Na verdade, no subtítulo anterior, o caráter de universalização obtido a partir dos conceitos foi inicialmente colhido e compreendido como ‗abstrações‘ significativas. O resultado foi uma declaração de intenções diretivas que podiam ser compreendidas como um norte que guiou o olhar, um movimento que, a partir de conceitos válidos, universais, buscou descobrir a re-validação, ressignificação ou não no contato com o objeto de pesquisa na medida em que ele se transformou em sujeito da mesma.
Está afirmado acima um movimento que, para se realizar, conduziu as opções de formação do corpus da pesquisa e de sua análise. Esse tipo de metodologia escolhido é o mais adequado para as questões às quais se buscam respostas por que vai ao conceito, visita-o em definições, indo à práxis e à prática com maior profundidade, iluminado pelo conceito, mas sem deixar de revê-lo na ação, possibilitando avaliação de maior qualidade dos processos sem dá-los
13 ABBAGNANO, Nicola, Dicionário de Filosofia – Martins Fontes, São Paulo, 2007, pág. 124. No verbete, há uma
longa exposição dos usos e definições de Categoria que vai desde Platão e Aristóteles até Husserl, passando por Kant, Hegel e Heidegger. No final do verbete, encontra-se a constatação da possibilidade de sempre exercer o direito de propor novas categorias ‗isto é, novos instrumentos conceituais de investigação e de expressão linguística‘.
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como definitivos e acabados e entendendo-os como situados num tempo/espaço e, consequentemente como construções históricas, tanto do pesquisador quanto do objeto.
Figura 3 – Imagem explicativa do Método da Dramaturgia do Teatro-Fórum, que é uma das maneiras de aplicação do Teatro do Oprimido. “A inclusão de contextualização na dramaturgia do Teatro-Fórum é um
desafio estético e uma necessidade ética e política, que exige do grupo uma compreensão ampliada do problema para a preparação do modelo. Esse movimento investigativo do micro (situação particular) em direção ao macro (conjuntura social) foi definido por Boal como ASCESE, exercício fundamental tanto na preparação do modelo quanto na sessão de Fórum. Para Boal, sem Ascese, o Fórum não chega a se estabelecer
plenamente”. (fonte Revista Metaxis (Rio de Janeiro, Brasil, 2010).
Foi feita uma aproximação em movimentos de modo a contemplar a generalização das categorias, buscar os dados, montar e iluminar o corpus, descrever e analisar e concluir. Distribuíram-se etapas para a realização desses movimentos, integradas, inclusive, às etapas dadas em toda a pesquisa regulamentada. O método está inserido na metodologia, que discute e dialoga com o método, duvida e sintetiza o mesmo. Como dizia Marx:
Parece que o correto é começar pelo real e pelo concreto, que são a pressuposição prévia e efetiva; assim, em Economia, por exemplo, começar- se-ia pela população, que é a base e o sujeito do ato social de produção como
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um todo. No entanto, graças a uma observação mais atenta, tomamos conhecimento de que isto é falso. A população é uma abstração, se desprezarmos, por exemplo, as classes que a compõem. Por seu lado, estas classes são uma palavra vazia de sentido se ignorarmos os elementos em que repousam, por exemplo: o trabalho assalariado, o capital, etc. Estes supõem a troca, a divisão do trabalho, os preços, etc. O capital, por exemplo, sem o trabalho assalariado, sem o valor, sem o dinheiro, sem o preço, etc., não é nada. Assim, se começássemos pela população, teríamos uma representação caótica do todo, através de uma determinação mais precisa, através de uma análise, chegaríamos a conceitos cada vez mais simples; do concreto idealizado passaríamos a abstrações cada vez mais tênues até atingirmos determinações as mais simples. Chegados a este ponto, teríamos que voltar a fazer a viagem de modo inverso, até dar de novo com a população, mas desta vez não com uma representação caótica de um todo, porém com uma rica totalidade de determinações e relações diversas. (MARX, Karl – Para a crítica da economia política, pág. 116/7 in Os Pensadores, 1978, São Paulo, Abril Cultural, 2. Ed.)
Marx acabou por esclarecer partes constituintes do movimento que se deve realizar para análise, não sem considerar indevido e interessado o percurso ao que se fazia até então:
O primeiro constitui o caminho que foi historicamente seguido pela nascente economia. Os economistas do Séc. XVII, por exemplo, começam sempre pelo todo vivo: a população, a nação, o Estado, vários Estados, etc.; mas terminam sempre por descobrir, por meio da análise, certo número de relações gerais abstratas que são determinantes, tais como a divisão do trabalho, o dinheiro, o valor, etc. Estes elementos isolados, uma vez mais ou menos fixados e abstraídos, dão origem aos sistemas econômicos, que se elevam do simples, tal como trabalho, divisão do trabalho, necessidade, valor de troca, até o Estado, a troca entre nações e o mercado mundial. O último método é manifestamente o método cientificamente exato. O concreto é concreto porque é a síntese de muitas determinações, isto é, unidade do diverso. Por isso o concreto aparece no pensamento como o processo da síntese, como resultado, não como ponto de partida, ainda que seja o ponto de partida efetivo e, portanto, o ponto de partida também da intuição e da representação. No primeiro método, a representação plena volatiliza-se em determinações abstratas, no segundo, as determinações abstratas conduzem à reprodução do concreto por meio do pensamento. (MARX, Karl – Para a crítica da economia política, pág. 116/7 in Os Pensadores, 1978, São Paulo, Abril Cultural, 2. Ed.)
