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“Menina criada em casa de intelectual” (1910-1927)

Rachel de Queiroz criança, ao lado de sua mãe e de seu irmão, Roberto.

Fonte: QUEIROZ, Rachel de. & QUEIROZ, Maria Luiza de. Tantos Anos. Rio de Janeiro: José Olympio, 2010, p. 152.

Acreditamos que dizemos o que queremos, mas é o que quiseram os outros, mais particularmente nossa família, que nos fala.

Jacques Lacan

Como eu digo sempre, menino criado em casa de intelectual, ou é intelectual também ou é cretino, porque naquela influência permanente de livros... Eu nasci no meio de jornal, de livros, de papeis.

Rachel de Queiroz71

Alencar e Queiroz

Antes de sermos alguém, somos filhos ou filhas de X ou Y, nascemos numa ‘família’. Assim, somos marcados por um ‘nome de família’ antes de sermos socialmente quem quer que sejamos ou queiramos ser72.

Em Rachel de Queiroz, o relato sobre si não começa exatamente com os pais e o local de nascimento, como se poderia prever, mas com uma ancestralidade espalhada no tempo, uma série de narrativas transmitidas de geração em geração e que constituem um verdadeiro legendário familiar.

Em sua autobiografia, Tantos Anos, a primeira referência familiar compartilhada pelas duas irmãs autoras inicia com a afirmação da ascendência dos “Queiroz”, o que garantiria como herança certos valores, como a “vitalidade”, por exemplo73.

Assim, a ascendência em Rachel não é limitada pelo nuclear, mas pelo ontológico, pela “grande família”. Seu tio paterno, Espiridião de Queiroz (1880-?), foi um dos primeiros a publicar, em 1946, uma genealogia “romanceada”, intitulada Antiga

Família do Sertão74.

Espiridião localizou o primeiro ancestral importante dos Queiroz no ano de 1610, em Viana do Castelo, região portuguesa à beira do fim do mundo moderno, entre o rio Lima e o imenso oceano que, por sua estratégica posição geográfica, tornou-se um

71 Depoimento Acadêmico. Rachel de Queiroz. Entrevista a Maria Cláudia Bomfim. 05/06/1986. Diretor:

Arnaldo Niskier. 75 min. AABL. O historiador Jean-François Sirinelli afirma que “um intelectual se define sempre por referência a uma herança […]: quer haja um fenômeno de intermediação ou, ao contrário, ocorra uma ruptura e uma tentação em fazer tabula rasa, o patrimônio dos mais velhos é, portanto, elemento de referência explícita ou implícita”.SIRINELLI, Jean-François. Os intelectuais. In: RÉMOND, René. Por uma história política. 2ªed. Rio de Janeiro: FGV, 2003. p. 231-269. p. 255.

72 ZONABEND, Françoise. A memória familiar: do individual ao coletivo. (Dossiê Biografia e

Patrimônio) In: Sociologia: Problemas e Práticas. Lisboa. nº 09, 1991, p. 179-190. p. 179.

73 QUEIROZ, Rachel de & QUEIROZ, Maria Luiza de. Tantos Anos. Rio de Janeiro: José Olympio,

2010. p. 12.

importante entreposto comercial, valioso tanto para a Coroa portuguesa quanto para os piratas.

Neste ano, teria nascido Manuel Pereira de Queiroz, que aí viveu até 1630, quando promessas de riqueza e aventura fizeram-no arriscar a vida nas terras longínquas do ultramar, na próspera capitania de Pernambuco, terras coloniais do reino.

Como afirma Espiridião em seu prefácio - importante paratexto75 para esta análise:

Justamente para combater a tendência à dispersão e ao esquecimento, resultante da inquietação dos tempos atuais, e para congregar a família numa união espiritual de simpatia e de amizade, mantida pelas afinidades de parentesco e pela memória comum de um mesmo passado – é que foi escrito este livro, sincero e verdadeiro, urdido com as histórias recebidas, por tradições, através de muitas gerações, e tecido com as gratas saudades da terra distante e as vivas lembranças da distante mocidade76.

Espiridião e outros familiares, como a própria Rachel de Queiroz foram, portanto, não somente “guardiões” da memória familiar, como também seus “administradores”, pessoas que detiveram o capital social daquilo que deveria ser transmitido e o segredo daquilo que haveria de se confiar à memória77. Aliás, o fato dos escritores serem membros da família constitui uma autoridade impossível para qualquer outro autor78.

