• Nenhum resultado encontrado

MENTALIDADES QUASE COMUNISTAS

No documento Livros Grátis (páginas 67-70)

66

do Partido, eles perderam espaço. Para alguns, porém, uma vez comunista, sempre comunista. Assim, as ameaças de execução de fazendeiros e de suas famílias, os boatos de transformação da sede de uma fazenda (a fazenda Guanady), situada próxima ao centro urbano, em sede do Partido Comunista, acirravam os ânimos. Em depoimentos coletados e em perguntas feitas pelos responsáveis pelos IPMs, essas ameaças são retomadas como parte das acusações. No entanto, a grande indignação tomou forma quando se espalhou o boato de que os comunistas pintariam a igreja matriz de vermelho e a transformariam em um bordel. Seria a sacralização da prostituição?

Tal aberração escandalizou a cidade, além de gerar violentos bate-bocas entre os possíveis “pintores” da igreja e os cidadãos assustados com tal possibilidade. Ameaças como essas fizeram com que alguns fazendeiros providenciassem armas para a sua defesa e se tornasse mais tenso, ainda, o clima político de Aquidauana. Em entrevista realizada com Clealdon Assis, preso político em 1964, ele foi categórico ao afirmar ter visto algumas das armas importadas do Paraguai por fazendeiros de Aquidauana. As acusações de compra de armas eram freqüentes nos dois lados: em vários depoimentos constantes nos IPMs são encontradas menções sobre armas recebidas pelos comunistas locais. De fato algumas referências sobre a possibilidade de confrontos armados sugerem tal situação, entretanto, ao verificarmos as reais condições dos possíveis guerrilheiros, percebe-se que boa parte deles sabia apenas manejar muito bem foices, martelos e enxadas, em decorrência de suas atividades no campo.

Seria impossível conviver indefinidamente com esta situação. O golpe militar, consumado em 1o de abril de 1964, cortou o nó górdio de uma correlação de forças aparentemente equilibrada. Instalou uma ditadura militar e reforçou a hegemonia do capital internacional no bloco do poder (Reis Filho, 1989, p 22).

A partir de 1o de abril, cabia aos militares operar uma reconceitualização do Golpe, na tentativa de garantir a passividade dos que tivessem dúvidas acerca dos objetivos da “Revolução Democrática” de 31 de março de 1964. Em Aquidauana, o Golpe colocava termo à situação composta por relações políticas locais e ao contexto utópico-transformador dos anos 60, manisfestados no País e na cidade. A expectativa de que algo aconteceria, empurrando a história mundial e brasileira em direção a uma Revolução Socialista, instalou-se nas mentalidades dos envolvidos nas disputas políticas maiores e nas do homem identificado como comum, desejosos de um mundo diferente.

Em certos momentos, os homens se parecem bastante, especialmente quando desejam algo. Os interrogatórios constantes dos IPMs e também dos processos criminais, além das entrevistas, evidenciam esses momentos.

Se alguns membros da esquerda aquidauanense tiveram, antes dos anos 1960, formação marxista e preservaram tais características, outros não receberam o mesmo tratamento. Esses cidadãos, desprovidos de uma formação ideológica sistematizada, participavam dos movimentos sociais com expectativas no futuro. Por certo, as dificuldades econômicas, não só as individuais como as coletivas, foram fatores importantes nessa participação.

O que teria movido tais pessoas, desligadas de uma teoria política por mais simples que ela fosse? Minha interpretação recorreu a estudos de pesquisadores franceses que oferecem possibilidades de compreensão de pequenos detalhes, aparentemente sem importância, para identificar formas de perceber e agir no mundo. Nessas participações, políticas, por certo, mas notadamente assentadas num cristianismo que denuncia as diferenças e as misérias sociais, identificamos traços de mentalidades plasmadas pela luta contra injustiças. Pessoas comuns, sem formação política, juntamente com os militantes da esquerda de Aquidauana, participavam das reuniões de domingo, no antigo “Bar São Paulo”, situado à margem esquerda do rio Aquidauana, compartilhavam a “fé” em mudanças futuras. Impossível desprezar a forma com que essas pessoas se colocavam frente às possíveis alterações à sua volta.

Localizar esses pequenos detalhes no acontecimento em Aquidauana, remete-nos às manifestações de um tipo de mentalidade. Num certo

68

sentido, essa mentalidade é cristã, particularmente para as pessoas de formação católica que identificavam nas propostas da Utopia Comunista alguma semelhança com seus desejos de mudança. Por caminhos diversos, os desejos ou as utopias confluíam em uma mesma direção. De um lado, os comunistas com seus anseios e aspirações engajados, fundados na teoria marxista nascida na Alemanha e na Inglaterra - do século XIX, compartilhavam com pessoas comuns o desejo por mudanças em um mundo injusto. Os seus discursos inflamados e os seus sermões soavam falsos e inócuos para aqueles que não queriam mudanças. O desejo de mudança pode ser manifestado pelo impulso da consciência do sujeito, imaginando então a possibilidade de um mundo diferente. Mas a característica conservadora é um traço comum nos seres humanos. Suas alterações parecem naturais como o ato de ingerir água, talvez por isso subdimensionadas e relegadas ao plano das repetições individuais ou mesmo coletivas. Philipe Ariés retoma a banalidade, fornecendo-lhe a importância devida: [...] pois tudo o que concerne ás repetições banais da existência torna-se traço essencial de mentalidade. (ARIÉS, 1990, p. 165-6).

Ao se analisar o passado de Aquidauana, nos momentos próximos ao Golpe Militar, percebe-se que a presença da Utopia Comunista se associa à luta dos segmentos sociais pobres por uma sobrevivência melhor. A presença de pessoas simples e humildes que se relacionavam com os comunistas, as quais em seus depoimentos, negam conhecer algo sobre comunismo ou socialismo, sugere que tais participações ligaram-se a valores comuns aos seres humanos. Esses valores, compostos por anseios, desejos e ambições, encaminhavam o ser humano a reagir frente a sua realidade. Em nosso caso, uma realidade conflituosa, um mundo em crise, uma sociedade mesclada por valores diversos, em uma cidade com um passado ligado à violência e ao temor frente a mudanças abruptas, como atestam trabalhos de pesquisa sobre o Mato Grosso. Os conflitos se davam muito além dos interesses políticos e econômicos, perpassando um espaço mais amplo que o Pantanal. O choque colocava duas visões de mundo, embaladas por utopias em contradição flagrante.

O DISCURSO DA REVOLUÇÃO E SUAS PRáTICAS

5

MAFALDA: Mas tu disseste que ias ao Jardim Infantil...

porque não estás lá agora?

MANUELITO: Porque se acabaram as Classes!

MAFALDA: S O C I A I S ? MANUELITO: Escolares!

MAFALDA: Oh!...julguei que tinha chegado o comunismo!

(QUINO)

No documento Livros Grátis (páginas 67-70)