Eu 33 é que agora dá o tom (id., p 201, grifos meus).
E, sobretudo, se entende a frase—que no Cap 2 qualificamos de perigosa, melancólica e paradoxal num tradutor—de Rosenzweig a gershom Scholem em carta
2. MEsCHonnIC, RosEnZWEIg, BEnJAMIn
5.1 Meschonnic e Benjamin
No entanto, pelo que se lê em Poétique du Traduire, Meschonnic não há de concordar com a afirmação do parágrafo imediatamente acima acerca do alcance de Benjamin. Para ele “A Tarefa do Tradutor” de Walter Benjamin, de 1923, é principalmente o texto que marca a inversão que ocorre no início do séc. 20 de uma tendência “anexante” a uma tendência “decentrante” na tradução, por representar “[a] teorização mais conhecida [dessa inversão de tendência]. [...] Mas sempre [se permanece, ainda, numa tradução] de língua a língua.” [Meschonnic 1999c, p.122, itálicos de Meschonnic].
Na visão de Meschonnic, Benjamin ainda não está na tradução do discurso, que se volta para o ritmo, a oralidade e a meschonniciana “significância”.
Mas note-se que Benjamin, em “A Tarefa”, tem também—como tem Meschonnic—o seu idioleto. Esta lá, p. ex., um certo “modo de designar” e uns certos “simbolizado e simbolizante” (vide no Apêndice, item A.9.2, p. 233 adiante), cujos exatos sentidos (?!) são difíceis de se atinar e que podem estar, ao menos em parte, dando conta do
discurso.
Mas, sobretudo, Meschonnic parece não levar em conta na análise que faz de Benjamin, o ensaio anterior desse autor, de 1916, “Sobre a Linguagem em Geral e Sobre a Linguagem Humana” (doravante, “A Linguagem”). Como vimos no Cap. 5, esse primeiro ensaio de Benjamin é indispensável para uma leitura proveitosa da críptica “A Tarefa”.
Para o que aqui nos concerne, são sobretudo os conceitos do “modo de designar” e da “intenção” em “A Tarefa” que cabe serem enfocados. A eles equacionamos, no Cap. 5, a noção de “intensividade” conforme lá a definimos (Cap. 5, sec. 5.3, p. 143). A intensividade é o aspecto da linguagem que Benjamin valoriza. Ela se aproxima,
como veremos, da “significância” em Meschonnic, e é através dessa proximidade que os dois autores a nosso ver se inter-elucidam.
“A Linguagem” é, como vimos, um texto bastante carregado de teologia mas que, não obstante, apresenta uma teoria da linguagem que não transcende o âmbito do lingüístico. Trata-se, na realidade, do movimento oposto ao de uma invasão da linguagem pela teologia: o que se tem é um radical linguistic turn, tanto filosófico, quanto teológico e metafísico.
Dele resulta, conforme detalhadamente discutido no capítulo 5, um menosprezo pela denotação em favor de uma expressão “na” linguagem, ou seja, imediata e intrínseca à linguagem. Isso está em linha com o menosprezo de Meschonnic pelo signo que refere, pela ilusão de uma pura e unívoca denotação. É a linguagem como vivência e não como mero meio de comunicação que constitui a virada lingüística de Benjamin na metafísica e na filosofia.
O ápice da linguagem como vivência se dá, para Benjamin, na nomeação humana que—ainda num âmbito paradisíaco e não decaído— participa com Deus da Criação, e que portanto tem, como tem Deus, uma função nessa Criação. Essa nomeação aponta para esse outro aspecto da linguagem, a intensividade, que—neste pobre mundo pós-paradisíaco e decaído—normalmente passa despercebido, dada a tirania do signo referente.
É essa “intensividade” que é vivência na língua, o que para Benjamin é preciso fazer passar na tradução. E essa “vivência na língua” claramente tem—e aqui repetimos Meschonnic para fazer ver o ponto—muito da
significância [que] é uma rítmica e uma prosódia [portanto, algo na língua] pelas quais passa tudo o que faz sentido, e que transborda a circunscrição tradicional do sentido, seus niveis lingüísticos [que são os da referência]. É o que mais está em jogo numa crítica da tradução. [Meschonnic, 1999g, p. 319].
Como Buber-Rosenzweig no caso do ritmo, o Benjamin da intensividade (/modo de designar/ intenção) tem, portanto, muito de Meschonnic avant la lettre.
