4 LIVRO-REPORTAGEM
4.2 DA TEORIA À PRÁTICA
4.2.1 Metodologia
Como se pode observar, levando em consideração o apanhado teórico realizado ao longo desta revisão de literatura, o livro-reportagem (como suporte jornalístico) é fruto não só da escolha de seu autor em realizar um mergulho de profundidade em uma questão específica, mas, sobretudo, do emprego de diversas técnicas e ferramentas características, utilizadas em sua elaboração. Ou seja, não é possível abordá-lo apenas em um nível teórico – como se fez até aqui. Mais do que isso, é preciso compreender que seu próprio conceito tangencia diretamente processos metodológicos, o que, em outras palavras, significar falar em métodos de pesquisa, no caso, jornalística, em um universo mais amplo da pesquisa social. Assim, quem se debruça sobre a elaboração de um livro-reportagem deve estar disposto a selecionar um tema em potencial, pesquisar sobre ele com fontes e em documentos, investigar, cruzar informações e uni-las em um texto bem elaborado, além de editar tudo, ao final, em busca de uma narrativa fluída e interessante. Tudo isso exige, portanto, uma reflexão metodológica sobre o modo de apresentar o tema escolhido no suporte livro.
Segundo a professora e socióloga Maria Cecília de Souza Minayo, no livro intitulado Pesquisa social: teoria, método e criatividade, entende-se por metodologia o caminho do pensamento e a prática exercida na abordagem da realidade.
Ou seja, a metodologia inclui simultaneamente a teoria da abordagem (o método), os instrumentos de operacionalização do conhecimento (as técnicas) e a criatividade do pesquisador (sua experiência, sua capacidade pessoal e sua sensibilidade). A metodologia ocupa um lugar central no interior das teorias e está referida a elas. [...]
Na verdade a metodologia é muito mais que técnica. Ela inclui as concepções teóricas da abordagem, articulando-se com a teoria, com a realidade empírica e com os pensamentos sobre a realidade.71
Assim,
Enquanto abrangência de concepções teóricas de abordagem, a teoria e a metodolo-gia caminham juntas, intrincavelmente inseparáveis. Enquanto conjunto de técnicas, a metodologia deve dispor de um instrumental claro, coerente, elaborado, capaz de encaminhar os impasses teóricos para o desafio da prática.72
O método se torna necessário, portanto, para que a produção do conhecimento seja mais precisa, além de somar-se à teoria e a criatividade do pesquisador para a obtenção do resultado desejado. Assim, em primeiro lugar, parte-se de conhecimentos construídos cientificamente sobre determinado assunto por estudiosos que o abordaram anteriormente, ou seja, da teoria73, para só depois seguir em frente. É só a partir do domínio das teorias que o caminho do pensamento e da prática teórica se fundamenta e permite a construção de um plano interpretativo para as indagações da pesquisa, pois, segundo Minayo, “uma pesquisa sem teoria corre o risco de ser uma simples opinião pessoal sobre a realidade observada.”74
Ainda conforme a autora, a teoria pode ser definida como um conjunto de preposições, um discurso abstrato sobre a realidade, que colabora para esclarecer melhor o objeto da investigação, ajudando a focalizar o problema e levantar questões e hipóteses com prioridade. Ela também permite maior clareza na organização dos dados e ilumina suas análises. “Em resumo, uma teoria é uma espécie de grade, a partir da qual olhamos e
‘enquadramos’ a interpretação da realidade. Ela é um conhecimento, mas não deve ser uma camisa de força.”75 Desta forma, a preocupação que moveu a revisão bibliográfica
71 MINAYO, Maria Cecília de Souza (Org.). Pesquisa social: teoria, método e criatividade. Petrópolis: Vozes, 2008. p. 14-15.
72 Ibidem, p. 15.
73 Apesar desta proposição, Minayo não deixa de acrescentar que, muitas vezes, podem existir problemas novos para os quais não foram desenvolvidas teorias. Neste caso, fala-se em pesquisa exploratória, na qual o investigador irá propor um novo discurso interpretativo.
Nenhuma teoria, por mais bem elaborada que seja, dá conta de explicar ou interpretar todos os fenômenos e processos. Por vários motivos. Primeiro porque a realidade não é transparente e é sempre mais rica e mais complexa que nosso limitado olhar e nosso limitado saber. Segundo, porque a eficácia da prática científica se estabelece, não por perguntar sobre tudo, e, sim, quando recorta determinado aspecto significativo da realidade, o observa, e, a partir dele, busca suas interconexões sistemáticas com o contexto e com a realidade. (Ibidem, p. 17.).
