CAPÍTULO 5. O CICLO ÉPICO BIZANTINO DE FRONTEIRA
5.3. O micro-ciclo dos Doukas e as relações “aristocracia – poder imperial”
O Cantar do Filho de Andronicos76, encontrada num manuscrito do século XVIII, narra, em pouco mais de cem versos, a história do filho de um general bizantino,
71 Dig. Akr. G. I, 297-309.
72 Sobre o conceito de Pathos vide BRANDÃO, Jacyntho Lins. Mito, Pathos e Ecfrase em Luciano (DE Domo 22). Comunicação apresentada no II Colóquio Internacional do GIPSA: “Imagem e discurso na cultural pode ter tido mais intercâmbios do que se imagina. Elisabeth Jeffreys deu ênfase à passagem que Leonor da Aquitania a Bizâncio durante a Segunda Cruzada (1145-1149), pois logo depois dessa visita essa rainha formou seu círculo literário que produziu os chamados Roman d’Antiquitée, Vide JEFFREYS, Elizabeth. The Comnenian Background to the Romans D’Antiquité. In: Byzantion: Revue Internationale de Études Byzantines. Bruxelas: Sociedade Belga de Estudos Bizantinos: 1980. pp. 456-486
74 Dig. Akr. E.144-177.
75 Vide apêndice 2 no fim do trabalho para comparar os textos
76 Cantar de Andronico. 1-103.
Andronikos (supostamente Doukas), que é raptado ainda na barriga da mãe pelo Emir.
Assim, ele nasce no cativeiro e é criado conjuntamente pela sua mãe, bizantina e cristã, e pela esposa do emir, sarracena e muçulmana. Como é comum na tradição épica bizantina, ele tem um crescimento extremamente rápido, já aos três anos é um guerreiro completo e decide ir encontrar seu pai nos acampamentos bizantinos. Chegando ao acampamento, confronta seu pai que fica maravilhado com o filho que tem.
Esse cantar junto ao de Porfiris e outros mantidos pela tradição oral formam outro ciclo épico, o “Ciclo dos Doukas”. Apesar de em nenhum momento os cantares narrarem que seus heróis façam parte dessa linhagem, as tramas se relacionam fortemente com a história dessa família. Os Doukas eram uma linhagem aristocrática originada do Thema da Anatólia, então fronteira oriental bizantina e muito antiga, para os padrões da aristocracia militar bizantina. Os mais recuados registros desse nome familiar são do século IX. O primeiro membro dessa estirpe a ter uma maior projeção foi Andronikos Doukas, durante o reinado de Leão VI (886-912). Ele era um proeminente general quando se rebelou contra esse imperador. A razão da rebelião foi a decisão de Leão VI de se casar pela quarta vez para legitimar o filho que teve com sua amante, contrariando leis eclesiásticas da Igreja Bizantina. O Patriarca de Constantinopla, resistindo a essa idéia, incitou Andronikos a rebelar-se. A insurreição foi infrutífera, pois muitos de seus soldados desertaram para o Imperador e entregaram o envolvimento do patriarca na revolta. O Patriarca, encurralado, aceitou o quarto casamento de Leão VI e Andronikos Doukas isolado, se exilou em Bagdá, com vários seguidores e seu filho Constantino Doukas. Em 907, o imperador Leão VI, seguro de seu poder, lançou uma anistia geral para com os rebelados e muitos puderam voltar, incluindo Constantino Doukas, que foi apontado como strategos do Thema da Chaldia.
