4.1 – CONCEITOS
Do que se fala quando se menciona meta atuarial? Este é um termo muito empregado no universo dos Fundos de Pensões e dos RPPS relacionado à necessidade de se encontrar um equilíbrio entre ativos (conjunto das receitas correntes e das diversas fontes de recursos que irrigam o Fundo Previdenciário) e passivos (conjunto das despesas correntes e exigíveis no longo prazo para pagamento das obrigações previdenciárias). A legislação que normatiza os RPPS enfatiza a obrigatoriedade de que estes alcancem o indispensável equilíbrio financeiro e atuarial (ver Capítulo 2, item 2.2.3).
A atuária é uma ciência que utiliza técnicas de análise de riscos aplicando conhecimentos da matemática, da estatística e de finanças de modo a mensurar e gerenciar as incertezas.
[...] O processo de gestão de riscos vem ao longo dos anos chamado à atenção dos meios acadêmicos e empresariais, sobretudo pelo potencial que apresenta para evitar perdas consideráveis aos investidores. No que tange aos fundos de pensão, a adoção de políticas de governança e controle mostra-se como imprescindível à realização dos objetivos daquelas entidades, especialmente no que diz respeito à gestão dos riscos atuariais, que é peculiar à própria atividade dos referidos fundos e que deve, portanto, ser alvo de constante aprimoramento. (OLIVEIRA & ARAÚJO, 2007, p. 2) Os mesmos autores tratam do risco atuarial como a possibilidade de que os fluxos financeiros futuros não sejam suficientes para garantir o pagamento das obrigações previdenciárias. Nesse sentido mencionam Conde (2005) segundo quem, o dimensionamento correto do montante de despesas e de receitas necessárias para que esse fluxo se mantenha em equilíbrio é feito através do cálculo atuarial. (CONDE 2005, apud OLIVEIRA & ARAÚJO, 2007, p. 3).
Citando Conde (2005) e Castro (2002) os autores referem que:
[...] “calculo atuarial” [...] efetua uma avaliação atuarial que leva em conta o plano de benefícios oferecido pela entidade de previdência [...] definindo-se assim por esse processo [...] o conjunto de receitas necessárias à manutenção do plano aos seus participantes [...] quando as contribuições são definidas adequadamente, o plano tende a ter um equilíbrio financeiro- atuarial. (CONDE, 2005; CASTRO, 2002; apud OLIVEIRA & ARAÚJO, 2007, p.3)
Portanto a avaliação atuarial sistemática e rotineira tem a capacidade de, ao realizar a análise de risco entre fluxos financeiros atuais e futuros, dimensionar a probabilidade de ocorrer superávit ou déficit previdenciário.
A questão central que terá influência fundamental no cálculo atuarial será definir com precisão o passivo atuarial. De acordo com os autores, “[...] passivo atuarial representa o nível de comprometimento [...] com a concessão dos benefícios aos seus participantes”. (OLIVEIRA & ARAÚJO, 2007, p. 3)
Os autores destacam que esse nível de comprometimento é característico de regimes previdenciários que adotam o modelo de benefício definido. Esse conceito é próprio dos planos de benefícios da previdência complementar, mas, tendo em vista que no modelo de benefício definido é possível reconhecer o modelo de benefícios dos RPPS, na medida em que existe uma definição quanto às regras de aposentadoria e previsibilidade do valor a receber. Assim pode-se concluir que os regimes dos RPPS, configuram-se como de benefício definido e, portanto, existe a possibilidade de definir o passivo atuarial.
De acordo com Plamondon et al. (2011) citado por Suzart (2013), passivo atuarial é composto pela somatória dos benefícios atuais e o valor presente dos direitos às prestações acumuladas pelo segurado até determinado momento.
Ressalta ainda Suzart (2013) que conforme diferenciam Lima e Guimarães (2009), não se deve confundir passivo atuarial com déficit atuarial. Para eles haverá déficit atuarial quando for negativa a diferença entre o passivo atuarial e a soma dos ativos financeiros ou das fontes de recursos capitalizadas que garantem as obrigações previdenciárias.
