Este capítulo abordará as mudanças na composição do mercado de trabalho brasileiro no período 1995-2004-2014, buscando identificar as diferentes dinâmicas setoriais e regionais do emprego e os efeitos que o processo de crescimento da economia, em um contexto de desindustrialização, exerceu sobre o emprego industrial e da indústria de transformação, setor que concentra as atividades de melhor nível salarial e de qualificação em comparação com os demais setores de atividade.
O capítulo também discutirá a importância da indústria de transformação na ótica do emprego, tendo em vista que este setor continua sendo um dos maiores empregadores formais da economia e detentor da maior massa salarial frente aos demais setores (desconsiderando a administração pública), evidenciando com isso sua importância para a dinâmica da economia, do emprego, da renda e do processo de desenvolvimento autônomo do país.
3.1 – Aumento do emprego formal no Brasil e regiões
O notável avanço do emprego no Brasil no período de crescimento recente resultou, sem sombra de dúvidas, em uma melhor estruturação do mercado nacional de trabalho, com o aumento da formalização e da renda média em termos reais em diversos setores de atividade. Este crescimento do emprego, da massa salarial e do poder de compra dos trabalhadores foi um importante determinante da demanda interna enquanto variável fundamental do crescimento do PIB entre 2004 e 2014.
Este maior crescimento da economia, por sua vez, foi um fator chave para a melhor estruturação do mercado de trabalho, ainda que tenham existido diferenças entre os segmentos de atividade em relação a dinâmica de geração de empregos, como veremos a seguir. Em termos nacionais, o grau de formalização deu um salto considerável, com o aumento da participação do emprego com carteira assinada tendo aumentado de 29,4% em
1995 para 31,6% em 2004 (período de estagnação), e 40,7% do emprego total em 2014 (período de crescimento). (RAIS).
A ampliação do emprego com carteira se refletiu também na redução da participação de todos os setores mais vulneráveis do ponto de vista da posição na ocupação, com destaque para o emprego não remunerado, que passou de 10,4% para 3% entre 1995 e 2014, seguido de outros trabalhos sem carteira (de 17% para 15,2% no mesmo período), além da redução do trabalho para o próprio consumo e o trabalho por conta própria. O emprego doméstico também apresentou níveis constantes de formalização, embora os impactos da formalização sobre este segmento tenham se acentuado somente após 2015, quando foi aprovado a PEC das Domésticas que proibiu o trabalho doméstico para menores de 18 anos, além de instituir jornada de trabalho de no máximo 8 horas por dia, o direito a férias remuneradas, a multa por demissão injustificada e o acesso à proteção social. (ver gráfico 3.1).
Gráfico 3.1 - Empregados segundo a posição na ocupação. Brasil 1995-2014.
Fonte: PNAD. Exceto empregador, militar e conta própria para o próprio uso. Elaboração própria. A tendência a maior formalização do emprego foi observada em todas as regiões do país, refletindo a extensão nacional deste processo. O caso da região Nordeste é emblemático neste sentido, onde o emprego com carteira deu um salto de apenas 15,3% em 1995 para 17,7% em 2002 e 26,7% em 2014, quase dobrado a participação do emprego formal nesta região em relação a 1995. Na região Sudeste, o avanço do emprego com
carteira também foi significativo, passando de 39,7% em 1995 para 41,2% em 2012 e 49,1% em 2014 - acima da média nacional de formalização para este último ano (40,7%).
No estado de São Paulo, o mais rico e industrializado do país, e que sempre esteve acima da média nacional em relação ao emprego formal, o crescimento da participação do emprego com carteira assinada foi de 46,4% em 1995 para 47,1% em 2012 e 54,4% em 2014. Nas demais regiões (Norte, Sul e Centro Oeste) o aumento da participação seguiu a mesma tendência, de leve oscilação positiva entre 1995-2004 (período de baixo crescimento econômico) para um aumento mais expressivo entre 2004-2014, período de maior crescimento econômico que inclui os dois governos de Lula e o primeiro governo Dilma. (ver gráfico 3.1.2).
Gráfico. 3.2 - Empregados segundo a posição na ocupação. Regiões e Estado de São Paulo. (1995-2014).
Fonte: PNAD. Exceto empregador, militar e conta própria para o próprio uso. Elaboração própria.
