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Durante os últimos trinta anos, vem ocorrendo uma afluência constante de líderes e mestres espirituais do Extremo Oriente. Instruídos por eles, os norte-americanos assimilaram o conceito de guru ou guia espiritual iluminado que orienta os devotos no caminho da iluminação, da auto-realização ou da comunhão com o amado divino. O mestre, diz-se, assume a responsabilidade pelo desenvolvimento do discípulo. Conseqüentemente, quanto mais o discípulo seguir a orientação do mestre, mais rápido será o seu progresso. Essa é a idéia geral da relação guru-discípulo.

Diferentemente do que muitos líderes espirituais nos fizeram acreditar, o guru não é uma pessoa, mas um princípio. Se um potente gerador de eletricidade não está em ação distribuindo energia, ainda assim ele continua contendo energia. Pelo simples fato de não estar sendo distribuída, não significa que a energia deixou de existir, nem que ela não possa, de repente, quando surgir a necessidade, entrar em ação. Da mesma maneira, o guru existe em cada um de nós como um princípio que pode estar ou não operando em determinado momento. Em diferentes momentos das várias vidas, de acordo com o desígnio da alma de cada um de nós, o princípio do guru começa a atuar. O verdadeiro guru não é uma pessoa a quem devemos uma obediência cega. O verdadeiro guru é um princípio que reside no âmago de cada um de nós e que nos guiará, quando estivermos preparados, em nossa jornada espiritual por muitos caminhos tortuosos. Em sânscrito, esse princípio do guru é denominado upaguru, ou "mestre sem forma".

As sílabas gu e ru significam respectivamente "trevas" e "aquele que as dissipa". O guru é aquele que dissipa as trevas da ignorância. Uma vez que o espírito, ou atman, encontra-se sempre num estado de luz e de iluminação, o que está nas trevas é a nossa mente. A mente é incapaz de conhecer a verdadeira natureza do espírito sem ajuda. Fazer a mente entender que ela tem de buscar a luz, encontrar a luz e, finalmente, render-se à luz é a função do princípio do guru. Iluminação significa mente iluminada.

Os mestres que fizeram progressos substanciais no sentido de alcançar a fusão com a luz ou que se renderam de alguma maneira ao serviço dela, são "gurus" na linguagem coloquial. Ou seja, eles nos acompanham em nossa jornada e nos oferecem ajuda. Até aí tudo bem.

Para alguns mestres, entretanto, começam a surgir mudanças sutis em sua "ajuda". Eles podem exigir uma obediência inquestionável. Podem criar situações fictícias para nos "testar". Podem incutir não apenas respeito, mas também medo em seus discípulos. Em algum momento desse processo, o mestre pode deixar de ser um estímulo espiritual para tomar-se um obstáculo.

Existem hoje, e sempre existiram, líderes espirituais bem-qualificados, bem-intencionados e úteis em quase todas as religiões. Nada do que foi dito acima deve ser interpretado como se eles não fossem boa coisa ou mesmo necessários em certas situações e para certas pessoas. Eles são ambas as coisas. Mas são humanos também. E como seres humanos, não são perfeitos. São passíveis de erros e têm desejos como todos nós. O ponto central a ser mantido em mente é que qualquer guia exterior é útil ao progresso espiritual de outra pessoa enquanto for capaz de espelhar um reflexo fiel do que seu guia interior está tentando mostrar-lhe. No momento em que deixar de refletir o guia interior do discípulo, ele toma-se um obstáculo.

Tudo isso contraria a tradição da relação guru-discípulo amplamente praticada tanto no hinduísmo quanto no budismo. Entretanto, o princípio do upaguru encontra-se claramente definido em seus próprios textos esotéricos. Esse conceito também é reconhecido no Ocidente, embora de uma maneira diferente.

O psicólogo Carl J ung introduziu a idéia de sincronicidade na nossa visão de mundo ocidental. Sincronicidade significa simplesmente que fenômenos não-relacionados podem ter uma aparente relação causal para o observador. Por exemplo, você começa de repente a pensar numa pessoa com quem tem uma relação íntima, mas que não vê há algum tempo, ao ouvir no rádio uma canção que o faz lembrar dela. E então, milagrosamente, em alguns segundos, o telefone toca e é essa mesma pessoa que entra em contato com você. Jung chamou isso de evento sincrônico. De acordo com os ensinamentos do Extremo Oriente, eventos como esse são obras do upaguru.

Mas se o upaguru é tão eficaz, poderia parecer que nunca teríamos necessidade de um guia ou guru fora de nós. Seria só seguir o mestre interior e tudo andaria bem. Mas pode acontecer às vezes da nossa mente não ter como saber realmente para onde o guia interior está nos levando. Em tais situações, o melhor a fazer é seguir a orientação de alguém mais experiente. É claro que essa decisão não ocorre sem problemas. Como somos os menos avançados, podemos não saber realmente distinguir entre quem é o mais desenvolvido e quem é apenas um pouco desenvolvido. Quase todos os buscadores se vêem nessa situação difícil em um momento ou outro do seu desenvolvimento espiritual. A saída desse apuro está em praticar uma disciplina espiritual como a dos mantras.

