De forma a esclarecer o modo pelo qual realizo minhas colagens, descrevo aqui as etapas e os processos dessa última série, feitas todas em 2011. Falarei do tratamento dos papéis suportes, da montagem de um banco de imagens, da colagem em si, do desenho com lápis e nanquim e da utilização da tinta de aquarela no desenvolvimento dessa nova série.
Nos trabalhos realizados em 2011, eu abandono as manchas de café que faziam parte da série Trifásicos e começo a usar o papel Fabriano9e branco ou um pouco amarelado com café bem aguado. Os papéis são inteiramente mergulhados em uma vasilha de água com um pouco de café já preparado. Às vezes uso um rolinho de espuma para o papel ficar inteiramente amarelo. Os papéis esbranquiçados também passam por um processo de serem aguados, pois pertencem a um rolo e por isso ficam encurvados e esse procedimento deixam-nos pladeixam-nos e retos. Após molhados, os papéis são pendurados em um pequeno varal para secarem.
Figura 38. Varal com as folhas de Fabriano.
Depois de preparados os papéis suportes, começo a busca pelas imagens em que irei usar para colar. Começo a folhear várias enciclopédias e marcando as páginas referentes às imagens que me agradam. Às vezes, quando encontro imagens em livros diferentes, já recorto a primeira que encontrei, com um estilete de precisão, posicionando uma prancha de corte (prancha de plástico, verde, milimetrada, utilizada especialmente para corte com estilete ou
9 Papel Fabriano: Papel de alta qualidade, criado na província de Fabriano na Itália.
faca) no lado oposto da página onde está a imagem. Dessa forma eu não danifico a página do lado, que possivelmente posso usar mais tarde em algum outro projeto. Vou recortando as imagens principais que usarei. Se no final, eu achar que preciso de outra imagem, eu a recorto e a vou montando.
Figura 39. Varal com as folhas de Fabriano.
A partir disso, eu começo um desenho no papel suporte seco. O desenho vem de um brainstorm10em que penso traços, formas, padrões e outras soluções que ficariam boas juntas àquela imagem colada. Às vezes, observo algumas figuras vindas das enciclopédias e as copio, desenhando, para o papel suporte Fabriano. Normalmente eu uso variados tipos de lápis e grafites em lapiseiras, podendo me valer de lápis de cor também. Outras vezes, desenho diretamente com canetas de tinta nanquim. As canetas possuem variadas espessuras de traço, desde a mais fina, que é a 0,1 até a mais grossa que uso que é a 0,8. Eu utilizo as canetas tanto para contornos e traços, quanto para o preenchimento de áreas totalmente escuras.
10 Brainstorm – do inglês “tempestade de cerebral”: método de associação entre várias palavras e idéias para o desenvolvimento de uma idéia principal.
Figura 40. Materiais utilizados.
A mancha também entra durante o processo do desenho, quando, ao mesmo tempo em que eu vou colorir alguns detalhes do desenho já feito, eu também insiro manchas bem aguadas de aquarela e as deixo escorrer sobre o papel. Vou adicionando manchas sobre manchas, fazendo as cores, que já são misturadas previamente na palheta da caixinha de aquarela, se misturarem novamente sobre o papel. Por isso as manchas vão tomando determinadas partes do papel, com certo controle no escorrer ou nos respingos do pincel. As cores selecionadas sempre possuem alguma relação com a imagem colada. Ou servem para contrastar com a imagem a ser colada, ou para complementar e dar continuidade a ela.
Figura 41. Materiais utilizados.
Após eu ter recortado as imagens, eu as posiciono sobre uma superfície de jornal, e borrifo cola adesiva em spray nas costas do recorte. A cola adesiva é úmida, porém não é aguada, por isso garante que o papel não se enrugue, além de fixar melhor o material no suporte. Com a cola no papel, com um estilete eu o retiro de cima dos jornais e posiciono onde eu quero colá-lo. Vou fazendo isso com cada recorte que desejo colar. Se eu acho necessário, eu vou adicionando mais imagens no decorrer da colagem, fazendo pequenos cortes para a inserção de figuras, ou desenhando sobre elas com tinta ou lápis.
Figura 42. Trabalhos prontos. Em ordem: Auto-retrato em desprezo e preguiça, Coleópteros e A Armadilha
Figura 43. Trabalhos prontos. Em ordem: Gigante 1, Gigante 2 e A Inserção
Figura 44. Trabalhos prontos. Em ordem: O Pequeno Deus, O Devorador, A Construção e Julio Mesquita
Capítulo 4. Conclusão
Analisar e teorizar o próprio trabalho me pareceu uma tarefa desafiadora, pois me fez colocar em ordem todos os vários aspectos e idéias pelo qual ele já passou. Me fez pensar em pontos importantes que me levaram a realizar esse tipo de colagem, como a seleção de imagens que eu busco para produzir, a técnica de cortar e colar, o tamanho dos meus trabalhos, o material a ser utilizado, e as principais referências no estilo de colagem que eu gosto de fazer. Organizar todas essas idéias em forma de texto, foi um grande passo, pois nunca tinha feito isso antes, e facilitou o entendimento do trabalho. Por ser necessário explicar às outras pessoas o funcionamento das minhas idéias a respeito das colagens, acabei entendendo a importância desse tipo de produção artística na minha vida.