A exata mensuração entre ativos e passivos atuarias será um trabalho técnico denominado avaliação atuarial efetuada por um profissional qualificado. A avaliação atuarial é obrigatória desde o início e anualmente a cada balanço da entidade responsável pelo RPPS (ver artigo 1º, inciso I, Lei nº 9.717/98)
A avaliação atuarial encontra definição na Portaria MPS nº 403 de 10 de dezembro de 2008 que dispõe sobre as normas aplicáveis às avaliações e reavaliações atuariais dos RPPS da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos
Municípios. O artigo 2º da lei define avaliação atuarial como sendo um estudo técnico desenvolvido pelo atuário cuja finalidade é estabelecer o montante de recursos necessários para garantir o pagamento dos benefícios previdenciários.
Art. 2º... . . .
VI – Avaliação Atuarial: estudo técnico desenvolvido pelo atuário, baseado em características biométricas, demográficas e econômicas da população analisada, com o objetivo principal de estabelecer, de forma suficiente e adequada, os recursos necessários para a garantia dos pagamentos dos benefícios previstos pelo plano.
O artigo 9º da Portaria estabelece que a meta estabelecida na política de investimentos para o rendimento das aplicações dos RPPS corresponderá a uma taxa real considerada na avaliação atuarial não superior a 6% (seis por cento) ao ano.
Está é, portanto a meta atuarial dos RPPS, ou seja, a taxa nominal de juros descontada a inflação. Dessa forma, levando-se em conta que no país são utilizados para medir a inflação, dentre outros o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA)15 e o Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC)16, o que se verifica é a adoção pelos RPPS de uma taxa nominal correspondente a IPCA ou INPC com o acréscimo de 6% de taxa real de juros. Conforme a matemática financeira ensina:
$%&% '(%) = *$%&% +,-.+%).+/)%çã, 2 → $%&% +,-.+%) = $%&% '(%) × .+/)%çã,
Assim tem-se que:
5($% %$6%'.%) = 6% × í+9.:( .+/)%:.,+á'.,
4.2 – INTERCORRÊNCIAS DA META ATUARIAL
O melhor dos mundos para os investimentos seria aquele onde não houvesse volatilidade, no qual o comportamento das taxas de juros fosse adrede conhecido,
15
Índice oficial de inflação do país. A consulta abrange as famílias com rendimentos mensais de 1 a 40 salários mínimos. Divulgado mensalmente pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE. (Nota do autor)
16
A consulta abrange população com rendimentos mensais de 1 a 5 salários mínimos, ou seja, corresponde ao universo de aproximadamente 50% das famílias brasileiras. Criado para orientar o reajuste salarial dos trabalhadores. (Fonte: http://www.portalbrasil.net/inpc.htm)
onde houvesse uma curva de crescimento constante dos rendimentos ao longo do tempo, onde não houvesse perdas, só ganhos.
Houve tempo em que o rendimento das aplicações financeiras era marcado em curva, ou seja, o tal mundo ideal. O que significa marcação em curva? Bem, para tratar de marcação em curva é obrigatório falar também do contrário que é a marcação a mercado. De acordo com o trabalho publicado pela Caixa de Previdência dos Funcionários do Banco do Nordeste (CAPEF):
[...] A marcação na curva e a marcação a mercado são critérios contábeis de precificação de ativos, que podem suavizar ou intensificar as variações desses papéis entre a data da compra e de seu vencimento, produzindo, nessa última, o mesmo retorno do investimento, conforme exemplo no gráfico abaixo:
Figura 2 – Marcação a Mercado X Marcação em Curva
Fonte: CAPEF, 2013
Assim, um papel que marca seu rendimento na curva, muito embora no vencimento alcance o mesmo rendimento que outro marcado a mercado, mas não refletirá as condições reais de precificação diária a que todos os ativos estão sujeitos. Portanto, marcar a mercado é um critério que dá equidade à transação e evita transferência de riqueza entre os negociadores.
Todavia, na vida real, os mercados apresentam volatilidade e diariamente são afetados por uma diversidade de fatores que atingem as taxas de juros e os preços dos ativos.
Boeira (2011) adverte que a volatilidade está intrinsecamente ligada à incertezas e medo dos agentes econômicos.
[...] o medo é um dos fatores preponderantes no aumento das taxas de juros de qualquer ativo ligado à dívida. Logo, quanto maior a probabilidade de inadimplência maior será o juros cobrado nos empréstimos das pessoas, instituições ou países que tomam estes recursos. O inverso também é verdadeiro, quanto menor a probabilidade de calote, menor será o juros cobrado das pessoas, instituições ou países. (BOEIRA, 2011)
O articulista demonstra de maneira simples que a volatilidade corresponde às oscilações nos preços de papéis negociados, das taxa de juros praticadas ou dos índices de mercado que impactam os diversos ativos que circulam na economia.
