Antes do Festival Suíça Bahiana iniciar suas atividades em Vitória da Conquista, em 2009 foi criado o Feira Coletivo Cultural na cidade de Feira de Santana, organizado pelo produtor Joilson Santos, responsável por um dos mais atuantes coletivos culturais do estado, sendo um nome fundamental para a produção musical no interior da Bahia. Natural de Itaberaba e residente em Feira de Santana há 18 anos, ele é fundador e coordenador do coletivo que realiza shows, eventos e idealizador do Feira Noise Festival, um dos festivais mais importantes do cenário independente no interior do estado, assim como o FSB da região sudoeste. O festival também nasceu em 2009, junto com o coletivo, a primeira edição contou com 20 atrações em dois dias de evento. Artistas de vários estados do Brasil foram selecionados para compor a grade da primeira edição. O principal foco do coletivo Feira Noise era motivar e fomentar a cena musical e artística da cidade, tentar viabilizar os eventos, discutir e debater políticas culturais para a cidade. O produtor acrescenta que:
antes de criarmos o coletivo existia uma certa apatia, rolava pequenos eventos com péssima estrutura e a gente achava que poderia a partir de uma qualificação dos agentes, da mudança do discurso fortalecer a cena autoral da cidade bem como qualificar a ponto de a gente conseguir melhores resultados de todo mundo. Então as bandas conseguiriam fazer shows com melhor qualidade, melhor estrutura e também gravar melhor, entender melhor como divulgar o trabalho, enfim, era uma série de coisas que a gente queria propor a partir do coletivo e da leitura que a gente tinha de nossa cena cultural (SANTOS, 2019, entrevistado pelo pesquisador).
Assim como o produtor do Suiça Bahiana Gilmar Dantas, Joilson Santos vem atuando em conselhos culturais, colégios setoriais de música e no Fórum Permanente de Cultura de Feira, além de ser músico, baixista da banda Clube de Patifes e do grupo de metal Erasy. Para o produtor, lançar o evento em 2009 proporcionou reconfigurar a cena musical não só da cidade de Feira de Santana, mas de todo o estado baiano:
desde que começamos a trabalhar com shows, em 2006, realizando um ou outro evento começamos a perceber o potencial de público na cidade para diversos estilos. E a gente sabe que o público se forma e se amplia a partir do acesso, então na medida em que outros estilos vão ganhando espaço o público vai aumentando. Acho que é uma cena criativa, enfrenta as dificuldades com inteligência, além do mais esta é uma cena muito melhor estruturada se comparada com décadas passadas, mais profissional, os artistas têm produzido mais e com qualidade, claro que me refiro à cena independente, que para mim vive em constante evolução. Falando em circulação, acho que ainda há muito para superar, a Bahia é grande, e pode ser um polo importante de turnês, mas falta investimento, falta mais atores nas cidades, principalmente nos centros regionais, promovendo shows e ampliando essa circulação, mas temos micro rotas que funcionam muito bem e precisamos pensar em como ampliar essas rotas ou estimular o nascimento de mais micro rotas pelo estado (SANTOS, ONLINE, 2016).121
O surgimento do Feira Noise veio modificar a cena independente da cidade, trazendo alternativa cultural para a população e criando novos territórios de circulação da música independente. Além de integrar as diversas manifestações artísticas como artes visuais e teatro, o intuito principal do evento é fortalecer o cenário independente local interligando Feira de Santana, o estado e o país por meio do trabalho colaborativo em rede. Dessa forma, a música autoral e independente torna-se a válvula propulsora, corroborando para que ocorra uma interação entre os artistas locais e globais do cenário alternativo em Feira de Santana.
Desde a sua primeira edição, o Feira Noise vem estruturando seu evento para que outros segmentos, além das performances ao vivo dos artistas, fizessem parte da política do festival. Uma das marcas do evento é abrir espaços para debates e discussão, com intuito de desenvolver, de forma crítica, a produção cultural no estado da Bahia, incentivando a discussão sobre as políticas públicas e também estimulando a cadeia produtiva cultural local.