A melhor estruturação do mercado de trabalho se expressou para além do crescimento do emprego com carteira assinada e atingiu outras posições na ocupação,
especialmente nas regiões mais pobres em que a capacidade de absorção de mão de obra formal é limitada pelas próprias fragilidades de sua estrutura econômica. É o caso da região Nordeste, por exemplo, onde houve forte redução do emprego não remunerado, de 17,3% em 1995 para 12,9% e 4,3% em 2014. O que se refletiu no crescimento do emprego no próprio consumo e no funcionalismo público, além do emprego com carteira. (ver gráfico 3.1.2).
A distribuição regional do emprego com carteira assinada no período analisado apresentou uma perda de participação relativa da região Sudeste, que passou de 57,7% dos vínculos formais em 1995 para 54,4% em 2004 e 51,3% em 2014 (-6,4%). Com exceção da região Sul, que manteve sua participação praticamente inalterada em torno de 18% ao longo do período em tela, as demais regiões aumentaram sua participação no estoque de empregos formais do país em relação a região Sudeste. A região com maior aumento de participação relativa foi o Nordeste, passando de 15,2% (1995 e 2004) para 17,1% do emprego formal nacional em 2014. Seguido da região Norte e Centro-Oeste, que também elevaram sua participação. (ver gráfico 3.2).
Gráfico 3.3 - Emprego com carteira – composição regional (%).
Fonte: PNAD. Elaboração própria.
5,6% 6,9% 8,2% 15,2% 15,2% 17,1% 2,7% 4,4% 5,1% 57,7% 54,4% 51,3% 18,8% 19,1% 18,3% 0% 10% 20% 30% 40% 50% 60% 70% 80% 90% 100% 1.995 2.004 2.014
3.2 – O perfil setorial da renda
O período de recuperação da atividade econômica entre 2004 e 2014 teve também um impacto positivo sobre a renda média em todas as posições na ocupação, após um período de perda em termos reais do rendimento médio entre 1995 a 2004. Os dois momentos são claramente opostos em relação não apenas a valorização do rendimento médio de todos os trabalhos, mas também daquelas ocupações cuja remuneração sempre estiveram muito abaixo das demais, com é o caso, por exemplo, do trabalho doméstico e dos sem carteira, que tiveram ganhos reais expressivos em termos percentuais, graças ao impacto do aumento do salario mínimo enquanto salario de referência para as ocupações de menor remuneração.
No período de 1995 a 2004 somente a renda média do trabalho doméstico com carteira obteve ganho real (7%), enquanto todas as demais ocupações tiveram perdas em temos reais. Os trabalhadores com carteira assinada sofreram uma perda de -15% em seus rendimentos médios e os conta-próprias de -20%, num cenário em que as perdas em temos reais foram de 14% na média nacional. (ver gráfico 3.4).
Gráfico 3.4 - Variação real da renda média segundo posição na ocupação – Brasil.
Fonte: PNAD. Elaboração própria.
O contraste com o período seguinte (2004-2014) foi significativo, ao ponto de que algumas ocupações tiveram valorização de até 69% de sua renda média, como no caso das
domésticas sem carteira, devido também a valorização do salário mínimo. O valor do rendimento médio do empregado doméstico com e sem carteira passou, entre 1995 e 2014, de R$557,20 para R$954,24 (71,2%) e de R$380,17 para R$594,90 (56,5%) respectivamente, refletindo ainda a grande desigualdade de remuneração entre o trabalho doméstico com carteira e sem carteira.
Os valores nominais atualizados pelo INPC acumulado no período até 2014, revela uma maior convergência dos setores mais vulneráveis em direção a renda média nacional, graças ao maior aumento proporcional da renda das ocupações de menor remuneração como efeito da política de valorização do salário mínimo. Os ganhos reais foram, em termos percentuais, mais acentuados para os empregados sem carteira (59%), doméstico sem carteira (56%) e doméstico com carteira (71%), com elevações muito acima da média nacional (24%), numa tendência de redução da desigualdade quanto aos rendimentos. (ver tabela 3.1).
Tabela 3.1 - Renda média segundo posição na ocupação. Variação nominal e % real.