De toda forma, rememorar a genealogia é um recurso que indivíduos e grupos utilizam para tecer o seu próprio tempo. Na memória familiar, é-se pai, filho, esposo, irmão deste ou daquele. A terminologia familiar suspende cada posição numa constelação social, num tempo imobilizado, no qual anterioridade e posterioridade são efetivamente confundidas, construindo, no discurso sobre seus ascendentes, um discurso sobre o tempo e um discurso sobre si79.

75 Paratexte é um conceito formulado por Gérard Genette em Seuils (Paris: Seuil, 1987), para pensar

formas de mediação entre texto e leitor presentes no próprio livro. Envolve tudo que está em torno do texto (péritexte+épitexte), e que prepara o caminho para sua leitura (prefácio, posfácio, notas, orelha, capas, entrevistas com o autor, correspondências, críticas literárias etc.).

76 LIMA, Espiridião de Queiroz. Antiga Família do Sertão. Rio de Janeiro: Agir, 1946, proêmio. 77 ZONABEND, Françoise. Op. Cit. p. 181.

78 No Ceará, como afirma Lemenhe, inúmeros livros sobre a trajetória das famílias cearenses foram

publicados entre 1912 e 1990, escritos em grande parte por membros e afins ou por intelectuais do estado, remetendo, em geral, a figuras de um passado remoto da época colonial ou imperial. O principal local de divulgação da história dessas famílias no século XIX foi a Revista do Instituto do Ceará, fundado em 1887, nos moldes do IHGB. Até a criação da Universidade Federal do Ceará (1957) lá se concentrou toda a produção dita “científica” do estado. LEMENHE, Maria Auxiliadora. Família, Tradição e Poder. São Paulo: Annablume/Edições UFC, 1995. p. 57.

Na memória de Rachel de Queiroz – aqui queremos destacar que não falamos somente de sua autobiografia, mas principalmente das diferentes memórias que a autora elaborou ao longo dos anos em entrevistas e em crônicas – é muito característica a divisão generificada da família, algo, aliás, comum nos discursos genealógicos80. O lado materno é posto em paralelo ao lado paterno e cada um deles traz um referencial próprio, que ajuda a construir a personalidade do sujeito Rachel.

No entanto, um ponto em comum une o discurso das linhagens e se torna a principal ferramenta de legitimação da ascendência em Rachel de Queiroz e, não só dela, mas de vários dos intelectuais que ascendem ao campo literário nos anos 1930: a história da sua família não é somente sua, mas está intrinsecamente relacionada com a história do Brasil. No discurso racheliano, seus parentes mais distantes são aqueles que ajudaram a fundar o Ceará, a ocupar o sertão nordestino, a lutar nas guerras coloniais na África, a abrigar fugitivos, a lutar pela independência do Brasil, a fundar cidades e vilas etc.

Não se pode pensar que tudo isto seja fácil para a personagem que relata estas memórias. A família, com o peso ancestral positivado pela história e pela memória dos demais membros, constitui um modelo, em relação ao qual se baseia o indivíduo para definir a si mesmo, e o “fardo” da genealogia pesa em termos positivos e negativos, nos momentos mais alegres e mais difíceis e com base neste referencial81:

(...) sempre me lembro do sorriso entristecido, da falta de encanto pela vida que ficou [em você]. Notei, porém, agora, a presença de amargura e por isso quis lhe escrever, aproveitando para mandar um beijo de aniversário, dando o depoimento de uma mulher da família Queiroz. Não sei se você sabe o que isso significa.

Um dia o [ilegível] manifestou a própria opinião numa ‘sentença’ definitiva: vocês mulheres da família Queiroz são todas umas amazonas. Essa frase mudou minha vida. Era realmente um risco: ser tão forte, tão autônoma, tão admirada, que afastasse de mim o marido, o companheiro, reduzisse sua importância como elemento da minha força e acabasse sozinha, igual a minhas tias e primas – todas Queiroz.

Li o Memorial de Maria Moura, onde muitas mulheres ‘Queiroz’ vão, altivas, segurando o cabresto da vida, galopando ‘sozinhas’. Reconheci ali minhas raízes, iguais às suas, correndo o mesmo perigo. Sei hoje que consegui mudar minha história. Não sou uma Maria Moura. Dou ao meu companheiro o espaço que você deu ao seu Oyama82.

80 ZONABEND, Françoise. Op.Cit. p.184.

81 A relação entre o modèle e a autobiografia é explorada em LEJEUNE, Philippe. Le pacte autobiographique. Paris: Éditions du Seuil, 1996. p. 38-39.

