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1.5 Conclus˜ ao deste cap´ıtulo

3.1.2 Meta-interpreta¸c˜ oes

A exemplo do que ocorre com o observador humano tentando descrever deter- minados comportamentos de terceiros, as descri¸c˜oes de todos os processos s´ıgnicos em que o observador n˜ao ´e o int´erprete original, s˜ao interpreta¸c˜oes de interpreta- ¸c˜oes, ou seja, “meta-interpreta¸c˜oes”, como por exemplo a an´alise dos acontecimentos ocorridos com o carrapato e o mam´ıfero relatado por Uexk¨ull [Thu04]. Este conceito ´

e especialmente importante quando se prop˜oe estudar a codifica¸c˜ao para posterior transferˆencia de um conhecimento espec´ıfico. Na proposta de se interpretar uma obra de arte, utiliza-se a base de conhecimento do observador que, muitas vezes, busca a identidade interpretativa do autor.

Na hermenˆeutica de uma obra, o int´erprete tem que reagir reflexivamente, esta- belecendo a co-determina¸c˜ao existente na obra – uma interna, entre partes e todo, e outra externa, entre o todo e a totalidade cultural que o int´erprete subentende como parte e que ´e vista como o universal do qual extrai inteligibilidade, a particularidade em que se constitui a obra; aqui o interno e o externo se fundem. Sujeito e objeto se determinam mutuamente no processo hermenˆeutico, neutralizando-se como entidades independentes e exteriores uma `a outra. Para levar adiante a tarefa hermenˆeutica, ´e preciso abandonar a ingenuidade objetivista, com o reconhecimento da necessidade de investigar a pr´opria tradi¸c˜ao ao projetar-se para a compreens˜ao. Aqui, dar-se-´a a co-determina¸c˜ao entre a interpreta¸c˜ao e a hermenˆeutica da pr´opria interpreta¸c˜ao, uma meta-interpreta¸c˜ao. ´E esperado o imenso universo de combina¸c˜oes poss´ıveis

provenientes do conte´udo cultural e da experimenta¸c˜ao de cada observador ao se interpretar uma obra, mas a quest˜ao aqui n˜ao ´e sobre a possibilidade simplesmente de se duplicar tal evolu¸c˜ao interpretativa mas sim do desafio de codificar, traduzir e transferir tal forma¸c˜ao entre diferentes observadores.

Na figura 3.4 pode-se observar um grupo de golfinhos, o que requer uma leitura n˜ao necessariamente imediata da obra de arte e que pode ainda n˜ao ser interpretada de um observador para outro dependendo de suas habilidades visuais e cognitivas. Uexk¨ull utiliza o exemplo da capacidade que uma aranha tem de tecer e envolver

Fig. 3.4: Hermenˆeutica de uma obra de arte

sua v´ıtima, para ilustrar a diferen¸ca entre as condi¸c˜oes humanas e biol´ogicas. A aranha constr´oi sua teia de modo a se ajustar ao corpo da presa, j´a um alfaiate tira as medidas de seu cliente e as transfere a um peda¸co de papel que servir´a de molde para seu trabalho, sob medida, de recortar o tecido e costurar as partes num todo. O terno completo representa assim uma c´opia perfeita do corpo do cliente.

Ele releva a t´ecnica humana que se utiliza de um recurso tecnol´ogico em contraste com a “aranha alfaiate”, a qual ´e capaz de conceber uma c´opia perfeita da mosca, sem contar com nenhum apoio t´ecnico log´ıstico, como os utilizados pelo homem. A aranha nem mesmo consegue estabelecer uma rela¸c˜ao entre suas medidas e as da mosca, totalmente diferentes, mas ´e capaz de correlacionar o tamanho das malhas com o tamanho do corpo da mosca e ajustar a for¸ca el´astica dos fios trefilados por ela `a for¸ca ativa do corpo da mosca viva. Uexk¨ull continua, em seu trabalho, ressal- tando o fato de que a aranha entrela¸ca sua teia mesmo sem jamais ter visto o corpo de uma mosca antes. Uexk¨ull comparou o procedimento met´odico da aranha entre- la¸cando sua teia com o processo sistem´atico da forma¸c˜ao germinal, que “em todos os animais multicelulares come¸ca com os trˆes compassos de uma simples melodia: morula, bl´astula e g´astrula”, e assim destaca que “a sequˆencia do desenvolvimento morfogen´etico” implica uma contagem que, embora n˜ao percept´ıvel pelos sentidos, determinam percep¸c˜ao sensual. O termo “contagem” ´e usado para se referir a uma regra que rege o processo de composi¸c˜ao de texto de letras ou uma melodia de tons. “Contagens” como essas, direcionam qualquer ser humano que comp˜oe um texto ou

as notas de uma melodia sendo composta.

As contagens que aqui determinam a sequˆencia percept´ıvel das letras ou notas n˜ao podem ser percebidas enquanto direcionamos nossa aten¸c˜ao as letras ou notas individuais apenas. Contudo, no momento em que entendemos as letras como ele- mentos de palavras e frases, podemos facilmente ler a significa¸c˜ao de um texto ou podemos, tratando-se de notas, ouvir a melodia como uma unidade. Aqui, a conta- gem tem sido concebida por seres humanos e a t´ecnica de registr´a-la no papel tem sido aprendida e praticada; o texto transporta sua significa¸c˜ao em um idioma que nos ´e familiar. As contagens para o projeto da teia de aranha bem como os arranjos e rearranjos de um organismo, contudo, n˜ao foram concebidos por seres humanos, nem t´ecnica humana alguma contribui para a sua realiza¸c˜ao.

quando se compreende a teia ou o organismo como uma unidade. Os signos en- fileirados em uma cadeia de DNA s˜ao rearranjados e recombinados no decorrer do desenvolvimento de uma c´elula; tem-se a impress˜ao de estar em uma posi¸c˜ao que per- mite observar textos biol´ogicos escrevendo-se e reescrevendo-se durante o processo de organiza¸c˜ao, segundo a contagem para compor um sistema vivo. Os misteriosos pro- cessos descritos por tais termos como plano, melodia e contagem n˜ao perdem nada de seu car´ater misterioso, contudo, eles se tornar˜ao mais familiares ao se lembrar que eles se referem a estruturas de organiza¸c˜ao subjacentes a sistemas. A teoria dos sistemas mostra que no momento em que os elementos s˜ao integrados em um sistema, surgem novas qualidades que s˜ao desconhecidas no n´ıvel de seus elementos. Planos, melodias e contagens descrevem estruturas de organiza¸c˜ao para elementos em um sistema.