A parte inicial deste último capítulo envolve a pesquisa teórica sobre a pobreza, considerada relevante obstáculo para o acesso à justiça no Brasil. Assim, o primeiro item recorreu aos estudos sobre pobreza e desigualdade desenvolvidos por Milton Santos.188
Em seguida, o estudo procura traçar um perfil da população em situação de rua, grupo de pessoas que representa o retrato da pobreza extrema no país. Importante ressaltar que a população em situação de rua não constitui objeto de pesquisa, visto que o objeto é o serviço de atendimento jurídico oferecido a essa população. Além disso, apesar da imparcialidade que a pesquisa acadêmica impõe ao pesquisador, não se deve confundir neutralidade com insensibilidade, ou seja, pessoas não podem ser tratadas como meros objetos de estudo. Visando ter o maior respeito possível a esse público, optou-se pelo uso da expressão “pessoa em situação de rua” em todos os momentos que houve referência a essa população. Não foram utilizadas as expressões “moradores de rua”, “mendigos”, “indigentes”, “marginalizados”, pois tais expressões são ultrapassadas e consideradas ofensivas pelo movimento social (e também pela própria pesquisadora).
Identificado o público a que se pretende garantir o acesso à justiça, a pesquisa se voltou para o levantamento de políticas públicas voltadas a essa população. O objetivo desse levantamento foi verificar a existência de centros de atendimento jurídico semelhantes ao descrito no projeto.
188 O motivo da escolha da obra de Milton Santos para descrever a pobreza no Brasil se justifica pelo fato de este
autor ter dedicado considerável parte de seus estudos a esse tema. A trajetória de Milton Santos é de inegável importância na história da geografia brasileira, uma vez que conseguiu dialogar economia política e a busca pela cidadania. Suas obras remetem à década de 1970, mas suas análises são contemporâneas. Diante da complexidade da obra do autor, ressaltamos a contribuição da tese de doutorado “Trajetória epistemológica de Milton Santos”, de Flávia Christina Andrade Grimm apresentada no Programa de Pós-Graduação em Geografia Humana do Departamento de Geografia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo. A referida tese permitiu localizar as fases do autor e as principais obras dedicadas ao estudo das causas da pobreza. Agradecemos, em especial, a professora Dra. Vanderli Custódio, professora doutora do Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da Universidade de São Paulo, que, em razão de seu profundo conhecimento na área da geografia humana, urbanização brasileira e políticas públicas urbanas, indicou a leitura da referida tese.
Essa investigação teve que lidar com uma série de fontes esparsas e pouco organizadas extraídas do sítio eletrônico do Ministério do Desenvolvimento Social e Secretaria de Assistência Social de São Paulo. A organização desses dados foi possível com o auxílio de trabalhos acadêmicos das áreas da antropologia, serviço social, ciências sociais e arquitetura e urbanismo.189 Para complementar essas informações, foi realizada entrevista semiestruturada com o senhor Anderson Lopes Miranda, coordenador do Movimento Nacional da População em Situação de Rua, que participou de diversos momentos históricos de luta desse movimento. A entrevista ocorreu no dia 12 de setembro de 2013, na sede do “Movimento Rua”, localizada no Bairro do Brás, na cidade de São Paulo. Três principais motivos levaram à escolha de Anderson para a entrevista: (i) ele é conhecido pelos profissionais que trabalham no convênio firmado entre as Defensorias e pelas pessoas que participam do movimento social; (ii) ele foi citado em diversos trabalhos acadêmicos sobre o tema, demonstrando que sua história está intimamente ligada ao movimento social voltado a essa população; (iii) e o “Movimento Rua”, coordenado por Anderson, é o local onde as pessoas são orientadas sobre os centros de assistência e também são informadas sobre a existência do atendimento oferecido pela Defensoria Pública.
Mapeada a política pública voltada a essa população, foi possível identificar a relevância do projeto firmado entre as Defensorias, por isso o penúltimo item deste capítulo descreve o atendimento jurídico voltado à população em situação de rua.
Para a descrição deste projeto, a pesquisadora optou pelo método estudo de caso, uma vez que constitui modelo que permite a aproximação entre teoria e o plano concreto de prática do direito; viabiliza reflexões aprofundadas sobre questões jurídicas orientadas por uma situação concreta; possibilita descobertas que não seriam identificáveis senão por meio deste método; permite reconhecer a dinâmica prática de algum aspecto do direito, o que leva a considerações, inclusive, sobre a própria teoria do direito; permite enfrentar questões interdisciplinares do direito e multidisciplinares que advêm de outras ciências.190 e 191
189 Destacam-se: tese de livre docência em Arquitetura e Urbanismo da USP, de Maria Cecília Loschiavo dos
Santos (2003); tese em Antropologia da USP, de Daniel de Lucca Reis Costa (2007); tese em Ciências Sociais, de Ana Marcia Fornaziero Ramos (2012); dissertação em Serviço Social da PUC-SP, de Cláudia Lúcia da Silva (2012); dissertação em Serviço Social da PUC-SP, de Denise Perroud Amaral (2010); dissertação em Serviço Social da PUC-SP, de Daniela Santos Reis (2008).
190 GHIRARDI, José Garcez; PALMA, Juliana Bonacorsi de; VIANA, Manuela Trindade. Posso fazer um
trabalho inteiro sobre um caso específico? In QUEIROZ, Rafael Mafei Rabelo; FEFERBAUM, Marina (coords.)
Tendo em vista, tais considerações, a pesquisadora foi a campo trabalhando voluntariamente durante os meses de maio a agosto de 2013 nesse serviço. Para levantar dados de natureza qualitativa e complementar as percepções obtidas durante o trabalho voluntário, foram realizadas duas entrevistas semiestruturadas com os defensores coordenadores do projeto: a primeira com o defensor público do estado de São Paulo Carlos Weis, no dia 11 de julho de 2013; a segunda com o defensor público federal Fábio Ricardo Corrégio Quaresma, no dia 05 de setembro de 2013. Não foram realizadas entrevistas com os usuários desse serviço, uma vez que o propósito central foi diagnosticar os desafios que os profissionais da área jurídica encontraram para implementação do projeto.192
As três entrevistas foram guiadas por roteiro previamente formulado pela pesquisadora (anexo 01). Perguntas e respostas foram gravadas e transcritas, optando-se por não disponibilizar o inteiro teor no presente trabalho em razão de sua extensão (cada entrevista durou cerca de três horas). Após a transcrição, a pesquisadora utilizou as informações relevantes para complementar a descrição do projeto. Os entrevistados foram contatados por e- mail e tiveram acesso a um Termo de Consentimento com os objetivos da entrevista, as condições de uso das informações com possibilidade de confidencialidade e anonimato (anexo 02). Questionários, autorizações e termos de consentimento foram submetidos previamente ao Comitê de Ética da Pontifícia Universidade Católica, obtendo parecer favorável para realização da pesquisa de campo (anexo 03).