Brasil 1995 2004 2014 2004/1995 2014/2004 2014/1995
Com carteira 1.522,89 1.294,13 1.683,27 -15% 30% 11%
Militar 2.304,23 2.102,80 3.051,32 -9% 45% 32%
Funcionário público 2.058,18 2.022,50 2.945,75 -2% 46% 43%
Sem carteira 697,06 706,40 1.110,45 1% 57% 59%
Doméstico com carteira 557,20 597,70 954,24 7% 60% 71%
Doméstico sem carteira 380,17 351,56 594,90 -8% 69% 56%
Conta- própria 1.220,43 972,67 1.488,36 -20% 53% 22%
Total 1.381,44 1.184,83 1.715,95 -14% 45% 24%
Fonte: PNAD. Elaboração própria.
Os trabalhadores com carteira, que representavam 40,7% das ocupações em 2014 (29,4% em 1995 e 31,6% em 2004) tiveram um ganho real em seu rendimento médio da ordem de 11%, de R$1.522,89 para R$1.683,27 (cerca de 1% a.a.), considerando as grandes perdas do período 1995-2004. Os trabalhadores por conta própria, por sua vez, representando 22,1% das ocupações em 2014, tiveram um ganho real de 22% entre 1995- 2014, também abaixo da média nacional, após terem amargado 20% de perdas em seu rendimento médio entre 1995 e 2004 (de R$1.220,43 para R$972,67), representando a maior perda de todos os segmentos neste período de baixo crescimento. (PNAD).
Em resumo, o período 2004-2014 registrou um aumento significativo do grau de formalização do emprego e de valorização da renda média nacional em todas as posições na ocupação e regiões do país. A posição na ocupação com maior crescimento foi a dos trabalhadores com carteira, que passou de 29,4% para 40,7% do total de ocupados no país, seguido dos trabalhadores por conta-própria que mantiveram uma participação ao longo do período em torno de 22%. Destaca-se ainda o maior aumento relativo do rendimento médio nas ocupações de menor nível de renda, beneficiadas pela valorização do salario mínimo nacional. O que foi um fator decisivo para a redução da desigualdade de renda entre as diferentes posições na ocupação, associado também a inclusão de um grande contingente de trabalhadores no emprego com carteira. (PNAD)
A combinação entre o maior aumento da renda média nas ocupações de menor remuneração e a ampliação em mais de 10% da participação do trabalho com carteira assinada no país entre 2004-2014, é uma clara expressão de como a maior estruturação do mercado de trabalho, do ponto de vista de sua maior formalização e remuneração, pode contribuir de maneira significativa para a redução da desigualdade. O emprego com carteira e a valorização do salário mínimo foram, de maneira combinada, os dois principais fatores de inclusão social e distribuição de renda neste período. (BALTAR, 2005).
É importante destacarmos ainda o papel do emprego formal para a redução das desigualdades de rendimento em termos regionais, tendo em vista que o emprego com carteira assinada é o que apresenta as menores disparidade de renda média entre as regiões, em comparação com as demais posições na ocupação. O mesmo acontece com o trabalho doméstico com carteira, em que a diferença de rendimento médio entre as regiões é menor em comparação com os empregados doméstico sem carteira. Os dados indicam que a formalização do mercado de trabalho contribuiu também para a redução das disparidades regionais em termos salariais, o que não ocorre em relação as ocupações mais vulneráveis e desprovidas dos direitos inerentes ao emprego formal. (ver gráfico 3.5).
Gráfico 3.5 - Renda média da posição na ocupação segundo regiões – 2014.
Fonte: PNAD. Elaboração própria
3.3 – Emprego segundo os setores de atividade (PNAD)
Em relação a participação dos diversos setores de atividade no emprego total (PNAD) ao longo do período 1995-2004-2014, nota-se que a Agricultura foi o setor de atividade com maior perda de participação no estoque de empregos, passando de 26,3% em 1995 para 21,4% em 2004 e 14,8% em 2014 - uma redução de 3,4 milhões de trabalhadores no setor ao longo do período, em que as perdas mais significativas foram entre os anos de 2004 e 2014. O setor de outras atividades industriais apresentou saldo negativo de emprego entre 1995-2004 e leve recuperação entre 2004-2014, sem, no entanto, ter conseguido recuperado o mesmo saldo de empregos que tinha em 1995. Os demais setores aumentaram seus saldos de emprego nos dois períodos, mas com intensidades e trajetórias diferenciadas que resultaram na mudança da participação relativa dos setores no emprego total.
