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Metapoesia nas elegias programáticas dos Amores

Capítulo III: Metapoesia e confluência genérica nos Amores de Ovídio

III.2 Metapoesia nas elegias programáticas dos Amores

“Veio a Elegia, de cabelos trançados e perfumados e, creio, tinha um pé mais longo que o outro. Beleza adequada, veste muito vaporosa, aparência de amante; e seu defeito nos pés era fonte de beleza”.497

A descrição de uma elegia personificada, que Ovídio elabora nos versos 7-10 do primeiro poema do terceiro livro dos Amores, faz parte de uma cena ricamente detalhada (ekphrásis

tópos), na qual a tragédia, também personificada, figura de forma marcante. Ambos os gêneros

poéticos, apresentados aos leitores como duas mulheres de traços e personalidades marcantes, dialogam a fim de persuadir o poeta-amante sobre o futuro de suas composições.

Como parte do programa ovidiano dos Amores, a elegia III 1 evidencia questões poéticas que permeiam toda a obra; segundo Morgan,498 é a elegia programática mais complexa da coleção, devido aos diversos elementos genéricos que evoca (epopeia, tragédia, elegia, jambo etc.). Pretendemos mostrar quais e como alguns elementos dessa “metapoesia” são evocados em alguns momentos da obra, mas, sobretudo, ao longo dos poemas programáticos (iniciais e finais) dos Amores.

495 Cf. Boyd, 2000, pp. 146-7. 496 Como em Am. I 2, 8-10 e II 5.

497 Venit odoratos Elegia nexa capillos/ et, puto, pes illi longior alter erat./ Forma decens, uestis tenuissima, uultus amantis/ et pedibus uitium causa decoris erat.

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Partiremos de um dos elementos mais importantes para a elegia latina, uma figura que, conforme demonstraremos, é proeminente nos Amores, ainda que sejamos levados a acreditar o contrário: a puella. Muito se tem discutido sobre a presença e o papel da puella nos Amores: toda menção à puella faz referência a Corina? Existe apenas uma única puella, alvo dos afetos do poeta-amante? Ovídio, por estar inserido numa ideologia conquistadora e machista como a do império romano, não dá voz à sua puella? A elegia ovidiana nos Amores faz parte de uma arte voyeurística que seria muito apreciada na época de Augusto?499Através de uma leitura alusiva e metaliterária, tentaremos mostrar que a puella é, de fato, muito importante para a obra e seu desenvolvimento e está mais presente do que muitos críticos imaginam;500 contudo, seu

status, em muitas ocasiões, diverge daquele estabelecido por predecessores como Galo e

Propércio. Vejamos.

No início de I 1, Ovídio brinca com a expectativa do leitor de forma mais patente, evidenciando uma característica da obra que começou a transparecer já no epigrama inicial: a confluência genérica. A elegia de abertura se inicia com uma alusão à Eneida; o poeta parece anunciar uma epopeia, porém, já no verso subsequente, um pentâmetro, somos apresentados a uma elegia. A mudança métrica (e, consequentemente, temática)501 é devida à aparição de um Cupido peralta, com quem o poeta (ainda não um amante) argumenta, desafiadoramente, sobre uma série de inadequações (Am. I 1, 5-16), até que, num ato de ousadia, questiona o deus sobre como irá compor elegias, pois ele não possui um(a) amante, “fonte” capaz de proporcionar a matéria apta ao verso elegíaco (I 1, 19-20). O pequeno deus resolve o problema de uma maneira típica: através do arco e da flecha, transforma a personagem em poeta amator (I 1, 21-4). E o poema se encerra com alusões à própria poesia amorosa: o poeta-amante, transformado num miserável submisso que arde por Amor (I 1, 25-6), brada que coroará seus versos de onze pés com murta, a planta que simboliza Vênus (I 1, 25-30). Dessa forma, podemos compreender que a elegia inicial, que nos revela o programa da obra, preocupa-se mais com questões literárias que afetivas/subjetivas: a princípio, o poeta fala sobre uma composição épica que

499 Algumas dessas questões, sobretudo aquelas relacionadas a uma visão sexista do comportamento dos antigos

gregos e romanos podem ser encontradas em Greene, E. The erotics of domination. Male desire and the mistress in Latin love poetry. Baltimore: The Johns Hopkins University Press, 1998.

500 Ver, entre eles, Candelaria, 1960, pp. 294-297.

501 Conforme vimos, Horácio, Ars Poetica 73-92, discute a associação entre conteúdo e metro como fatores

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(supostamente) se inicia; Cupido intervém e modifica obra e poeta, que passa a se dedicar à elegia, mesmo sem ter uma puella (ou um puer).

Diferentemente do poeta-amante de Propércio, que inicia seu livro de elegias relatando o seu estado emocional e nomeando o alvo de suas afeições, o eu-elegíaco de Ovídio demora-se em questões poéticas, revelando, aos poucos, informações sobre seus sentimentos e sua amada. Para Hardie,502 a “presença ausente” que observamos no inícios dos Amores pode ser uma condição típica de toda puella elegíaca. No entanto, uma interpretação metaliterária, que equaliza puella = elegia (como em Prop. II 24ª, 1-2, por exemplo),503 permite que a personagem esteja mais presente na obra ovidiana do que se supõe, principalmente quando o poeta-amante se demora em questões poéticas. Por isso, sua aparente “falta de interesse” em caracterizar minuciosamente uma jovem, física e psicologicamente desde os primeiros versos de sua obra.

Numa interpretação que não considere a amplitude do caráter metaliterário/metapoético da obra, o poema de abertura (bem como as quatro elegias sucessivas) demonstra ter sido organizado através de um drama de “presenças ausentes”, no qual o leitor acompanha, junto ao poeta, um movimento rumo à apresentação completa da puella; nessa trajetória, o próprio leitor começa a desejar ver puella/Corina, na ânsia de descobrir quem e como ela é. Os primeiros três poemas traçam um movimento que parte da escrita e, através do desejo, chega à constituição de uma persona; no final do terceiro poema, tomamos conhecimento da existência de um nome que, no entanto, não é revelado ao leitor.

A segunda elegia do primeiro livro também é considerada programática pelo conteúdo que expõe e pelos elementos que evoca:504 a aceitação do amor e da poesia amorosa declarada nos versos finais de I 1 é transformada em hesitação nos versos iniciais de I 2: o amante, praeda

recens de Cupido, começa a experimentar sentimentos que o poeta aparenta desconhecer (I 2,

6), até que reconhece, de uma vez por todas, o poder do amor (vv. 7-8):

502 Op. cit., pp. 30 e ss.

503 O próprio Hardie comenta (com base no estudo de Wyke e Sharrock) sobre a possibilidade de se interpretar a

amada elegíaca como uma scripta puella (p. 32-3).

504 Cameron, op. cit., pp. 320-22. Para o autor, a segunda elegia do primeiro livro deve ter sido o poema

programático inicial de um dos dois livros expurgados da segunda edição, pois narra, de maneira diversa, a transformação do poeta em amante, algo já exposto em Am. I 1; na verdade, a elegia nos conta como a persona do poeta-amante experimenta, pela primeira vez, os sentimentos de um típico elegíaco, que são aceitos e ampliados na longa e elaborada alegoria do triunfo de Cupido. Por isso, a declaração de submissão ao Amor soa muito mais convincente em Am. I 2. Em I 2, a ação de Cupido é menos manifesta que em I 1.