74 Ibidem, p. 19.
75 Ibidem, p. 18.
apresentada até aqui – e que antecedeu a construção do livro-reportagem Sobre livros – foi a de realizar um passeio detalhado pela a obra de diferentes autores que refletissem sobre temas e questões relacionadas ao jornalismo cultural, a relação entre jornalismo e literatura, o jornalismo literário e o livro-reportagem. Em outras palavras, buscou-se reunir um apanhado de teorias que parecessem fazer sentido na construção deste trabalho.
A escolha em focalizar, sobretudo os conceitos envolvidos diretamente com o resultado final que se pretende alcançar se justifica pelo entendimento de que eles representam os termos mais importantes de um discurso que se pretende ‘científico’.
Contribuindo para essa perspectiva, Minayo acrescenta que os conceitos são vocábulos ou expressão carregados de sentido, que exercem papel fundamental na delimitação e focalização do tema em estudo. Para ela, quando se assume determinado objeto de pesquisa, o pesquisador “deve partir para uma busca bibliográfica sobre cada uma das expressões citadas e trabalhá-las historicamente, com as divergências e convergências teóricas”.76
Concretizado esse percurso teórico, constatou-se que a produção de um livro-reportagem pode ser caracterizada, mesmo que de maneira incipiente, como um processo técnico-científico que resulta em um produto também científico. Sua elaboração exige mais que saber contar boas histórias ou realizar entrevistas em profundidade. Como destacam muitos estudiosos da área, é necessário um trabalho sério de pesquisa bibliográfica e documental e um contato direto entre o pesquisador (neste caso, o escritor/jornalista) e a temática escolhida (a realidade abordada), o que implica uma aproximação inevitável com a subjetividade subjacente a toda e qualquer realidade. Por isso, se faz tão necessário trabalhar a pesquisa jornalística com base em critérios científicos.
Diante dos dois grandes métodos que podem ser utilizados na pesquisa social – o quantitativo e o qualitativo –, optou-se na realização deste projeto pela abordagem metodológica qualitativa, uma vez que ela valoriza o contato direto e prolongado do pesquisador com o ambiente e a situação que está sendo estudada. Segundo Minayo, ela também responde a questões mais particulares e se ocupa, nas ciências sociais, de um nível de realidade que não pode ou não deveria ser quantificado.
Ou seja, ela trabalha com o universo dos significados, dos motivos, das aspirações, das crenças, dos valores e das atitudes. Esse conjunto de fenômenos humanos é entendido aqui como parte da realidade social, pois o ser humano se distingue não só por agir, mas por pensar sobre o que faz e por interpretar suas ações dentro e a partir da realidade vivida e partilhada com seus semelhantes. O universo da produção humana que pode ser resumido no mundo das relações, das representações e da
76 MINAYO, 2008, p. 20.
intencionalidade e é objeto da pesquisa qualitativa dificilmente pode ser traduzido em números e indicadores quantitativos.77
Cabe elucidar, como faz a autora, que a diferença entre as abordagens quantitativa e qualitativa da realidade social não se traduz em nível de ordem, natureza ou escala hierárquica. O que se pode constatar é que enquanto os cientistas sociais que trabalham com estatísticas pretendem criar modelos abstratos ou descrever e explicar fenômenos que, por uma razão ou outra, produzem regularidades (sendo recorrentes e exteriores aos sujeitos), os que trabalham qualitativamente se aprofundam no mundo dos significados, um nível de realidade que não é visível e precisa ser exposto e interpretado, em primeira instância, pelos próprios pesquisadores.78
Antes de detalhar a metodologia qualitativa de pesquisa, porém, cabe explicar o que se entende por pesquisa. Segundo Minayo, toda e qualquer investigação no campo das ciências sociais (e não só nele) se inicia por uma questão, uma dúvida – ou o que os pesquisadores denominam de problema. Desta forma, pode-se dizer que esse processo parte de uma indagação do plano das idéias para, através de um caminho que inclui a prática, alcançar determinado conhecimento requerido. Nas palavras da pesquisadora:
Entendemos por pesquisa a atividade básica da ciência na sua indagação e construção da realidade. É a pesquisa que alimenta a atividade de ensino e a atualiza frente à realidade do mundo. Portanto, embora seja uma prática teórica, a pesquisa vincula pensamento e ação. Ou seja, nada pode ser intelectualmente um problema se não tiver sido, em primeiro lugar, um problema da vida prática. As questões de investigação estão, portanto, relacionadas a interesses e circunstâncias socialmente condicionadas.79
Assim, ainda segundo ela, diferente da arte ou da poesia que se baseiam na inspiração, a pesquisa é um trabalho artesanal que não prescinde de criatividade e fundamenta-se em uma linguagem baseada em conceitos, proposições, hipóteses, métodos e técnicas – linguagem esta que se constrói com um ritmo próprio e particular. Trata-se de um processo de trabalho que, quase sempre, começa com uma pergunta e termina com uma resposta ou produto (que, por sua vez, dará origem a novas interrogações). Já a pesquisa qualitativa, de acordo com estudiosos da área, se particulariza por quatro características principais. Seriam elas: 1) ela tem o ambiente natural como fonte direta de dados e o pesquisador (no caso do livro-reportagem, o jornalista) como instrumento fundamental; 2) apresenta um caráter descritivo;
