1. A CASA: O TERRENO E A PLANTA
1.4 Metragem e construção: preparando a planta
Como relatado anteriormente, no primeiro semestre de 2003, eu havia sido designado para construção de uma proposta de revisão da estrutura do curso e o desenvolvimento de um segundo módulo, o que se concretizou somente no segundo semestre de 2003. No primeiro semestre de 2005, acreditei que novas atividades poderiam ser desenvolvidas e incorporadas no curso o que me levou a
abraçar um projeto de pesquisa de Doutorado que tivesse como foco este curso de português para refugiados e as possibilidades de novas atividades. Porém, até então eu não havia mantido um contato mais profundo com cada um dos alunos e mergulhado em suas histórias e suas necessidades. Assim, devido à minha falta de conhecimento aprofundado sobre o contexto com o qual eu trabalharia nesta pesquisa, resolvi criar uma estratégia de aproximação e de estudo das experiências vividas nesse contexto.
Essa aproximação trouxe subsídios para uma proposta factível, considerando as necessidades dos alunos refugiados, as possibilidades e limitações vividas por esse público. A estratégia criada foi formalizada em um documento que chamei de Cronograma de Ações Iniciais de Pesquisa, como demonstra o quadro a seguir:
Data Ação Registros resultantes
04/05/2005 Entrevista com futuros alunos Formulário criado para coleta de
informações e notas de campo 09/05/2005 Entrevista com futuros alunos Formulário criado para coleta de informações e notas de campo 10/05/2005 Entrevista com Gestores do curso de português. Entrevista com roteiro (gravação e transcrição).
10/05/2005 Entrevista com Gestores do processo de
recepção dos refugiados.
Entrevista com roteiro (gravação e transcrição).
16/05/2005 Entrevista com Gestor responsável pelo
serviço social de uma das instituições.
Entrevista com roteiro (gravação e transcrição).
18/05/2005
Entrevista com instrutor de laboratório de informática na instituição onde o curso de português acontece..
Entrevista com roteiro (gravação e transcrição).
19/05/2005 Entrevista com a professora Entrevista com roteiro (gravação e
transcrição).
20/06/2005 Assistência à aula Notas de campo
28/06/2005 Reunião com a professora para apresentação da proposta de oficinas Notas de campo. Quadro 3: Cronograma de ações iniciais de pesquisa
Essas ações me colocaram em um diálogo mais próximo com as diferentes realidades do refúgio e permitiram que eu começasse a pensar sobre o que poderia ser relevante ou não para a inclusão dos refugiados no novo contexto social. Minha curiosidade suscitou questionamentos sobre como as aulas de língua portuguesa poderiam ajudar no processo de aculturação e como as histórias de violência registradas nessas ações de investigação impactavam as práticas discente e docente.
Ao mesmo tempo, essas ações me conscientizaram da existência de uma terrível realidade muito pouco comentada pela grande mídia e que coloca o ser humano em condições deploráveis de existência: a realidade daqueles que procuram o Brasil ou qualquer outro país como uma única chance de sobrevivência.
Os refugiados que chegam ao Brasil, vindos de países onde há violência e perseguição decorrentes de desavenças políticas, religiosas ou étnicas, fazem sua solicitação de refúgio na Caritas – um órgão da igreja católica que funciona como interface entre o refugiado, os órgãos nacionais responsáveis pelo processo que se instalará e a Acnur (Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados). Nessa instituição, o refugiado fala sobre suas experiências de vida e as razões que o levaram a fugir de seu país. Esse depoimento, geralmente, é marcado por grande carga emocional, pois resgata histórias de violência, morte e perseguição. Em seguida, há uma entrevista para o ingresso no curso gratuito de língua portuguesa para refugiados, oferecido nas instalações de uma das instituições participantes do processo de acolhida.
