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3. AS NORMAS E SUAS ORIGENS

3.2. Mercado e Aduana

Será proveitoso diversificar as referências, e nos afastarmos dos exemplos quase sempre buscados na Europa. Aqui, sobretudo esse afastamento será necessário para reforçar o aspecto de universalidade do tema do ‘comércio entre nações’ ao qual se refere a atividade aduaneira.

3.2.1. Um Legislador

Há uma história relatada pelo grupo indígena Klickitat, nativo da região onde é atualmente o estado norte-americano de Washington, na costa noroeste dos EUA. Este relato foi estudado por Claude LÉVI-STRAUSS6, o qual, por sua vez, encontrou-o nas obras dos

6LÉVI-STRAUSS, Claude. The Naked Man. Chicago: Univesity of Chicago Press, 1990, p. 264, 276-278.

antropólogos Melville JACOBS7 e James Alexander TEIT8, pesquisadores atuantes na região da bacia do Rio Columbia, aquele no início do século XX, e este entre os séculos XIX e XX.

Coiote surge em vários relatos indígenas como um trapaceiro e, sobretudo, criador de inúmeros elementos da natureza e organizador do mundo, motivo pelo qual ele é chamado

‘Demiurgo’. Epopeias várias de incontáveis grupos indígenas da América do Norte o tem como personagem central. Destacamos este trecho, da narrativa referente à ‘Liberação do Salmão’, porque relaciona a atividade social da troca às condições da natureza. O que ressaltamos ali é a compreensão, por parte dos donos da narrativa, da evidente desigualdade de acesso aos recursos naturais, e a solução efetivada por meio de uma norma – atribuída à personagem Coiote, para garantir sua legitimidade e seu cumprimento (em tradução livre; JACOBS, 1934, apud LÉVI-STRAUSS, 1990, p. 264):

Em seguida, ele criou todos os rios e as diferentes espécies de salmão: ‘Aqui’, ele decretou, ‘haverá regiões pesqueiras para diversos salmões, e os povos falarão diversos idiomas. As pessoas que o pescarem o trocarão por todo tipo de alimento.

(…) De bom grado e generosamente farão isso.9

A narrativa mitológica esclarece que, por meio da troca será possível distribuir os recursos naturais, uma vez que não há como localizá-los todos simultaneamente no mesmo lugar e tempo, do contrário será o caos e não haverá natureza. À presença de uns elementos corresponde a ausência de outros; à manifestação de determinados fenômenos corresponde a exclusão de outros; também não haverá criação se tudo for igual, sendo necessário haver diferenças, oposições, dissonâncias e estranhamentos. Assim, o relato demonstra que a própria forma da natureza é feita de complementaridades e contrastes. Uma vez que o ser humano não pode ter todos os produtos da natureza reunidos num mesmo momento, num mesmo lugar, certamente surgirão conflitos entre os diversos grupos. Em torno dessa constatação, a saga

7JACOBS, Melville. Northewest Sahaptin Texts. Nova Iorque: Columbia University Contributions to Anthropology, n. 19, 1-2, 1934, p.79-93, 103-107, 191-202.

8 TEIT, James Alexander. The Middle Columbia Salish. Seattle: University of Washington Publications in Anthropology, vol. 2, n. 4, 1928, p. 121-122. Disponível para impressão em:

https://www.worldcat.org/title/middle-columbia-salish/oclc/14283046?referer=di&ht=edition . Acesso em 20 set. 2020.

9 “(…) Next, he created all the rivers and the different species of salmon: ‘Here’, he decreed, ‘there will be different salmon fishing places and people will speak different languages. The people at that place will catch salmon; they will exchange different kinds of food. (…) Gladly and generously they will do this.”

mitológica produz uma justificativa sobrenatural para explicar a origem da atividade humana que se propõe superar esses conflitos (em tradução livre; JACOBS, 1934, apud LÉVI-STRAUSS, 1990, p. 276):

Coiote conclui promulgando sua lei: nem todo peixe será pescado em qualquer lugar;

assim como as espécies animais, os seres humanos serão divididos em tribos sobre a face da terra10; eles falarão diferentes idiomas e se encontrarão na feira, onde trocarão alimento, matérias brutas e artigos manufaturados. (…) guerra e roubo desaparecerão, para dar lugar a mercados.11

Se é inevitável que para haver natureza seja necessário haver diferenças e limites, alternâncias e exclusões, divulgação e raridade, o acesso dos diferentes grupos humanos aos recursos naturais nunca será igualitário. Percebendo que a consequência imediata disso será a guerra e o roubo, Coiote, tão logo termina sua criação, livrando o salmão pelas corredeiras, imediatamente normatiza a troca como forma de superação desses conflitos, e define o seu lugar: o mercado. A narrativa indígena constata como a atividade mercantil presta-se a aliviar as tensões geradas nos diversos grupos humanos pelo acesso desigual aos recursos na natureza.

Entretanto, nós podemos perceber que esse acesso não é somente desigual em função da distribuição dos elementos na natureza; a desigualdade também tem como vetor a territorialidade – prática não mencionada na narrativa, mas que se constata, pois os grupos com diferentes idiomas pescarão em diferentes locais e deverão trocar seus produtos por outros tipos de alimento – com outros grupos.

Este é o aspecto que se destaca como o cerne do Direito Aduaneiro: ele ampara uma atividade necessária aos grupos sociais há muitos milênios, qual seja, o comércio, pois a natureza não se apresenta igual em toda a face da Terra. Entretanto, sabendo-se que a territorialidade é uma prática humana inafastável, e não é possível empreender guerra e roubo permanentemente – na verdade, uma situação ideal de convívio humano exclui estes dois últimos – aqui surge a necessidade de garantir a integridade das fronteiras em face daquela pressão pelo comércio.

10 Inicial minúscula no original.

11 “(…) Coyote brings it to an end by promulgating his law: not all fish will be caught anywhere; like the zoological species, human beings will be divided up in tribes on the earth’s surface; they will speak different languages and will meet at fair, where they will exchange foodstuffs, raw materials and manufactured goods. (…) war and theft will disappear, to be replaced by markets.”