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metafísico

No documento DADOS DE COPYRIGHT (páginas 54-57)

A alternativa a salpicar pó mágico nas pessoas é salpicá-lo em computadores, na

inteligência coletiva, na nuvem, no algoritmo ou em algum outro objeto cibernético. A pergunta certa a ser feita é: qual escolha é a mais louca?

Se você tentar fingir ter certeza de que não há mistério algum em algo como a consciência, esse mistério pode surgir em outra parte para assombrá-lo e destruir a sua objetividade como um cientista. Você entra em um jogo da vermelhinha11 metafísico que pode deixá-lo atordoado. Por exemplo, você pode propor que a consciência é uma ilusão, mas, por definição, a

consciência é a única coisa que não é reduzida se for uma ilusão.

Existe uma forma na qual a consciência e o tempo se unem. Se você tentar remover qualquer indício potencial de mistério da consciência, acaba mistificando de modo absurdo o tempo.

A consciência se situa no tempo, porque não é possível vivenciar a falta de tempo e não é possível vivenciar o futuro. Se a consciência não é nada mais que um pensamento falso no computador que é o seu cérebro, ou o universo, então o que é exatamente isso que se situa no tempo? O momento presente, a única outra coisa que poderia ser situada no tempo, deve, neste caso, ser um objeto autossuficiente, independentemente da forma como é vivenciado.

O momento presente é um conceito rudimentar, de um ponto de vista científico, devido à relatividade e à latência dos pensamentos que fluem no cérebro. Não temos recursos para definir um momento presente físico global ou um momento atual cognitivo preciso. Mesmo assim, deve haver alguma âncora, talvez uma bastante indistinta, em algum lugar, de alguma forma, para ser possível ao menos falar a respeito.

Talvez você possa imaginar o momento presente como um marcador metafísico viajando por uma versão atemporal da realidade, na qual o passado e o futuro já estão congelados no lugar, como uma cabeça de gravação se movendo por um disco rígido.

Se você estiver certo de que a experiência do tempo é uma ilusão, só lhe resta o próprio tempo. Alguma coisa precisa ser situada – em uma espécie de metatempo ou algo assim – para que a ilusão do momento presente possa ocorrer. Você se força a dizer que o tempo por si só viaja por meio da realidade. Essa é uma lógica circular absurda.

Chamar a consciência de ilusão é dar ao tempo uma qualidade sobrenatural - talvez alguma espécie de não determinismo fantasmagórico. Ou você pode escolher uma carta diferente no jogo e dizer que o tempo é natural (não sobrenatural) e que o momento presente só é um conceito possível devido à consciência.

Os elementos misteriosos podem ser embaralhados, mas é melhor simplesmente admitir a possibilidade de permanência de algum traço de mistério para poder falar da forma mais clara possível sobre as muitas coisas que de fato podem ser metodicamente manipuladas ou

estudadas.

Eu reconheço que permitir a legitimidade de uma ideia metafísica (como o potencial de a consciência ser algo além da computação) implica algum perigo. Por mais cuidado que você tome para não “substituir” o mistério com superstições, você pode incentivar alguns

fundamentalistas ou românticos da nova era a se agarrar a estranhas crenças. “Algum cientista da computação com cabelo rastafári disse que a consciência pode ser mais do que um

computador? Então meu suplemento alimentar deve funcionar!”

Mas o perigo de um engenheiro fingindo saber mais do que realmente sabe é o maior perigo, em especial quando ele pode reforçar a ilusão utilizando a computação. Os

totalitaristas cibernéticos que aguardam a Singularidade são mais malucos do que os sujeitos que acreditam nos suplementos alimentares.

O EXÉRCITO

de zumbis

As crenças metafísicas fundamentais – ou supostamente antimetafísicas - atingem os aspectos práticos de nossa forma de pensar ou de nossa personalidade? Sim. Elas podem transformar uma pessoa no que os filósofos chamam de “zumbis”.

Os zumbis são personagens conhecidos nos experimentos mentais filosóficos. Eles são como pessoas em todos os aspectos, só que não têm experiência interna. Eles são

inconscientes, mas não apresentam nítidas evidências externas disso. Os zumbis têm exercido um importante papel alimentando a retórica utilizada para discutir o problema entre corpo e mente e as pesquisas sobre a consciência. Muito se tem discutido sobre a possibilidade de existência de um verdadeiro zumbi ou se a experiência subjetiva interna inevitavelmente influencia o comportamento externo ou eventos de alguma forma mensuráveis no cérebro.

Eu acredito que exista uma diferença mensurável entre um zumbi e uma pessoa: um zumbi tem uma filosofia diferente. Dessa forma, os zumbis só podem ser identificados se forem filósofos profissionais. Um filósofo como Daniel Dennett é claramente um zumbi.

Os zumbis e as pessoas não têm uma relação simétrica. Infelizmente, só os não zumbis conseguem notar a marca indicativa de um zumbi. Para os zumbis, todo mundo parece igual.

Se existirem zumbis suficientes em nosso mundo, preocupo-me com o potencial de uma profecia autorrealizável. Talvez se as pessoas fingirem que não são conscientes ou que não têm livre-arbítrio – ou que a nuvem de pessoas on-line é uma pessoa, ou se elas fingirem que não há nada de especial com a perspectiva individual -, então talvez tenhamos o poder de concretizar essa realidade. Podemos ser capazes de atingir coletivamente a antimágica.

Podemos manipular nossos genes para sustentar melhor uma inteligência coletiva imaginária. Podemos transformar a cultura e o jornalismo em atividades de segunda categoria e passar séculos remontando os destroços dos anos 1960 e de outras épocas antes de a criatividade individual ter saído de moda.

CAPÍTULO 3

A NOOSFERA NÃO PASSA DE OUTRO NOME PARA O

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