82 Carta a Rachel de Queiroz. 16/11/1997. Letra Q. Fundo Rachel de Queiroz. Correspondências

Esta carta, enviada a Rachel por uma prima em 1997, comenta a relação entre a escritora cearense e o marido, Oyama de Macedo (1911-1982), além da leitura de

Memorial de Maria Moura, último romance da autora, publicado em 1992.

Nos argumentos da prima, percebe-se o peso da figura feminina no interior dessa genealogia, complementando ainda um último aspecto característico da memória familiar: “Falar de família com qualquer interlocutor consiste sempre em abordar um domínio íntimo, escondido, secreto, que toca a sexualidade, a afetividade, por vezes a moral social” 83.

Ser uma mulher Queiroz significava, nas palavras da prima de Rachel, lidar com a força feminina presente no modelo das mulheres donas do nome, mulheres fortes para serem independentes e autônomas; mulheres tão fortes que afastavam o ideal romântico do príncipe encantado, que impunham distância, que corriam o risco do isolamento na própria força.

Neste sentido, Rachel de Queiroz viveu um mundo cercado do exemplo das grandes matronas, freiras, revolucionárias, de sua mãe, “linda – poder-se-ia até dizer lindíssima”84, mentora intelectual da família nuclear, e de seu pai, a figura política por

excelência.

Do lado paterno, assim como na lembrança do tio Espiridião, a ascendência na memória racheliana alcança longe o passado. Uma das figuras constantemente mencionadas pela escritora é o Dr. Arcelino de Queiroz Lima (1837-1895), seu avô, bacharel em Direito, formado em Recife, professor e magistrado, que foi juiz em Pacatuba, dono de colégio e hoje é nome de Avenida. Dr. Arcelino, nascido em Beberibe, era mais um descendente das tradicionais famílias de bacharéis e fazendeiros que povoaram o interior do Ceará.

Em 1838, nas fazendas em torno da região de Quixeramobin, fundou-se o distrito de paz de Quixadá, presidido pelas famílias Lemos e Queiroz, tornado município em 1870: “Quixadá nasceu de uma aventura. Uma casa de taipa e um curral de caiçara à beira de um rio seco, centrando suas léguas de caatinga compradas ‘pelo preço e quantia certa de duzentos e cinquenta mil réis’. Foi quanto custou ao capitão José de Barros Ferreira. À terra veio agregar-se a casa, o curral e a capela”85.

83 ZONABEND, Françoise. Op.Cit. p.180.

84 QUEIROZ, Rachel de. Dia das Mães. O Estado de São Paulo. 11/05/1996. p. D14. AFBN.

85 SOUSA. José Bonifácio de (membro do Instituto do Ceará). Quixadá: de fazenda a cidade. IBGE:

Conselho Nacional de Estatística, 1960, p. 09. Interessante saber que este livro encontra-se na Biblioteca que pertenceu a Rachel de Queiroz e está autografado pelo autor.

A economia da recém-fundada Quixadá baseava-se na criação de gado, além de pequenas lavouras. A região escoava seus produtos por meio dos caminhos para Quixeramobin, além das estradas e rodovias do governo. As secas marcaram a história da região (1790, 1825, 1877, 1915), que ficou conhecida como “curral da fome”.

Em meados do século XIX, a cidade se desenvolveu, abriu-se o primeiro jornal, a primeira sociedade literária, o primeiro grêmio, o primeiro clube. O açude do Cedro foi inaugurado em 1884, proporcionando diversidade econômica na lavoura, a pesca e a possibilidade de irrigação. O trem chegou em 1891 tornando Quixadá um importante entreposto entre a capital do Ceará, Fortaleza, e o interior86.

Em geral as fazendas eram compostas de gado, senhores rurais, alguns vaqueiros e agregados, onde as benfeitorias legitimavam o domínio. Na fazenda Califórnia durante o século XIX, o tio-bisavô de Rachel de Queiroz, Miguel Francisco de Queiroz, “levava vida patriarcal, assistido por um capelão e servido por escravaria privilegiada pelo trato magnânimo que lhe era dispensado, em retribuição ao inestimável proveito econômico usufruído do seu trabalho” 87.

Já idosa, Rachel afirma que a fazenda Califórnia foi a única propriedade nos moldes freirianos que conheceu no Ceará: “A única casa grande que eu conheci, tipo casa grande do Gilberto Freire, com aquela fama, era a casa da Califórnia. Ficava em Benquiste, no Quixadá. Com igreja, com praça. Era uma fazenda padrão. Era a fazenda do meu avô”88.