Os festivais independentes têm essa preocupação de serem um espaço no qual o público possa ter acesso a várias atividades ligadas à produção cultural, até mesmo para conhecer um pouco da realidade da produção cultural no estado e suas particularidades. Talvez a maior dificuldade seja criar uma cultura da participação, pois nem sempre as atividades propostas, tais como debates, palestras e oficinas, conseguem atingir um público esperado. Claro que só o fato de existir dentro da programação é de extrema importância, fazendo com que o evento vá além de apresentações musicais, mas de formação cultural, com discussões primordiais sobre produção, circulação e consumo cultural e questões sociais também. E foi com este intuito que Joilson Santos resolveu juntar o Feira Coletivo à rede de coletivos em 2010,
121 Disponível em: https://www.elcabong.com.br/papo-com-quem-faz-joilson-santos-colocando-feira-na-rota/.
Acesso em: 25 jun. 2019.
desde então estamos junto com a rede de alguma forma. O Fora do Eixo foi fundamental na nossa formação e na metodologia de produção, aprendemos demais com a rede e com tudo que a rede compartilhava com todos os coletivos com a maior boa vontade. Aprendemos a divulgar melhor os artistas, a criar ambientes de formação de público, a fazer um festival, tudo isso foi aprendizado adquirido no coletivo (SANTOS, 2019, entrevistado pelo pesquisador).
Foi a partir deste compartilhamento e trocas de experiências que o Feira Noise desenvolveu sua primeira edição, oficinas de produção e gestão cultural, debates sobre as políticas públicas do estado da Bahia, o resultado foi justamente o sucesso que o evento alcançou. As 20 bandas selecionadas para compor a grade fizeram com que o evento planejasse a sua segunda edição. Entre as principais apresentações estava a banda Velotroz da Bahia, sob forte influência da música brasileira dos anos 70, do rock’n’roll; dialogando com as tendências musicais, foi uma das selecionadas para compor o line-up. As letras da banda tratavam de relações entre pessoas, da natureza, da liberdade, da tecnologia, do tempo, do cotidiano, tudo de modo particular, tornando-a vencedora do Desafio das Bandas em 2011, promovido pelo Jornal A Tarde, de modo que o grupo formado por Giovani Cidreira (voz e violão), Tássio Carneiro (guitarra e teclado), Silvio de Carvalho (guitarra), Caio Araújo (contrabaixo), Maicon Charles (bateria) e Filipe Castro (percussão) se destacasse no cenário musical. Infelizmente, em 2013 a banda acabou e seus componentes iniciaram novas atividades no cenário musical independente, a exemplo de Giovane Cidreira.
Outra banda presente nesta edição foi a The Baggios, criada em 2004, na cidade de São Cristóvão, município sergipano. Formada por Julio Andrade (guitarra e voz) e Gabriel Carvalho (bateria), o duo têm colecionado diversos trabalhos e participado de importantes projetos locais, como o Encontro de Compositores, o festival Sanguinho Novo (liderado pela banda Cascadura), o Vila do Rock (homenagem do Teatro Vila Velha ao mês do rock em 2011) e o Vila da Música (desdobramento do Vila do Rock). Com três álbuns, três EP’s e um DVD ao vivo, o The Baggios também ganhou em 2010 o Prêmio Nacional da Associação das Rádios Públicas do Brasil (Arpub) com a música “Em Outras”. Além de clipes veiculados em diversos canais especializados. Vale lembrar que dois álbuns estiveram nas listas de
“Melhores do Ano”, e a música “Sem Condição” foi eleita pela revista Rolling Stone como uma das melhores de 2013. Selecionar bandas e artistas que já possuem visibilidade na cena musical atrai o público e estrategicamente vende o festival, a The Baggio, por exemplo já tocou no Festival Lollapalooza, Virada Cultural de São Paulo, Festival Porão do Rock e Porto Musical.
Entre as atrações locais, apresentaram-se a feirense Os Nó Cego, banda que surgiu no início de 2007, por quatro jovens baianos: Márcio Punk (vocal e arranjos) Skarro (contrabaixo), Layon (guitarra) e Joy (bateria). O som desse quarteto misturava guitarra, bateria pesada e elementos inusitados como flauta, metalofone, corneta, entre outros.