O depoimento sobre as circunstâncias do refúgio é coletado por um advogado da instituição receptora que dará andamento ao processo de solicitação da condição de refugiado. A entrevista para o curso de português é geralmente conduzida pela própria professora e tem como objetivo conhecer um pouco mais do futuro aluno. Emboras as entrevistas sejam, na maioria das vezes, realizadas em inglês e espanhol, a língua francesa também foi utilizada durante minha participação no processo. Em alguns casos, quando entrevistado falava somente um dialeto local, um intérprete era solicitado; geralmente um colega de refúgio que dominava alguma outra língua além do dialeto local.
Para as entrevistas com os alunos recém chegados no primeiro semestre de 2005, desenvolvi um roteiro que abordava desde questões mais gerais como nome, formação profissional e país de origem até outras questões voltadas para a situação de refúgio que me auxiliaram na compreensão inicial da realidade vivida pelo entrevistado. Como a entrevista serviria para a construção de proposta de atividades, julguei necessário coletar informações sobre a formação educacional e domínio de idiomas, bem como o conhecimento das novas tecnologias. A questão
religiosa também foi importante, pois para muitos países africanos, a religião e a maneira como ela é vivida por seus seguidores, determina todo um modo de vida de maneira radical, o que poderia causar impacto nas aulas. Segue o modelo de roteiro de entrevista:
Informações sobre novos alunos – curso de português
1. Nome: ________________________________________________________________ 2. Idade: _________________________________________________________________ 3. Origem: _______________________________________________________________ 4. Formação educacional:
____________________________________________________
5. Profissão no país de origem: _______________________________________________ 6. Razão do pedido de refúgio:
________________________________________________________________________________ ________________________________________________________________________________ __________________________________________________
7. Conhecimento e utilização do computador e Internet:
________________________________________________________________________________ ____________________________________________________________
8. Idiomas que fala: ________________________________________________________ 9. Razões apontadas para o aprendizado do português:
________________________________________________________________________________ ____________________________________________________________
10. O que julga mais importante aprender no curso de português:
________________________________________________________________________________ ________________________________________________________________________________ __________________________________________________ 11. Religião ________________________________________________________________________________ ____________________________________________________________
Quadro 4: Roteiro de entrevista – Conhecendo o contexto
O conteúdo desse roteiro, preenchido por mim durante a entrevista para o curso de português, foi considerado como um dos textos para futura interpretação de acordo com a abordagem metodológica – hermenêutico-fenomenológica – escolhida para a pesquisa. A princípio, foi considerada a possibilidade de gravação em áudio das entrevistas com os futuros alunos, mas devido à situação delicada na
qual os refugiados se encontravam e às considerações das instituições, decidi pela não gravação das mesmas. Assim, conduzi as entrevistas juntamente com a professora do curso e registrei essa experiência em forma de notas de campo que também foram consideradas como textos para posterior interpretação. Informo que o roteiro permitiu um contato inicial com o refugiado que me subsidiou com informações objetivas e focadas nas questões. Porém, muitas vezes, as respostas do entrevistado foram muito além das questões abordadas, trazendo as situações reais de violência e trauma vividas no contexto de refúgio.
As sessões de entrevistas para o curso de português duraram dois dias e revelaram os participantes desta investigação. Lembro que nem todos os alunos que fizeram a entrevista para o ingresso no curso de português foram designados para o primeiro módulo. Alguns, por já terem algum conhecimento da língua portuguesa, foram destinados a cursar o módulo 2.