Assim, a meta atuarial, da mesma forma, sofrerá com a volatilidade. Mensalmente o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), divulga o IPCA e o INPC. A seguir apresenta-se um quadro com o acumulado anual desde 2012 dos citados índices de inflação (IPCA e INPC) e as respectivas metas atuariais de modo a se ter noção clara das intercorrências durante o período dos últimos cinco anos. Leva-se em conta também a taxa Selic meta que é a taxa de meta inflacionária do BACEN.
Tabela 1 – Intercorrências da Meta Atuarial
Ano IPCA Dez (%) INPC Dez (%) IPCA +6 (%) INPC + 6 (%) Tx Selic Meta(%)
2012 5,84 6,20 12,19 12,57 7,25
2013 5,91 5,56 12,26 11,89 10,00
2014 6,41 6,23 12,79 12,60 11,75
2015 10,57 11,28 17,20 17,96 14,25
2016 6,29 6,58 12,67 12,97 13,75
Fonte: Dados extraídos do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e do Banco Central do Brasil (BACEN)
Nota: Elaborado pelo autor
Observa-se que ano a ano as metas atuariais oscilaram e, durante o mesmo período a taxa básica de juros teve acentuado crescimento impactando todas as operações com ativos da economia; não eximiu os RPPS dessa volatilidade.
Podemos dizer que de modo geral, nos anos de 2012 e 2016 os RPPS apresentaram expressivos resultados em relação ao cumprimento da meta atuarial. Observa-se, também, que nos dois anos considerados, o cenário macroeconômico era de relativa estabilidade e a taxa de juros básica se encontrava num patamar histórico (2012) ou iniciou um processo de reversão das expectativas tanto econômica quanto política no ambiente interno do país. Em relação aos outros anos
os RPPS encontraram enormes dificuldades em atingir a meta atuarial em razão das fortes oscilações das taxas de juros e devido ainda à crise política e social que assolou o mercado interno.
Para citar-se apenas uma nuance do problema que enfrentaram os RPPS nos últimos anos apresenta-se a seguir um relato contendo alguns dados referentes ao comportamento da rentabilidade de ativos em 2013. Importante citar que as carteiras dos RPPS em geral, por influência da Resolução CMN nº 3.922/10, estão todas elas atreladas aos índices citados no trecho a seguir.
[...] Os investidores que possuem recursos aplicados em fundos de investimentos atrelados à inflação (IMA-B) ou pré-fixados (IRF-M) têm demonstrado preocupação com a alta volatilidade e rentabilidades negativas ocorridas neste ano.
Apesar desses índices serem compostos somente por títulos públicos federais, que são considerados os ativos com menor risco do mercado financeiro, os preços desses títulos são calculados diariamente (marcação a mercado) e sofrem influência de diversos fatores.
Neste ano a queda na rentabilidade teve como principal determinante a alteração da taxa de juros básica da economia (Selic), que, até janeiro deste ano, mostrava-se com tendência de queda e que a partir desta data tem apresentado tendência de elevação. Esse movimento de alta da taxa Selic teve como motivador a pressão inflacionária.
Nos últimos dias, outros eventos contribuíram fortemente para a performance negativa dos IMAs quais sejam: pronunciamentos do Governo norte-americano sinalizando o fim do programa de compra de títulos; a alta da taxa de juros dos títulos do Tesouro Americano; a alteração do viés na nota de rating do Brasil pela Agência S&P, atribuindo maior risco aos títulos brasileiros e. a alteração da alíquota de IOF incidente sobre as aplicações de investidores estrangeiros. Na avaliação dos analistas de mercado os eventos acima listados provocaram fuga de capital estrangeiro dos países emergentes. No Brasil tivemos um grande volume de venda de Títulos Públicos brasileiros o que reforçou a queda nos preços desses papéis.
Lembramos que a alocação dos recursos dos RPPS deve ser pautada pela análise do risco e retorno de cada opção, considerando também o fluxo de obrigações no curto, médio e longo prazo. Ressaltamos, ainda, que, apesar da volatilidade do IMA-B no ano de 2013, a performance histórica desse índice ainda é superior à meta atuarial dos RPPS e à rentabilidade do CDI (retorno acumulado do IMA-B de 01/01/10 a 12- /06/13 foi de 55,14% enquanto a Meta atuarial (IPCA+6%) foi de 50,20% e o índice CDI, no mesmo período, alcançou uma rentabilidade acumulada de 36,83%). (Fonte: IPREV, s/d).