77 MINAYO, 2008, p. 21.
78 Ibidem, p. 22.
79 Ibidem, p. 16.
3) tem como preocupação essencial o significado que as pessoas dão às coisas e à sua vida; 4) e utiliza o enfoque indutivo na análise de seus dados.
Entendido isso, Minayo divide ainda o processo de pesquisa científica qualitativa em três etapas: 1) a fase exploratória, que consiste na produção do projeto de pesquisa e de todos os procedimentos necessários para preparar a empreitada em campo; 2) o trabalho de campo, que consiste em levar para a prática empírica a construção teórica elaborada na primeira etapa; 3) e a análise e tratamento do material empírico e documental, que diz respeito ao conjunto de procedimentos para valorizar, compreender e interpretar os dados empíricos.80
Em uma analogia direta com as etapas do processo produtivo jornalístico que se fazem necessárias na elaboração do livro-reportagem, pode-se constatar que a primeira fase corresponde aos procedimentos de produção da pauta e elaboração do projeto teórico de fundamentação do produto. Através da seguinte explicação da socióloga, fica evidente a correspondência entre a etapa exploratória de pesquisa e o desenvolvimento inicial da reportagem em extensão de livro. Segundo ela, esta fase inicial:
É o tempo dedicado – e que merece empenho e investimento – a definir e delimitar o objeto, a desenvolvê-lo teórica e metodologicamente, a colocar hipóteses ou alguns pressupostos para o seu encaminhamento, a escolher e a descrever os instrumentos de operacionalização do trabalho, a pensar o cronograma de ação e a fazer os procedimentos exploratórios para a escolha do espaço e da amostra qualitativa.81
À segunda etapa, descrita por Minayo como sendo o trabalho de campo, corresponde diretamente ao período em que se dedica a captar as informações que comporão o livro-reportagem. É nesta fase que o jornalista se transfigura em um pesquisador, utilizando-se das ferramentas, instrumentos e métodos da pesquisa qualitativa, como pode-se aferir por meio da assertiva da pesquisadora sobre a prática empírica.
Essa fase combina instrumentos de observação, entrevistas ou outras modalidades de comunicação e interlocução com os pesquisados, levantamento de material docu-mental e outros. Ela realiza um momento relacional e prático de fundadocu-mental importância exploratória, de confirmação e refutação de hipóteses e de construção da teoria.82
Por fim, pode-se relacionar a última etapa da pesquisa qualitativa, resumida como a análise e tratamento do material empírico e documental, com os processos de redação e edição do texto jornalístico que compõe o livro-reportagem, pois a este momento também
80 MINAYO, 2008, p. 26-27.
81 Ibidem, p. 26.
82 Idem.
compete as tarefas de ordenar e classificar os dados, além de analisá-los, dispondo-os de forma a obter um resultado que contemple a função de realizar um mergulho aprofundado em determinado tema. Cabe acrescentar que, conforme Minayo, a “análise qualitativa não é uma mera classificação de opinião dos informantes, é muito mais. É a descoberta de seus códigos sociais a partir das falas, símbolos e observações.”83 Afirmação essa que mantém total significado na etapa de finalização da reportagem em livro, uma vez que o escritor não busca apenas transcrever afirmações, mas encadeá-las de forma lógica, interpretativa e, principalmente, atraente aos olhos do leitor.
Assim sendo, os próximos tópicos deste capítulo irão detalhar cada uma das etapas do processo jornalístico empregadas na construção e elaboração de Sobre livros: um painel contemporâneo da prosa ficcional realizada em Curitiba – etapas que caracterizam, de maneira geral, as fases de produção de um livro-reportagem. Iniciando pela pauta, serão abordados desde a escolha temática até a seleção de fontes e as formas de interação praticadas. Nos processos de captação ficam explícitos os procedimentos e ferramentas utilizados para se alcançar o que Edvaldo Pereira Lima chamou de horizontalização e verticalização do relato. Finalmente, os tópicos sobre redação e edição do texto mostram quais as técnicas empregadas para se chegar à ordenação final dos dados e informações.