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5.2 OBJETOS TÉCNICOS: COMUNICAÇÃO VISUAL, REDES SOCIAIS,

5.2.2 Microrroteiros em macro contextos

Partindo desse caráter de co-construção dos microrroteiros com o espaço urbano, vamos discorrer e problematizar, para além dos microrroteiros que Laura Guimarães cola na cidade por conta própria, colagens relacionadas a duas localidades de condições sócio- políticas específicas – aos processos de urbanismo tático na região da Luz e no Largo da Batata, já comentados anteriormente – no intuito de pensar as micropolíticas do cotidiano e suas interrelações com o macro contexto.

Região da Luz

A região da Luz é uma das principais áreas da cidade que lida com a questão social e política da Cracolândia. Uma localidade central que, no começo do século XX, era ocupada pela alta burguesia do café, e que, por conta de diversos processos de marginalização, foi desenvolvendo um intenso tráfico de drogas e concentração de prostituição. Desde o início dos anos 2000, diversas operações131 governamentais foram realizadas com o intuito de “eliminar o foco do problema” e revitalizar a área. Contudo, as ações desenvolvidas foram criticadas devido ao seu caráter notadamente higienista, o qual visava à recuperação de prédios, parques, ruas e fachadas, desconsiderando e, muitas vezes, violentamente expulsando os grupos mais vulneráveis, sem qualquer preocupação com o destino dessas pessoas (SUCUPIRA, 2006).

Atualmente, as ações na região da Luz estão centradas na coordenação entre secretarias, coletivos e programas da prefeitura paulistana tendo em vista o Plano de Ocupação do Espaço Público pela Cidadania da Prefeitura da cidade São Paulo na gestão de Fernando Haddad. De acordo com notícia publicada no site da prefeitura no final de janeiro de 2014, esse plano se estrutura em três eixos estratégicos principais denominados: Cultura de Direitos Humanos, Ocupação do Espaço Público e Participação Social, que contam com a realização de 19 iniciativas previstas pelo plano. Dentre elas, destacam-se:

um caderno de orientação para o uso dos espaços públicos, a fim de democratizar as informações sobre procedimentos e protocolos; a publicação de edital de fomento à intervenção urbana realizada por atores sociais, organizados ou não, no valor de até R$ 40 mil para cada projeto; a cartografia de pontos simbólicos e de referência nas lutas sociais e dos direitos humanos; e o mapeamento de logradouros passíveis de alteração por homenagearem pessoas relacionadas a violações de direitos humanos (PREFEITURA DE SÃO PAULO, 2014).

131 Destaque para o Projeto Nova Luz no ano de 2007 e para a Operação Centro Legal no ano de 2012,

Especificamente na região da Luz, o projeto Cidadania Rodante vem atuando em diálogo com o programa da prefeitura da cidade de São Paulo, denominado De Braços Abertos, também conhecido como DBA132, que visa à reinserção social e o tratamento integral dos usuários de crack. As atividades do projeto Cidadania Rodante, desenvolvidas em agosto de 2015 pela Secretaria Municipal de Direitos Humanos e Cidadania (SMDHC) em parceria com a Associação Sabiá, retomam e reestruturam, na Luz, ações da experiência-piloto desenvolvida entre junho de 2013 e março de 2014, pela Secretaria Municipal de Direitos Humanos e Cidadania (SMDHC) em conjunto com o trabalho da Casa Rodante desenvolvido pelo coletivo casadalapa (PREFEITURA DE SÃO PAULO, 2015). Agora, em uma nova etapa, que se estende até outubro de 2016, intervenções artísticas e urbanas como o Jornal Mural, a Roça Urbana e o CineLuz articulam-se às estratégias de redução de danos fomentadas pelo DBA, incentivando o sentimento de pertencimento à cidade e o uso do espaço urbano (figura 62).

Figura 62 – Jornal Mural e microrroteiros na Luz, 2015, São Paulo Fonte: COSTA, 2015

Dentre as intervenções urbanas propostas, Laura Guimarães desenvolve, desde o ano de 2014, em conjunto com o projeto da Casa Rodante, a prática dos microrroteiros com os

132 O início da DBA, em meados de 2013, “foi marcado pela determinação em se contrapor às políticas pautadas

pela repressão e pela internação em comunidades terapêuticas, muitas vezes de forma involuntária e até mesmo compulsória, levadas a frente pelo governo do Estado de São Paulo, particularmente na gestão Geraldo Alckmin” (ALVES, 2014, p. 1 e 2).

moradores da região. Ao trabalhar com essa proposta de diálogo entre as diversas histórias, Laura articula com uma prática que talvez possa ser encarada, apesar de suas narrativas curtas e fragmentadas, como outro possível híbrido do relato popular – tal qual o folheto de cordel e o folhetim (MARTÍN-BARBERO, 2004) –, pois a produção e circulação dos microrroteiros mediam uma leitura que ocorre nas ruas, como algo descolecionado, que não se encontra só em livrarias ou em estabelecimentos tidos como “apropriados” para a leitura.