Apresento, a seguir, a caracterização dos 28 participantes das entrevistas e seus nomes fictícios, considerando o país de origem, a língua falada e a idade. O sexo é outra característica importante devido à origem religiosa e étnica de alguns, o que procurei deixar explícito nos nomes fictícios escolhidos. Essas características foram escolhidas devido ao impacto que as mesmas têm sobre a aula e sobre o desenvolvimento das propostas de atividades, como será apresentado na interpretação dos dados:
Nome
Fictício País de Origem Língua Falada Idade
1. João Somália Somali 35
2. José Burundi Dialeto local 33
3. Pedro Eritréia Dialeto e inglês 30
4. Luis Gana Dialeto e inglês 33
5. Francisco Líbano Árabe - francês 28
6. Felipe Camarões Dialeto - inglês 19
7. Henry Etiópia Amharic 34
8. Mario Congo Língala e francês 52
9. Marco Congo Língala e francês 26
10. Milton Etiópia Amharic 28
11. Nilton Etiópia Amharic 22
12. Otavio Congo Lingala e francês 35
13. Renan Líbano Árabe e francês 32
14. Samuel Nepal Hindi e Nepali 42
15. Flavia Congo Dialeto e francês 30
17. Denis Congo Língala e francês 33
18. Lilian Colômbia Espanhol 26
19. Sarah Bolívia Espanhol 28
20. Mauricio Líbano Francês 35
21. Bernardo Colômbia Espanhol 38
22. Alberto Somália Dialeto e inglês 26
23. Amália Colômbia Espanhol 28
24. Carlos Congo Língala e francês 35
25. Denise Colômbia Espanhol 26
26. Jane Chile Espanhol 31
27. Daniela Colômbia Espanhol 38
28. Paulo Etiópia Dialeto local 28
Quadro 5: Participantes da entrevista inicial para o curso de português
Após as entrevistas com os candidatos ao programa de língua portuguesa para refugiados, resolvi dar continuidade à investigação do contexto, considerando as experiências vividas por aqueles que gerenciam o processo de recepção dos refugiados, os que coordenam e ministram o curso de português e os que acompanham a adaptação dos alunos ao novo contexto social. Essas pessoas foram consideradas como importantes fontes de informações que poderiam auxiliar no desenvolvimento de propostas de atividades para a pesquisa.
Entrevistas com os gestores do processo de recepção e com os responsáveis pela oferta e coordenação do curso de português foram realizadas a partir da criação de um roteiro (anexo 1). Já a entrevista com a docente do curso seguiu um roteiro diferente (anexo 2) e com foco na prática de sala de aula e na experiência com a docência. Todas as entrevistas foram gravadas com o consentimento dos entrevistados e posteriormente transcritas para interpretação como sugere a abordagem Hermenêutico-fenomenológica.
Além das entrevistas mencionadas, conduzi também uma conversa com o representante do laboratório de informática utilizado pelos refugiados em uma das instituições, devido ao interesse pela maneira como esse público utiliza as novas tecnologias, o que poderia subsidiar o desenvolvimento de atividades utilizando estas ferramentas.
Em seguida, assisti à terceira aula do módulo 1 e à terceira aula do módulo 2 que começaram logo após a entrevista com os futuros alunos. As aulas também não puderam ser gravadas pela mesma razão da impossibilidade de gravação das entrevistas com os candidatos ao curso.Optei, então, pelo registro de experiências
por meio de notas de campo resultantes de minha observação da aula. A escolha pela assistência a essas aulas deu-se pelo fato de que julguei importante verificar como os alunos interagiam na sala de aula. Porém, entrei somente na terceira aula de cada módulo, por achar pertinente dar aos alunos e a professora, um tempo para que se conhecessem e pudessem interagir sem a presença de um observador.
Após esses contatos com o contexto do refúgio e com o programa de língua portuguesa para refugiados, apresentei a professora do curso uma proposta de atividades que comporiam as Oficinas Presenciais Temáticas.
A apresentação da proposta para a professora também foi gravada e transcrita, sendo que algumas mudanças foram feitas considerando seus comentários durante a apresentação. A transcrição desse encontro também se tornou um dos textos que auxiliaram na compreensão do fenômeno já apresentado. Considero que essa proposta foi co-produzida e contou com a participação direta da professora e do pesquisador e com a participação indireta de todos os envolvidos no processo. Apresento a seguir a estrutura das Oficinas Presenciais Temáticas e os participantes de todo o processo de pesquisa.
1.5 As Oficinas Presenciais Temáticas: construindo novas experiências em