Considerando o período de maior crescimento da economia (2004-2014), os setores de atividade que mais elevaram sua participação relativa no estoque de empregos (com e sem carteira, segundo os dados da PNAD) foram os seguintes: Prestação de serviços (18,1% para 19,8% de participação - crescimento setorial de 28,4%: 4,197 milhões de novas vagas); Comércio e reparação (16,5% para 17,4% de participação - crescimento
Com carteira Militar Funcionário público Outros sem carteira Domés8co com carteira Domés8co sem carteira Conta- própria Total Brasil 1.683,27 3.051,32 2.945,75 1.110,45 954,24 594,90 1.488,36 1.715,95 Norte 1.434,15 2.752,55 2.554,28 1.019,04 814,80 498,99 1.103,31 1.378,96 Nordeste 1.255,26 2.389,89 2.310,65 757,67 772,94 395,18 831,14 1.121,16 Sudeste 1.861,48 3.417,41 3.067,63 1.358,78 997,46 699,02 1.888,52 1.979,64 Sul 1.679,17 2.365,25 3.082,26 1.294,49 994,07 719,43 1.862,85 1.890,72 Centro-Oeste 1.650,36 3.218,85 4.238,87 1.403,95 960,55 646,75 1.912,14 2.013,71 - 500,00 1.000,00 1.500,00 2.000,00 2.500,00 3.000,00 3.500,00 4.000,00 4.500,00
setorial de 23,3%: 3,157 milhões de novas vagas); Educação, saúde e serviços sociais (8,9% para 10,4% de participação - crescimento setorial de 37,6%: 2,737 milhões de novas vagas); Construção (6,3% para 9,2% de participação - crescimento setorial de 69,9%: 3,613 milhões de novas vagas). A indústria de transformação reduziu sua participação no emprego total, de 13,8% em 2004 para 12,3% em 2014, com um crescimento setorial de 16% e a geração de 556 mil novas vagas no período. (ver tabela 3.2).
Tabela 3.2 - Participação dos setores no emprego total – Brasil.
BRASIL - Emprego total por setor
1995 2004 2014
Total (%) Total (%) Total (%)
Administração pública 3.205.251 4,9 4.229.120 5,2 5.145.682 5,4
Agrícola 17.623.254 26,9 17.470.901 21,4 14.197.882 14,8
Comércio e reparação 8.425.686 12,8 13.508.703 16,6 16.665.139 17,4
Construção 4.069.850 6,2 5.168.109 6,3 8.781.465 9,2
Educação, saúde e serviços sociais 5.915.898 9,0 7.262.310 8,9 9.999.624 10,5
Indústria de transformação 8.097.111 12,3 11.243.873 13,8 11.799.799 12,3
Outras atividades industriais 847.779 1,3 676.252 0,8 786.258 0,8
Serviços coletivos, sociais e
pessoais 2.075.419 3,2 3.395.287 4,2 3.999.522 4,2
Prestação de serviços 12.865.991 19,6 14.772.616 18,1 18.969.117 19,8 Transp. armaz. e comunicação 2.474.476 3,8 3.790.104 4,6 5.309.741 5,6
Total 65.600.715 100,0 81.517.275 100 95.654.229 100
Fonte: PNAD. Exclusive atividade mal definida. Elaboração própria. Exclusive Empregador.
Considerando o saldo de empregos gerados por setor de atividade em cada um dos períodos em questão, a Industria de Transformação foi a que mais reduziu sua participação. Se entre 1995/2004 a Indústria de Transformação foi responsável por 19,8% (3.146.762) das vagas de empregos geradas, entre 2004/2014 esta participação desabou para apenas 3,9% (555.926) do total de postos de trabalho gerados neste mesmo período47. Com isso, a
indústria de transformação apresentou a maior queda de participação no emprego gerado entre todos os setores de atividade na comparação entre os dois períodos, refletindo um ritmo de crescimento de emprego bem menor do que os demais segmentos durante o período mais recente de crescimento da economia e do emprego no país. (ver Tabela 3.3).
47 O estoque de empregos registrados nos setores de atividade nos três períodos não considera a participação dos
empregadores. No caso da indústria de transformação os empregadores correspondiam a 451.289 vagas em 1995, 526.245 em 2014 e 429.856 em 2014. Ou seja, um saldo negativo em termos de estoque entre 2014 e 2004 de aproximadamente 100 mil empregos nesta posição na ocupação. (PNAD).
Tabela 3.3 - Participação setorial no saldo de empregos em cada período. Brasil.
