2.3 A ANÁLISE ECONÔMICA DA POLÍTICA REPRESSIVA AO MERCADO DE
2.3.1 Mercado de drogas e elasticidade da demanda
45 JUNGERMAN, F.; LARANJEIRA, R.; BRESSAN, R. Maconha: qual a amplitude de seus prejuízos?.
Rev. Bras. Psiquiatr., v. 27, n. 1. São Paulo: mar. 2005, p. 5 a 6. Disponível em:
<http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1516-44462005000100003&lng=pt&nrm=is o> Acesso em: 22 fev. 2015.
46 SHARP, A.; REGISTER, C.; GRIMES, P. Economics of Social Issues. 14th Ed. Irwin McGraw-Hill,
1999, p. 96.
47 COOTER, R.; ULEN, T. Direito & Economia. 5ª Ed. Luis Marcos Sander, Francisco Araújo da Costa
(trad.). Porto Alegre: Bookman, 2010, p. 26.
48 MELLO, C. Curso de Direito Administrativo. ed. 12, São Paulo : Malheiros, 1999, p. 92
49 MORAES, A. Reforma Administrativa: Emenda Constitucional nº 19/98. 3. ed., São Paulo: Atlas,
Adentrando especificamente no caso da proibição do uso e comércio da maconha, algumas conclusões econômicas apontam problemas nas políticas repressivas, sugerindo a sua ineficiência.
Neste sentido, merece destaque o problema da elasticidade da demanda, entendendo esta como uma medida da quantidade demandada de um bem que reage a uma mudança em seu preço50.
Em outras palavras, elasticidade da demanda seria a taxa de resposta do consumidor de um bem ao se deparar com aumentos e reduções no preço desse mesmo bem. Se houver um aumento no preço, como os compradores reagirão? Irão eles alterar a quantidade que já compram? O estudo da elasticidade da demanda – também chamada de elasticidade-preço – tem por objetivo responder esses questionamentos.
Por exemplo, se um aumento de 10% no preço do sorvete ocasionar uma redução de apenas 5% na quantidade total comercializada, neste caso, como a alteração percentual no preço foi maior do que a alteração percentual da quantidade demandada, temos um caso de demanda inelástica. Neste exemplo, os compradores reagem diminuindo a quantidade demandada em proporção duas vezes menor do que a alteração no preço.
Se em outro exemplo imaginado, uma alteração de 12% no preço da Fanta laranja ocasiona uma queda de 20% na quantidade vendida, temos um caso de
demanda elástica, pois os consumidores, proporcionalmente, desistiram do produto
em uma taxa maior do que o aumento no preço.
Assim, quando usamos o termo inelasticidade dizemos respeito à tendência de proporcionalmente ocorrerem “menores alterações na quantidade vendida” do que as “alterações no preço”.
Estudos indicam que a demanda por maconha é inelástica, com tendência de redução de demanda de apenas metade da taxa do aumento no preço51. Assim, um
acréscimo de 10% no preço causaria uma redução aproximada de apenas 5% na quantidade demandada.
Naturalmente, tal estimativa não deve ser levada ao pé da letra, haja vista as diferentes circunstâncias que podem influenciar os mais diversos mercados de
50 MANKIW,G. Introdução à Economia. 5ª Ed. Allan Vidigal Hastings, Elisete Paes e Lima (trad.). São
Paulo: Cengage Learning, 2013, p. 88.
51 CLEMENTS; KENNETH, W.; DARYAL, M. Marijuana Prices in Australia in 1990s. Economic
maconha em função do tempo ou espaço. Entre outros fatores, a possibilidade dos consumidores poderem ter acesso a bens substitutos (outras drogas similares), bem como fatores que influenciem suas expectativas, fatores que alterem a renda ou ainda a existência de bens relacionados, conforme explanamos anteriormente (vide item 2.2.1., pg. 27).
No entanto, mesmo que a realidade admita variações para mais ou para menos, a análise empírica reveladora de inelasticidade da demanda por maconha já nos denuncia uma tendência existente neste mercado e que não pode ser ignorada. Se partirmos do pressuposto de que as drogas em geral causam alguma parcela de dependência ou a simples sensação de prazer momentâneo, já é possível admitir a hipótese de que sejam produtos atraentes e que continuarão sendo procurados mesmo com significativas alterações no preço.
Se levarmos em conta o dado de que a proibição e repressão elevam o preço da maconha no mercado ilegal, os consumidores da droga reagirão menos ao aumento do preço do que o desejado pelo governo. Em outras palavras, os acréscimos nos investimentos em repressão (custos sociais marginais) tendem a ser proporcionalmente maiores do que as reduções na quantidade total consumida (benefícios sociais marginais)52.
Se, exemplificativamente, um governante decide “fechar o cerco” contra o narcotráfico, e aumentar a repressão e, em virtude disto, o preço da droga subir 30%, a tendência é de que os compradores reduzam apenas 15% da quantidade total de droga comprada.
Outra conclusão importante deduzida da inelasticidade da demanda é que o consumidor da maconha, que reage baixando o consumo proporcionalmente menos do que o aumento no preço, tende a ser um comprador “fiel” mesmo com um produto mais caro. Os traficantes, certos de que venderão a droga mesmo a preços maiores, têm incentivos para investir mais no negócio (armas, subornos, tecnologia, etc.), repassando os custos aos compradores e garantindo a lucratividade do empreendimento. Ou seja, à medida que o Estado investe na guerra contra a maconha, os traficantes tendem a responder com mais investimentos, o que gera ainda mais violência e outros danos sociais. A situação aponta para um verdadeiro
52 BECKER, G.; MURPHY, K.; GROSSMAN, M. The Market for Illicit Goods: The Case of Drugs.
paradoxo,53 onde o mercado passaria por um processo de seleção, permanecendo
aqueles atores com maior capacidade de sobrevivência, o que significaria, potencialmente, maior violência54.
