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1 O DESENVOLVIMENTO E O PENSAMENTO ECONÔMICO EM

1.3 Mercado de trabalho, Keynes e o Welfare State

O capitalismo industrial, sob orientação do pensamento liberal, atravessou um largo espaço de tempo, até se deparar com sua maior crise, que ficou conhecida como “A Grande Depressão de 1929”. A deflação causou abrupta queda generalizada de preços e as consequências foram desastrosas no mercado de trabalho. Na tentativa de protegerem seus lucros, os empresários reduziram a produção e, com isso, o desemprego assumiu taxas excessivamente altas que ainda não haviam sido experimentadas. Diante de uma realidade de perdas, tanto para os trabalhadores quanto para os empresários, as políticas keynesianas, buscando o equilíbrio econômico, o reestabelecimento do crescimento e da expansão do capital, bem como o pleno emprego foram bem-vindas.

Para retomar o progresso econômico, é preciso reativar a produção e o consumo, elevando a renda nacional e as receitas fiscais. Em linhas gerais, essa foi a política econômica keynesiana. Ademais, um país enriquece não pelo simples ato negativo de indivíduos não

gastarem todo seu rendimento em consumo corrente. Não é o ávaro que se torna rico, mas o que aplica todo o seu dinheiro em investimento frutífero. Em períodos de crise, a desconfiança leva à queda do investimento e paralisa a produção, quer sob a alegação do custo de produção ser maior do que o preço de circulação, quer pela queda da demanda. A retomada deve iniciar-se pelo investimento, e não pelo entesouramento das indústrias. Isso provocaria a retomada da produção e o consequente aquecimento do mercado de trabalho, gerando mais empregos (KEYNES, 1976).

As ideias de Keynes inicialmente encontraram resistência entre os detentores dos meios de produção e o governo que, em sua maioria, era composto de seus representantes. Temiam a retomada do consumo como uma ameaça inflacionária e o aumento dos gastos públicos, o desequilíbrio fiscal. Também observavam com desconfiança a busca do pleno emprego em consonância com o aumento dos salários reais, o efeito redistributivo. No entanto, o argumento keynesiano de que é melhor que os empréstimos sejam para financiar obras, desde que sirvam para alguma coisa, do que para fornecer auxílio, foi bem recebido. Para essa doutrina, a intervenção estatal é plenamente aceitável quando há nível expressivo de desemprego involuntário e de insuficiência de demanda efetiva (GUILHERME, 2016).

A diminuição do desemprego e o consecutivo aumento de renda proveniente do trabalho é diluída na compra de bens e serviços de domínio privado, evitando, assim, um possível efeito redistributivo. Essa possibilidade foi bem recebida pelo empresariado. Além disso, a ideia revolucionária do movimento operário é fragilizada, em virtude de se tratar de uma gestão política que associa capital e trabalho. Dessa forma, na abordagem keynesiana, os sindicatos não representam um obstáculo para um aumento do volume do emprego, diferentemente da escola clássica, que creditava a essas organizações resistências dessa natureza. Isso deve-se ao fato de Keynes admitir no início a redução do salário real para a retomada do volume de emprego, mas não do salário nominal: “Sendo que o trabalhador normalmente resiste a uma redução do seu salário, mas não costuma abandonar o trabalho e fazer greves com alta de preços de bens de consumo salarial” (KEYNES, 1982, P. 27).

Nesse contexto, forma-se a sociedade salarial que, de acordo com Castel (2004), é caracterizada pelos avanços no campo dos direitos sociais e trabalhistas, mas, sobretudo, pelo pagamento de um salário nominal à imensa maioria da população, cuja inserção social está relacionada com o emprego de sua mão de obra. Assim, a busca do Estado de bem-estar social ganha força, na medida em que um sistema de seguridade social pró-trabalho avança. A implantação desse sistema tem suas bases no diagnóstico da realidade inglesa de 1942, feita pelo economista inglês Willian Beveridge, que recomendava o enfrentamento dos cinco

grandes problemas sociais: a doença, a ignorância, a miséria, a imundície e a desocupação (BEHRING; BOSCHETTI, 2007).

A proteção obtida por meio de uma legislação trabalhista passa a fazer sentido em um Estado configurado como provedor de bens sociais, em especial trabalho e renda, porque são mecanismos eficientes e aceitáveis, uma vez que a expansão do capital avança de forma significativa até a década de 1970. O desemprego parecia, até então, um problema superado, a renda e o consumo logravam contentamento social, tanto para a classe trabalhadora, que com sua força de trabalho empregada tinha acesso aos bens de consumo necessários para a sua sobrevivência, quanto para a classe industrial, que observava o avanço do capital através de lucros ampliados com o aumento do consumo.

Contudo, a partir da década de 1970, o modelo esgotou-se, a taxa de lucro começou a cair na Europa e posteriormente nos EUA. De acordo com Hunt (1981), a principal causa do esgotamento foi o fato de o modelo estar pautado na expansão do crédito mundial, que começou a apresentar sinais de colapso já no final da década de 1960. Seguiu-se posteriormente a restrição de crédito, a inflação e a consequente estagnação econômica. A doutrina liberal atribuiu os motivos da crise instalada às políticas keynesianas e ao Estado de bem-estar social. Com a diminuição da atividade econômica e da oferta de crédito, o desemprego voltou a ser um problema. Essa crise tem impacto severo nas contas públicas, uma vez que a retração das políticas do Estado provedor agravam a tensão social, sendo retardadas. Dessa forma, se a pobreza revelada e o desemprego de 1929 foram vinculados à deflação e à recessão, a inflação e a estagnação foram atribuídas ao desemprego no esgotamento do modelo do bem-estar social e do Estado provedor, na década de 1970 (GUILHERME, 2016).

Essa nova conjuntura abre caminho aos reparos dos principais postulados liberais clássicos, sob a nova denominação de neoliberalismo, baseando-se nas sistematizações ideológicas do economista e filósofo austríaco Friedrich August Von Hayek4.

4 Friedrich August Von Hayek: Foi um economista e filósofo austríaco, naturalizado britânico,

considerado um dos principais representantes da escola austríaca de economia, grande defensor do liberalismo. Vencedor do prêmio Nobel de Economia de 1974. Hayek faz uma pesada crítica às sinalizações da taxa de juros controladas pelo Estado, que causam percepções e consequentes investimentos mais tarde considerados ruins. Foi contemporâneo de Keynes, protagonizando embates teóricos intensos. Sua principal obra na área de economia foi “The purê Theory of capital”, de 1941.