A história da fazenda começou em 1882, quando 18 propriedades foram transferidas por doação ao futuro avô de Rachel, Dr. Arcelino de Queiroz Lima, que abandonou a toga assim que se tornou o único herdeiro do patrimônio de seu tio. Arcelino foi o mais famoso dono da fazenda Califórnia, criava gado, plantava cana e outros cultivos do sertão. A fazenda foi durante longo tempo a mais importante da região de Quixadá.

As propriedades do Dr. Arcelino foram as primeiras a banir o trabalho servil alguns anos antes da libertação total do Ceará. Era uma das poucas a comportar grande quantidade de escravos, caso raro para aquela região. Com mentalidade mais inovadora, Dr. Arcelino trouxe técnica e progresso às fazendas, além de promover festas e saraus literários na Califórnia:

86 SOUSA. José Bonifácio. Op. Cit. p. 10. 87 SOUSA. José Bonifácio. Op. Cit. p. 67.

88 QUEIROZ, Rachel de. Entrevista a Isabel Lustosa. Rio de Janeiro: 29/10/1993. p. 03. Arquivo Pessoal

Esse Dr. Arcelino, meu avô, era um progressista, além de republicano e abolicionista. Requintou nos adiantamentos, mandou comprar um engenho a vapor, que, aliás, foi montado por meu bisavô materno, o Major Cícero de Monguba, herói da guerra de Rosas. Coroando tudo, meu avô tirou a casa-grande das promiscuidades da rua, erguendo um casarão no alto do açude; casarão mesmo, um vaticano, construído em forma de H, centrado de largos alpendres, com vinte e duas peças internas, sem contar corredores e entradas. Largos salões de visita e jantar; terraço alto, de parapeito, ocupando todo o oitão da esquerda. Um solar, na verdade. Na festa do Centenário da Capela, em 1952, lá se armaram cento e vinte redes, sem contar várias camas89.

A menção a esta figura na memória racheliana torna-se importante não só pela menção às propriedades herdadas pela numerosa família e à importância da fazenda Califórnia, mas também como representação do poder oligárquico que os Queiroz adquiriram na região de Quixadá, sertão cearense. Ainda que dependentes de outras oligarquias no todo do sistema estadual e nacional, os Queiroz reuniram em torno de si poder econômico, político e cultural significativo.

Como afirmam certos historiadores, o Ceará figura como um dos exemplos modelares do sistema oligárquico brasileiro, com famílias que mantiveram o poder desde a colônia até as primeiras décadas do século XX, a ponto do sociólogo Francisco de Oliveira afirmar em 1977: “[o Ceará] é, talvez entre todos os estados do Nordeste, o mais encarniçadamente oligárquico” 90.

Basta dizer que, depois de instituído o regime republicano em 1889, o governo municipal de Quixadá passou a ser exercido por um Conselho de Intendentes, onde figurou José Jucá de Queiroz Lima, presidente, e João Nogueira de Queiroz91. Também na coletoria de rendas estaduais figurou João Nogueira de Queiroz; entre os escrivães, César Cândido de Queiroz; nas coletas federais, Mário de Queiroz Lima e mais um escrivão, Baltazar Lopes de Queiroz. Curiosamente, até o primeiro encarregado do Telégrafo Nacional em Quixadá foi um Queiroz, Astrolábio de Queiroz Barros.

Nomear inúmeros Queiroz pode ser uma estratégia narrativa, tanto da memória como da história. Ao generalizar a família, obtém-se a vantagem de perceber as estratégias de imaginário político que estas oligarquias operaram, ao mesmo tempo em que se corre o risco de perder as individualidades escondidas por detrás do nome.

Assim, Rachel diferencia a família ancestral da família nuclear: “Agora, minha família (nuclear) não era o modelo tradicional de família sertaneja. Meu pai não era um

89 QUEIROZ, Rachel de. A Fazenda Califórnia (I). Última Hora. 14/06/1976. Fundo Rachel de Queiroz.

AIMS.

90 Apud LEMENHE, Maria Auxiliadora. Op. Cit. p.17. A primeira edição de Os donos do poder, de

Faoro, foi publicada em 1958 e a segunda, revista e ampliada, em 1975.

pater famílias ditador. Mamãe não tinha nada da fazendeira velha, autoritária. Eles eram

bastante sofisticados e intelectualizados”92. No entanto, longe de ser a família nuclear

burguesa (pai, mãe e filhos), a família nuclear racheliana incluía avós, primos e outros dependentes próximos, que de tempos em tempos moravam na mesma casa.