Por meio desse processo de descoleção, dois movimentos importantes são gerados:

 Os microrroteiros como mediação para o diálogo e a imaginação, tensionando as intersubjetividades. Para a artista, essas possibilidades de diálogos são fundamentais para o trabalho, pois a ação de colagem dos textos acaba mediando situações nas quais as pessoas param na rua, conversam e dialogam, “pessoas que talvez nunca parariam e que, de repente, [...] começam a se falar” (GUIMARÃES, 2015). Além disso, acredita que, possivelmente, pelo fato de ela não ter pudor para colar nas ruas, as pessoas também não têm o pudor de dar opinião sobre os textos;

 E os microrroteiros como a materialização visual e pública de outros pontos de vista na paisagem urbana da região que, recorrentemente, são ignorados por interesses hegemônicos. Interesses tais que, no caso da Cracolândia, podem ser percebidos quando mídias de massa e autoridades políticas desumanizam os(as) usuários(as) de crack, reforçando discursos simplistas e um sensacionalismo que não contemplam a complexidade social e psicológica das vivências dessas pessoas.

Olhando para a situação em um nível macro, fica clara a diferença de postura política dessas ações promovidas e apoiadas por meio do Plano de Ocupação do Espaço Público pela Cidadania da Prefeitura da cidade São Paulo em relação a medidas anteriores que estavam centradas em operações de limpeza, fundamentadas em posturas autoritárias e marginalizantes. Todavia, Fábio Belonni133 e Leonardo Pinho134 (2014), no texto 2015: Aprofundar o De Braços Abertos - Redução de Danos e Cidadania Ativa, destacam que apesar dessas diferenças de abordagem, o principal debate acerca do DBA e da região da Luz, ainda não ganhou relevo: que é o da disputa do território. E quando aparece, está sempre

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Diretor da ABRASME (Associação Brasileira de Saúde Mental) e membro do MNDH - SP e do Conselho Nacional de Direitos Humanos.

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Presidente do Conselho Municipal de Drogas (COMUDA), Diretor da ABRASME e UNISOL Brasil, do MNDH-SP e coordenador do GT de Saúde Mental e Drogas do Conselho Estadual do Direito da Pessoa Humana (CONDEPE).

associado apenas ao “tráfico de drogas”, como se essa fosse a disputa central (BELONNI; PINHO, 2014). Para os autores, o fundamental é saber se a Região da Luz será um território de Direitos Humanos, ou se vai servir como mais uma região voltada à especulação imobiliária de grandes grupos econômicos.

Sabemos, que existem “Grandes Empresas”, com interesses na região, como a Porto Seguro, Itaú e outras, que querem o “Higienismo Social”. A mesma região que foi abandonada na cidade durante décadas, agora é de interesse desses setores, para isso precisam agora tirar os “indesejados”. A Porto Seguro, conhecida como uma das donas da região, já tem todo um Plano de Revitalização (BELONNI;PINHO, 2014, p.3). O que os autores propõem é que o programa da prefeitura, além das atividades já trabalhadas no território, desenvolva ações de ocupação de caráter permanente, como, por exemplo: Pontos de Cultura, Moradias Populares, Cooperativas, Centros de Convivência (CECCO ́s) e outras iniciativas de valorização do espaço público, no intuito de fomentar um espaço que intensifique a promoção e desenvolvimento dos direitos humanos, da convivência pública, da cidadania, e não uma Luz que esteja em constante risco de ter seu espaço privatizado e colocado a serviço da especulação imobiliária.

Largo da Batata

Situado em uma região de intensa atividade financeira no bairro nobre de Pinheiros, zona oeste de São Paulo, o Largo da Batata se constitui em um logradouro público. Ao longo de seis anos, essa localidade passou por um processo de reforma cujo projeto, idealizado pelo arquiteto Tito Livio Franscino no ano de 2002, nunca fora finalizado. Segundo matéria de Ricky Hiraoka (2013), na revista Veja São Paulo, a ideia do arquiteto era “transformar um dos lugares mais feios da cidade em um bulevar arborizado, com espaço para performances artísticas e área de convivência. As barracas de camelôs e a poluição visual dariam lugar a muitas árvores, quiosques, feiras permanentes de artesanato e um pequeno coreto”. No fim das contas, a reforma do largo constituiu-se em um processo de higienização pelo qual moradores foram retirados, assim como boa parte do comércio informal.

