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1 EMBASAMENTO TEÓRICO

1.2 A teoria de van Dijk sobre o texto

1.2.4 A microestrutura

Paralelamente a essa estrutura profunda do texto – a macroestrutura – van Dijk fala na estrutura superficial do texto – a microestrutura, que trata das conexões entre as sentenças; de como as proposições de um discurso estão encadeadas em uma seqüência e de como elas adquirem os mais complexos significados.

Os textos, para van Dijk (2002), consistem em seqüências de sentenças que expressam seqüências de proposições. Esse conjunto, entretanto, é ordenado, está sujeito a certos princípios ou regras que garantem a “coerência”. (Em lugar de “coerência”, outros termos têm sido usados para denotar relações semânticas na estrutura de superfície, como “coesão” e “conexividade”, por exemplo).

A coesão textual, portanto, configura-se pela ordem de palavras e ordem de sentenças, pelo uso de conectivos, advérbios sentenciais, tempos verbais e pronomes. Assim, enquanto a coesão tem uma função a desempenhar em nível local ou micronível, a coerência – do ponto de vista do conteúdo – tem uma função a desempenhar em nível global ou macronível. Esses dois fatores determinam-se mutuamente.

Reconhecendo os textos como parte inerente da interação comunicativa, van Dijk (1981) observa que existe uma interação não só entre as diferentes estruturas do texto, mas, também, entre os diferentes tipos de contextos, tais como:

• Contexto pragmático: o texto como ato de fala

O texto é um ato de linguagem ou uma seqüência de atos de linguagem. Atos de linguagem são, por exemplo, as promessas, as ameaças, as asserções, as súplicas, os pedidos, as ordens, etc. Um ato só faz sentido se forem preenchidas algumas condições que dizem respeito à situação comunicativa na qual o ato é pronunciado. À pragmática compete explicitar as condições que qualquer ato de fala deve preencher para se adequar a um contexto específico. O contexto pragmático é composto por todos os fatores psíquicos e sociais que determinam essa adequação dos atos de linguagem.

• Contexto cognitivo: a compreensão dos textos

A compreensão dos textos é um processo que nasce da análise da informação veiculada pela estrutura de superfície do texto e da sua tradução em termos de conteúdo, ou seja, de informação conceptual denotada. Essa compreensão evidentemente depende de uma série de fatores individuais dificilmente mensuráveis, já que nem todas as pessoas conseguem identificar, compreender, armazenar, memorizar e relacionar informações com a mesma facilidade.

• Contexto sociopsicológico: influência dos textos

Invade-se aqui o campo da psicologia social e da comunicação de massa. Já não se trata agora de perguntar o que um leitor faz de um texto individualmente, mas

sim quais são os fatores sociais que contam para a compreensão textual – e inversamente, quais são os fatores da compreensão textual que podem ter implicações sociais. Na verdade, ainda não se sabe exatamente quais são as propriedades textuais que estão ligadas à modificação do saber, das opiniões e das atitudes dos leitores. Se bem que a psicologia social tenha se preocupado com essa questão, ainda não se sabe com clareza como identificar a natureza dos processos de manipulação.

• Contexto social: o texto na interação e na instituição

Os atos de linguagem não são atos sociais. São produzidos em processos de interação comunicativa, e essa interação se enquadra em situações sociais. Essas situações sociais são, em si mesmas, “únicas”, mas possuem um grande número de propriedades de caráter mais geral e até convencional. Existem situações de natureza pública ou privada, institucional ou não que determinam um número limitado de atos possíveis. Em outras palavras, a estrutura da situação determina as propriedades que os textos podem ter.

• Contexto cultural: o texto como fenômeno cultural

As situações sociais em que os textos ocorrem são histórica e culturalmente determinadas. Além de ser um componente variável da interação social, o texto é, em si mesmo, um fenômeno cultural a partir do qual é possível tirar algumas conclusões a respeito da estrutura social das comunidades culturais. Dessa forma, a análise textual constitui um método bastante poderoso para uma análise geral da cultura.

Diante dessas considerações, van Dijk (1981) conclui que a análise dos textos exige uma aproximação pluridimensional, isto é, os diferentes níveis devem ser relacionados uns com os outros, enquanto as estruturas, a diversos níveis, podem ser ligadas de várias maneiras aos diferentes tipos de contextos. Portanto, não se trata de considerar o texto por si mesmo, mas de compreender e analisar as diferentes funções do texto nesses contextos.

Nessa perspectiva, interpretar um texto é, em primeiro lugar, atribuir significados às partes componentes do texto, para, depois, fazê-lo no conjunto; em

segundo lugar, atribuir ao texto suas diferentes funções (como ato de linguagem e no contexto sociocultural).

A teoria de van Dijk é muito mais ampla do que aquilo que até aqui foi exposto. Na verdade, os estudos a que fiz referência foram os primeiros na esteira de muitos outros realizados pelo pesquisador holandês. Partindo de uma proposta predominantemente estrutural, o modelo vai adquirindo um caráter mais dinâmico, de base processual, com uma abordagem denominada, pelo próprio teórico, “estratégica”.

O trabalho vem sendo ampliado em direção a um estudo mais geral do discurso e o papel que o poder e a ideologia desempenham no texto, configurando- se a interdisciplinaridade com outras áreas, como a Sociologia, a Antropologia, a Psicologia, o Direito, o Jornalismo, que atuam no campo das ciências humanas.

2 A EDUCAÇÃO E O ENSINO DA LÍNGUA MATERNA NO BRASIL E NO

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