Para o estudo do material em foco neste relatório, optei por basear-me nos critérios tecnológicos, para a determinação de fabricos, usados por Jorge de Alarcão nas obras “A cerâmica comum local e regional de Conimbriga” (ALARCÃO, 1974: 21-48) e “Fouilles de Conimbriga V: La céramique commune locale et régionale”.
Nestas obras as cerâmicas comuns encontram-se agrupadas de acordo com o seu fabrico (identificando-se depois as formas/tipos que compõem cada fabrico), sendo que este é determinado principalmente pela natureza das pastas, com base numa observação macroscópica e mineralógica (Ibid.: 22-24).
Como tal, neste relatório, as cerâmicas foram alvo de uma observação macroscópica e agrupadas segundo a natureza das suas pastas e tendo ainda em conta os anteriores fabricos identificados em Conímbriga: cerâmica alaranjada, cerâmica alaranjada fina, cerâmica alaranjada grosseira, cerâmica cinzenta, cerâmica cinzenta fina, cerâmica Pombal-Barracão, cerâmica de areias cauliníticas, cerâmica micácea, cerâmica quartzo-micácea, cerâmica quartzítica, cerâmica siltosa, grés, cerâmica resultante por meteorização de xistos, cerâmica
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vidrada, faiança. Para cada fabrico procurar-se-á apresentar a respetiva dimensão cronológica. Com efeito, nestas obras – “A cerâmica comum local e regional de Conimbriga” e “Fouilles de Conimbriga V: La céramique commune locale et régionale” – após a congregação dos fragmentos por fabricos, estes, por sua vez, foram também divididos ou agrupados segundo as suas cronologias: cerâmicas da Idade do Ferro não torneadas, cerâmicas torneadas de tradição indígena, cerâmicas do Alto-Império, cerâmicas do Baixo Império, e cerâmicas de cronologias incertas ou desconhecidas (Ibid.: 21-22).
Porém, alguns dos fabricos têm uma longa diacronia de produção, encontrando-se presentes desde da Idade do Ferro até à Idade Média, como é o caso das cerâmicas calcíticas que, nas obras referidas, encontram-se agrupadas de acordo com as cronologias aferidas pela sua contextualização estratigráfica e correlação com outras cerâmicas (ALARCÃO, 1975: 22). Segundo Adriaan De Man, a categoria “cerâmica comum” integra as peças que, não se enquadram no grupo das cerâmicas de importação, não sendo, também, nem lucernas nem ânforas (DE MAN, 2006: 126). A maioria “(…) das produções comuns parece, à primeira vista, um verdadeiro enigma morfológico. Muito embora haja vagas tendências evolutivas, não se lhes denota um verdadeiro padrão, e no presente caso já não se aplicam as categorias clássicas.” Com efeito, existem formas que são de algum modo constantes durante todo o Império Romano, mas as formas locais podem durar um período ainda mais lato (Ibid.: 116).
Como este autor afirma, “as seriações apresentadas nas Fouilles de Conimbriga (e, para o efeito, em muitas outras obras) não são mutuamente exclusivas, e não obedecem a critérios homogéneos. Há, por exemplo, um grupo definido pela cor (a tradicional cerâmica alaranjada), outros pela suposta origem geográfica (Pombal-Barracão ou Avelar) e ainda pela composição (quartzo-micácea ou calcítica).” O problema destas seriações, é por exemplo, o facto que tanto a cerâmica Avelar como a designada cerâmica alaranjada apresentam pastas laranjas, sendo apenas distinguidas destas últimas pelo seu núcleo acinzentado, o qual resulta, na verdade, dos processos de cozedura e não da origem das pastas (DE MAN, 2006: 120-21).
Também as cerâmicas calcíticas se distinguem, de outros fabricos, tendo conta apenas o seu processo de cozedura, sendo outro problema destas seriações. Pois, a calcite começa a transformar-se em óxido calcítico a partir dos 800º C, e desfazendo-se ainda antes dos 900º. Apesar de continuar a ser a mesma pasta, esta já não é reconhecida como tal através da observação macroscópica (Ibid.: 118).
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grupos: ferruginosos, pobres em ferro, engobados e micáceos. Adriaan De Man considera que, estas características surgem, por norma, numa associação aleatória e que, por isso, não servem como critério para criar grupos distintos (Ibid.: 139).
De Man admite a complexidade em optar por um método para a classificação da cerâmica comum, já que dispor as cerâmicas tardias por fabricos não será exequível devido à heterogeneidade das suas pastas. Também a distinção pelo processo de cozedura é no seu entender secundária, pois pouco contribuiu para uma boa aferição de tipologias. A sistematização segundo a função não será igualmente adequada, pois cada forma poderá ter tido múltiplas funções e em alguns caso a sua funcionalidade é difícil de se aferir. Porém, agrupar cerâmicas segundo a tecnologia de fabrico poderá não ser, também, indicada já que, em muitos casos existiu um uso massivo do torno lento, sendo que estas características são apenas secundariamente definidoras, tal como a decoração (Ibid.: 115-121).
