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Metáfora Multimodal e Convencionalidade

2. Metáfora e Imagem

2.2. Metáfora Visual

2.2.1. Metáfora Multimodal e Convencionalidade

Para finalizar esta seção e este capítulo, antecipamos as considerações a respeito de metáforas convencionais e metáforas situadas ou episódicas, que serão detalhadas no capítulo 3. Esperamos encontrar no corpus a instanciação tanto de metáforas convencionais, ou seja, estabilizadas, quanto de metáforas episódicas, isto é, textualmente situadas e elaboradas discursivamente em prol de determinados objetivos argumentativos, que ainda não permitem uma estabilidade social do modelo cognitivo metafórico.

Como dito anteriormente, Forceville (1996) adota apenas parcialmente a noção de metáfora de Lakoff e Johnson (1980). Um aspecto rejeitado pelo autor diz respeito à centralidade do modelo de metáfora convencional nas análises dispostas em Metaphors We Live By. Assim, Forceville (1996) explica seu interesse pelas metáforas novas ou criativas. Trata-se das metáforas reais atualizadas nos textos investigados e que trazem considerações importantes a partir do nível contextual.

Na nossa reflexão, o problema da centralidade das metáforas convencionais, no modelo de Lakoff e Johnson (1980), está no ofuscamento de várias e importantes informações que as metáforas, de fato, atualizadas nos oferecem. Como exemplo, podemos analisar o seguinte enunciado: Ela chegou ao fundo do poço quando perdeu seu emprego28. Numa análise clássica, a partir de Lakoff e Johnson (1980), podemos dizer que a expressão metafórica é produzida por duas metáforas convencionais e corporificadas básicas, quais sejam: VIDA É VIAGEM e PIOR É PARA BAIXO. Por um lado,

28 Adaptado de <http://www.omarketizador.com/2008/11/ voc-acha-que-j-chegou-ao-fundo- do -

a explicitação dessas relações conceptuais estabelecidas por meio das metáforas convencionais nos explica como alguns poucos conceitos básicos são capazes de estruturar boa parte do nosso pensamento, ações e discursos. Por outro, apenas a explicitação dos conceitos em pouco colabora com a discussão de questões do tipo: Quem é ela? Por que, ao falarmos dela, escolhemos a imagem do poço? O que o poço significa na nossa cultura? O que significa perder o emprego em nosso meio? Essas são questões de pouco interesse para uma análise que se concentre apenas na identificação de metáforas convencionais, ou seja, que se concentre apenas no nível conceptual. Acreditamos que esse desinteresse seja gerado por duas questões fundamentais na Teoria da Metáfora Conceptual: a centralidade do aspecto cognitivo corporificado e a ausência de uma reflexão apurada sobre os aspectos contextuais e discursivos (conforme veremos no capítulo subsequente). Retomando nosso exemplo Ela chegou ao fundo do poço quando perdeu seu emprego, numa perspectiva que considere a atualização concreta da metáfora em situações reais de uso, como é o caso de Forceville (1996, 2008 e 2009), podemos dizer que o enunciado é licenciado pela metáfora criativa: PERDER O EMPREGO É CAIR NA VIDA. Se não desprezarmos os aspectos cognitivos convencionais e corporificados e, ao mesmo tempo, buscarmos a compreensão do enunciado numa perspectiva contextual, estaremos muito mais aptos a responder as questões silenciadas anteriormente. Além disso, é preciso, como analista, estar consciente de que a discursivização da metáfora é uma escolha e que essa escolha poderá salientar ou esconder elementos envolvidos no mapeamento metafórico. Em outras palavras, o enunciado Ela chegou ao fundo do poço quando perdeu seu emprego, tanto pode ser discursivizado para PERDER O EMPREGO É CAIR NA VIDA, como para PERDER O EMPREGO É FRACASSAR (NUMA SOCIEDADE CAPITALISTA ), TER EMPREGO É TER SUCESSO e assim por diante. A opção por uma ou mais de uma dessas teorizações implicará no agenciamento de aspectos específicos do modelo de contexto a partir do qual a metáfora pode ser compreendida e analisada. Embora Forceville (1996) não justifique sua escolha pelas metáforas criativas com os detalhes que nós aqui desenhamos, parece-nos que sua escolha queira recobrir uma análise que compreenda não só o nível cognitivo, como também o contextual e o discursivo. Esse é também o nosso caso, como se verá no capítulo 5.

Como temos discutido ao longo deste capítulo e também do anterior, os estudos sobre a Metáfora Conceptual, a partir de Lakoff e Johnson (1980), já estabilizaram na Linguística Cognitiva uma nomenclatura e um paradigma analítico.