Sob a perspectiva do consumidor, as consequências desta obstinação pelo produto podem ser igualmente nefastas. Com o aumento do preço de varejo, os compradores precisariam incrementar a sua renda para possibilitar a aquisição do produto, o que teoricamente poderia ocasionar, para determinados seguimentos compradores com alto grau de dependência e já afeitos à criminalidade, o aumento de condutas ilícitas contra o patrimônio alheio – como roubos, furtos, sequestros ou latrocínios – com o propósito de criar renda para obtenção de drogas e, consequentemente, satisfazer o vício55.
A fim de melhor compreender esta hipótese, vejamos os gráficos comparativos a seguir que demonstram dois cenários de aumento de preço da droga (gráfico 3). O primeiro, para o caso de demandas inelásticas (usuários viciados). O segundo, para o caso de demandas elásticas (usuários não viciados).
No primeiro caso, em um cenário de usuários viciados e, portanto, com demanda inelástica, grandes variações no preço (p2 – p1) causam pequenas variações na quantidade comercializada (q1-q2), o que resulta em uma curva de demanda (Dv) bastante inclinada.
Já no cenário dos usuários não viciados, o mesmo aumento no preço (de p1 para p2) causa uma redução maior na quantidade demandada (de q1 para q2), o que evidenciando demanda elástica e com curva (Dn) menos inclinada.
Como já expusemos, quando os governos penalizam criminalmente as práticas do mercado de drogas (comprar, vender ou consumir), o objetivo é criar riscos e dificuldades aos agentes envolvidos, de maneira que estes passem a evitar as práticas deste mercado. Os traficantes então teriam incentivos a mudar de ramo, buscando outras formas de atividades econômicas, enquanto que o aumento do preço da droga e os riscos envolvidos desencorajariam os consumidores e reduziria o consumo total.
53 Ibidem.
54 COLLINS, J. The Economics of a New Global Strategy. Ending the Drug Wars. Report of the LSE
Expert Group on the Economics of Drug Policy. London School of Economics and Political Science. London: LSE Ideas, 2014, p. 9.
55 COOTER, R.; ULEN, T. Direito & Economia. 5ª Ed. Luis Marcos Sander, Francisco Araújo da Costa
Gráfico 3 - Comparativo de Curva de Demanda entre Viciados (Dv) e Não-Viciados (DN)56
No entanto, pelo demonstrado no gráfico de demanda Dv, sendo inelástica a demanda, os meios empregados pelos governos para reduzir a oferta – que geram altos custos sociais de repressão – muito embora possam causar alguma redução do consumo pelo aumento do preço, tendem a não surtir o efeito esperado.
Vale ressaltar que a análise também demonstra que a demanda será tão mais inelástica quanto maior o grau de dependência do usuário. Esta conclusão motivou a implementação de políticas públicas em alguns países que fornecem drogas gratuitamente para usuários em grau avançado de vício, de forma que estes teriam outra forma de acesso ao produto, enquanto os consumidores marginais – considerando estes como os consumidores eventuais e com demanda menos inelástica – continuariam sujeitos à oferta restrita e com preços altos57.
Muito embora a maioria das pesquisas consultadas apontem para o caráter inelástico da demanda por maconha, não se pode ignorar que existe alguma controvérsia sobre assunto ante a inexatidão da estimativa, principalmente quando se trata de um produto cujo comércio é ilegal, o que dificulta o acesso do pesquisador aos dados.
56 MANKIW, G. Introdução à Economia. 5ª Ed. Allan Vidigal Hastings, Elisete Paes e Lima (trad.). São
Paulo: Cengage Learning, 2013. p. 103.
Também se admite a variabilidade dos números em decorrência de outros fatores não mencionados nos estudos, como período de tempo ou qualidade da droga.
Tabela 1 – Quadro58 comparativo de diferentes índices de elasticidade-preço da demanda da
maconha encontrados por autores diversos.
A tabela 1 acima esquematiza uma síntese dos índices de elasticidade da demanda encontrada por diferentes trabalhos acadêmicos de cunho econômico. Como se pode ver, muito embora não exista consenso sobre a exatidão da elasticidade da demanda, a maioria indica uma tendência de que, para o caso da maconha, a demanda seja inelástica.
O quadro abaixo, elaborado por um estudo mais recente59, feito com
comparação entre diferentes estados americanos, confirma a tese de que a demanda por maconha é inelástica para a grande maioria dos casos. No entanto, os dados revelam que o índice pode variar de acordo com a faixa etária dos usuários pesquisados, bem como pelo tipo de legislação adotada pelo estado (apenas o uso médico, descriminalização ou proibição total).
O índice mostrou-se elástico (número superior a 1, ignorando-se a existência de sinal negativo) em média apenas para os usuários com idade entre 12 a 17 anos,
58 BALBINOTTO NETO, G; CHITOLINA, L. A Economia das Drogas Ilegais: teorias, evidências e políticas públicas. Ufrgs. Porto Alegre, 2009.
59 RUGGERI, D. Marijuana Price Estimates and The Price Elasticity of Demand. IJTEMT Vol. II, Issue
o que indica que os usuários enquadrados nesta categoria são mais sensíveis a variações no preço da droga.
Tabela 2 – Quadro comparativo60 de elasticidade-preço da demanda pela maconha, com variações
decorrentes da faixa etária dos usuários pesquisados e também pelo tipo de legislação adotada.