E assim, Benjamin não opera só “de língua a língua” [Meschonnic, 1999d, p. 122] como pensa Meschonnic. Está também no discurso.
E talvez esteja até mais do que Meschonnic. O modo de designar, na medida em que é vivência na língua pode abarcar mais do que as categorias rítmicas que Meschonnic define. Tornemos, à guisa de exemplo, a uma situação já discutida no Cap. 5 (item 6.2.3, pp. 152-153). A tradução—de um modo de designar, de uma vivência na língua—que Rosenzweig descreve no “Posfácio” ao Halevi [Rosenzweig, 1995, p. 178].
O tradutor] não pode suprimir os double entendres [dessa] linguagem [de Halevi, que é coalhada de intertexto bíblico]. [...] Assim o tradutor tem a tarefa de
[i.e., como se tratando de uma citação explícita ou implícita], e possivelmente [a tarefa] de substituir uma citação que é estranha a um [leitor] contemporâneo
por outra que lhe é mais familiar. [id., 178].
Em outras palavras, traduzir a intertextualidade (aqui de novo, avant la lettre quarenta anos antes de Kristeva!). Traduzir para que uma vivência na linguagem passe através da tradução. No caso, a vivência do reconhecimento de uma referência intertextual não explícita. Assim, a “intensividade” de Benjamin parece transbordar para além da “significância” (que “é [só] uma rítmica e uma prosódia”) de Meschonnic.
A vengeance?
Na realidade não. A “intensividade” de Benjamin transborda (talvez) a “significância” de Meschonnic, mas não transborda Meschonnic como um todo. Todo o esforço é sempre o de se traduzir a poética (a intensividade) de um texto, e esse
insight de Meschonnic permanece e auxilia a análise.
Quando se leva em conta essa noção de uma “poética do traduzir”, o pensamento de Meschonnic revela-se elaborado e sofisticado o suficiente para dar conta do que faz Rosenzweig e do que diz Benjamin. E, dessa forma, elucidá-los.
6. lEITwörTEr, PoÉtICA, sIstEMAtICIdAdE, tRAduZIBILIdAdE
Como vimos ao início, o texto literário é uma oralidade na escrita, uma oralidade que só atinge sua plenitude na escrita. Essa oralidade, “primado do ritmo no modo de significar” [Meschonnic, 1999a, p. 29]—primado do ritmo na significância, portanto—é que dá unidade ao texto. E essa unidade vem da poética do texto. Uma poética que é do autor, que é aquilo que o autor imprime ao texto e que faz do texto um uno.
É a poética de Dante que dá à Divina Comédia a unidade que é a Divina Comédia, e que contrasta com, digamos, um texto que tenha sido artificialmente arcaizado—qual o móvel artificialmente envelhecido da feira de artesanato6—e que
pode até impressionar pontualmente, mas no qual se sente que falta uma unidade, um todo, isto é, uma poética.
No trecho de Meschonnic que citamos ao início do presente capítulo e que é o celeiro dos conceitos que vimos procurando elucidar, aparece o “ritmo, que é a organização do movimento da palavra no discurso” e que, assim sendo, “é a especificidade, subjetividade, historicidade do discurso, e também a sistematicidade [desse discurso].” [id.]. O ritmo como “especificidade, subjetividade e historicidade” já foram considerados acima na sec. 4. Cabe agora que busquemos entender melhor
6 A imagem, o exemplo e a esclarecedora conceituação da poética do autor como unidade do texto são
do Prof. Alain Mouzat, dados em aula de sua disciplina (“Textualidade e Tradução”) de pós-graduação na FFLCH-USP (2006). Se conceito, imagem e exemplo estão aqui corretamente apresentados ou não, e se é cabível ou não o seu uso na presente argumentação, são aspectos cuja responsabilidade, no caso de incorreção, cabe exclusivamente a quem redige estas linhas.
essa “sistematicidade” em Meschonnic, e que reconheçamos seus paralelos em Rosenzweig e Benjamin.
Em um de seus artigos, Meschonnic menciona a sistematicidade justamente no contexto da poética como unidade do texto, e com imagens que lembram muito a argumentação do segundo parágrafo acima:
A coerência e a sistematicidade interna fazem com que a unidade poética do
texto seja, tão somente ela, o próprio texto [font que la seule unité poétique
d’un texte est ce texte lui-même]. Todas as outras unidades [...] são lingüísticas ou retóricas. Paradoxalmente, o risco maior de uma tradução que deve deslocar [faire bouger] ao mesmo tempo o texto e suas traduções anteriores, são os sucessos pontuais. [Sucessos esses] [q]ue não são mais que uma forma do heteróclito. Como o arcaísmo. [Meschonnic, 1999f, p. 178].