Sobre a nomenclatura, estabeleceu-se o rótulo de Metáfora Conceptual (MC) para os esquemas de imagem que atuam no pensamento e geram as metáforas nas linguagens e nas ações. Essas estruturas precisam ser verbalizadas para que tenhamos uma materialidade sobre a qual nos debruçar nas análises. Sendo assim, uma expressão linguística metafórica ou uma metáfora multimodal, como é o nosso caso, precisa ser transformada num conceito do tipo A é B e, assim, poder ser descrita

verbalmente. Atente-se para o exemplo a seguir.

Figura 13 – PAÍSES SÃO COMPETIDORES: The Economist Disponível em: <http://blogs.diariodepernambuco.com.br/economia/?p=16179>. Acesso em: 10 set. 2013.

A figura acima é a capa da revista The Economist, de 26 de julho de 2013. Nela, podemos ler a expressão “The great deceleration” (a grande desaceleração) em fonte negrita, de tamanho robusto, acima de um cenário imagético. O cenário é a ilustração de uma corrida de atletismo, na qual os competidores são China, Brasil, Índia e Rússia, ou seja, o grupo de países emergentes denominados BRICS. Esses competidores estão numa pista de atletismo cheia de lama e, evidentemente, encontram muita dificuldade para se mover, para tentar correr. O corredor chinês é o que está à frente, mesmo com dificuldade, desponta na liderança. Atrás dele, seguem Brasil, Índia e Rússia. O Brasil é mostrado como um corredor preso à lama, com braços e pernas quase totalmente submersos no limo. Com um pouco mais de mobilidade, mais ainda assim se arrastando no chão, aparece o corredor indiano. Já o competidor russo encontra-se com o corpo projetado para frente, na tentativa de se libertar da lama e alcançar o corredor chinês.

Para a identificação da metáfora multimodal, podemos responder:

1 – Há dois domínios no texto, o domínio dos países (China, Brasil, Índia e Rússia) e o domínio da competição (corredores, pista de atletismo, esporte);

2 – O domínio-alvo é PAÍS e o domínio-fonte é COMPETIÇÃO;

3 – Há mapeamentos do domínio-fonte para o alvo: países são corredores; potência mundial é ganhadora; países menos ricos correm atrás do primeiro lugar etc.;

4 – Há duas modalidades semióticas que interagem na produção da metáfora: a imagem e a escrita.

Ao respondermos essas questões iniciais, já estamos aptos a afirmar que o texto é realizado por meio de algumas metáforas. Além disso, como dissemos, a análise do texto exige a verbalização da metáfora que o ancora. Então, podemos entender a capa da revista The Economist como a realização da metáfora PAÍSES SÃO CORREDORES ou PAÍSES SÃO COMPETIDORES. Essa metáfora pode ainda ser

compreendida como a instanciação multimodal da metáfora convencional VIDA É JOGO. É possível, ainda, inferir outras metáforas no texto, podemos entender a economia enquanto um motor que impulsiona as nações, um motor que acelera e desacelera (ECONOMIA É MÁQUINA); podemos interpretar a lama, que impede os competidores de correr, como dificuldades financeiras e políticas dos países (DIFICULDADE É LAMA; DIFICULDADES SÃO IMPEDIMENTOS; IMPEDIMENTOS SÃO FORÇA S

FÍSICAS); podemos, também, interpretar o corredor imobilizado pela lama, através do entendimento da ação em termos de movimento (AÇÃO É MOVIMENTO).

Podemos, assim, afirmar que o texto em tela é formado por várias metáforas que podem ser sistematizadas na forma de um macromodelo metafórico, que pode ser, resumidamente, descrito como se segue:

Texto: Capa da revista The Economist Modalidades: Verbal (escrita) e Visual

Metáfora Protagonista: PAÍSES SÃO COMPETIDORES

Metáforas Coadjuvantes: VIDA É JOGO; ECONOMIA É MÁQUINA; AÇÃO É MOVIMENTO; DIFICULDADE É LAMA; DIFICULDADES SÃO IMPEDIMENTOS.

As metáforas VIDA É JOGO, ECONOMIA É MÁQUINA, DIFICULDADES SÃO IMPEDIMENTOS e AÇÃO É MOVIMENTO podem ser compreendidas como metáforas

conceptuais em sentido estrito, pois são convencionais, isto é, são uma maneira corriqueira de pensarmos e falarmos sobre a vida em termos de jogo, sobre a economia em termos de máquina, sobre dificuldades em termos de impedimentos físicos e sobre ações em termos de movimento; são metáforas estabilizadas, ou seja, na nossa cultura e no tempo atual, são uma maneira compartilhada de pensarmos e falarmos sobre determinados domínios; são metáforas entrincheiradas nos discursos, ou seja, são metáforas recorrentes e atualizadas em diferentes textos de várias esferas discursivas. A Teoria da Metáfora Conceptual reserva o rótulo de Metáfora Conceptual para metáforas com essas características. As Metáforas Conceptuais são aquelas corporificadas, convencionais, estabilizadas e entrincheiradas.

