O trabalho clássico de T. H. Marshall98 apresenta a formação da
cidadania no capitalismo como uma sucessiva aquisição e universalização de direitos, iniciada com a cidadania civil ou legal (igualdade diante da lei), seguida pela cidadania política (igualdade nas condições de participação política) e finalmente pela cidadania social (igualdade de acesso a bens básicos). O ponto de partida de Marshall era a oposição entre mercado e cidadania, na medida em que o primeiro corporifica a desigualdade econômica e o segundo representa o ideal da igualdade. Para Marshall, o antagonismo entre essas instituições teria sido superado graças à expansão das várias formas de cidadania.
Objeto de inúmeras críticas,99 o trabalho de Marshall continua sendo de alguma forma, no entanto, o marco referencial clássico do tema da cidadania. Entre as críticas, às quais retornaremos no próximo capítulo, podemos mencionar o caráter linear do seu esquema, o seu otimismo ingênuo e a generalização de um processo que só se aplicaria às democracias ocidentais.
Apesar dessas críticas, é comum na bibliografia contrapor, como Marshall, mercado e cidadania enquanto representantes de valores opostos e produzindo desigualdade o políticas compensatorias o segundo. Tal oposição não é difícil de demonstrar, mas não pode ofuscar os aspectos complementares entre ambos e o lugar do mercado
como fonte de direitos, na medida em que a cidadania absorve em seu repertório os direitos do consumidor.
Os direitos do cidadão-consumidor, especialmente dos trabalhadores mais pobres e em particular o direito a dispor de mercadorias pelo preço mais baixo e da melhor qualidade possível, era uma das principais reivindicações dos partidos socialistas na latino-americanos no início do século. Com a ascensão de uma esquerda antiimperialista e a consolidação da industrialização baseada no protecionismo, a visão centrada no trabalhador-consumidor foi criticada e descartada. O protecionismo seria o principal mecanismo para gerar empregos e, portanto, a política a seguir, desqualificando os argumentos sobre as possíveis implicações sobre o trabalhador enquanto consumidor. Implícito estava o argumento de que era melhor ter um emprego com produtos mais caros (e eventualmente de pior qualidade) do que ficar desempregado e com abundância de produtos importados no mercado.
No Brasil, como vimos, a expansão das classes médias, o contato crescente com o exterior através de viagens e as novas gerações de produtos eletro-eletrônicos e telemáticos recriaram a contradição adormecida entre “direito ao emprego” e “direitos do consumidor”. Essa oposição, no caso brasileiro, começou a atingir um nível de paroxismo pela tendência do regime militar a transformar a economia em autarquia, em especial através da política de defesa do mercado de informática. Se a isso acrescentarmos o caráter altamente concentrador e por vezes oligopólico de grande parte dos setores industriais brasileiros e o ineficiente ou inexistente controle de qualidade dos seus produtos, entende-se por que as classes médias começaram a preocupar-se com o preço e a qualidade dos produtos nacionais e a se voltar para o
contrabando como fonte de abastecimento, particularmente na área de informática.100
O presidente Fernando Collor utilizou o tema da corrupção e dos privilégios para eleger-se e posteriormente atacou a questão da baixa qualidade dos produtos nacionais, especialmente dos automóveis, para justificar a abertura econômica. As campanhas de Collor mostravam tanto sua capacidade de identificar temas populares quanto o alheamento dos grupos sociais, políticos e intelectuais que apoiaram o antigo modelo de desenvolvimento (e que dele se favoreceram) face aos temas e valores que mobilizavam a sociedade brasileira do final do século.
Isso levanta o problema mais amplo referido no titulo desta seção: a transformação de direitos em privilégios. A diferenciada capacidade de pressão política dos grupos sociais, particularmente no setor público, permitiu alcançar uma série de direitos que a seu tempo foram considerados conquistas sociais. À medida que se difunde uma visão mais igualitária da sociedade, esses direitos passam a ser considerados – ou que podem ser apresentados – como privilégios.101 O que é particularmente evidente no tocante a certos direitos especiais de aposentadoria, que incluíam (e ainda incluem em alguns casos) aspectos difíceis de conviver com valores mais igualitários, como, entre outros, por exemplo, as pensões herdadas em forma vitalícia por filhas de militares (generais), aposentadoria para políticos mesmo após um curto mandato, aumento de 20% sobre o último salário nas aposentadorias de servidores de várias categorias, possibilidade de acumular várias aposentadorias, inexistência de idade mínima para aposentar-se e a possibilidade de voltar a ocupar depois de aposentado o mesmo emprego na mesma instituição.
Essas deformações e privilégios (que os sindicatos, guiados por um corporativismo estreito, nunca ousaram criticar) não implicam, como alguns economistas parecem supor, que as aposentadoria dos funcionários do setor público sejam a principal responsável pela desigualdade social do país ou a falta de recursos para a área social, o que é uma manipulação discursiva e estatística.102 O que poderia ser uma
correção de privilégios indevidos transforma-se, no discurso do governo, incapaz de enfrentar os setores dominantes, em uma confrontação entre as camadas médias e as camadas pobres da população.
O Brasil vive uma versão peculiar da sensação de “perda de direitos”, comum nos países que introduziram reformas em seus sistemas de direitos sindicais e de bem-estar social.103 Existe, porém, certa tendência
a uma generalização indevida de situações bastante diferentes (o que na Europa eram direitos em geral bem distribuídos – mas não de maneira uniforme – aplica-se no Brasil em geral a pequenas minorias) e uma análise mais detalhada deverá levar em consideração uma série de mutações:
– Por que e quando a maioria dos cidadãos começa a considerar certos direitos como privilégios? Afinal de contas, as políticas privatizantes são promovidas por governos eleitos democraticamente. Que setores sociais sustentam essas políticas?
– Que mecanismos e processos políticos são mobilizados para negociar ou impor o fim ou a transformação de certos direitos?
– Que efeitos sociais e ideológicos terão o fim dos antigos mecanismos de proteção social e o surgimento de novas instituições privadas?
Na medida em que o dinheiro do Estado passa a ser considerado pela sociedade como imposto pago pelo contribuinte, os direitos/privilégios dos grupos ligados ao Estado são vistos como algo que o próprio cidadão sustenta, de modo que o uso patrimonialista do Estado é vivido como confisco. A incapacidade dos grupos sindicais, dos partidos de oposição e mesmo da importante – e, na sua época, altamente criativa – elite de intelectuais ligados a ideologias que justificam um papel ativo do setor público em superar o corporativismo e elaborar um projeto alternativo de reconstituição societária, além de empobrecer o debate nacional, indicou o esgotamento do antigo modelo centrado no Estado corporativo-patrimonialista. Como esses setores dirigem suas críticas ao atual governo sem uma visão clara do que são direitos e privilégios e supõem uma capacidade ilimitada do Estado de aumentar os impostos, desconhecem que nas sociedades modernas a experiência da injustiça social passa, em particular, pela forma como são usados os recursos públicos.