Leão VI morreu em 912, deixando o poder dividido entre seu irmão Alexandre e seu filho Constantino. Alexandre reinou pouco tempo, morreu em 913 e deixou como sucessor Constantino VII (913-959) ainda criança. O patriarca de Constantinopla, Nicolau, instigou Constantino Doukas, no momento Domestikos da Scholae, ou seja, comandante-em-chefe do exército imperial, a rebelar-se também, pensando que seria preterido do cargo de regente. Entretanto, para surpresa de Nicolau, o imperador Alexandre o nomeou regente de Constantino VII antes de morrer. Dessa forma, o Patriarca não precisava mais de Constantino Doukas, mas a ambição dele havia sido instigada. Assim, ele tentou tomar o poder de qualquer forma, invadindo o palácio
imperial com suas tropas. Contudo, a guarda palaciana resistiu e conseguiu conter a invasão, matando Constantino, seus filhos e suas tropas.77
A semelhança entre a história de Andronikos e Constantino Doukas com a história contada pelo Cantar do Filho de Andronicos é marcante. Provavelmente foi inspirada nos feitos dessas figuras que os cantares do Ciclo dos Doukas foram compostos. Também é bastante provável que o Cantar do Emir tenha sido originalmente parte do Ciclo dos Doukas, uma vez que a donzela raptada e seus irmãos se declarem parte dessa linhagem, sendo um deles chamado Constantino e o pai tendo sido espoliado de suas propriedades e exilado por conspiração. De forma que não seria precipitado conjecturar que esses cantares tenham sido compostos sob encomenda de descendentes de Andronikos e Constantino Doukas, com o objetivo de imortalizar os feitos de seus ancestrais, cuja principal realização foi se rebelar contra o imperador. Na realidade, um dos principais traços do “Ciclo épico dos Doukas” é sua posição anti-imperial. No “Cantar do Filho de Andronicos”, o herói, após seu rápido crescimento decide ir confrontar seu pai, Andronikos e, declarando não ter medo de nada e de ninguém, declara que “não temo Pedro Phokas, - nem Nicéforo / nem Pedrotrajilo, - e a terra e o mundo tremente./ [e se a guerra é justa, nem mesmo Constantino]” 78. Nesse trecho, o “Pedro” que o herói não teme é uma provável referência ao aristocrata e strategos de Armeniakon Bardas Phocas ( 878-968) e o “Nicéforo” poderia ser tanto seu pai, Nicéforo Phocas, o Velho, ou seu filho, Imperador Nicéforo II Phocas (963-969).
Provavelmente, o Constantino mencionado pode ser uma referência ao representante da dinastia Macedônia, o imperador principal Constantino VII Porfirogenito (913-945).
Outros cantares desse ciclo, como o de Porfiris e de Constantino, narram confrontos abertos contra o Imperador.
De forma geral, nem o Imperador nem qualquer braço do poder imperial são importantes no ciclo épico bizantino de fronteira. Nem um representante da Igreja Bizantina se faz presente, nem mesmo os monges, tão numerosos e influentes por todo contexto provincial bizantino. Da administração e seus representantes, observamos somente alguns strategoi, mas esses surgem como príncipes autônomos que aparentemente nada têm a ver com o poder imperial. No principal representante desse ciclo, a Canção de Digenis Akrites, a Romania, isto é, “a terra dos romanos” ou o
77 TREADGOLD, Warren. Op.cit. pp.467-473.
78ni teme a Petro Focas, - ni a Nicéforo tampoco / ni tampoco Petrotrájilo, - y la tierra y el mundo tiemblante. / [y si es una guierra justa, - ni siquiera a Constantino. In: Cantar de Andronikos. 12-14
Império Bizantino, é descrita de forma completamente tradicional, como a herdeira do helenismo e protetora da ortodoxia cristã, se não fosse um detalhe: paradoxalmente, o Imperador, a outra base do tripé identitário bizantino, parece não existir. Com exceção de um episódio em que Digenis e o Imperador se encontram em algumas versões, incluindo a Grotaferrata. Porém, esse episódio é curiosamente deslocado da narração principal, pois a presença imperial nas fronteiras de Digenis não tem nenhuma conseqüência na trama e aparece como um elemento de fora.
Esses cantares demonstram uma visão muito arraigada nessa elite de que as themata, principalmente as fronteiriças, apesar de serem parte do Império e, por isso, submetidas às autoridade do imperador em Constantinopla, eram área de domínio desses potentados. Os imperadores, nos séculos IX e X, para assegurar o domínio dos longínquos territórios fronteiriços, cederam uma grande parcela de poder para os potentados locais, que se tornaram gradativamente mais poderosos politicamente, através da intensa militarização e formação de exércitos particulares (as hetairéia), e economicamente, através da concentração de terras. Ainda que os chefes fronteiriços necessitassem do favor imperial para a edificação de suas fortunas familiares e suas áreas de influências locais, os cantares épicos demonstram suas intenções em se afirmarem como potentados autônomos e assumirem uma postura defensiva em relação ao poder imperial. 79
5.4. Postura afirmativa das fronteiras: pontuações sobre o universo akrítico