Assim fica evidente que enfrentar a questão do cumprimento da meta atuarial é um desafio e um risco. As implicações e o gerenciamento desses riscos serão abordadas a seguir.
Analisar as consequências ou as implicações do cumprimento ou não da meta atuarial, passa por se avaliar o grau de risco que os RPPS se expõem relativamente à sua sustentabilidade e manutenção do equilíbrio financeiro e atuarial.
Todas as atividades humanas tem implícito um risco que pode resultar em perdas ou ganhos. O ser humano, aos poucos foi estruturando atividades e ferramentas de modo a alcançar uma filosofia preventiva que garantisse os sistemas por ele criado dos riscos de calamidades e perdas.
[...] O conceito de prevenção evoluiu juntamente com a racionalidade e a capacidade de organização da espécie humana, desenvolvendo a habilidade da antecipação e reconhecimento dos riscos das suas atividades.(RUPPENTHAL, 2013, p.6)
Esse conceito amplo e universal sem dúvida pode ser reduzido ao contexto dos investimentos dos RPPS cuja meta atuarial pode e deve ser vista como um elemento importante e foco para o gerenciamento de riscos.
[...] o risco atuarial está relacionado à possibilidade de os fluxos futuros não serem suficientes para assegurar a cobertura das obrigações atuariais dos planos de benefícios previdenciários. (OLIVEIRA & ARAÚJO, 2007, p. 2) A análise de risco está presente na avaliação atuarial onde o atuário lança mão de um conjunto de ferramentas estatísticas (tábuas de população, de invalidez e de mortalidade) para mensurar o passivo atuarial de modo a estimar a quantidade de recursos que serão necessários para garantir o pagamento das obrigações.
[...] quando todas as ocorrências possíveis de uma certa variável se encontram sujeitas a uma distribuição de probabilidade conhecida através de experiências passadas, ou que pode ser calculada com algum grau de precisão, diz-se que existe risco associado. Quando esta distribuição de probabilidades não pode ser avaliada, diz-se que há incerteza. (WEINTRAUB et all, 2015)
Lidar com o futuro e com estimativas gera uma situação de incerteza e risco caso não se atinja os objetivos almejados. Não é diferente quando se trata do cumprimento da meta atuarial.
O gerenciamento de risco exige do gestor permanente visão estratégica e conhecimento das alternativas de investimentos, dos produtos que podem compor a carteira ou portfólio de ativos sempre de acordo com os limites e as exigências que a legislação lhe impõe.
[...] orientar sua gestão por uma alocação estratégica de ativos que garanta o atingimento de uma meta atuarial – determinada pela necessidade de equilíbrio entre o que se arrecada e os compromissos (presentes e/ou futuros) do fundo, considerando-se como arrecadação também a rentabilidade financeira resultante da alocação dos recursos do fundo. Essa alocação estratégica é, em princípio, complementada por alocações táticas, cujo objetivo é aproveitar as oportunidades de mercado, no sentido de ampliar a rentabilidade do fundo, gerando uma folga financeira que garanta a segurança das pensões e permita manter baixa a variabilidade que gere aumento das contribuições.(BERTUCCI, SOUZA & FÉLIX, 2006, p. 2) A meta atuarial é considerada como o mínimo necessário para que o futuro das obrigações previdenciárias esteja garantido. O não cumprimento da meta atuarial poderá exigir no médio prazo aportes adicionais do ente de maneira a garantir a continuidade da estrutura previdenciária e manutenção das aposentadorias e pensões a ele vinculadas. Sua importância não pode nem deve ser minimizada, mas, sobretudo convenientemente considerada por quem se dedica à gestão de carteiras de investimentos.
[...] Nesse sentido, faz-se necessária adoção de metodologias adequadas, que contemplem o estabelecimento de premissas atuariais aderentes à massa de participantes do plano, com o intuito de minimizar os riscos aos quais o cálculo atuarial está exposto, reduzindo-se assim a probabilidade de se incorrer em custos com aportes adicionais de recursos para garantir o pagamento das obrigações atuariais.(OLIVEIRA E ARAÚJO, 2007, p. 3) Mas cumprir a meta atuarial será tão somente atingir um patamar de rentabilidade dos ativos financeiros, ou, além disso, leva em conta outros fatores de gestão e de governança? É o que será avaliado a seguir.
5. CAPÍTULO 4