Em seu livro Philosophy in the Flesh, Lakoff e Johnson (1999) propõem uma divisão das metáforas em primárias e complexas.
As metáforas primárias são aquelas vinculadas à própria aquisição da linguagem pela criança, adquirida automaticamente e inconscientemente. É por meio dela que nós conceptualizamos nossas experiências subjetivas como importância, similaridade, afeição, intimidade etc; por meio de outros domínios da experiência, os domínios sensórios-motores.
Segundo os autores, as metáforas primárias são mapeamentos de um cruzamento de domínios, de um domínio de origem (domínio sensório-motor) para um domínio alvo (o domínio da experiência subjetiva).
Em Metaphors we live by, Lakoff e Johnson (1980) apontam para a existência da experiencialidade baseada em mapeamentos, por exemplo, em
Mais é para cima. Nesse caso, um julgamento subjetivo de quantidade é
conceitualizado em termos da experiência sensório-motora de verticalidade. De acordo com eles, no começo do desenvolvimento, não ocorre o mapeamento do cruzamento de domínios, pois essas correlações são “conflações”, em que quantidade e verticalidade não são vistas separadamente, mas como associações. Somente após esse período, segundo Grady (apud LAKOFF e JOHNSON, 1999) é que as associações entre Mais e Cima e entre Menos e Baixo constituem um mapeamento de cruzamento de domínios.
Dessa forma, podemos concluir que nós adquirimos um grande sistema de metáforas primárias desde os primeiros anos de vida, que isso não depende de nossa escolha, e que pensamos naturalmente utilizando centenas de metáforas primárias.
Exemplos de metáforas primárias segundo Grady (apud LAKOFF e JOHNSON, 1999,p. 50)2 :
Afeição é quente
Julgamento subjetivo: afeição
Domínio sensório-motor: temperatura
Exemplo: Eles me cumprimentaram calorosamente.
Experiência primária: sensação de calor quando se é abraçado afetuosamente.
O importante é grande
Julgamento subjetivo: importância Domínio sensório-motor:tamanho Exemplo: Amanhã será um grande dia.
Experiência primária: quando criança, descobrir que as coisas grandes, como os pais, são importantes e podem exercer forças maiores sobre ela e dominar sua experiência visual.
Metáforas Complexas
As metáforas complexas vão surgindo a partir da vivência das metáforas primárias. Segundo Lakoff e Johnson (1999):
Primary metaphors are like atoms that can be put together to form molecules. A great many of these complex molecular metaphors are stable, conventionalized, entrenched, fixed for long periods of time. They form a huge part of our conceptual system and affect how we think and we care about almost everywaking moment.( LAKOFF ; JOHNSON, 1999, p.60)3.
Assim, as metáforas complexas são construídas a partir de conceitos estruturados por metáforas primárias.
Um exemplo de metáfora complexa é o de que Uma vida intencional é
uma jornada. Essa metáfora veicula um conceito arraigado em nossa cultura:
as pessoas são consideradas “de bem” e “normais” quando possuem metas para atingir, quando passam por obstáculos e fazem planos para alcançá-las, para, finalmente, chegar à realização daquilo que planejaram.
Essa metáfora complexa Uma vida intencional é uma jornada é construída a partir de metáforas primárias que veiculam os conceitos de que as pessoas têm propósitos na vida, e de que elas precisam agir para alcançá-los.
As metáforas primárias são: Propósitos são destinos. Ações são movimentos.
3 “ Metáforas primárias são como átomos que podem ser colocados juntos para formarem moléculas. Muitas
dessas metáforas moleculares complexas são estáveis, convencionalizadas, firmadas por longo período de tempo. Elas formam uma vasta parte do nosso sistema conceitual e influenciam como nós pensamos e cuidamos sobre quase todos os nossos momentos despertos”. ( LAKOFF ; JOHNSON, 1999, p. 60, tradução nossa).
Esses conceitos combinados veiculam a idéia de que uma longa viagem de destino é uma jornada, e assim formam um mapeamento metafórico complexo:
Uma vida intencional é uma metáfora de jornada
Uma vida intencional é uma jornada.
Uma pessoa vivendo uma vida é um viajante. Metas na vida são destinos.
Um plano de vida é um itinerário.
Um exemplo dessa metáfora complexa é o famoso poema de Drummond (1974) “No meio do caminho”:
No meio do caminho tinha uma pedra tinha uma pedra no meio do caminho tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.
Nunca me esquecerei desse acontecimento na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra. (DRUMMOND, 1974, p.12).
A “pedra no meio do caminho” pode ser entendida como uma manifestação dessa metáfora complexa. Aqui, a “pedra” constitui a metáfora de problema, dificuldade, que cresce, fica enorme, por meio do recurso da repetição. Assim, ela representa um obstáculo nas metas que determinada pessoa (viajante) deseja alcançar.
Um outro exemplo de metáfora complexa é Amor é uma jornada. Essa metáfora é formada com base em outra vista acima: Uma vida
intencional é uma jornada. Quando pensamos nessa metáfora, percebemos
que as metas propostas para serem alcançadas são planejadas apenas por uma pessoa, que só depende de suas ações e desejos para atingir seus planos. Em
Amor é uma jornada, ocorre uma extensão desses primeiros conceitos:
quando falamos de amor concebido em termos de jornada, pensamos em duas pessoas, dois viajantes que planejam metas comuns, que procuram alcançar juntamente tais metas, mas que, devido aos obstáculos que aparecem, podem ficar juntos ou não.
Mapeamento metafórico complexo:
O amor é uma metáfora de jornada
Amor é uma jornada. Os amantes são viajantes.
Suas metas comuns de vida são destinos. O relacionamento é um veículo.
Dificuldades são impedimentos para o movimento. Alguns exemplos dessa metáfora complexa:
Não podemos voltar atrás.