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Metodologia: instrumentos e procedimentos de coleta de dados

CAPÍTULO 1: O ATO DE NARRAR: DIMENSÕES

1.3 Itinerários e encaminhamentos teórico-metodológicos da pesquisa

1.3.2 Metodologia: instrumentos e procedimentos de coleta de dados

Nosso objetivo foi o de pesquisar, por meio da identidade narrativa de professores formados no curso de História da UFSM, como a formação inicial tem implicado em: (a) seu trabalho, em (b) sua trajetória de vida e em (c) no modo como interpreta o lugar social do Ensino de História na contemporaneidade. Utilizamos, para isso, o método (auto)biográfico (DELORY-MOMBERGER, 2008, 2011). Tal pesquisa narrativa (auto)biográfica ou narrativa de formação (JOSSO, 2002), ao se apropriar desse método de investigação, tem como corpus as narrativas (auto)biográficas através de relatos orais de professores egressos do curso de História da UFSM. A coleta26 dessas narrativas foi feita por meio de uma entrevista gravada.

Como procedimento de construção dos dados, foi utilizado um esquema básico de questões, um questionário semiestruturado. Esse tipo de questionário, segundo Triviños (1987), caracteriza-se por questionamentos básicos, apoiados em teorias e hipóteses relacionados à temática da pesquisa. Partimos desse esquema básico de questões, porém adotando flexibilidade na estrutura da entrevista. Muitas vezes, entendemos oportuno fazer outras perguntas, de modo a elucidar e aprofundar questões, ou ainda, ignorar perguntas do

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Todos os procedimentos adotados respeitam os princípios éticos das associações e manuais, em especial, da Associação Brasileira de Pesquisa (Auto)Biográfica – BIOgraph.

questionário. Durante a realização das entrevistas individuais, as narrativas dos entrevistados foram gravadas.

Em relação à produção dos dados:

Primeiro: fizemos uma imersão no campo, apresentando o projeto em escolas, objetivando encontrar sujeitos de pesquisa. Foi possível contatar muitos professores de História, inclusive via e-mail. No entanto, por mais amplo que fosse o universo dos entrevistados, muitos professores não eram formados na UFSM, e outros não se sentiram à vontade para participar, a grande maioria manifestava interesse, mas, conforme eles, faltava tempo para participarem da pesquisa. Depois de muita procura, encontramos nossos sujeitos ou eles nos encontram: dois deles, sabendo do projeto, procuraram-nos com interesse de serem entrevistados, e outros dois foram encontrados por intermédio das escolas visitadas, demonstraram interesse pelo trabalho e concordaram em participar dele, enquanto sujeitos de pesquisa.

Segundo: agendamos as entrevistas. Nesse momento, os professores puderam optar pelo lugar, horário e data. Durante o encontro, solicitamos que preenchessem um formulário de identificação, no qual constavam questionamentos objetivos sobre sua formação e trabalho, como o ano de ingresso e conclusão do curso e etc.27. A partir desse formulário, pudemos contextualizar, à priori, o professor no seu período de formação inicial e, quando necessário, acrescentamos questões. Nesse instante, também entregamos aos professores o “Termo de consentimento livre e esclarecido”, que teve como objetivo apresentar a pesquisa, em linhas gerais, para não antecipar a entrevista, bem como esclarecer todas as questões referentes à entrevista, além de deixar com o professor dados da pesquisadora, como telefone e e-mail, caso precisassem entrar em contato. Esse termo foi assinado pelo professor, sujeito da pesquisa, por mim e pelo orientador dessa dissertação.

Terceiro: a realização das entrevistas28. Uma delas aconteceu na residência do professor, sujeito da pesquisa, e as demais ocorreram em seus locais de trabalho, em salas privadas ou cedidas para as entrevistas nas escolas.

Quarto: momento de transcrição das entrevistas. Consideramos essa fase muito importante, pois, durante ela, foi possível começar um trabalho de interpretação, iniciou-se um exercício hermenêutico.

Quinto: encontramos, mais uma vez, com os professores entrevistados, que, apropriadamente, já tinham lido as entrevistas transcritas, enviadas por e-mail, e, dessa forma,

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Ver apêndice 1 – Formulário de identificação do professor.

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puderam propor ou não modificações. Nesse momento, foi assinada a “Carta de cessão de direitos do depoimento oral”.

Sexto: pretendemos entregar a cada sujeito uma cópia da dissertação, para que retorne a eles o resultado de suas narrativas e para que possam entender a pesquisa como um todo.