A Teoria da Metáfora Conceptual (Lakoff e Johnson, 1980) também postula que a metáfora envolve o mapeamento (1980) ou projeção (2003 [1980]) de um domínio cognitivo fonte mais concreto para um domínio-alvo mais abstrato. Os mapeamentos ou projeções são permitidos pela corporificação, isto é, pela experiência sensório- motriz dos indivíduos com os domínios concretos do mundo. Essas experiências permitirão a compreensão de domínios abstratos em termos de domínios concretos. Sendo assim, o protótipo de metáfora para Teoria da Metáfora Conceptual (TMC) define a metáfora em termos do mapeamento de um domínio-fonte concreto para um domínio-alvo abstrato. Essas metáforas são descritas teoricamente através da fórmula

A é B, na qual A é o domínio-alvo a ser compreendido e B é o domínio-fonte, a partir do qual se entende A, por meio de experiências sensório-motrizes, por meio da corporificação. Essa metáfora só se enquadra no modelo quando é convencional, ou seja, quando se trata de um conceito.

A definição de metáfora na Teoria da Metáfora Conceptual e o seu manejo analítico produz alguns desafios para o analista de metáforas multimodais. Se adotarmos a TMC, a metáfora PAÍSES SÃO COMPETIDORES (DE ATLETISMO), por exemplo, seria incompatível, pois não se trata de um conceito amplamente partilhado, mas de um efeito discursivo localizado, de uma metáfora situada. Ao discutir a questão, Forceville (2009) explica que nem todas as metáforas pictóricas e multimodais serão convencionais em sentido estrito e muitas serão realizadas com ambos os domínios concretos. Para o autor (2009, p. 29) uma única relação de correspondência corporificada entre fonte e alvo é suficiente para desencadear várias correspondências culturais entre a fonte e o alvo, e, portanto, de inferências sobre o alvo. Assim, podemos entender com o autor que uma instanciação local de determinada metáfora, produzida com estratégias discursivas particulares e em textos específicos, pode igualmente ser analisada enquanto metáfora conceptual, já que sua realização e sua compreensão são baseadas em experiências corporificadas e culturais, mesmo que situadas. Além disso, muitas metáforas menos convencionais (criativas, novas, episódicas a depender do autor) são elaboradas com base em associações de outras metáforas mais convencionais. A metáfora realizada por meio de instanciações locais e episódicas da cognição é chamada por Vereza (2013b) de metáfora situada. Nas palavras da autora (2013b, p. 5):

Podemos caracterizar uma metáfora situada como uma metáfora que, apesar de estruturar cognitivamente textos específicos, principalment e nichos metafóricos encontrados nesses textos, não precisa ser explicitada linguisticamente. No entanto, [...] ela conduz, cognitiva e discursivamente, todo um desdobramento, ou mapeamento textual, online, episódico, construindo um determinado objeto de discurso (MONDADA e DUBOIS, 2003), ou um ponto de vista, de uma maneira deliberada. Ou seja, a metáfora situada não é apenas discursiva por estar presente, mesmo que somente no nível cognitivo, na linguagem em uso; ela, de fato, encontra-se claramente na interface entre cognição e pragmática, ajudando-nos a compreender, sob um dado ângulo, a complexidade desse entrelace.

Nossa postura para a realização desta pesquisa é a de adotar a TMC como ponto de partida das análises, mas com os ajustes necessários para abarcar as metáforas multimodais, já que a TMC não foi empreendida para dar conta de textos produzidos por meio de múltiplas semioses. Nossa postura é também um esforço teórico para fazer avançar a TMC, pois ao tentarmos preencher algumas lacunas sobre a compreensão da TMC das metáforas multimodais, estaremos promovendo uma atualização teórica e uma revalidação analítica.

Neste capítulo, apresentamos as linhas gerais da Semiótica Social e a discussão sobre metáfora pictórica e multimodal presente em Forceville (1996, 2008 e 2009). Nosso posicionamento teórico está, então, embasado pela Teoria da Metáfora Conceptual, de Lakoff e Johnson (1980), e pela reflexão sobre metáforas e sobre modalidades semióticas, de Forceville (1996, 2008 e 2009). Essas posições serão retomadas nas seções analíticas desta pesquisa. No próximo capítulo, continuaremos a reflexão teórica com a relação entre metáfora e contexto.