O que Meschonnic diz logo a seguir nesse texto pode ser tomado como uma quase-definição da tradução dialógica de Rosenzweig—a tradução que busca desenvolver na língua de chegada, e mesmo que ao custo de um grande estranhamento, uma expressividade que o tradutor reconhece na língua de partida, mas que ainda inexiste na língua de chegada. Dizemos uma quase-definição, na medida em que Meschonnic não define, mas sim faz uma apresentação do problema tradutório que essa tradução dialógica busca enfrentar. E o faz à luz de sua “poética do traduzir”, permitindo-nos com isso constatar a proximidade que existe entre o seu pensamento e o de Rosenzweig.
Isso se dá quando, na continuação do trecho que vimos de citar, Meschonnic volta a insistir na precedência do poético ante o retórico e o lingüístico e visa
mostrar, pela distância entre as poéticas e os meios lingüísticos, o efeito das aclimatações costumeiras. E [mostrar, por outro lado] o contra-efeito de uma possibilidade nova. [Aclimatação costumeira] como [a que se faz no caso ] [d]o pentâmetro iambo de Shakespeare, [onde] se vê surgir o papel infeliz do alexandrino [que é a versificação padrão do francês] como molde poetizado por antecipação pelo seu uso e sua usura, passe-partout convencional que se tornou um dos maiores obstáculos da poesia, dada a maneira que dele [alexandrino] se serve toda a gente [ao traduzir Shakespeare para o francês], de uma maneira que multiplica as chevilles [ lit. “cavilhas”, i.e., palavras vazias que só servem para completar a métrica ou a rima do verso alexandrino]. [id., pp. 178-179, grifos meus].
Ao comparar-se o que vai nesses dois trechos de Meschonnic com a definição padrão da tradução dialógica de Rosenzweig (dada logo acima do segundo trecho), constata-se que, nesse caso, esses dois autores de fato se elucidam mutuamente, e quase se equacionam7.
7 Ficamos aqui só no exemplo que Meschonnic dá para o “efeito das aclimatações costumeiras”,
ou seja, Shakespeare traduzido para o francês em alexandrinos. É o que nos basta para fazer ver a proximidade entre Meschonnic e Rosenzweig neste caso. O “contra-exemplo” que traz “uma possibilidade nova” está em Meschonnic, 1999f, pp. 179-181. Trata-se da tradução por Meschonnic de uma quadra chinesa em versos de cinco caracteres, do poeta chinês contemporâneo François Cheng. A solução
Usando os termos que Meschonnic emprega nesses dois trechos, pode-se dizer que uma “sistematicidade coerente” é o que constrói a “unidade poética” (vide o primeiro dos dois trechos de Meschonnic logo acima). E é nessa dimensão do poético que deve operar a tradução. Operar no além das “poéticas” (vide o segundo trecho) mesmo que à custa de um estranhamento, e não no aquém da mesmice dos “meios lingüísticos”.
Mas essa proximidade Meschonnic/Rosenzweig merece ser mais aprofundada, agora do lado de Rosenzweig. Como veremos, para ele há também uma unidade do texto que é fundamental. Uma poética, portanto, nos termos de Meschonnic, e será interessante surpreendermos Rosenzweig constatando esse fato (mas sem usar o termo “poética”).
Além disso, também no caso de Buber-Rosenzweig há a constatação de uma coerência de natureza sistemática (e rítmica) que precisa ser fundamentalmente respeitada na tradução. Essa coerência sistemática—ou sistematicidade—se configura na técnica tradutória das Leitwörter [palavras-líder], a segunda das revolucionárias técnicas de tradução introduzidas por Buber-Rosenzweig. Como veremos, é o arcabouço de Meschonnic que nos permite constatar que, através das Leitwörter, Buber-Rosenzweig estão na realidade detectando os building-blocks de uma poética do texto bíblico.
Vamos, pois, a Meschonnic ajudando-nos a vislumbrar a poética do traduzir de Buber-Rosenzweig. E às Leitwörter de Buber-Rosenzweig constituindo um exemplo prático do que seja o “ritmo, [a] organização do movimento da palavra, que é a
sistematicidade do discurso” em Meschonnic.