1.3.3 Processo de análise das entrevistas

Entendemos e compartilhamos com Delory-Momberger a ideia de que:

O trabalho da reflexividade biográfica é de natureza hermenêutica: assim como o hermeneuta considera o texto como totalidade com a qual se relaciona cada uma de suas partes, o autobiógrafo representa para si sua vida como um todo unitário e estruturado com o qual relaciona os momentos de sua existência. [...] Da mesma maneira que, para o hermeneuta, cada parte do texto – palavra, frase, parágrafo etc. – adquire sentido no contexto da unidade superior que a contém e que o sentido do texto é produzido pelas relações das partes entre si e destas com o todo, para o autobiógrafo, o sentido se constrói na articulação da figura total da vida e suas partes. Cada experiência encontra seu lugar e adquire seu sentido no seio da forma construída pela qual o homem representa, para si mesmo, o curso de uma vida. (2008, p.58)

A construção (auto)biográfica tem um caráter hermenêutico, as narrativas são uma interpretação do mundo. Com o propósito de analisar os dados empíricos, elencamos dimensões de análise. Antes de tudo, ressaltamos que a pretensão da análise não é penetrar, desvendar ou até mesmo acessar os autores das narrativas orais ou pressupor um efetivo encontro entre a intenção da narração e a interpretação do pesquisador, ou seja, uma compreensão absoluta dos sujeitos da pesquisa.

Ora, a compreensão que o ouvinte ou o leitor desenvolve da narrativa do outro não pode pretender coincidir com a construção da qual essa narrativa é, ao mesmo tempo, o produto e o lugar de produção. [...] A compreensão que desenvolvo da narrativa de alguém inscreve-se num jogo de inter-relações que faz dessa narrativa não um objeto unânime e identicamente descodificável, mas algo que está em jogo entre alguém e mim, e entre mim e mim mesmo. Somente posso (re)construir o

mundo de vida da narrativa que ouço ou leio, relacionando esse mundo com os meus

próprios construtos biográficos e compreendendo-o nas relações de ressonância e de inteligibilidade com minha própria experiência biográfica. (DELORY- MOMBERGER, 2008, p. 59-60)

O método (auto)biográfico possibilita um trabalho de reflexividade biográfica duplo, de quem narra e do interlocutor, já que “A narrativa (auto)biográfica instala uma hermenêutica da “história de vida”, isto é, um sistema de interpretação e de construção que situa, une e faz significar os acontecimentos da vida como elementos organizados no interior de um todo” (DELORY-MOMBERGER, 2008, p. 56)

Empregamos as entrevistas orais para procurar, na particularidade, a universalidade, como o que defende Ferrarotti: “Se nós somos, se todo indivíduo é, a reapropriação singular do universo social e histórico que o rodeia, podemos conhecer o social a partir da especificidade irredutível de uma práxis individual” (2010, p.26-27). Também utilizamos esse tipo de entrevista para conhecermos e formarmos a nós mesmos, visto que “A narrativa do outro é um dos lugares onde experimentamos nossa própria construção biográfica" (DELORY-MOMBERGER). A reflexividade da narrativa (auto)biográfica igualmente faz com que o interlocutor ou o pesquisador implique-se de forma mútua, é um processo dialógico, que estabelece uma relação entre o todo e a parte, o texto com o contexto.

O processo de análise foi realizado na direção de apontamentos de caminhos teóricos e metodológicos, os quais possibilitaram balizar a compreensão, a explicitação e a problematização das questões investigadas. Para o desenvolvimento da pesquisa, especificamente, no que tange ao uso de conceitos operativos, foram nosso aporte, nomeadamente na direção da Invetigação-Formação, os estudos de Abrahão, Souza (2006), Delory-Momberger (2008, 2011) e Josso (2002, 2006).

À luz das narrativas, em seus contextos, foram se descortinando dimensões de análise, ao mesmo tempo em que emergiram interpretações. Essas dimensões foram pensadas depois de feitas as narrativas e a partir delas. São essas: Formação Inicial; Influências teórico- metodológica; Relação teoria e prática; Curso de História da UFSM; Trabalho; Ensino de História.

É preciso considerar que há limites na análise e que esta pesquisa não privilegiou uma análise determinista e saturada, e sim buscou metacompreensões biográficas, que o trabalho empírico proporciona, por meio das triangulações das narrativas, procurando o que é regular, mas, especialmente, buscando singularidades, conforme nos esclarece Abrahão (2011):

[...] trabalhamos antes com emoções e intuições do que com dados exatos e acabados; com subjetividades, portanto, antes do que com o conhecimento objetivo. Assim, sabemos que, nessa tradição de pesquisa, o pesquisador não pretende estabelecer generalizações estatísticas, mas compreender o fenômeno em estudo, o que lhe pode até permitir uma generalização analítica. [...]

Além disso, deve ensejar compreensões que, partindo do conjunto das narrativas, tanto no que possui de singular como de plural, atinjam abstrações capazes de permitirem compreensões mais aguçadas sobre processos de formação dos sujeitos.

Pela leitura transversal das entrevistas, foi possível apreender práticas e teorias de formação e perceber recorrências que apareciam nas falas das professoras que iniciaram a docência em momentos distintos. Os sujeitos não falam as mesmas narrativas mas, muitas vezes, remetem a sentidos semelhantes. E, dentro das múltiplas possibilidades de análise a

partir de cada entrevista, tivemos que fazer escolhas para atender ao nosso objetivo. Esse processo se mostrou fértil no que tange às narrativas, tanto no que elas nos dizem do singular, quanto do plural, chegando a abstrações que permitiram teorizações sobre o processo de formação e os sentidos do trabalho do professor de História.

CAPÍTULO 2: FORMAÇÃO INICIAL: