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Metodologias, Procedimentos e Instrumentos

No documento A dúvida e o crescimento ainda moram aqui (páginas 153-157)

A presente investigação apresenta-se como sendo um estudo de na- tureza qualitativa que, conforme descrevem Bogdan e Biklen (1994), buscam partilhar determinadas características que as aproximem, de for- ma a compor um conjunto de dados descritivos. Os mesmos autores (op.

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Também em Portugal foram feitos estudos e investigações neste sentido (Oliveira-Formosinho, Zabalza & Pascal, 2001; Campos & Cruz, 2006; Oliveira-Formosinho & Araújo, 2004; Oliveira- Formosinho & Lino, 2001, citados por Oliveira-Formosinho, 2008).

cit.) acrescentam ainda que são caracterizadas por se apresentarem com pormenores descritivos relativos a pessoas, locais, conversas e/ou docu- mentos, o que também confere especificidade a estas investigações, uma vez que “o seu objetivo não é o de comprovar hipóteses ou questões pos- tas a priori para serem corroboradas” (Stano, 2005, pp. 91-92). Segundo Denzin e Lincoln (1998), nas investigações qualitativas são descritos momentos, problemáticas e significados, tanto rotineiros como não- rotineiros, nas vidas individuais e grupais.

Para a recolha de dados desta investigação, recorreu-se à entrevista semiestruturada, com prévia autorização dos encarregados de educação e da direção da instituição.

A entrevista é um processo de interação social, no qual o entrevista- dor – nós, estagiários – tem uma finalidade de obter informações do en- trevistado – as crianças –, através de um roteiro contendo tópicos em torno de uma problemática central (Haguette, 1995). A entrevista de ca- ráter semiestrutural tem, como característica primordial, questões básicas que são apoiadas em teorias e hipóteses que se relacionam ao tema da pesquisa (Triviños, 1987). As questões podem dar frutos a novas hipóte- ses, surgidas a partir das respostas dadas, sendo que, desta forma, a en- trevista semiestruturada “favorece não só a descrição dos fenómenos so- ciais, mas também a sua explicação e a compreensão da sua totalidade” (op. cit., p. 152). Oliveira-Formosinho (2008, p. 23) acrescenta ainda que “as entrevistas semiestruturadas têm sido consideradas o formato mais adequado para entrevistar crianças”.

As questões orientadoras (vide apêndice 27) foram formuladas de modo a serem percetíveis – e, portanto, com vocabulário adequado ao contexto e à faixa etária –, fugindo à ambiguidade, para que as crianças

as interpretassem, de modo a ir ao encontro dos objetivos traçados (Scott, 2000, citado por Oliveira-Formosinho, 2008).

Tendo estas questões orientadoras postas em ação tanto no estágio de educação pré-escolar como no 1.º CEB, todas crianças foram aleatori- amente repartidas – dentro de um mesmo contexto e por nós, estagiários – e as entrevistas foram realizadas a pares, uma vez que, segundo Graue e Walsh (2003, p. 141) “as crianças ficam mais descontraídas quando estão com um[/a] amigo[/a], em vez de a sós com o[/a] adulto[/a]” pois podem se ajudar “uns[/umas] aos[/às] outros[/as] com as respostas”.

Com o intuito de o ambiente não se tornar contra o processo de en- trevista, as mesmas desenrolaram-se numa sala – que não a da sala co- mum, mas que lhes era familiar. A este propósito, Pacheco (1995) alerta para a preocupação que se deve ter quanto à predileção de ambientes adequados, não suscetíveis de interferências.

De forma a não comprometer a validade das entrevistas, durante a sua transcrição (vide apêndice 28), decidimos utilizar – para complemen- tar o registo escrito – um dispositivo de gravação áudio, sendo que a en- trevista decorreu mediante uma conversa informal. Segundo Hermano et al. (1998, p. 103) “é extremamente importante que o investigador não vá desarmado para o campo”. Importa salientar que, embora estivessem de- finidas algumas questões, eram meramente orientadoras, sendo que fo- ram colocadas outras, consoante as respostas que os/as entrevistados/as fossem dando.

As entrevistas foram realizadas com o consentimento informado da criança, tendo-lhes sido explicado, no momento pré-entrevista, a intenção das questões que lhe iam ser colocadas, indo ao encontro de uma das linhas de orientação ética, elencadas por Oliveira-Formosinho, Zabalza e

Pascal (2001, citado por Oliveira-Formosinho, 2008) que passa precisa- mente por dar a conhecer ao entrevistado a razão de tal situação.

O corpus que resultou das entrevistas foi submetido a um processo de análise de conteúdo, seguindo, como linha de orientação, procedimen- tos da Grounded Theory, que se tem vindo a tornar, progressivamente, uma das metodologias qualitativas mais utilizadas pelos investigadores, no âmbito das ciências sociais e humanas (Fernandes & Almeida, 2001).

A criação desta metodologia foi proposta por dois sociólogos, nos EUA, de seus nomes Glaser e Strauss (1967), na obra The Discovery of

Grounded Theory: Strategies dor Qualitive Research (Seldén, 2005).

Surgiu a propósito da insatisfação com os modelos prevalecentes até en- tão, por serem “demasiado especulativos (…) [e] com problemas de vali- dade por falta de correspondência à realidade” (Fernandes & Almeida, 2001, p. 52). Desta forma, propuseram a Grounded Theory, com “o obje- tivo de criar uma ligação mais estreita entre a teoria e a realidade estuda- da” (op. cit., 53), pois acreditavam que um método qualitativo poderia ser tão rigoroso quanto os quantitativos, nos seus procedimentos (Glaser & Strauss, 1967). Segundo os mesmos autores (op. cit., p. 2), “Grounded Theory may be defined as the discovery of theory from data systematical- ly obtained from social research”.

Para uma decente utilização desta metodologia, vários são os passos pelos quais se tem que atravessar. O primeiro passo passa por definir as questões-orientadoras. Esta investigação enquadra-se num tipo de codifi- cação aberta, cujo procedimento consiste em formular “questões, fazer comparações, rotular e etiquetar” (op. cit., p. 56). A partir deste questio- namento, cabe ao/à investigador/a ir nomeando e conceptualizando as respostas que vão emergindo, passando, assim, para o passo seguinte: agrupar os conceitos em categorias – categorização –, a qual consiste na

"classificação de elementos constitutivos de um conjunto, por diferencia- ção (…) sob um título genérico, agrupamento esse efetuado em razão dos caracteres comuns destes elementos” (Bardin, 2004, p. 111).

É de referir que esta metodologia permite, segundo Fernandes e Al- meida (2001), a articulação com métodos quantitativos, permitindo que, aquando da eleição das categorias emergentes, as mesmas tenham sido destacadas consoante o número de repostas coincidentes com essa mesma categoria (vide apêndices 29 e 30).

Tomando as palavras de Bogdan e Biklen (1994, p. 50), “o processo de análise dos dados é como um funil: as coisas estão abertas de início e vão-se tornando mais fechadas e específicas no extremo”.

No documento A dúvida e o crescimento ainda moram aqui (páginas 153-157)