4. Discussão
4.1. Micoureus demerarae e Marmosa murina – 2n=14
No presente trabalho foram analisadas duas espécies com número diplóide igual a 14: Micoureus demerarae e Marmosa murina (Figuras 3 e 4).
O gênero Marmosa é considerado de taxonomia problemática e muitas espécies, inclusive Micoureus demerarae, foram anteriormente alocadas neste táxon, que segundo o conceito de Tate (1933) chegou a englobar o que é hoje reconhecido como pertencente a cinco gêneros distintos de marsupiais didelfídeos de pequeno porte. A semelhança entre Marmosa e Micoureus é observada na morfologia externa, onde indivíduos adultos podem ser confundidos com jovens da outra espécie e vice-versa, assim como na morfologia craniana dessas espécies (Voss & Jansa, 2003; da Silva comunicação pessoal). Já em relação aos seus cariótipos, podem ser facilmente identificados. A diferença entre os dois
cariótipos está evidente tanto na coloração convencional como no padrão de banda C, principalmente nos pares cromossômicos sexuais (Figura 8).
Figura 8. Posição do centrômero e padrão de heterocromatina dos pares 5, 6 e sexuais, de Micoureus demerarae e Marmosa murina.
Em M. demerarae tanto o par cinco quanto o seis são acrocêntricos com grandes blocos de heterocromatina constitutiva na região centromérica, enquanto que em M. murina o par cinco é subtelocêntrico e o par seis é acrocêntrico e os blocos de heterocromatina são muito pequenos. Ainda, em Marmosa murina foi encontrado um heteromorfismo entre os homólogos do par seis. Essa diferença revela-se como um pequeno braço acima do centrômero em um dos homólogos em coloração convencional, mas também na posição da RON, que em um dos homólogos está entre dois blocos de heterocromatina e no outro
ocupa a região distal, e na banda C, que em um dos homólogos aparece em um bloco centromérico e outro terminal, e no outro sendo apenas centromérico (Figura 9).
Figura 9. Par seis de Marmosa murina em coloração convencional, impregnação por Ag-NO3 e banda C.
Considerando as semelhanças entre o cariótipo de M. murina apresentado e o registrado por Reig et al. (1977) onde o par 6 possui morfologia acrocêntrica, parece plausível apontar que o evento gerador desse heteromorfismo foi uma inversão pericêntrica que alterou a posição da RON e a distribuição da heterocromatina constitutiva em um dos homólogos (Figura 10).
Figura 10. Esquema mostrando a inversão pericêntrica em um dos homólogos do par seis. As faixas pretas representam os blocos heterocromáticos e os círculos, a região organizadora de nucléolo.
Uma outra característica que permite diferenciar estas duas espécies é o padrão geral da heterocromatina constitutiva, onde M. demerarae apresenta grandes blocos heterocromáticos na região centromérica de todos os autossomos e do X, mas o Y não é heterocromático. Por outro lado, M. murina apresentou heterocromatina na região centromérica de todos os autossomos e do X, porém os blocos são tênues e o Y é totalmente heterocromático.
Como mostrado nas figuras 3 e 4, as duas espécies têm um sistema múltiplo de regiões organizadoras de nucléolo, estando uma localizada na porção terminal dos braços longos do par cinco e a outra na porção terminal dos braços curtos do par seis. Na literatura foram descritos outros dois padrões para M. murina procedentes de uma região que engloba uma vasta área que se estende desde o Peru e noroeste da Amazônia e através do Amapá e Tocantins até o estado do Pernambuco, no nordeste do Brasil. O primeiro foi descrito por Palma & Yates (1996), para indivíduos coletados em Goiás (Serra da Mesa), onde eles observaram marcações apenas nos braços curtos do par seis, enquanto Souza et al. (1990) encontraram marcações nos braços curtos dos pares três e cinco e nos braços longos do par seis em indivíduos coletados em Pernambuco. Já em M. demerarae a posição da região organizadora de nucléolo não foi diferente da registrada na bibliografia, em toda sua distribuição já analisada (Casartelli et al., 1986; Souza et al., 1990; Palma & Yates, 1996; Svartman & Vianna-Morgante, 1999).
A banda G possibilitou emparelhar corretamente os pares de cromossomos e reconhecer algumas homeologias entre os pares das duas espécies, sobretudo nos maiores pares. A comparação dos padrões de bandas obtidos neste estudo com os da literatura foi dificultada devido à baixa resolução das bandas obtidas para os espécimes analisados no presente trabalho.
Os cromossomos sexuais também possibilitam distinguir as duas espécies. Em M. demerarae os cromossomos X e Y são acrocêntricos e em M. murina o X é submetacêntrico e o Y é puntiforme (Figura 8). A morfologia do par sexual de M. demerarae não diferenciou dos dados disponíveis na literatura, porém para M. murina a literatura apresenta diferentes morfologias para os cromossomos sexuais. Souza et al. (1990) descreveram, em indivíduos coletados no estado de Pernambuco, o X como acrocêntrico e o Y puntiforme; Palma & Yates (1996) descreveram o X como metacêntrico
e o Y como acrocêntrico em indivíduos coletados em duas localidades da Serra da Mesa; Carvalho et al. (2002) descreveram o X e o Y como acrocêntricos, em indivíduos coletados nos estados do Amapá, Tocantins e Goiás (Quadro 1).
Os cromossomos sexuais dos indivíduos de M. murina analisados no presente trabalho são semelhantes aos encontrados por Reig et al. (1977) em indivíduos coletados em três localidades no Peru e Venezuela, nos quais o X é submetacêntrico e o Y é acrocêntrico. Portanto, quanto aos cromossomos sexuais de M. murina, quatro formas foram descritas, sendo que apenas em Serra da Mesa, Goiás, duas dessas formas foram encontradas juntas sendo as demais de localidades bastante distantes entre si. Assim, embora os cariótipos com 2n=14 cromossomos apresentem uma estrutura conservada, a presença de rearranjos não Robertsonianos do tipo inversão (paracêntricas e pericêntricas) é evidente. Estes rearranjos aparentemente estão ocorrendo principalmente nos menores pares do conjunto autossômico e nos sexuais. Porém, apenas um estudo mais amplo envolvendo dados biogeográficos, morfológicos, moleculares e citogenéticos poderá avaliar o real significado destes rearranjos.
Quadro 1: Formas de cromossomos sexuais descritos para M. murina.
Formas X Y
Localidade Referência
Goiás (Serra da Mesa), Brasil Palma & Yates, (1996)
Amapá, Tocantins e Goiás (Serra
da Mesa), Brasil Carvalho et al. (2002)
Pernambuco Souza et al. (1990)
Peru, Venezuela e UHE Balbina (Amazonas, Brasil)
Reig et al. (1977) e presente trabalho
Entretanto, alguns fatores devem ser considerados antes de se concluir que exista diferenciação intraespecífica em Marmosa murina. Como Bueno et al. (1989) observaram, o estado de condensação pode dificultar a determinação da morfologia dos cromossomos de dois braços. Por outro lado, existem problemas na taxonomia e sistemática do gênero Marmosa e estudos recentes apontam para a falta de suporte desse gênero como um táxon monofilético (Voss & Jansa, 2003; Voss et al., 2004). Historicamente, muitas espécies já foram inseridas e removidas desse gênero, ilustrando a problemática do grupo e, principalmente, como para a grande maioria das espécies de pequenos marsupiais didelfídeos, os limites entre as espécies ainda não foram devidamente estabelecidos.