Brasil 1995/2004 % 2004/2014 %
Administração pública 1.023.869 6,3 916.562 5,9
Comércio e reparação 5.083.017 31,3 3.156.436 18,2
Construção 1.098.259 6,8 3.613.356 20,9
Educação, saúde e serviços sociais 1.346.412 8,3 2.737.314 15,8
Indústria de transformação 3.146.762 19,4 555.926 3,2
Serviços coletivos, sociais e pessoais 1.319.868 8,1 604.235 3,5
Prestação de serviços 1.906.625 11,7 4.196.501 24,3
Transp. armaz. e comunicação 1.315.628 8,1 1.519.637 8,8
Total 16.240.440 100 17.299.967 100,6
Fonte: PNAD. Exclusive atividade mal definida. Elaboração própria. Exclusive Empregadores, Agricultura e Outras atividades industriais.
O setor denominado por outras atividades industriais teve uma perda de 171.527 postos de trabalho entre 1995-2014, tendo recuperado 110 mil vagas entre 2004-2014, acumulando um saldo negativo de 61.521 mil empregos entre 1995-2014. Frente a perda de participação da Indústria de Transformação nos empregos gerados em cada período – de 19,8% entre 1995-2004 para apenas 3,9% entre 2004-2014 – os dados indicam o aumento da participação dos setores de menor valor agregado. Considerando o saldo positivo do emprego total em cada período (ver tabela 3.3), o setor de Prestação de serviços teve uma participação de 11,7% (1995-2004) e 24,3% (2004-2014), seguido do setor de Construção (6,8% e 20,9%), Comércio e reparação (31,3% e 18,2%) e Educação, saúde e serviços sociais (8,3% e 15,8%). Somados, estes setores representaram 79,2% dos novos empregos gerados entre 2004 e 2014, ante os 58,1% que representavam entre 1995-2004. A Indústria de Transformação teve uma participação de 19,4% nos empregos gerados entre 1995-2014 e de apenas 3,2% nos empregos gerados entre 2004-2014, atestando seu menor dinamismo na geração de empregos em relação aos setores acima citados. (Ver tabela 3.3).
Diante deste rearranjo, a Indústria de Transformação foi o setor que mais perdeu participação também no emprego com carteira, com redução de 31% (1995) para 27,6% (2004) e 21,30% (2014) - uma perda de dez pontos percentuais na participação do emprego formal nestas duas décadas. Enquanto isso os setores do Comércio e reparação e Prestação de serviços aumentaram de maneira expressiva sua participação relativa no emprego com carteira. (ver tabela 3.4).
Tabela 3.4 - Participação dos setores de atividade no emprego com carteira – Brasil*
Brasil 1995 2004 2014
Agrícola 7,2 6,2 4,49
Comércio e reparação 16,4 20,8 23,30
Construção 5,9 4,9 7,64
Educação, saúde e serviços sociais 12,6 10,7 10,36
Indústria de transformação 31,0 27,6 21,30
Outras atividades industriais 2,9 1,9 1,55
Outros serviços coletivos, sociais e pessoais 5,0 3,4 2,81
Prestação de serviços 11,6 17,0 20,27
Transporte, armazenagem e comunicação 7,6 7,5 8,27
Total 18.173.650 25.081.447 38.199.501
Fonte: PNAD. Elaboração própria. *Exclusive administração pública e atividades mal definidas. Esta alteração na participação dos setores de atividade no total de empregos com carteira em cada período (1995-2004 e 2004-2014) indica um menor dinamismo e a consequente perda de participação relativa da Indústria de Transformação na geração de empregos com carteira na comparação com os demais setores (comércio, construção e prestação de serviços). Tendência que também é confirmada pelos dados da RAIS. Segundo estudos do IEDI48, baseado nos dados da RAIS, a indústria de transformação teve uma perda de 3 pontos percentuais em sua participação na estrutura de empregos entre 2006 e 2014, enquanto os seguinte setores apresentaram crescimento em sua participação: serviços (32% para 35%), comércio (18% para 20%) e construção civil (4% para 6%). (ver gráfico 3.5).
Gráfico 3.6 - Empregados formais 31/12 por Setores IBGE (% do total), 2006 a 2014.
Fonte: RAIS/MTE. Elaboração IEDI.
O aumento do poder de compra das famílias e a expansão do crédito ao consumo, dos investimentos das empresas e do Estado, no contexto de uma política macroeconômica que acabou restringindo o crescimento da atividade industrial, acabou beneficiando em maior grau o crescimento do setor de Serviços (que liderou o crescimento entre 2004 e 2010, devido a seu peso na economia), do Comércio e da Construção (este último impulsionado pelos créditos com juros mais baixos e prazo mais longo, impactos do maior investimento publico e privado, obras e Programas como o Minha Casa Minha Vida).