O grupo foi influenciado pelo rock dos anos 80, com referências de bandas pós-punk. Quem também estava presente na grade foi a banda A Joseph K?, referência do cenário rock nordestino. O grupo surgiu no final de 2003, em Fortaleza no Ceará. Da sua formação original, o único remanescente é o compositor, guitarrista e cantor Talles Lucena. Desde 2006 a banda se apresenta com Rildney Cavalcante na bateria e Johnny Wesley no baixo. Com a nova formação, a banda produziu trabalhos como o EP “De cabeça pra baixo” e os discos
“Caos FM: direto da terra do nunca” e “The Full Time Rockers Club”. Há ainda a gravação de dois videoclipes, “Sonho urbano” e “Calourada”, sendo que este último esteve na programação da MTV Brasil entre os anos de 2008 e 2009. No mesmo ano que tocou no Feira Noise, a banda foi convidada para tocar num dos maiores eventos dos Estados Unidos: o festival de carros clássicos Woodward Dream Cruise, em Michigan.
Além das bandas citadas, a feirense Clube de Patifes, com 21 anos de carreira e um histórico relevante de mobilização em prol da música independente de Feira de Santana e região, formada por um grupo de estudantes da Universidade Estadual de Feira de Santana, entre eles o próprio produtor do Feira Noise, Joilson Santos, começou a compor músicas, misturando o blues com ritmos nordestinos, fazendo da banda um referencial para a cultura local da região. A banda utiliza elementos sonoros como o baião e o blues, característica relevante dos Patifes desde o começo, juntando-se às sonoridades inspiradas em músicas dos terreiros de candomblé. Para Joilson Santos, sua carreira como agitador cultural iniciou por conta de sua banda:
tudo começou com o Clube de Patifes. A gente era uma banda com disco lançado e querendo se movimentar, tocar, mas as oportunidades aqui e fora eram bem escassas. Criamos uma produtora Alcateia Produções e começamos a realizar diversos eventos inclusive um pequeno festival chamado Covil Independente, a gente fazia isso porque entendia que Feira tinha uma cena forte com muitos artistas, todos com dificuldades semelhantes e que essa movimentação iria impulsionar a cena como um todo. Produzimos diversos eventos de 2005 a 2009, e entendemos que criar um festival mais robusto era fundamental para aglutinar mais pessoas e funcionar como vitrine para a música independente local e regional. Assim foi realizada a primeira edição do festival ainda como Alcateia Produções (AP), mas já trabalhávamos desde sempre com essa lógica de coletivo e desde que a AP começou a atuar sempre chegava gente querendo colaborar
porque estavam gostando do que a gente estava fazendo e não queria que isso parasse.
Como apontamos no tópico anterior, a dificuldade de produzir eventos independentes no interior, faz com que os próprios atores da cena comecem a produzir shows e eventos com o intuito de fomentar a cena local. Muitos festivais independentes possuem eventos que antecipam a atmosfera do festival. Assim como o Suíça Bahiana, o Feira Noise criou o Fervura Noise, que é a prévia oficial do evento principal. O Fervura serve para aquecer os fãs em relação às atrações que se apresentarão nos dias do evento. Acontece ao longo do ano, entre uma ou mais edições, sempre com atrações de diversos estilos, pop, rock, blues, MPB, jazz, música regional e de diversos lugares. Diante do sucesso da primeira edição do Feira Noise, somando com o nascimento do Fervura Noise, em outubro de 2010 ocorreu a segunda edição do festival.
A segunda edição resolveu aumentar mais um dia, a fim de fortalecer o cenário independente local interligando a cidade através do trabalho em rede e do Circuito Fora do Eixo, proporcionando uma interação entre os artistas que participaram do evento e o público consumidor. OCentro de Cultura Amélio Amorim foi o espaço escolhido desde a primeira edição para ocorrer o evento. Essa edição teve como proposta discutir a produção cultural em Feira de Santana, as políticas públicas e ainda estimular a cadeia produtiva cultural local.