Como em um círculo, dei várias voltas à procura de algo que explicasse o meu apreço por esse tipo de produção artística e através da universidade (entre colegas e professores), consegui várias respostas, até chegar ao ponto de compreender o porquê de certas características do meu trabalho. Essa compreensão tende a me motivar para que, mais a frente, eu amplie o conceito de colagem, para que nele possa estar contida a utilização de outras linguagens e técnicas, bem como manter a exploração dos objetos nostálgicos em outros projetos.
Aliás, isso faz com que a minha vontade de continuar colando imagens antigas, desenhando-as, pintando-as e as transformando, cresça cada vez mais, e assim, acumule mais experiência teórica e prática nos trabalhos.
Referências Bibliográficas
TAYLOR, Brandon. Collage: The Making of Modern Art. Nova Iorque: Thames and Hudson Ltd, 2004
WESCHER, Herta. La historia Del collage: Del Cubismo a La actualidad. Espanha: 1976 RICHTER, Hans. Dada, Art and Anti-Art. Londres: Thames and Hudson Ltd, 2007
AGAMBEN, Giorgio. O que é contemporâneo? e outros ensaios. Santa Catarina, Brasil:
Editora Argos, 2009.
DEL CASTILLO, Sonia Salcedo. Lembranças [feridas no ferro não são feridas] perdidas...
Brasil: Junho de 2011
BUCHLOH, Benjamin H. D. 2000. Raymond Pettibon: Return to disorder and disfiguration.
Disponível em
http://dash.harvard.edu/bitstream/handle/1/3205618/Buchloh_RaymondPettibon.pdf?sequenc e=2 October 92 (Spring): 37-51.
GALO, Ivone Cecília. 2008. Punk: Cultura e Arte. Disponível em http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0104-87752008000200024&script=sci_arttext&tlng=es
Acessado em 10 de Novembro de 2011.
CAIS, Nino. Entrevista concedida à Arte|Ref : Referênca e Notícias em Arte
Contemporânea. [12/02/2010]. Disponível
em: http://artref.com.br/index.php/entrevistas/view/38 Acessado em 11 de Novembro de 2011.
RICCIOPO, Carlos Eduardo. 2010. Nino Cais: cabeças, colunas. Disponível em
http://www.pacodasartes.org.br/storage/ninocais.pdf Acessado em 27 de Outubro de 2011.
FOUCAULT, Michel. Introdução a Vida Não Fascista. In: DELEUZE, Gilles e GUATTARI, Felix. Anti-Oedipus: Capitalism and Schizophrenia, New York, Viking Press, 1977, pp.
XI-XIV. Traduzido por Wanderson Flor do Nascimento, disponível em http://www.unb.br/fe/tef/filoesco/foucault/ Acessado em 3 de Junho de 2009.
GOYANES, J. Del sentimiento comico en la vida y en el arte: Ensayo estetico-psicologico.
Madrid: M Aguilar, 1932.
HOME, Stewart. Assalto à Cultura: Utopia, Subversão e Guerrilha na Antiarte do Século XX.
São Paulo: Conrad Editora do Brasil, 2004.
PROFANE EXISTENCE. Making Punk a Threat Again: the Best Cuts of Profane Existence (1989-1993). Oakland: Punk Presses, 1997.
AMERICAN Hardcore: The History of American Punk Rock 1980-1986. Direção de Paul Rachman. Sony Pictures Distribuidora, 2007. Los Angeles: DVD (min.) son., color.
Legendado Port.
Anexos
Figura 1. Série Tédio Espetacular (2008).
Figura 1. Série Tédio Espetacular (2008).
Figura 2. Imagem & Semelhança (2008) dimensões variadas.
Figura 3. Capa do filme O Homem Elefante (1980).
Figura 4. Capa do filme Elephant (2003).
Figura 4. Série O Homem Elefante (2008).
Figura 5. Série O Homem Elefante (2008).
Figura 7. Primeira série de fotografia em múltipla exposição (2008).
Figura8. Série de fotografia Transmaterialização em painas (2010)
Figura 9. Capa do EP Discurso Mudo da banda Ilustra (2009)
Figura 10. Panfleto de divulgação do evento In Grind We Crust (2009).
Figura 11. Capa das edições da National Geographic (1960).
Figura 12. série de cartazes Rir Na Cara do Poder (2009).
Figura 13 e 14. Série de colagens digitais (2010).
Figura 15. Colagens sobre madeira (2010).
Figura 16 e 17. Série Trifásicos – Experimentações sobre café (2010).
Figura 18. Novos trabalhos da série Generais (2011).
Figura 25. Diário de Quíron e Figura 19. Homini Aquarius e PMS (2011) colagem sobre papel.
Trabalhos prontos. Em ordem (de cima para baixo): Gigante 1, Gigante 2 e Gigante 3 (2011).
Trabalhos prontos. Em ordem (de cima para baixo, da esquerda para direita: O Anjo Vermelho, Coleópteros, Julio Mesquita, Pequeno Deus, A Inserção, Auto Retrato Em Desprezo, O Devorador, Armadilha e A Construção (2011).
Figura 21. Hydrometric Demonstration of Killing by Temperature The Swan is Very Peaceful de Max Ernst (1920)
Figura 26. Série de colagens Uma Semana de Bondade de Max Ernst (1934).
Figura 33. Capa dos discos Insomniac (1995)
Figura32. Armed Madhouse de Winston Smith (2006).
Figura 28. Capa do disco My War (1983) e do disco Family Man da banda Black Flag de Raymond Pettibon.
Figura 29. Desenhos de Raymond Pettibon (2000)
Colagens de Gee Vaucher.
Figura 35. Cartazes e colagens de Mário Alencar.