No ciclo de crescimento ocorrido na economia brasileira entre 2004 e 2010, a taxa média do produto interno bruto (PIB) foi de 4,5%2 e o
consumo das famílias cresceu a uma taxa média de 5,23%, o qual, dado o seu peso relativo (cerca de 60% do PIB), foi o principal componente macroeconômico do crescimento no período. Neste ciclo no qual os demais componentes do PIB apresentaram um crescimento ainda maior do que o consumo das famílias houve também um acentuado crescimento das importações, cuja taxa média de 14,81% no mesmo período excedeu amplamente a do PIB e de cada componente da demanda agregada. Entre os grandes setores da estrutura produtiva, o de serviços liderou o crescimento e, devido ao seu peso na economia, afirmou-se como o que mais contribuiu para a expansão do PIB. (MEDEIROS, 2015).
Segundo a PNAD, a redução do emprego com carteira assinada na indústria de transformação foi mais intensa entre 1995 e 2004, quando apresentou uma queda de 69,6% para 61,6%, refletindo a precarização do emprego e a crise econômica. Já no período 2004- 2014, o nível de formalização deste setor voltou ao patamar anterior de 69%, refletindo a maior formalização do conjunto do mercado de trabalho e o melhor desemprenho da economia, numa constatação de que o comportamento do emprego formal nos setores de atividade e na indústria em particular, está fortemente influenciado pelo crescimento da economia, o aumento da capacidade de consumo e da maior regulação do mercado de trabalho, não limitando-se aos efeitos das inovações tecnológicas (SABOIA, 2001). (ver tabela 3.5).
Tabela 3.5 - Percentual do emprego com carteira nos setores de atividade – Brasil.
Brasil 1995 2004 2014 Com Carteira % Com Carteira % Com Carteira % Agrícola 1.307.680 7,4 1.567.098 9,0 1.714.217 12,1 Comércio e reparação 2.976.357 35,3 5.229.037 38,7 8.900.281 53,4 Construção 1.066.521 26,2 1.223.351 23,7 2.920.004 33,3
Educação, saúde e serviços
sociais 2.284.556 38,6 2.675.388 36,8 3.957.135 39,6
Indústria de transformação 5.639.029 69,6 6.925.427 61,6 8.138.367 69,0
Outras atividades industriais 518.553 61,2 468.393 69,3 593.937 75,5 Outros serviços coletivos, sociais
e pessoais 907.356 43,7 840.895 24,8 1.071.776 26,8
Prestação de serviços 2.100.124 16,3 4.271.283 28,9 7.744.904 40,8 Transporte, armazenagem e
comunicação 1.373.474 55,5 1.880.575 49,6 3.158.880 59,5
Total 18.173.650 29,1 25.081.447 32,5 38.199.501 42,2
Fonte: PNAD. Elaboração própria. Os percentuais referem-se à participação do empregado sem carteira sobre o total do setor agregado, exclusive empregador.
A maioria dos demais setores, apesar do extraordinário avanço em termos de formalização, não ultrapassou o patamar de 50% de trabalhadores com carteira, sendo que muitos setores de atividade ficando abaixo da média nacional para o ano de 2014 (40,7%). Além da Indústria de Transformação, somente o setor de Transporte, armazenagem e comunicação (59,5% de trabalhadores com carteira) e Comércio e reparação (53,4%) ultrapassaram o patamar dos 50% de formalização do emprego. Mesmo em regiões menos desenvolvidas, como no Norte e Nordeste, em que predominam industrias de bens salários (vestuário e alimentação), o percentual de emprego formal na indústria de transformação ultrapassou a média nacional em 2014, ficando em torno de 43% e 48% respectivamente, naquelas regiões, diante de um índice regional de emprego com carteira assinada de apenas 25%.
Em relação ao demais setores de atividade, o Comércio foi onde mais cresceu o contingente de empregados com carteira em termos absolutos e percentuais, seguido da prestação de serviços. No caso do Comércio, foram registrados mais de 3,6 milhões de trabalhadores formais entre 2004-2014, passando de uma taxa de 38,7% para 53,4% de empregos com carteira, somando o equivalente a 8,9 milhões de trabalhadores no total. O