Conforme o tempo foi passando e os itens do plano de “requalificação” não foram sendo executados, o espaço foi se tornando uma grande área vazia e concretada. O arquiteto Sergio Reis comenta, no documentário Arquiteturas: Largo da Batata produzido pelo SescTV (MARKUN; ROIZENBLIT, 2015), que, no intuito de proteger o local contra a possível tomada de uma especulação imobiliária e de buscar reincorporar o espaço na dinâmica da população, o largo foi sendo reocupado e organizado por diversas ações e eventos promovidos

sociedade civil (figura 63), visando reinserir na área central da cidade práticas sociais que contemplassem diversos públicos. Dentre essas práticas, destacam-se: a inserção de móveis de pallet, mesas de tênis de mesa e plantas, assim como aulas de dança, apresentações musicais, feiras típicas, rodas de debate, entre outros. Conjuntamente a essas atividades, os microrroteiros participam da composição das movimentações de ocupação do Largo da Batata, demarcando visualmente a quem realmente pertence aquele espaço.

Figura 63 – Vista do mobiliário inserido pela ocupação no Largo da Batata Fonte: A AUTORA, 2015 [arquivo pessoal]

Para o arquiteto Guilherme Wisnik (MARKUN; ROIZENBLIT, 2015) esse processo está ligado a um movimento, muito em voga, denominado urbanismo tático,

que é muito oposto à antiga visão do urbanismo como planejamento, não é a ciência do urbanismo, é o inverso do espírito tecnocrático que moveu boa parte do urbanismo moderno, com a ideia de um planejamento com bases econômicas, e é muito mais baseado na noção de que você cria equipamentos de uso. Então ele é muito ligado ao uso imediato e em pequena escala. Pequena porque depende da ação das pessoas. Esses grupos que têm atuado muito em São Paulo, o movimento do urbanismo tático tem sido forte aqui. Muito eu acho por um certo esgotamento da relação tradicional da política. As pessoas estão percebendo que não vão poder esperar mais pelos políticos, que eles façam coisas que são demandadas. É preciso que a sociedade ela mesma faça essa pressão.

Considerado um dos maiores pontos de circulação da cidade de São Paulo, o Largo da Batata funciona hoje como um laboratório de ações coletivas que, para Wisnik, talvez resulte em um propulsor para forçar outros projetos. Segundo o arquiteto, a melhor forma de encarar

esse urbanismo seria pensá-lo como uma maneira de forçar o poder público a entender que as pessoas querem o espaço público, assim como questionar de que modo o governo vai reagir a isso, levando em conta a existência de um Plano de Ocupação do Espaço Público pela Cidadania da Prefeitura da cidade São Paulo.

Frente à situação atual do Largo da Batata, possivelmente o espaço será, como aponta Tito Livio Franscino (MARKUN; ROIZENBLIT, 2015), cada vez mais apropriado pela população, de modo a haver um adensamento habitacional pelo qual o comércio vai se renovar e se incrementar. Tendo em vista esse cenário hipotético, podemos nos perguntar: como será que essas estratégias de ocupação de urbanismo tático iriam se sustentar de modo horizontal e coletivo nesse contexto?

Apesar de não existir uma resposta pronta, podemos levantar uma suposição tendo em vista o seguinte questionamento: qual seria a intenção do Serviço Social do Comércio (Sesc) em promover esse tipo de documentário com os arquitetos mencionados anteriormente? Em termos de posicionamento, fica claro que a instituição é favorável a esses processos. O Sesc, sendo uma entidade privada mantida por empresários do comércio de bens, turismo e serviços, talvez se aproxime desses movimentos no intuito de entender os interesses dessas pessoas e desses movimentos táticos, e assim planejar estratégias de atuação para o âmbito comerciário.

O Sesc, inclusive, ao contratar Laura para fazer as oficinas e as ações com os microrroteiros e incentivar essa promoção da ocupação do espaço público da cidade, trabalha com um ponto que, em grande medida, favorece os seus próprios interesses, pois, havendo aumento de pessoas reocupando as ruas e transitando pela cidade, possivelmente, também aumentem as relações de compra, venda e consumo de bens. Logo, apesar de essas proposições estarem longe de resumir o processo, é importante que elas fiquem visíveis para que possam ser consideradas no conjunto do fenômeno.