4.1 Organização e desenvolvimento do estudo
A pesquisa foi realizada entre março de 2007 a fevereiro de 2009 na cidade de São Paulo. Esse estudo trabalhou com entrevistas em profundidade e com o recolhimento de notícias veiculadas no site da Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo, além disso, foram coletadas informações de fontes - Delegacia Geral de Polícia e Assessoria de Imprensa das Delegacias de Defesa da Mulher- que forneceram os dados que foram compilados e apresentados nesse estudo. Foram realizadas entrevistas com delegadas e delegados de Delegacias de Defesa da Mulher e de Distritos Policiais, o que possibilitou traçar um quadro comparativo de suas trajetórias profissionais, assim como também permitiu avaliar a imagem que tais delegacias especializadas apresentam no interior da instituição policial.
O plano inicial era de que a pesquisa contemplasse todas as nove DDM’s existentes no município, entretanto, a dificuldade de contatar e agendar entrevistas em todas essas unidades não possibilitou que esse planejamento fosse efetivado. O estudo contou com uma amostra que representa mais de cinqüenta por cento das DDM’s distribuídas pela cidade. Ao todo, foram realizadas entrevistas com delegadas, em cinco dessas nove unidades, e para se ter uma visão geral das atribuições e funcionamento dessas delegacias foi feita uma entrevista com a delegada titular que coordena a Assessoria de Imprensa das Delegacias de Defesa da Mulher.
Para o desenvolvimento do trabalho comparativo foram realizadas doze entrevistas com profissionais, sendo nove entrevistas com delegadas e três com delegados de polícia. Das delegadas sete eram titulares e duas eram delegadas assistentes. Dessas nove delegadas, temos uma delegada- titular do DIPOL (Departamento de Inteligência da Polícia Civil), uma delegada titular do DHPP, setor de DECRADI (Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância), e uma delegada assistente de um Distrito Policial. As outras seis delegadas são da Delegacia de Defesa da Mulher, sendo cinco titulares e uma assistente. Dos delegados temos um delegado assistente da Delegacia de Defesa da Mulher15, um delegado assistente de um Distrito Policial, e um delegado plantonista de um Distrito Policial. Os entrevistados foram identificados por nomes fictícios para que sua identidade seja preservada. Foram utilizados nomes que tem como inicial a letra “D”, optou-se por essa letra para se fazer uma referência a palavra delegado(a) de polícia que tem esse mesmo caractere.
As entrevistas realizadas com profissionais que não fossem das Delegacias de Defesa da Mulher pautaram-se no método conhecido como “efeito bola de neve”. O andamento da pesquisa foi prejudicado pela greve da Polícia Civil do Estado de São Paulo iniciada em setembro de 2008. Muitas unidades distribuídas pela cidade de São Paulo paralisaram seus atendimentos, sendo que algumas abriram exceções, dando prioridade para casos graves. O término da greve ocorreu no dia 13 de novembro de 2008 e trouxe como resultado o processo de reestruturação da Polícia Civil. Dentre os pontos de mudança temos o aumento do piso salarial dos delegados a partir de 2009, e a extinção da 5ª Classe da profissão.
Para consolidar a análise, foram utilizadas também matérias da Secção Imprensa do site da Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo. Foram selecionadas matérias que tivessem como palavra chave “delegadas de polícia”. Ao todo foram selecionadas quatro matérias que divulgam a imagem das delegadas na instituição. Associou-se às entrevistas, e as matérias vinculadas à Secretaria de Segurança Pública, dados quantitativos que expressam o perfil do grupo profissional de acordo com o gênero.
O estudo contou também com o trabalho de observação de campo desenvolvido pela autora, tais como as visitas às Delegacias de Defesa da Mulher (DDM’s) e aos Distritos Policiais (DP’s) e pesquisas nos acervos da Academia de Polícia. Nas visitas às delegacias foi possível observar o funcionamento tanto das DDM’s, quanto dos DP’s,
15 O delegado assistente da DDM que foi entrevistado estava cobrindo licença prêmio de outra delegada. O
delegado ficou nesta delegacia por um mês. Conforme se apresentou na cidade de São Paulo das nove DDM’s existentes não há registro de nenhum delegado de polícia. O Serviço Técnico de Apoio às DDM’s também é presidido por uma delegada que foi entrevistada pela pesquisadora.
conversar com investigadores/as, escrivãos/ãs, delegados/as, e policiais militares. No caso específico das DDM’s tive a oportunidade de conversar com psicólogas em uma delegacia. É válido atentar para o fato de que desde o projeto de idealização dessas delegacias a ideia era promover centros de assistência criminal e jurídica, psicológica e assistencial, o que não ocorre em todas as delegacias do Estado de São Paulo e mesmo em outras distribuídas pelo país. O foco da pesquisa foi analisar a entrada das mulheres na profissão de delegado de polícia, tendo como base de análise a Delegacia de Defesa da Mulher, entretanto fez-se necessário para o desenvolvimento do trabalho conversar com outros profissionais da área de segurança pública, para que fosse possível traçar como é a imagem das DDM’s dentro da instituição policial.
Foi utilizada a entrevista em profundidade, que é uma técnica de pesquisa imprescindível para a realização deste estudo, pois através dela buscou-se obter informações presentes na fala dos atores sociais. Segundo Neto, a entrevista:
(...) não significa uma conversa despretensiosa e neutra, uma vez que se insere como meio de coleta dos fatos relatados pelos atores, enquanto sujeitos-objetos da pesquisa que vivenciam uma determinada realidade que está sendo focalizada. Suas formas de realização podem ser de natureza individual e/ou coletiva (1994, p. 57).
Para o autor, por meio dessa técnica de pesquisa é possível obter dados objetivos e subjetivos, os dados objetivos podem ser alcançados através de outras fontes secundárias, como censos, dados estatísticos e documentos. Já os dados subjetivos estão ligados aos valores, às percepções, às opiniões e às atitudes dos sujeitos entrevistados. As entrevistas podem ser estruturadas ou não-estruturadas, de acordo com o enfoque escolhido elas poderão ser mais ou menos dirigidas. No caso do presente trabalho utilizou-se a entrevista semi-estruturada, para tanto foi elaborado um roteiro de entrevista que contou com os seguintes tópicos norteadores: 1. Trajetória profissional do entrevistado, 2. Endogenia profissional, 3. Imagem e atribuições das DDM’s na instituição policial, 4. Interação entre gêneros na profissão, 5. Igualdade de oportunidades de gênero, 6. Implicações da profissão na vida privada, 7.Contribuições da entrada das mulheres para o grupo profissional.
A elaboração de um roteiro de entrevista não exclui a possibilidade de que os entrevistados sigam outra linha de raciocínio, pois a pesquisadora parte da ideia de que o roteiro serve para organizar o desenvolvimento da conversa. No entanto, ele não fecha e
direciona a entrevista, pode seguir vários caminhos, já que muitas vezes, uma narração do entrevistado(a) que parece não ter relevância sempre pode ter muito a contribuir.
A contribuição de Scott (1998) possibilitou ao estudo analisar as trajetórias de delegadas e delegados, à luz da concepção da invisibilidade da experiência proposta pela autora. Assim, rever e não aceitar os relatos como verdades prontas e estabelecidas foi fundamental para a construção da presente dissertação.
5 DELEGADAS DE POLÍCIA: PERCEPÇÕES E IMAGENS