Como se tratou, nesta pesquisa, do trabalho – aquele realizado como modo de vida e no universo da arte –, foi necessária uma generalização a qual pudesse se submeter a este movimento citado por Marx (a pena seria cair num vazio). Então, trabalho foi entendido no geral,
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como a possibilidade de realização produtiva do homem para modificar o status quo: uma ação para a produção artística socioeducativa.
Mas, e ainda de acordo com o movimento citado, como aquele que se deve realizar, houve o interesse de realizar aproximações. Foi na sociedade, e, portanto, no contexto histórico, que se pôde encontrar o trabalho intelectual objeto deste projeto. Foi proveitoso contrapor ou comparar este movimento citado com a expressão de Augusto Boal em entrevista concedida acerca de seu trabalho produtivo, da realização dos espetáculos Arena Conta – Zumbi e Tiradentes e da realização do trabalho com o Teatro do Oprimido:
[...] O que eu sei é que em cada momento... Quer dizer... Hoje você me perguntou o que a gente está fazendo no Teatro do Oprimido... O tema, a gente pode dizer que continua sendo o mesmo. É a Liberdade. Mas a liberdade de hoje que a gente pode pedir. Uma liberdade que é uma liberdade maior. É uma liberdade completamente diferente daquela que a gente falava em 64-65-80. Quer dizer. Um tema é abstratamente a liberdade. Mas na verdade, é sempre uma luta contra a ditadura naquele momento e contra uma opressão que subsiste. Embora a situação política do Brasil hoje seja muito melhor, sem dúvida, do que era naquela época. Mas ainda existe a opressão da fome. [...] Então quando você fala em Liberdade em relação, por exemplo, aos preconceitos que existem, aos preconceitos de raça, de sexo, de tudo, é diferente do que era naquela época. Naquela época, era uma tentativa muito mais direta de dizer ―olha, a gente está falando disto e é contra isto que a gente fala‖. E, às vezes, o objeto da nossa análise se expande um pouco mais [...]. (REVISTA "Schenberg - Arte e Ciência" PESQUISA CENTRO MARIO SCHENBERG de Documentação da Pesquisa em Artes - ECA/USP
http://www.eca.usp.br/...option=com_content&view=article&id=105:entrevis ta-augusto-boal&catid=16:entrevistas&Itemid=13[24/09/2010 15:04:34]).
Houve coerência entre a escolha intuitiva do movimento já descrito acima para compreender o trabalho e a efetividade do trabalho que Boal se propunha a realizar. Sendo Augusto Boal objeto da pesquisa e tendo ele passado por períodos históricos muito diferentes entre si, a consciência das generalidades como dependentes do concreto em sua materialização afloraram na pesquisa em benefício do entendimento.
―O ―teatro do oprimido‖ nasceu na América Latina, como resposta cultural a uma situação concreta, mas também enquanto processo de ―alfabetização política‖, se mostra válido e despertando consciências adormecidas na velha
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Europa: onde existe a opressão, existe a necessidade de um teatro do
oprimido, isto é, de um teatro para libertação”. (BOAL, 1979, pág. 11). Portanto, um processo de conscientização diferente daquele que era ‗oficial‘, do status quo aristocrata, depois liberal, liberal militar ou europeu (contra hegemonia). Este interesse artístico legítimo esteve presente nos momentos em que se faziam os espetáculos com os atores do Teatro de Arena. Estava também presente nos momentos em que se fizeram espetáculos temáticos para serem levados aonde o povo estava, durante as incursões pelo nordeste brasileiro. Como declarou o próprio Boal:
―Foi a partir desse núcleo do Arena que pela primeira vez a gente não fez um produto acabado, mas decidiu fazer os meios de produção para que outras pessoas pudessem realizar seus trabalhos. Essa passagem do ―nós somos os artistas‖ para ―vocês passarão a ser os artistas‖ é que é o início do Teatro do Oprimido. Foi quando a gente decidiu construir e ensinar uma técnica do fazer e isso foi ali em 1970. Eu situaria a origem dessa ideia naquele momento, mas depois nasceu o Teatro Invisível na Argentina; o Teatro Fórum, no Peru; e a coisa foi se desenvolvendo, mas já veio de uma continuidade de pensamento. Posso até dizer que, no meu caso, esse processo teve início em 1956 quando a gente fez Ratos e Homens, que foi a minha estreia profissional e a estreia do Guarnieri e do Milton Gonçalves. E que também teve o Vianinha, que já tinha feito outros trabalhos. Isso já faz mais de meio século‖. (entrevista Revista Fórum, edição 59, fevereiro 2008).
Acrescente-se que, por se tratar de situações ainda recentes e outras presentes (atuais), e, ainda, por serem artísticas, houve a intenção justificada e coerente da captação, compreensão e análise das ‗estruturas de sentimento‘ que deram sentido às ações e pensamentos de Boal, dos grupos com sínteses e métodos concebidos. Assim foi porque se tratava:
[...] dos elementos característicos de impulso, restrição e tom; elementos especificamente afetivos da consciência e as relações, e não sentimento contra pensamento, senão pensamento tal como é sentido e sentimento tal como é pensado; uma consciência prática de tipo presente, dentro de uma continuidade vivente e inter-relacionada. (WILLIAMS, 1997; pág. 155, grifo nosso).
Mas, como fazer dialogar o método com esta metodologia que vai colocando em diálogo as intenções e práticas declaradas desse sujeito coletivo com algumas generalizações universais? As escolhas recaíram sobre o uso de algumas técnicas e procedimentos.
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1.5 O método – A opção por pesquisas bibliográfica e biográfica; história de vida e