Como tal, admite que “uma divisão segundo a unidade estratigráfica ainda que constituiria a mais correcta das normas; seria, no entanto, obrigatório incluir peças nitidamente intrusivas em categorias que representam um ciclo ocupacional distinto.”. O procedimento mais adequado, segundo este autor, será analisar a forma e o fabrico de cada fragmento separadamente e depois procurar uma intersecção, sendo sempre sustentado na estratigrafia (Ibid.: 121, 126-27).
Há, ainda, que considerar que nos últimos grupos cronológicos – século V e período Suevo-Visigótico – as cronologias encontram-se desactualizadas, principalmente no que respeita ao grupo de fabricos gresosos. Em outros trabalhos posteriores, Jorge de Alarcão veio a reconhecer que a maioria deste fabrico foi recuperado em níveis de destruição da ínsula a norte das termas e do vaso fálico e do fórum e que, após a confirmação da datação de Hayes e de se verificar que estas sigillatas não foram encontradas nestes níveis, estes níveis são datados do século VI e não do século anterior, como teria sido proposto nas Fouilles de Conimbriga (ALARCÃO, 2004: 105).
Também Adriaan de Man refere que, “a cronologia de grande parte da produção tardia, classificada genericamente de tardo-romana, deve ser repensada; estamos hoje convictos de que se distinguem vários e consistentes horizontes cerâmicos, que podem atingir o domínio islâmico.”, sendo que, as cerâmica gresosas, na verdade, pertence a quadros cronológicos mais tardios daqueles que propostos nas Fouilles de Conimbriga, sendo necessário admitir que a cidade não foi totalmente abandonada após os ataques suevos, tendo existindo povoamento
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nesta pelo menos até ao século XI (DE MAN, 2006: 102 DE MAN & SOARES, 2007). Sobre as cerâmicas islâmicas que, segundo as Fouilles, estariam ausentes dos níveis arqueológicos de Conimbriga, Jorge de Alarcão retificou esta afirmação, reconhecendo que a decoração e algumas formas de cerâmica pintada do volume VI (ALARCÃO et al., 1976: Est. XI, figuras 52-59) têm paralelos em contextos islâmicos do século IX, afirmando, no entanto, que “(...) se bem que decorações semelhantes (a vermelho) se encontrem também na cerâmica visigótica dos séculos VI e VII (...)”. Seja como for, a presença de cerâmica com formas tipicamente islâmicas é escassa em Conimbriga (ALARCÃO, 2004: 104).
Para actualizar o conhecimento sobre as cerâmicas tardo-antigas de Conimbriga, De Man estudou as cerâmicas de vários níveis estratigráficos tardios – silos e covas – datados a partir do século V, estipulando três fases de “tendências evolutivas” das cerâmicas destes níveis: Fase I (séc. V-VI), Fase II (séc. VIII-IX) e Fase III (séc. X-XII) (DE MAN, 2006: 94-97, 146- 164). Posteriormente, estas balizas cronológicas foram revistas após a análise e datação da fauna encontrada em abundância nestes níveis, pelo método de radiocarbono, resultando essa revisão nas seguintes cronologias: fase I corresponde aos séc. V-VI, a fase II aos século IX-XII e a fase III aos século X-XII (DE MAN & SOARES, 2007: 292).
De Man considera que, em Conimbriga é visível uma tendência para a diminuição de variantes de bordo, bem como dos perfis completos, existindo, ainda, uma menor depuração das pastas, retornando às cozeduras defeituosas. As pastas apresentam uma composição bastante arenosa, surgindo grandes impurezas passando estas pastas a designarem-se convencionalmente de grés (DE MAN, 2006: 127, 137-139).
Verifica-se, ainda, que, ao nível da decoração as linhas incisas e onduladas nos ombros ou nos bojos reflectem um esforço de inovar no ornamento das peças, terminando este na aplicação dos cordões digitados. Apesar do uso de ondulações em outros tipos de materiais ter sido abundante durante o alto-império em Conimbriga, este tipo de decoração só surge inciso em pastas gresosas a partir do período baixo-imperial (Ibid.: 127-28).
Por fim, há ainda que referir que para todos os fragmentos que não foi possível encontrar um paralelo tipológico dentro das obras “Fouilles de Conimbriga V: La céramique commune locale et régionale” e “Conimbriga: Do Baixo Império à Idade Média”, houve a necessidade de procurar similitudes em outras obras relacionadas com outras regiões do país ou até mesmo de Espanha.
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