Segundo o produtor, a intenção era organizar, fortalecer e conseguir potencializar a produção cultural do interior do estado. Santos (2019, entrevistado pelo pesquisador) argumenta que a:
primeira edição foi a mais simples e a mais difícil também, porque a gente não tinha experiência nenhuma com um evento de dois dias, e que recebia uma quantidade maior de bandas de outras cidades e região. Foram 20 bandas na primeira edição, dois dias de festival, conseguimos vender 307 ingressos a R$ 10. O Festival custou pouco mais de 5 mil, e foi um sofrimento para cobrir esse prejuízo. Mas foi a edição fundamental para entendermos que era esse o caminho e que fazer um festival em forma de mostra de música com cada show durando cerca de 40 minutos era um formato interessante e que dava um panorama do que estava acontecendo de música na cidade e em outros estados.
Por isso, para a segunda edição foram propostos debates, palestras acerca das políticas públicas de cultura e oficinas, para completar a programação. Já no primeiro dia ocorreu um debate sobre a importância da cultura como fator preponderante para o desenvolvimento social e econômico de Feira de Santana. Foram convidados representantes da comunidade, como Bel Pires (Mestre de Capoeira e historiador), membro de conselho cultural, Silvio
Portugal e gestores culturais de outros estados, como Gabriel Cardoso (Lumo Coletivo de Recife).
Na programação foi possível realizar oficina de audiovisual, a ideia era utilizar ferramentas de baixo custo para a montagem de videoclipes, ministrada por Igor Souto, cineasta baiano que atua nas áreas de curtas-metragens, documentários, videoclipe, série de TV, além de já ter sido premiado em diversas categorias do audiovisual. Também ocorreram oficinas de roteiro e desenho ministradas por membros do coletivo de quadrinistas baianos da Área 71 e palestras sobre música independente e o papel das bandas, imprensa e produtores e sobre a configuração do mercado musical, ministradas pelo produtor musical Dimmy Drummer, pelo produtor, jornalista e curador do Radioca Luciano Matos e pelo empresário e produtor cultural Eric Teller. Lançamentos de revistas, peças teatrais, food trucks, feirinha de discos, CDs e livros também ocuparam todo o território do centro cultural durante os três dias de evento.
Em relação à música, ao longo dos três dias de evento apresentaram-se as bandas e artistas: Casa De Vento (BA); Pastel De Miolos (BA); Parnaso Da Modernidade (BA); Rafael Damasceno (BA); Graveola E O Lixo Polifônico (MG); Maglore (BA); Diablo Motor (PE);
Deformity (BA); Voyeur (PE); Ladrões Engravatados (BA); Sátiros (CE); Ladrões De Vinil (BA); Pirigulino Babilake (BA); NANTES (SE); Endometriose (BA); Brown-Ha (DF); The Sams Hardcore Orchestra (SP); The Pivo’s (BA); Ministereo Público (BA); Paulo Costa (BA); Clube De Patifes (BA); e Os Reis Da Cocada Preta (PB). Essa edição do Feira Noise foi uma das mais importantes, pois conseguiu estruturar o evento com diversas manifestações artísticas e fazer circular um maior número de bandas independentes. Sendo decisiva para que ocorresse a próxima.
A terceira edição do festival, em 2011, introduziu inovações. A primeira delas foi o Folia Noise, um tipo de pré-micareta alternativa, organizada pelo Feira Coletivo Cultural, com as bandas Maglore, Maryzelia e os “Coisinho” e Suinga. Outra novidade foram as diversas atividades que ocorreram entre 28 de outubro e 25 de novembro de 2011, o Feira Coletivo Cultural, evento em parceria com Circuito Fora do Eixo, ofereceu um leque de atividades, desde apresentações musicais, espetáculos de dança, palestras, oficinas, até exibições de filmes.
Podemos inferir que a ampliação do evento indica que Feira de Santana começou a ganhar visibilidade no mapa do cenário independente, cuja movimentação foi dando espaço para manifestações mais plurais da cultura, além de destacar a sua produtividade, mesmo que ainda seja um processo gradativo. Com um planejamento mais efetivo quando comparado às