Nossa prática de mantras fortalece o vínculo consciente entre a mente e a atuação do princípio upaguru. Se houver necessidade de um mestre por algum tempo, a prática espiritual nos conduzirá ao mais apropriado. A prática continuada vai garantir que permaneçamos com ele apenas o tempo necessário, seja um dia, um ano ou dez anos. Por razões espirituais um discípulo pode passar toda a vida com um determinado mestre. Mas é muito mais comum uma pessoa ter vários mestres durante o curso de uma encarnação, uma vez que cada alma tem seu próprio plano de desenvolvimento.

Quando praticamos mantras, é comum obtermos seus benefícios e atributos. A voz pode ser dotada de um poder sutil em conseqüência de os chakras vibrarem cada vez com mais energia. Os próprios mantras recitados ganham mais força na pessoa que os recita. Em algum momento depois de muita prática, o poder do mantra chega a um estágio em que a mera repetição dele repercute em toda pessoa que o ouve. É nesse estágio que o praticante pode "iniciar" outros na disciplina dos mantras, como acontece na tradicional relação guru-discípulo. Iniciar nesse contexto significa dividir um mantra "com poder" com um discípulo merecedor. O mantra é dado "com poder" para que o discípulo possa se desenvolver muito mais depressa do que faria simplesmente praticando o mantra sozinho a partir do zero. A iniciação feita por um mestre qualificado pode reduzir em muitos anos, ou em muitas vidas, os esforços de um discípulo.

Essa é uma grande dádiva. É por essa razão que a relação guru-discípulo ficou mais forte nas tradições espirituais do Extremo Oriente. Mas, mesmo nelas, o guia ou guru físico é um mero instrumento do upaguru, o guia interior de cada um de nós.

O verdadeiro mestre espiritual sabe que o upaguru é o mestre sem forma, o guia no interior tanto dele mesmo quanto do discípulo. O verdadeiro mestre espiritual sabe que é o upaguru

que nos incita a buscar antes de tudo a verdade e que é o upaguru que em algum momento nos conduz a um guia exterior qualificado.

A natureza da nossa fisiologia espiritual, conforme vimos no Capítulo 2, garante que a prática de mantras trará resultados significativos. E nem poderia ser de outra maneira. Mas o guia certo na hora certa pode acelerar nosso progresso no caminho da iluminação.

Portanto, reconheça o mestre que possa vir a surgir na sua vida e seja grato pelo que receber. Mas nunca se esqueça de que até mesmo os maiores mestres são meros criados do seu guru interior. Pois, se os professores externos forem verdadeiramente grandes, eles procurarão apenas servir.

Os mestres espirituais realmente avançados e instruídos não estão presos a seus discípulos. Muitos de nós já passaram por situações em que tiveram a certeza de que era hora de deixar uma organização ou liderança. Pode ser que tenham encontrado um ou mais mestres muito importantes e permanecido com eles por algum tempo. Mas, em algum momento, o guia interior deixou claro que era hora de seguir em frente. Ou, talvez, o mestre tenha morrido. Em algum momento, temos de reconhecer o que recebemos de um determinado mestre em certo lugar e seguir o upaguru para a lição seguinte, em outro lugar.

A maioria de nós responde aos incitamentos constantes do upaguru. O guia interior visa o mundo exterior, com tudo o que ele contém, como uma escola para o nosso desenvolvimento. O upaguru pode nos conduzir a um determinado ministro ou líder por um tempo. Então, podemos nos ver mudando totalmente de rumo por um tempo. Conheci pessoas que passaram do hinduísmo védico para o budismo e, depois, passaram muitos anos empenhadas em assimilar a sabedoria dos índios americanos. Mais tarde, elas podem reaparecer seguindo uma tendência judaica ou cristã mais ortodoxa. Não uma, mas muitas vezes, vi estudantes, incitados pelo upaguru, seguirem alguma variante desse caminho tortuoso. Mas qualquer que seja a prática religiosa para a qual as pessoas em busca espiritual acabem retomando, elas jamais voltarão a ser as mesmas de quando partiram.

Quase sem exceção, o retomo a algum caminho espiritual ortodoxo é marcado de alguma forma por um entendimento mais abrangente. O buscado r sabe que Deus está em todas as religiões e em todos os caminhos. Ele sabe que, pelo simples fato de o canto de sua própria sereia distanciá-Io 180 graus de seu vizinho, ninguém é detentor da verdade absoluta. Como Jesus disse, "Na casa do meu Pai existem muitas moradas. Se isso não fosse verdade, eu vos diria".

Para assegurar que o caminho esteja desimpedido para o seu mestre interior chegar à sua mente consciente, é importante praticar o mantra abaixo. Vale a pena notar que esse mantra contém o som seminal Gum que, tradicionalmente, tem relação com Ganesha e com a remoção dos obstáculos. Esse mantra ajuda a remover os obstáculos que podem estar obstruindo o caminho do nosso guia interior para a nossa mente consciente e alerta.

--- Om Gum Gurubhyo Namaha

"Om e saudações aquele que dissipa as trevas da ignorância e todos os seus obstáculos."

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No documento Mantras Que Curam Thomas Ashley Farrand[1] (páginas 140-143)