sociais que buscavam a inclusão das pessoas em condição de rua ao mercado de trabalho. As atividades desenvolvidas tinham relação com a manutenção das condições da cidade, como a cobertura de buracos nas vias públicas, a limpeza das mesmas e a produção de blocos de concreto. Uma observação interessante é que essas atividades estavam relacionadas a funções de reparo e higiene, muito semelhantes àquelas que seriam propostas, no ano de 2015, no programa "De braços abertos", na mesma cidade. As vagas em unidades de acolhimento, à época reconhecidas como albergues, foram ampliadas para contemplar com espaços de moradia as pessoas nessa condição.
O plano Collor, no ano de 1992, trouxe uma influência imediata em alguns setores da economia, em especial na construção civil pela redução dos investimentos e a demissão em larga escala dos trabalhadores, na área. Grande maioria desses trabalhadores havia migrado de regiões distantes, e com o passar dos anos, muitos haviam rompido os vínculos com suas famílias. No caso dos trabalhadores da construção civil, a residência era oferecida pelas próprias empreiteiras, nos canteiros de obra, e, consequentemente, a perda do trabalho também trazia a perda do alojamento - domicílio. Este foi um dos fatores que ocasionou a busca das ruas como alternativa de moradia e subsistência, para uma parcela da população trabalhadora que se vinculava à construção civil.
Com um contingente de 3.392 pessoas em situação de rua, no início dos anos 90, a cidade de São Paulo apresentava superlotação nos albergues da região central. Nesse mesmo período Vieira e Rosa (1997), a partir da análise dessa situação, passam a avaliar a população de rua como consequência do desemprego da classe trabalhadora. A causa principal de entendimento do fenômeno estava centrada na falta de trabalho, mas também ampliava a análise para as histórias pessoais de vida, condições físicas e mentais. Muito do que foi construído na Política de Atendimento à População de Rua, hoje com uma proposta transversal em políticas públicas, tem por base a consideração de múltiplos fatores, influenciados pelas pesquisas desses autores. O termo "População em Situação de Rua" foi
empregado, pela primeira vez, nesse período, sendo o termo adotado em pesquisas posteriores e pelas Políticas Públicas envolvidas.
Ao final dos anos 90, início dos anos 2000, o tom das discussões recaia sobre a noção dos novos "excluídos". De uma relação anterior de entendimento das pessoas em condição de rua sobre a tríade migração, desemprego e rua, estabelecendo um discurso de entendimento baseado nas perdas, carências e faltas, os estudos passaram a focar na produção de exclusão.
Em revisão do processo histórico da abordagem sobre o fenômeno de pessoas em situação de rua, Oliveria (2012) aponta para a produção de três pesquisas de substancial importância, entre o final dos anos 90 e o início dos anos 2000. Inicialmente, faz referências às pesquisas de Rosa (2005), na cidade de São Paulo, Escorel (2005) na cidade do Rio de Janeiro e Bursztyn (2000), em Brasília.
Rosa, influenciada por autores europeus como Castel e Paugam, centra sua reflexão na relação da condição de rua com o trabalho e com o Estado. Analisando os moradores de rua na megalópole São Paulo, considera que as condições de crescimento do Brasil entre os anos 70 e 90 repercutiram no aumento do número de trabalhadores, com relações informais de trabalho. A alternância entre desemprego e empregabilidade precarizada trouxe uma movimentação peculiar quanto à moradia, havendo dinâmicas de entradas e saídas em albergues, alternadas com períodos de vivência nas ruas. Castel (1998) com a questão da desfiliação, oferece fundamentos à autora para a reflexão sobre a dependência dessa população das ações sócio assistenciais, reforçadas pela perda dos suportes de proximidade17, como família, amigos e vizinhos.
Escorel (1999) estuda as condições de pobreza urbana nas grandes cidades. Sua pesquisa foi de grande influência para os estudiosos do tema, e alguns de seus conceitos ainda são amplamente utilizados. A autora foca em processos, de forma similar a Castel (1998), quando se refere ao conceito de desfiliação. Mais do que estudar a exclusão como um
17 As redes de suporte de proximidade dizem respeito às relações do entorno. Nela são
contempladas as relações em família, com amigos e vizinhos, bem como, com entidades ou instituições não governamentais, que cumpram função de amparo nos períodos de adversidade.
fenômeno estático, analisa seus elementos constitutivos. Assim, exclusão está diretamente relacionada aos processos de vulnerabilidade, fragilização, precariedade e rupturas de vínculos sociais em diversas esferas. A ruptura de vínculos sociais no âmbito "econômico-ocupacional", sócio familiar, de cidadania, das representações sociais e da vida humana, está na base do processo de exclusão, conforme esclarece a autora.
A exclusão, para Escorel (1999), pode ser observada em suas manifestações, na vida das pessoas em situação de rua. Em seu cotidiano, os moradores apresentam diversas manifestações dessa exclusão, estando relacionadas à desvinculação da família, com tendência à reprodução ou reedição de relações familiares no contexto de rua; desvinculação do mundo do trabalho, como consequência das transformações do mundo contemporâneo; a circulação pelas ruas como fenômeno que denuncia um gerenciamento dessas vidas e a necessidade de sobrevivência diária nesse contexto.
Com isso, a autora define a exclusão como a característica de quem está "sem lugar no mundo", desvinculado a tal ponto, que não consegue constituir uma unidade social à qual se sinta pertencente. A privação material traz a desqualificação, tirando o sujeito da condição de "sujeito de direitos", possuidor de desejos e vontades. Estar excluído do social é não ter lugar no espaço, tendo a busca da sobrevivência travada a cada dia, como se fosse o único. As perspectivas estão limitadas para o excluído, as possibilidades esvaziadas e os limites intransponíveis.
A obra de Bursztyn (2000) é fruto de um conjunto de estudos desenvolvidos pela UNB, pautados na linha de pesquisa sobre o ambiente urbano e a exclusão. Os pesquisadores comparam a questão das pessoas em situação de rua ao conceito de inempregáveis, tal como qualifica Castel (1998), entendendo o fenômeno como consequência do próprio sistema econômico globalizado. Os autores refletem que o fenômeno em questão é uma radicalização das desigualdades sociais, pois começa na extrema pobreza, desemboca na miséria e tem a exclusão como limite final do processo que constrói o excluído.
Ao excluído é agregada a ideia de ser "economicamente desnecessário", politicamente incômodo, fato perceptível nos discursos de
poder, no imaginário coletivo e institucional de higienizar, dominar e aniquilar os corpos, como menciona Frangella (2004). A eliminação desses corpos parece ser medida, recorrentemente, utilizada pelos mecanismos de gestão dos espaços urbanos.
A oferta de políticas públicas direcionadas à população de rua é resultado da concepção de que cabe ao Estado combater o processo que produz a exclusão. Para isso, são construídas políticas inclusivas que, por vezes, se manifestam através de programas de transferência de renda para as famílias que preencham os critérios, ou no caso da recente inclusão da população de rua como beneficiária do Programa Bolsa Família, ou pela promoção da inserção no mundo do trabalho. Bursztyn (2000) constata, ainda, o foco no trabalho de resgate e fortalecimento das relações familiares, como elemento reorganizador das vidas desses indivíduos.