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CAPÍTULO I A REPRESENTATIVE ADE DEMOCRÁTICA POLÍTICA E O

C) Mercado Comum

Diferentemente das etapas de integração anteriores, o mercado comum contempla uma estrutura e funções bem mais complexas do que a simples liberalização de mercadorias no mercado interno do bloco econômico. Mantendo as características de uma união aduaneira, ao mercado comum acresce-se a livre circulação dos fatores de produção, capital e trabalho, implicando, por via conexa, no livre estabelecimento e na livre prestação de serviços pelos nacionais de cada país-membro em toda a região do espaço econômico ampliado. Desse modo, com o mercado comum consagram-se quatro liberdades149 que se constituem como princípios fundamentais para o processo de integração econômica regional: a livre circulação de bens, pessoas, serviços e capitais.

As liberdades preconizadas nesse estágio evolutivo evidenciam uma necessária harmonização dos processos de condução política, com o intuito de promover a diminuição das desigualdades existentes entre os Estados-membros. Por conseguinte, adotar-se-ão medidas que, para além da mera livre circulação de mercadorias, satisfaçam a realização plena da mobilidade dos fatores de produção, cuja complexidade está a requerer garantias de ordem jurídica. Inicialmente, convém destacar a livre circulação de pessoas como uma das mais ousadas metas a serem postas em prática pelos Estados-membros, não só por comportar a difícil tarefa de assegurar a necessária tranqüilidade de deslocamento e travessia a todos os cidadãos que pertençam ao bloco, como também em garantir condições de igualdade e oportunidade aqueles que desejam desempenhar suas atividades profissionais fora de seu Estado nacional. Nesse diapasão, a livre circulação de pessoas significa que qualquer cidadão nacional de um dos Estados-membros poderá se deslocar livremente nos demais sem estar sujeito a algum obstáculo ou controle fronteiriço interno. Em outras palavras, isso se traduz na possibilidade dos indivíduos e suas famílias poderem exercer uma profissão em qualquer país integrante do mercado comum,

CAMPOS. João Motta de. Direito comunitario - o ordenamento econômico. 4. ed. Lisboa: Calouste Gulbenkian, 1994. v. III. p. 187.

149 Ressalta-se que se tem defendido a existência de uma quinta liberdade na etapa de mercado comum, a livre

concorrência entre os estabelecimentos de comércio e serviços de todos os Estados-membros. Apesar de não se estar

adotando essa liberdade para o presente estudo, é de importância que se faça algumas considerações a respeito dela. A concorrência é um instrumento fundamental para a economia de mercado, pois age eficazmente sobre as tabelas de preços praticadas pelas empresas, bem como sobre a qualidade de sua produção. Permite colocar, diante dos consumidores, uma maior oferta de produtos e serviços, cuja relação preço e qualidade vai diminuindo à medida que for surgindo novos agentes econômicos na disputa pelo mercado consumidor. Para que o mercado não esteja à mercê de manipulações efetuadas pelas corporações empresariais, que tendem em pensar naturalmente na maximização de seus lucros, é que se estabelece a liberdade de concorrência como garantia de que não poderá haver nenhum tipo de obstáculo à livre ação das forças do mercado, tanto por parte da iniciativa privada como também da iniciativa pública. Desse modo, todas as práticas que tenham por objetivo impedir, restringir ou falsear a concorrência no mercado comum deverão ser eliminadas em favor do funcionamento espontâneo das relações de produção e consumo.

não devendo, em conseqüência, sofrerem discriminações por parte do ordenamento jurídico, das autoridades públicas e dos demais indivíduos nacionais do lugar de estabelecimento.

Em seguida, a livre prestação de serviços, que implica na liberdade de estabelecimento, visa assegurar que todas as pessoas, naturais e jurídicas, possam realizar ou prestar serviços, bem como estabelecer sede profissional livremente em qualquer um dos Estados-membros, possuindo, para isso, idênticas condições de oportunidade e tratamento com os nacionais do país de acolhimento. Para bem dessas liberdades que consagram a prestação de serviços, o estabelecimento e o comércio dentro das fronteiras que cercam o mercado comum, é que se revela a necessidade de se proceder a livre circulação de capitais como forma de operacionalizar e facilitar a dinâmica ingénita às atividades comportadas por essas liberdades fundamentais. Essa livre circulação de capitais compreende a liberdade de movimentação de valores monetários de um país para outro130, facilitando enormemente toda e qualquer operação destinada a promover os investimentos essenciais ao estabelecimento dos diversos setores empresariais, as prestações de serviços, bem como o fomento das atividades de importação e exportação entre os Estados- membros.

Todo esses caracteres que conformam o mercado comum são o reflexo dos vários princípios basilares que estão a reger os objetivos da integração, como a solidariedade, a igualdade, a gradualidade e a uniformidade. E, como não poderia ser diferente, para a prossecução de toda essa estrutura ligada ao mercado comum, os Estados-membros deverão dotar o processo com um sistema de proteção jurídica que consiga assegurar aos seus nacionais o pleno exercício de todos os direitos decorrentes das liberdades fundamentais acima expostas.

Nesse sentido, por ensejar um plus à integração, a implementação de um mercado comum poderá exigir que os Estados-membros estejam de posse de um aparato administrativo de caráter supranacional, que seja responsável pela adequada organização e funcionamento das atividades desenvolvidas pelo bloco regional. Em outras palavras, isso significa dizer que o processo de integração, para poder cumprir com os objetivos próprios de um mercado comum, poderá necessitar de instituições cuja capacidade decisória esteja acima da autoridade individual dos

150 Não obstante, observa-se que ainda haverá um limite de dinheiro físico que cada pessoa poderá fazer circular de um país para outro, pois os bancos centrais de cada Estado não têm a capacidade de exercer um controle efetivo sobre a movimentação física do dinheiro, pois o que será permitido, em âmbito de mercado comum, é a livre circulação virtual de valores monetários, quer dizer, circulação através dos bancos, porquanto só assim poderá haver um controle dos bancos centrais sobre o fluxo das movimentações monetárias realizadas de um Estado-membro a outro. A implementação total da liberalização de capitais somente poderá se dar com a instituição de uma união monetária que permita circular, de forma controlada e segura, uma moeda única no mercado interno da integração: “Essa é a liberdade que ainda não está totalmente integrada ao mercado comum, sendo hoje uma das grandes metas do Tratado da União Européia (TUE): a unificação da moeda; somente a partir da concretização desse projeto haverá a liberalização total da circulação de capitais.” In: ALMEIDA, Elizabeth Accioly Pinto de. Op. cit., p. 44.

Estados soberanos, obrigando-os interna e externamente a agirem em conformidade com os ditames normativos aprovados por essas instituições supranacionais. Nesses termos, a supranacionalidade151 compreende uma ordem autônoma e independente que se manifesta sobre as unidades nacionais constitutivas do processo de integração, cujo conteúdo deve se orientar ao cumprimento dos valores e interesses comuns reconhecidos entre os Estados-membros. Destarte, no âmbito das normas estabelecidas entre os Estados e a organização supranacional, há verdadeira relação de subordinação das soberanias nacionais à instituição supranacional, ao contrário do que ocorre com as regras tradicionais vigentes no plano do Direito Internacional Público, onde as relações estabelecidas entre os sujeitos de direito internacional fundamentam-se na coordenação e intangibilidade das soberanias estatais, cujo princípio norteador concentra-se na igualdade e equilíbrio entre as forças nacionais152.