5.2 Os subesquemas e as microconstruções
5.2.1 O subesquema 1 e suas microconstruções
5.2.1.4 Microconstrução 1.4
A microconstrução 1.4, instanciada formalmente por {[X]S1← [a partir de então
→ Y]S2}, com apenas 7 ocorrências e índice de 5,51% do total encontrado nos corpora, assim como a microconstrução 1.2, {[X]S1 ← [desde entãoANT/POSP → Y]S2},
também indica ponto de partida em relação a um marco temporal. Partindo, no entanto, do princípio da não sinonímia de Goldberg (1995)70, buscamos evidências de funções distintas, analisando os exemplos encontrados no corpus de análise:
(44) A realidade, hoje, aponta para uma evolução. Há no País sete sheiks brasileiros. Dez anos atrás, havia três. Em todos os Estados da federação há alguma mesquita, mussala, sociedade beneficente ou cemitério islâmico. No Rio de Janeiro, por exemplo, encontra-se uma das comunidades pioneiras em realizar sermões em português e não em árabe – o islã praticado no Brasil, atualmente, deriva da imigração árabe do Oriente Médio do fim do século XIX e século XX. Essa movimentação toda pela qual passa o islã teve como gatilho os atentados terroristas de 11 de setembro de 2001. A partir de então, a mesma esteira que trouxe para cá notícias distorcidas sobre os fundamentos islâmicos e o medo semeou nas pessoas uma grande curiosidade sobre a religião. (Corpus revistas formais 2014)
(45) Os bonés ganharam notoriedade mesmo na transição dos séculos XIX e XX com o advento do beisebol. A partir de então, o modelo foi popularizado e ganhou status de acessório de moda na década de 60 quando surgiram os primeiros moldes e formatos estilizados. (Corpus blogs 2014)
70 De acordo com Goldberg (1995), se duas construções são sintaticamente distintas, elas devem ser semântica ou pragmaticamente distintas.
115 (46) Além da genética, muitos fatores influenciam no ganho de peso, como histórico familiar, hábitos antigos e sedentarismo. No entanto, colocar a responsabilidade por não emagrecer somente em fatores externos não vai ajudar em nada na redução de peso. O importante é reconhecer que a decisão final de comer ou não uma barra de chocolate é da própria pessoa. A partir de então será possível enfrentar as dificuldades, combatê-las e, assim, conquistar bons resultados.(Corpus revistas informais 2014)
Como podemos evidenciar nos exemplos (44) e (45), a microconstrução 1.4, já não retoma somente um tempo cronológico que é ponto de partida para uma ação que vai se desenvolver até o momento atual, mas indica também uma relação discursiva no texto, em que a ação posterior vai se desenvolver a partir do que é exposto anteriormente.
No exemplo (44), a microconstrução 1.4 retoma anaforicamente o marco temporal “11 de setembro de 2011”, mas também o próprio evento, isto é, os atentados terroristas que marcaram essa data. Notamos, portanto, um caminhar para uma relação de retomada discursiva, o que diferencia essa construção da microconstrução 1.2, que retoma prototipicamente um marco temporal. Em (45), “a partir de então” relaciona a popularização do boné à época em que o beisebol surgiu, na transição dos séculos XIX e XX, tornando-se ainda mais evidente essa relação discursiva, em que a microconstrução “a partir de então” aponta anaforicamente para toda a sentença anterior, um fato demarcado temporalmente, que é ponto de partida para o evento posterior.
Já em (46), “a partir de então” indica que um momento hipoteticamente estabelecido é ponto de partida e condição para o evento posterior: só será possível enfrentar as dificuldades e conquistar bons resultados a partir do momento em que houver o reconhecimento de que a decisão final de comer ou não uma barra de chocolate é da própria pessoa. Como podemos perceber, trata-se de um momento discursivo, estabelecido contextualmente, havendo um caminhar considerável rumo ao discurso, uma vez que “a partir de então” assume posição fixa no início da sentença, que funciona como seu escopo, dando relevo à sentença anterior, com a qual já estabelece uma certa relação de dependência e de decorrência, confirmando a hipótese da expansão pragmática do uso prototípico de “então” e o crescente de intersubjetividade que estamos propondo.
116 Nos exemplos (44), (45) e (46), “a partir de então” poderia ser parafraseada por “desde então”, o que a aproximaria desta construção. No entanto, nos três exemplos, aquela construção poderia ser parafraseada por “a partir disso”, o que comprova estarmos diante de uma expansão do uso como circunstanciador temporal para um uso como conector textual. Parece-nos que o falante utiliza-se do padrão construcional “[preposição] + [então]” (como em “até então” e “desde então”), que indica uma duratividade em relação a um marco cronológico específico, para criar, por analogia, “a partir de então”, num primeiro momento, representando apenas uma mudança construcional na forma, com o mesmo sentido de “desde então”, e, posteriormente, assumindo o estatuto de uma nova construção na língua, por se tornar um novo par forma-função, retomando anaforicamente um momento no discurso referido anteriormente, a partir do qual o outro se desenvolveu ou poderia hipoteticamente se desenvolver. Embora essa afirmação não possa ser categórica por se tratar de uma pesquisa sincrônica, sua baixa frequência (5,55%) do total de ocorrências no corpus indica ser um uso recente e, consequentemente, instanciado pelos mais prototípicos da rede.
Nesse sentido, procuraremos demonstrar que as microconstruções que ocupam a posição final dentro de cada subesquema estão, de alguma forma, relacionadas tanto ao subesquema ao qual estão vinculadas quanto ao subesquema subsequente, o que demonstra haver um contínuo entre um uso mais prototípico e o menos prototípico, o qual representa uma expansão daquele, mas ainda mantém alguma característica que nos leva a incluí-lo naquele subesquema. Sendo assim, justificamos a inserção de “a partir de então” no subesquema 1 por considerarmos que essa construção, embora já estabeleça uma relação no plano textual, ainda localiza seu escopo temporalmente, mesmo que seja um momento delimitado contextualmente, ou seja, ainda há um resgate temporal do momento em que o evento precedido pela microconstrução ocorre na realidade.
Além disso, seguindo o modelo proposto por Traugott e Trousdale (2013), esse pequeno avanço em relação ao discurso, que se intensifica na microconstrução 1.5, representa um micropasso rumo à expansão metafórica que estamos propondo dentro do próprio subesquema ao qual ela pertence e, consequentemente, um avanço em termos de (inter)subjetividade, já que esta está diretamente relacionada aos processos de expansão semântica.
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