Em novembro de 1910, Daniel de Queiroz Lima (1886-1948) tinha vinte e quatro anos, formara-se em Direito como seu pai e irmãos. Casara-se havia menos de um ano com a jovem e bela Clotilde Franklin (1892-1953), descendente “puro sangue” dos Alencar93.

Filho do Dr. Arcelino, pai de Rachel e fã dos discursos de Rui Barbosa, é ao Dr. Daniel que a autora atribui em suas lembranças a herança de um “espírito de autonomia, de não me condicionar àquilo que me sufoca; de resistir”. E, em outro momento, afirma: “Havia afinidades entre nós. Éramos grandes amigos. Eu era muito parecida com ele. (…). Talvez no temperamento. Eu sou uma pessoa cordial, gosto das pessoas” 94:

Meu pai era voltaireano, rousseauniano; anticlerical; namorava com a ideia do Ente Supremo e reverenciava a Declaração dos Direitos do Homem. Como bom representante da belle époque, amava também os brilhos do fim do século, de cujos últimos clarões participou (tinha 23 anos quando se casou em 1910) (...). Mas, logo em 1914, rebentou a I Grande Guerra e o sonho acabou. Meu pai deixou então suas jovens faceirices de janota, aparou os belos bigodes louros que ele usava à Kaiser, meteu-se no chamado dolman de brim, de fazendeiro e fazendeiro ficou, até morrer (...). Da boca de meu pai, aprendi, pequena, ainda, os nomes de Danton, Saint-Just, Robespierre, Marat, André Chénier. Dele herdei uma antipatia incurável pelos Bourbon de França (...). Suponho que, quando aos 18 anos eu virei comunista, ele não reagiu muito ante as minhas ideologias porque considerava sempre a Revolução de Outubro na Rússia a herdeira direta da Revolução Francesa. (...). Bem, nós, os Queiroz (pela parte de meu pai), e nós, os Alencares (pela parte de minha mãe), sempre fomos raça de republicanos e rebeldes. Não houve um único dos meus 16 tataravós, Queiroz ou Alencar, que não fosse morto, ou perseguido, ou fugitivo, ou encarcerado, naquele agitado período de 1817 a 1824, aqui no Nordeste95.

É neste sentido que, na memória familiar racheliana, a influência paterna será constantemente definida como política e, na construção do sujeito racheliano esta política está diretamente vinculada à ideia de autonomia.

A autonomia, assim, foi um argumento frequentemente empregado por Rachel de Queiroz ao longo da vida, para justificar posições políticas e sociais próprias, como se estas fossem independentes de partidos e instituições: “Quando você anda em manadas,

92 NERY, Hermes Rodrigues. Presença de Rachel. Ribeirão Preto: FUNPEC Editora, 2002. p. 53. 93 QUEIROZ, Rachel de. Entrevista a Isabel Lustosa. Rio de Janeiro: 29/10/1993. p. 01. APIL. 94 NERY, Hermes Rodrigues. Op. Cit. p. 38.

95 QUEIROZ, Rachel de. Por falar em Revolução Francesa. O Estado de São Paulo. 14/07/1989. Fundo

você dissimula muito mais e seus medos são maiores. Eu prefiro estar só e ser autêntica”96, afirma Rachel já idosa.

Por outro lado, se o pai é lembrado como aquele que ensinou a Rachel de Queiroz suas primeiras noções de política, dona Clotilde Franklin de Lima representa a veia intelectual e organizadora da família: “nos dominava a todos, nos orientava, nos cobrava, nos exigia. Aliás, sempre me acusou de preguiçosa, me animava no início de cada livro novo” 97:

Amanhã, domingo, é dia das Mães. E, em matéria de mãe, não posso me queixar. A minha era linda – poder-se-ia até dizer lindíssima (quem a conheceu deve lembrar-se e, os outros, é fácil verificar nos retratos). E usando a afirmação corriqueira: “A ela devo tudo que sou”, queria explicar que não estou empregando um lugar-comum. Foi ela que me pôs o primeiro livro nas mãos, assim que, sozinha, aprendi a ler, soletrando cabeçalhos nos jornais. Naquela casa via todo mundo lendo, minha mãe, meu pai, meu avô, minhas tias (só minha avó Maria Luísa não gostava de ler e zombava gentilmente dos “literatos”). Não me puseram em escola primária (naturalmente ideia de minha mãe). Davam-se livros para ler e contar depois o que lera. Meu pai também me iniciava em política e lia trechos de discursos de Rui Barbosa, que ele adorava, e que eu achava bastante maçantes (nesse tempo ninguém dizia ‘chato’, era palavrão). Mas ele me explicava o que